Tenho 67 anos de idade. Sessenta e sete incompletos. A quem faria alguma diferença isso? Eu. Sou muito preciosista. Levo letras ao pé da letra.

Viúva
(depositphotos)

Recém-alfabetizada me vi tomada pela magia das palavras. Penso ser uma escritora não assumida, para não dizer frustrada. Tornei-me professora de português, única língua que mais ou menos domino. Em outras me arrisco.

Menina brincava de dicionário. Grande, pesado, cheio de surpresas e de novidades. Capa preta de couro bem cheiroso, bem cuidado e tratado. Pronunciava uma palavra e procurava associar seu som com uma imagem, uma sensação qualquer, a que sua musicalidade me remetia. Dificilmente acertava.

Não era acertar aquilo que me movia e, sim o gosto pelas descobertas, o rastreio das palavras, que têm a força de me conduzir para bem longe e me apresentar o mundo. Acariciava as folhas sedosas e, com o dedo indicador de minha mão direita tateava de leve as muitas páginas enquanto, de olhos fechados, buscava uma na qual parar o gesto, aleatória, para decifrar.

Por parceiros meus amigos e minhas bonecas, a quem dei aulas e mais aulas, explicando aquilo que aprendia e que, ao falar, gravava, mesmo sem saber direito do que se tratava. Palavras, minha paixão. Estudo como se encaixam em minha boca e, com o som que lhes é próprio preenchem o vazio dos meus pensares e sentires.

Presto atenção em detalhes do meu corpo todo, enquanto lido com elas, o movimento das minhas faces e o tremular dos meus olhos ao pronunciá-las. Um som ora ouvido, ora intuído. Palavras de que jamais haveria de me servir no dia a dia, mas que estão lá, para os que delas gostam ou necessitem.

Encantei-me com as aulas de declamação. Oradora de todas as turmas sentia-me feliz ao ocupar lugar de destaque nas cerimônias de encerramento dos anos escolares, agradecendo aos pais, professores e louvando a Deus pelos estudos e progressos que fazíamos. Eu não era nada. As palavras eram e com elas eu me fundia, fazendo de minha recitação forte escudo contra minha timidez.

Sempre fui tímida. Insegura. Lembro o dia em que, com menos de três anos de idade, baita laço de fita prendendo meus escorridos cabelinhos, vestidinho de organza rosa e mangas bufantes e florezinhas aplicadas, sandalinhas brancas com gordos dedinhos de fora, após saudar a todos com uma aleluia qualquer, cem pares de olhos postos em mim ali, de pé e sozinha toda iluminada no palco da escola, fiz xixi nas calças e, ato contínuo, as risadas – hoje sei, de provável simpatia - fizeram-me sentir escarnecida e humilhada neste momento foi selado meu destino.



Passei a ser a mulher da palavra e precisei somente do correr do tempo e de minha dedicação a elas para me formar professora e me esconder como escritora. Digo, portanto, que arrisco ao publicar meus textos e o faço com pseudônimo. Livros? Somente para o jardinzinho e sob pseudônimo.

Oradora de fim de ano. Representei algumas turmas, jamais nada além disso. Meu âmbito, as classes em que lecionei português e, mais tarde, história e filosofia. Somente porque gosto de palavras e de como se articulam para formar histórias e estórias para serem, transformadas e deixá-las ir.

Conservo hoje meus diários onde desenhei em palavras minha alma de menina, de mocinha, de mulher e agora, de idosa. Quase velha. Na verdade, não pretendo ficar velha, a não ser por somente três dias antes de morrer. Será tempo suficiente para que me cuidem. E que me deixem logo partir para o silêncio sem fim. Lá onde estarei em paz, sem medo de me urinar toda de medo, emoção transbordada por dizer o que sei e o que não sei.

Não me arrisco ao crivo público, a não ser o da família, para quem declamo meus versos, mesmo sabendo que a eles nada do que digo ou faço é de grande valia. Talvez, sim, de pouco interesse. Todos bem educados, até os mais jovens que me ouvem gentilmente, por vezes até pedem, fala tia, fala tia.

Contam comigo para uma leitura em voz alta nos aniversários, nas bodas de uns e outros e, com certeza, ao pé das covas, onde acabo de fazer a homilia. Da conversa familiar eu gosto. Religião? Dispenso.

Tem pouco mais de duas horas que cheguei do cemitério onde deixei duro, frio e bem enterrado, aquele que foi meu marido por cinquenta anos incompletos, como os meus meia sete de idade. Aqui estando só, faço questão de me despir das minhas vergonhas todas e declarar nua em pelo, com quem estive casada.

Conhecemo-nos por um azar do destino. Eu, quatorze, ele vinte e seis. Homem feito, barbudo e cheio das poses, trajando ternos escuros e barbas espinhadas, que me arranharam o rosto, o pescoço, os seios, a barriga e o meu entre coxas, por todos os anos em que partilhamos o leito.

Tímida, logo fui conduzida pelos seus modos de misoginia ao universo da violência contra as mulheres. Não. Mulher ainda não era. Fui estuprada pelos seus desejos insaciáveis. Assim, a seco. Lembro-me do ardor (dele) e da secura com que o recebi (apavorada) em mim, se é que receber é a palavra. Invadiu-me por meus dois buracos naquela noite e ao longo de todos os anos e quase todas as vezes em que nos deitamos para que ele se servisse.

Numa pracinha, certa noite, ele arrancava as minhas roupas com ferocidade, estourando o zíper do vestidinho que eu mais prezava, escolhido para tentar, com alguma doçura e simplicidade, fazê-lo gostar de mim. Na escuridão da noite, atrás do coreto, ele me mordia os ombros e me estapeava o rosto. Eu me debatia, me defendia, chorava, mas nada dizia. Eu, amante das palavras, não sabia que poderia dizer não e mandá-lo à puta que o pariu naquele instante.

O assalto foi detido por dois guardas que o interpelaram o que o senhor está fazendo aí com a mocinha?! O cavalheiro teje preso. Os dois, vão me acompanhar até a delegacia.

Lembro meu alívio e o meu terrível medo. Delegacia? Pai sendo chamado? Vergonha, vergonha, vergonha. E medo. O vestidinho deslizava abaixo rasgado, acariciando meu corpo machucado, expondo minhas espáduas e ameaçando minha honra. O que estaria eu fazendo ali no escuro com aquele homem que nunca me beijara sem enfiar sua língua dura em minha boca, que me esbofeteava e dizia que não se aguentava de tanto gastar de mim?! Como explicar isso? Eu não poderia. Eu é que havia provocado tudo aquilo.

Como dizer a meus pais que minha virgindade já era e que eu odiava com todas as minhas forças aquele homem por eles escolhido, o grande Bom Partido? Como encarar meus irmãos e ser exemplo para minha irmãzinha, que se espelhava em meu recato, em minhas prendas e nos meus sorrisos tímidos, como toda boa moça faria?

Olhando nos meus olhos os guardas insistiam, ele está lhe batendo, quer dar parte? Balbuciei, deixa moço, estamos somente brincando. Nada disso. É meu noivo. Brincando mesmo, tem certeza? Pode confiar na gente. Reiterei meu rendimento ao homem que se adonava de minha pessoa, não precisa, estamos de casamento marcado.

Não registraram o desespero que fazia por alterar minha voz? Minha mãe não via os meus roxos? Ninguém ouvia os choros doídos que antecipavam nossos encontros? Nem tios, nem primos, nem professores ou amigos, ninguém via nada a não ser a imagem de uma noiva triste. Eu mesma não me via nem ouvia. Fui conduzida a um psiquiatra, que passou suas mãos nojentas no meu peito, como se por distração. Foi nossa única sessão.

De meus pais fui filha obediente que daria noiva linda, com quem nunca mais precisariam se preocupar na vida. Vivi a era do silêncio, que terminou hoje, quando não tenho mais para quem me queixar, a não ser para o delegado.

Morreu fedido de feridas purulentas, barbaramente infeccionadas pelo diabetes, cortado feito salame apodrecido. Um pedaço aqui outro ali, seu corpo foi sendo mutilado, da mesma forma que minha alma. Cuidei dele, mesmo com gosto amargo de rancor antigo, testemunhando seu longo desespero tal qual o meu havia sido. Ninguém merece isso.

Por anos eu o banhei, alimentei, vesti e fiz dormir. Fechei seus olhos ontem pela última vez e hoje o enterrei, para ali permanecer calado e bem fechado, tal como sempre fomos um para o outro. Honrei a palavra empenhada no altar da igreja em que meus pais se casaram e foram felizes para sempre. Como disse, sou uma mulher de palavra.

Pronto. Votos cumpridos. Comichão gostoso, forte e quente me sobe do ventre para o peito. Sinto vida correr em minhas veias. Meu corpo todo palpita. Estou toda molhada. Urinei?! Ou de meu sexo verte o gozo? Sinceramente, não sei. Já ouvi dizer.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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