Nos tempos corridos de hoje, é preciso aprender a cobrar dos amigos o afeto que lhes damos, para não ficarmos carentes.

Nesses nossos tempos modernos precisamos, e muito, de uma forte rede de relações de amizade. Quase tudo o que nos cerca nos conduz à solidão e à carência afetiva.

Amizade
Imagem: Pixabay (Amizade)

Aquela coisa gostosa de fazer o chá da tarde, bater papo por cima do muro ou debruçada na janela é mais típica do modo de vida de nossas avós, talvez mães. Hoje a mulher trabalha fora e suas amigas também. Ninguém consegue se ver com a frequência que gostaria. Tendo que nos dividir entre os cuidados com a casa e a família, além do trabalho, o que fica precário é nosso círculo de amizades.

Isso pode levar a um grande sentimento de solidão e insegurança, a um ponto perigoso de, numa emergência, não temos a quem recorrer. Numa gripe, numa hospitalização, são muitas as mulheres que se veem absurdamente sós, sem ter qualquer companhia, a não ser que… peçam!

Susana vai ser operada numa terça-feira de manhã. Uma semana antes, pega o telefone e vai ligando amiga por amiga, compondo uma agenda de quem poderá ficar com ela em que dia e a que horas. Todas têm mil compromissos. Mas Celina desiste, de boa vontade, de levar a filha à aula de inglês para fazer companhia à amiga na terça à tarde.

Corina ia fazer supermercado na quarta de manhã, mas deixa para outro dia. Naíde tinha uma consulta média, troca o horário. Leninha promete sair mais cedo do trabalho e ficar com Susana na sexta.

Essas mulheres, ocupadas, ativas, estão reaprendendo, com esse gesto, alguma coisa nova sobre a amizade. Por que, com raríssimas exceções, já não dá mais para largar tudo e sair correndo, disponível, para socorrer uma amiga em dificuldades.

Tem-se amigas, mas coisas passam, importantes, e não se fica sabendo, às vezes só se sabe depois. Além de tudo, porque uma não quer incomodar a outra enquanto puder resolver tudo sozinha. Todas trabalham, têm casa e filhos, dentista, ginástica, cartomante, psicoterapia. Mal têm tempo para cuidados pessoais (os cabelos são tingidos à noite ou aos domingos) e só vão a médicos que respeitem horários – de preferência que atendam durante o almoço ou após as 9 h da noite.

Na falta de empregada usam congelados, descobrem uma lavanderia fantástica (bem no caminho!), estão exaustas ao cair da tarde e vão levando. Mas, apesar de só conseguirem manter as amizades via telefone, trazem ainda na alma o desejo de ter toda a família almoçando junta durante a semana e a ilusão de que seus desejos serão adivinhados, suas necessidades satisfeitas. E como, então, se tornam carentes!

Dizem:

“Pedir, eu? Eu não peço. Se o meu marido (ou filho, ou amiga)se tocar e fizer espontaneamente, tudo bem. Mas pedir, não. Acho humilhante ter que pedir uma coisa óbvia, que deveria vir de graça. Pois quando eu percebo a necessidade de alguém não vou lá e ajudo, sem esperar que me peçam? Então, por que os outros não podem fazer isso por mim?”

E é ai que está montada um das maiores armadilhas para alguém se tornar uma pessoa carente, revoltada e solitária. Se a Gata Borralheira podia se dar ao luxo de chorar na calada de noite, e ser ouvida por uma Fada Madrinha, é bom saber que já não vivemos mais nesses tempos em que quem nos ama deve adivinhar e entender os nossos desejos, sem que movamos uma palha para isso.

Você pode estar pensando: “Mas será que tenho o direito de solicitar alguma coisa a alguém que não vejo há tanto tempo, em cuja festa de aniversário nem fui?”

Tem, sim. Uma verdadeira amiga é aquela que compreende isso. Que a gente falha com ela, ela falha com a gente, mas em ocasiões mais apertadas uma pode contar com a outra. Ser amiga, hoje em dia, não é estar disponível o tempo todo.

Amizade tem limites – se não tiver, é subserviência.

A boa amiga pode pedir e deve estar preparada para ouvir tanto um sim como um não. E também não deve pedir mais do que a outra está disposta a dar naquele momento. Pede-se o que se precisa, dá-se o que se tem, de boa vontade, sem sacrifícios.

Às vezes a boa amiga é a que diz “Não quero fazer tal coisa por você, não concordo com isso” e explica as razões, e não a que diz “Não posso”, inventa uma desculpa e sai por ai conduta da outra. E às vezes é hora de, em vez de dizer “Imagine, não é trabalho nenhum”, assumir claramente: “Sim, isso que você pede vai dar trabalho, mas faço com prazer porque gosto de você. E também por que espero que, se eu precisar um dia, você faça o mesmo por mim.”

Cobrar? Sim, cobrar também. Se numa amizade você começa a sentir-se explorada, sugada, abusada, em geral é porque… está sendo mesmo! Temos uma espécie de “fato”. Mesmo sem conseguir definir exatamente como, onde e quando os abusos acontecem, sabemos que eles acontecem.

Nossa tendência é achar que é implicância, falta de humanidade, e ceder em nome da amizade, desagradáveis (“Imagine se ela faria uma coisa dessas”, ou “Coitada, ela está em crise, desempregada, grávida, atormentada pelo marido” etc). Até que, depois de muitas concessões (presença, favores, dinheiro), se chega ao “E eu? Sempre que ela precisa eu digo sim, quando sou eu que peço ela nunca pode”.

Daí para uma ruptura é um passo. Assim terminam muitas amizades antigas, que eram mantidas pelo esforço de somente uma das partes. Aparentemente a de maiores recursos (alto-astral, posição, dinheiro, família, trabalho), porém no fundo a mais carente, a que morre de medo de, ao dizer um não, ficar só.

Essas pessoas geralmente viveram, na infância, profundas experiências de rejeição e abandono por parte dos pais. Ou então eram auto-suficientes e pouco reivindicativos, aquelas filhas que “não dão trabalho”, que “se criam sozinhas”…

É provável que esse senso de responsabilidade precocemente desenvolvido prive a criança e, mais tardem a adolescente, da experiência de se ver apoiada, protegida, levando a uma personalidade adulta em que o receber causa desconforto íntimo, como se fosse algo errado ou indevido. Receber fica associado a fragilidade e dependência, duas atitudes a serem evitadas, a não ser em casos de extrema necessidade.

Isso faz com que a pessoa vá acumulando carências, fique ressentida no dia-a-dia, apesar de desenvolver uma auto-imagem de quem-não-precisa-de-nada. É alguém que sabe ouvir um não com um sorriso nos lábios, mas que no fundo se sente muito ferida – não só frustrada, mas desqualificada. Afinal, se dificilmente pede alguma coisa (pois lhe é difícil receber), quando pede é porque precisa muito, e um não nessa situação é mesmo intolerável.

Então a questão é pedir e cobrar, sim. E esperar de volta tanto quanto se dá. Isso não quer dizer ser mesquinha e só viver na base do toma-lá-dá-cá, mas sim de manter o balanço dar/receber em equilíbrio dinâmico, bem distribuído. É comum ouvir alguém dizer: “Será que estou querendo muito? Só estou pedindo um mínimo de respeito e consideração!” Se é isso que essa pessoa pede, é isso que ela vai ter: um mínimo!

Nas questões humanas há que se pedir e cobrar um máximo de consideração e respeito, pagando na mesma moeda.

Cobrar a presença dos filhos em ocasiões importantes (mesmo que eles não gostem; afinal, quem é que só faz o que gosta na vida?), cobrar certas atenções do marido ou um favor especial de uma amiga significa zelar para que, continuamente, se tenham qualidade e satisfação nas relações – para todas as partes envolvidas.

Quem se dá conta das suas carências e não fica esperando que alguém compareça para resgatá-la da solidão, mas, pelo contrário, aprende a pedir e se dá a liberdade de receber, sem sentir-se humilhada por estar fazendo um pedido justo, está promovendo uma verdadeira revolução antiautoritarismo nas relações humanas.

A pessoa que é contemplada com um pedido da amiga sente-se valorizada e feliz por poder colaborar. Sente-se útil e necessária. Não é isso o que todos nós queremos? E se, frente a um pedido justo, recebemos um não, é porque esse não também é justo – ou, então, a pessoa não é nossa amiga. Daí, é hora de fazer novas amizades.

Solidão de Idosos

"Durante o dia tenho várias atividades em minha casa, mas a noite sofro com a solidão. Vejo sombras, às vezes nem consigo dormir. Estou muito assustada. Tenho 63 anos e preciso de um novo impulso para viver. "

Esther, Tijuca (RJ)

Solidão

Saiba, Ester, que solidão e isolamento são coisas bem diferentes, embora caminhem juntas. Solidão e um estado emocional marcado pela carência de relacionamentos afetivos importantes e calorosos. Já o isolamento diz respeito a falta de contatos com pessoas diferente.

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A dureza de viver e morrer sozinho

“Depois que meu avô morreu, meu pai se tornou mais alegre, expansivo e até mais generoso. Minha mãe não está acreditando muito nessa mudança. Será que meu avô oprimia tanto assim o meu pai?”

A. L – João Pessoa, PB

Solidão

 

Ana Fraiman

A pior opressão não é a que nos inflige, mas a falta de liberdade interior. Parece que seu pai a reconquistou. Está cheio de vida. Animado. Ele pode ter aprendido com a morte do pai dele, por exemplo, que é duro viver e morrer só e que, se ele não for afável e acessível, as pessoas vão se afastar dele, mesmo as mais próximas, como esposa e filhos. Se seu pai foi opressivo ou não, é outro caso. O que importa é o dom de vivermos em liberdade. Nascemos dotados desse poder. Por isso, tirem você e sua mãe o pé atrás e aproveitem essa nova vida do seu pai. Porque chorar a gente pode chorar sozinho, mas alegria pede companhia.

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A atenção que chega tarde

Depois de velho é que meu marido lembrou que eu existo. Ele pensa que uma conversinha apaga anos de indiferença e incompreensão. Mas agora é muito tarde, você não acha?

Ana Fraiman

Não é com uma “conversinha” que se resolve os ressentimentos, mas essa primeira conversa pode ser o primeiro passo em direção a um reencontro entre vocês. Resta saber se você quer essa aproximação, ou se lhe é satisfatório viver o restante de suas vidas sem diálogo, como até agora.

A raiva e a vingança não ajudarão nem a você nem a ele.

Muitas vezes o homem se dedica quase que exclusivamente ao trabalho, e não tem consciência do quanto se afastou da esposa, da família.

Quando ele percebe o vazio afetivo que há em sua vida, quer reatar os laços interrompidos, e não sabe bem como. Outros têm essa consciência, mas o orgulho os impedem de se abrirem, ainda que sofram com isso. Alguns, porém, têm a coragem de pedir ajuda a propor um recomeço.

Nunca é tarde demais para sair da solidão.

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