Fica mais fácil quando se tem autoconhecimento.

Com toda certeza saber da origem dos problemas não os resolve, mas ao menos ajuda saber por que os carregamos conosco.

“Tudo aquilo que diz respeito à alma, quando submetido à razão, conduz à felicidade.” Sócrates.

Um dos conceitos mais difíceis de apreender, em se tratando de superação de problemas emocionais, diz respeito ao significado de insight. Insight não se limita ao conhecimento da raiz de um problema, mas vai mais a fundo: permite-nos compreender de que maneira a nossa mente organizou certa reação num certo momento de sofrimento, de modo a estendê-lo além, por anos e anos a fio, mesmo quando já não mais era necessário mantê-lo acesso em nós.

autoconhecimento

Trocando em miúdos: primeiro é preciso entender o que nos causa sofrimento. A maior causa é a ameaça à integridade do ‘eu’ ou do nosso ego. Essa ameaça pode ser real ou imaginária. Para a mente de uma criança, tanto faz se a ameaça foi vivida de fato ou foi imaginada. Se a carga emocional foi muito intensa e o medo foi real, se a criança viveu o medo do abandono, da morte, da perda de um dos pais, uma vergonha profunda ou total desamparo e naquele momento sua reação foi, por exemplo, a de entrar em pânico, o episódio fica gravado em sua cabecinha, em especial se ligado a mais um fato: aquele que a aliviou do ‘medão’ que sentia.

O fantástico dessa história é que, um ‘simples’ acontecimento muito, muito ruim, do tipo: assistir a um cachorro atacando o irmãozinho, não é suficiente para traumatizar a criança. É preciso algo mais. E esse algo é exatamente o sentimento de prazer (ou de alívio) que ela haverá de sentir, quando um adulto, ou sua própria mãe, a tirar dali e a colocar em segurança. A complexidade: terror=dor psíquica + abraço da mãe=prazer é que vai firmar a ‘gravação’: “Não sou capaz de me cuidar sozinha. Preciso que /mamãe/alguém me salve”.

Ao sentir-se muito, muito aliviada, pode também vir a sentir-se culpada e envergonhada, porque ela saiu-se ilesa, enquanto seu irmãzinho, não. Estabeleceu-se aí uma aprendizagem: ameaça ao ego + intensa reação de pânico + sentimento de alívio ao ser cuidada por alguém + sentimento de humilhação. Pronto. Formou-se uma ‘molécula’ bem articulada (sentimento/pensamento/comportamento/sentimento), que poderá adquirir muita força de controle sobre sua personalidade lá na frente, especialmente se ela concluir: “Não sei me cuidar sozinha. Sou frágil. Se não tiver alguém comigo, não sobrevivo. Sinto medo de que, ao saber como sou, no fundo de mim, as pessoas me desprezem”.

Com esse sistema de crenças instalado, a cada vez que passar por alguma experiência em que sentir-se profundamente ameaçada, entrará em pânico e ficará aguardando que alguém ‘a salve’ daquela situação-problema, qualquer que seja. Enquanto ela não se souber capaz de dar conta de lidar com as situações atuais, o simples fato de tomar conhecimento de quando foi a primeira vez em que se sentiu tão vulnerável, que chegou a pensar que ia morrer, de fato, não chegará a mobilizar melhores defesas pessoais.

Com isso, permanecerá com tendências de entrar em pânico frente às ameaças reais ou imaginárias que a vida lhe apresentar, permanecendo num estágio de dependência emocional que, se não for desarticulado mediante o autoconhecimento, dificilmente lhe possibilitará enfrentar bem os desafios de uma carreira, de formar uma família, de viajar para o exterior, de abrir um negócio próprio, por exemplo. Até certa etapa da vida, sim. Essas crenças não são plenamente conscientes. Vez por outra elas passam pela mente da pessoa, mas ela como que não as leva a sério. Até que a vida em si se torna mais exigente, as pressões aumentam e as defesas do ego se rompem.

As ameaças podem se constituir numa demissão ou mudança de emprego, até mesmo para uma situação melhor, na perda de um vínculo amoroso ou, então, um casamento e, para algumas pessoas até com o nascimento de um filho. Ou seja, mesmo eventos que para a maioria evocam prazer, para muitas pessoas chegam a se constituir em sérias ameaças a sua pessoa, quando chegam juntas. Por isso é que fica tão incompreensível que alguém que lutou tanto e que, até então tenha se mostrado forte, alegre e batalhador, repentinamente sucumba em razão de uma soma de eventos felizes, que a maioria das pessoas consegue levar razoavelmente bem.

Muitas vezes os familiares e a própria pessoa fica espantadíssima

Mas se eu mesma quis e lutei para conquistar tudo isso, como é que agora você vem-me dizer que estou sofrendo de pânico exatamente porque consegui o que queria?!” – a pessoa se indigna junto ao seu psicoterapeuta. É porque mudanças causam stress e quando o stress é grande, não se pode prever o que irá aflorar do fundo de nós mesmos. Especialmente quando se tratam de muitas mudanças em pouco tempo.

A boa notícia de tudo isso é que ninguém precisa sentir-se ameaçado agora: “Você está dizendo, então, que todos carregam dentro de si umas bombas-relógio que podem explodir a qualquer hora e levar a gente a entrar em pânico/depressão/ansiedade aguda/cair na bebedeira ou aprontar alguma?! É isso?!” Não. Não é isso. Estou dizendo que a maioria de nós tem, sim, um pequeno estoque de traumas guardados no seu inconsciente e que, algum deles nalgum momento de vida, aflora.

Uma vez tendo aflorado, por mais estranho que pareça, trata-se de uma excelente oportunidade de se rever e fazer uma atualização de si próprio. Rever seu sistema de crenças e atualizá-lo, colocar-se mais de acordo com a pessoa que se é hoje é uma atitude extremante sábia. E trabalhosa. Voltando ao exemplo: e se a pessoa não lembrar de jeito algum do trauma sofrido? Outra boa notícia. Não é necessário lembrar!

Hoje em dia, com estratégias de tratamento de stress pós-traumático, mais técnicas da terapia cognitivo-comportamental, os psicoterapeutas conseguem acessar áreas profundas da psíquica humana (e mesmo animal), auxiliando no alívio de sintomas e na superação de transtornos tais como aqueles acima citados. Se necessário, pode-se somar um tratamento médico-medicamentoso. O ideal é promover o autoconhecimento e um novo treino atitudinal e comportamental, porque as pílulas, embora consigam reconduzir a pessoa a um estado emocional mais confortável, não ajudam a re-estruturar o sistema de crenças, nem a se compreender, a ser mais tolerante com os próprios limites e mais humano com as fragilidades alheias.

Aprendendo a fazer mais coisas de que se gosta e menos coisas de que não se gosta

Sim, porque um dos maiores ganhos do autoconhecimento é suspender o julgamento. Não a autocrítica sincera e necessária para evoluir e ter uma vida pautada na ética, na temperança, na bondade, nos valores primordiais. Mas o julgamento soberbo, característico de pessoas ainda imaturas, mesmo que mais velhas em idade. Quem se dedica a conhecer a si próprio, como disse Sócrates, sabe que o mundo muda, mas pessoas conservam dentro de si os mesmos dramas existenciais. Tal como diz Rousseau, para quem se conhece mais profundamente torna-se mais possível organizar uma vida próspera, agradável e mais plena de boa sorte: “Aprendendo a fazer mais coisas de que se gosta e menos coisas de que não se gosta”. E ser feliz, sem se esforçar muito.

ANA FRAIMAN, psicoterapeuta e consultora organizacional.

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