trabalhador-aposentadoUm importante estudo realizado na última década e publicado em 2009 lançou novas luzes sobre a passagem do emprego para a aposentadoria. Realizado por pesquisadores da Universidade de Maryland em parceria com a Universidade do Estado da Califórnia (1) Bridge Employment and Retirees’ Health: A Longitudinal Investigation, in Journal of Occupational Health Psychology, 2009, Vol. 14, number 4, 374-389 By Yujie Zhan, Mo Wang, and Songqi Liu, University of Maryland e Kenneth S. Shultz, Califórnia State University, San Bernardino foi registrado o surgimento de um outro status que vem sendo alcançado pelos trabalhadores mais velhos: o trabalho remunerado ou não, que se realiza logo após a aposentadoria os assim chamados emprego-ponte (Shultz, 2003).

O conceito emprego-ponte é definido pelos pesquisadores pela participação da força de trabalho exibida pelos trabalhadores mais velhos, conforme eles deixam suas carreiras e, contudo, prosseguem trabalhando de outras formas, por exemplo em trabalhos por período de tempos mais curtos, trabalhos part-time, trabalhos temporários que são realizados depois do emprego de tempo integral e antes de se aposentar.

Estudos anteriores estiveram focalizados os ganhos psicológicos, como ajustamento, satisfação com a aposentadoria e com a vida, mas muitos deles negligenciavam ou não incluíam as perspectivas de melhoras para os aposentados. O estudo a que me referi acima como sendo inovadores de grande contribuição preenche este intervalo de pesquisa, entre o levantamento dos benefícios potenciais na saúde e o engajamento no emprego-ponte.

Outros estudos sobre aposentadoria e os impactos na saúde do trabalhador ora privilegiavam a saúde física, ora a saúde mental. O novo estudo aqui me refiro focalizou o ingresso em empregos-ponte e seus resultados em três modalidades de benefício à saúde: doenças maiores, limitações funcionais e saúde mental. Uma das hipóteses levantadas foi a de que os empregos-pontes haveriam de minimizar a queda na saúde de uma forma geral bem como seu estado de bem-estar, conforme as pessoas fizessem sua transição para a aposentadoria conforme elas pudessem conquistar e manter um senso de continuidade. Isso requer uma estratégia diferenciada e a preservação de contatos sociais e de estilo de vida.

Já havia sido pontuado o fato de que uma aposentadoria mal preparada ou súbita introduziria uma ruptura no horizonte temporal daquele que para com o seu trabalho e se afasta. Em outras palavras, parar de uma hora para outra e largar tudo para trás abala muito a saúde física e/ou mental de qualquer trabalhador. A respeito disso eu mesma discorri longamente na minha dissertação do mestrado, em 1990.

Por outro lado e corroborando a hipótese levantada, pessoas que se aposentam, mas ao invés de se sentirem beneficiadas, sentem-se desempregadas, também têm a sua saúde abalada. É como se o empregoponte exercesse os mesmos efeitos benéficos que um novo bom emprego, especificamente, aposentadoria poderia ser voluntária ou involuntária, com quanto à permanência no trabalho é tipicamente vista como uma ação autônoma e decorrente de um serviço de livre escolha e vontade.

A perda do trabalho representa um risco social para aqueles fatores préexistentes que resultam em doenças cardiovasculares e o desenvolvimento de um câncer, as duas maiores causas de mortalidade entre os idosos. Em assim sendo tudo indica que o emprego-ponte reduza as ocorrências dessas doenças maiores, conforme provê um estilo de vida ativo para os aposentados. Manterse porém no emprego indefinidamente pode fazer mal à saúde como um todo, bem como aos sentimentos de bem-estar e satisfação na vida.

Manter-se ativo ajuda a preservar funções cognitivas, além de preservar a autonomia em relação as atividades do dia a dia, tais como: cuidados com as saúde, cuidados com a higiene pessoal e da casa, desde coisas menores até aquelas maiores e mais complexas que fazemos com desenvoltura e naturalidade todos os dias, e que vão sendo perdidas aos poucos conforme as pessoas vão ficando paradas em sua casas, sem encarar e aceitar maiores desafios. O estudo em questão, realizado com grande rigor científico, cruzando dados das áreas sociais, psicológicas e biológicas como que comprova que o bom senso diz: trabalhar faz bem para a saúde, quer a pessoa no seu emprego-ponte permaneça trabalhando por vontade própria, em funções muito semelhantes aquelas que a pessoa já fazia antes, quer ela mude de área.

Ocorre que, se a pessoa for trabalhar em alguma nova função ou campo, que exija demais das suas competências e habilidades e, os desafios forem muito maiores e se colocarem muito além daquilo para o que ela está preparada, sua saúde geral tenderá a ficar abalada. Os resultados gerais trazidos é que o emprego-ponte pode ajudar a proteger os aposentados das doenças maiores e contra o declínio das habilidades necessárias para o exercício das funções diárias. Novamente, temos que, desempenhar um trabalho por livre escolha com a intenção de ganhar dinheiro ou não, ajuda a preservar a autonomia e a independência da maioria das pessoas.

O que se devem evitar todas as maneiras é que os aposentados fiquem inativos após sua saída, uma vez que a inatividade e a falta de compromissos introduzam a quebra no seu senso de continuidade e na preservação do estilo de vida. A aposentadoria com parada total implica em grave perda social e de contatos humanos, o que é tão ruim quanto exigir demais da pessoa forçando a adaptar-se a campos e atividades anteriormente e totalmente desconhecidos.

Se as pessoas previrem que é isso que se prenuncia para elas é necessário que se dediquem às novidades, um tempo antes de largarem suas carreiras, para que aos poucos elas possam ir se adaptando corpo e mente, as novas condições e ao novo estilo de vida, que elas passarão a ter. Atirar-se de cabeça numa nova e desconhecida situação, é candidatar-se a pagar custos muito alto, objetiva e subjetivamente falando, com a perda de sua saúde psicofísica.

Mudar praticamente todo um estilo de vida, precisar ajustar-se a um novo papel e conquistar uma nova identidade, em meio a um campo desconhecido e, portanto ameaçador, pode causar muita frustração. Lançar-se sem preparo se configura como uma atitude temerária e, potencialmente letal.

Consequentemente não se poderia esperar melhorias nem na saúde física, nem na saúde mental, nem na alegria de viver.

Permanecer trabalhando em um emprego-ponte e em outra área é, contudo menos prejudicial a saúde física, mas é algo claramente percebido aos pesquisadores como potencialmente prejudicial a saúde mental. Daí podem ser extraídas algumas orientações precisas enquanto políticas organizacionais e institucionais:

  • Promover os efeitos benéficos de trabalhos-ponte, em razão dos benefícios que ele trás para a saúde e bem-estar como um todo;
  • Educar os aposentados e os futuros aposentados para a manutenção dos patamares funcionais das atividades diárias, bem como para a preservação da sua saúde mental;
  • Considerar que é mais fácil encorajar para criação de uma atmosfera social ativa, à medida que empresas sejam solidárias para com as necessidades das comunidades entorno, cuidando de forma sustentável tanto do ambiente físico quanto social e moral de seus membros e habitantes;
  • Levar em conta que os custos de políticas de prevenção são menores que aqueles destinados às políticas de remediação ou de recuperação, mediante prospecção de quais são aqueles nichos em que a força de trabalho dos empregados mais velhos pode ser bem utilizada, hoje e no futuro e,
  • Prepará-los para exercê-la, em benefício próprio e de sua comunidade de pertença, dentro do paradigma de sustentabilidade planetária.

Considero que as políticas de preparo para a aposentadoria e pós carreira devem focalizar três ângulos indissociáveis do mesmo problema: a adoção de um novo paradigma: crescer com responsabilidade e se desenvolver com sustentabilidade.

Envolve igualmente, trazer à tona a consciência de que o amor por trabalhar é anterior ao amor pelo trabalho que se faz e que, dispor-se a aprender, estudar e aplicar novos conhecimentos enriquece a forma de ser.

Dispensar a experiência dos mais velhos é dar um destino indigno e um tratamento desumano aos legítimos depositários de uma história e de uma tradição que, ainda que estejam em transformação, fazem parte do nosso saber, podendo e merecendo igualmente se atualizar e se abrir para um novo modo de viver.

Dispensar os mais velhos enquanto força de trabalho é negar que em cada geração existe um valor e uma função sem os quais a sociedade se enfraquece. Se à juventude cabe olhar para o futuro pela ótica do desejo e da esperança, os guardiões da temperança, da prudência, da generosidade autêntica e da humildade são aqueles, os mais velhos que desejam continuar a ser úteis a sua sociedade, país e planeta, independente das idades que têm.

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