Em primeiro lugar devo deixar claro que não tenho a menor familiaridade com mulheres surfistas. Nem na primeira, nem na segunda e, portanto, não na terceira idade.

Surf na Terceira Idade
Imagem: 50emais.com.br (Idosos que não têm medo dos esportes ousados)

Não tenho, sequer, familiaridade com o mundo do Surf. Uma ou outra matéria, que me remetem - por tabela - a sensações de júbilo e de liberdade, em meio às ondas, aos impactos iluminados por um sol resplandecente ou a um céu cinzento, que se prepara para despejar seu temporal.

Aprecio a determinação e o preparo daqueles que se arriscam em mares tormentosos e quando sabem se precaver em relação a ondas potencialmente assassinas.

Minha visão é romântica, ingênua e, provavelmente construída pela minha própria vontade, jamais satisfeita de conseguir ficar de pé numa prancha, sobre a qual os surfistas bailam e tecem suas peripécias acrobáticas. Meu bailar, conquanto muito hábil, belo e comovente, sempre se deu em solo.

Pensei nas mães e nas avós que bem suportam as aventuras de seus filhos e filhas surfistas. Eu, propriamente, ficava na praia aterrorizada, só pelo fato de ver meus filhos e seus amigos se dirigirem a um ponto antes da arrebentação, sem nada além de sua força física e senso de direção.

Causava-me angústia imaginá-los colhidos por uma vaga enorme, que os afogaria, talvez sem volta ou por uma corrente traiçoeira que os levaria contra as pedras de uma montanha que mergulha no mar.

Quem sou eu para falar de surf e de surfistas, se tudo que fiz foi me deslocar na superfície das águas, vez por outra mergulhando por alguns metros, sempre em piscinas calmas e protegidas pelo olhar vigilante de um bom professor? Bem, fiz alguns saltos ornamentais. Isso já era o máximo.

Posso dizer da minha imaginação e de um sonho antigo, que me deslumbra: estar em meio a um tubo que se fecha sobre mim, quase voando sobre as águas e contra o tempo, para atingir píncaros de emoções que me levariam a epifanias.

Um sonho longe, distante da minha realidade citadina onde, na praia permito ao meu olhar que se perca ao longe, assistindo às cabecinhas que, em meio o mar profundo - entenda-se, onde não dá pé - se mostram e se escondem em seus movimentos, num mar em sua natureza, ora pacífica, ora revoltosa e cruel. Continuo a sentir medo de uma prancha bobinha, que já muito próxima à praia, bata na cabeça de uma criança.

Este não tem sido um tema recorrente entre nós, mulheres que nos preocupamos com pequenos tropeções com os desníveis das calçadas esburacadas e muito mal cuidadas destes bairros - ricos - da minha querida e violenta São Paulo.

Creio que enfrentar o nosso trânsito - e os assaltos - seja muito, mas muito mais perigoso do que surfar. E a ideia me agrada, me excita e me leva a desejar ter tido a vida que não tive e a ser mais radical e aventureira do que jamais fui. E olha que não sou tida por covarde, de modo algum. Fiz rapel aos 56 anos pela primeira vez. Foi demais! Arvorismo, escaladas, o caminho sagrado até Machu Picchu. Segui a luz do sol que se precipitava e coloria o mar do Caribe, num atrevimento único, conduzida por uma lancha. Porém, surf não. Asa delta? Saltei. E outros desafios mais.

Mocinhas da minha idade não eram vistas surfando nas praias que eu frequentava. Eles, os rapazes, eram tidos,por lesados da cabeça e maconheiros. Haja preconceito. Onde já se viu rapaz oxigenar cabelo?! Nem fiz amizade com qualquer deles. Havíamos que ser boas moças, beber cerveja às escondidas e fumar longe dos pais. Levávamos isso muito à sério.

Ninguém de nós desejava ver a mãe cair morta e já durinha, por perder nossa virgindade antes de casar. Surfistas? Com certeza, tarados. Não tinham miolos e poderiam fazer 'qualquer coisa' conosco, sem possibilidade de reparação. Eram uns 'pé rapados' e casar forçado? Nem isso. Distância deles!

Mas, imagino. E somente imagino que deva ser uma glória singrar mares e enfrentar altas ondas. Não numa pranchinha boba de isopor, que me levava a 'pegar jacaré', bem pegado. Dou risada, mas já era gostoso demais.

Isso posto, não encontro nenhum motivo para que uma mulher na meia idade ou até mais, não possa se habilitar a praticar surf. Claro, claro, teria que estar fisicamente melhor condicionada e perder o medo de cair à toa, no macio do mar.
Deprimida? Nossa, penso que seria logo curada, melhor do que pelos fármacos que logo nos receitam.

Cair no mar desperta alegria, sabia? E, na primeira vez que se colocasse de pé, ou de joelhos, sobre uma prancha, sagrar-se-ia campeã! Com, certeza, dormiria bem às noites. E voltaria a rir à toa.

O esforço físico, o inusitado, faz bem a nós, homens e mulheres acomodados e condenados a repetir e repetir o que já fazemos razoavelmente bem feito. O que significa, viver no automático. Uma chatice sensata, mas chata ao cubo.
Hidroginástica? Coisa horrorosa. Fazer parzinho e não suar nada.

Respiração que não resfolega, não oxigena bem o cérebro. Mulheres e homens a partir da meia idade se poupam. Poucos - os quase heróis - conservam suas atividades físicas, seu gosto pelo ar livre e pela ventura de viver aventuras. Atividades que trazem de longe consigo.

Em menor número ainda, são os 'fora da caixinha' o suficiente para serem ousados e buscar realizar alguma atividade nova, que os coloque em cheque, que lhes exija dedicação. E paciência. E será preciso morar próximo à praia, talvez aprender a surfar numa piscina de academia que faz onda, o que custa muito caro. Para o bolso, com certeza.

Existe cursos de férias, para aprender a surfar. De tanto escrever sobre isso, muito provavelmente haverei de me inscrever. Talvez tenha algo do gênero na Guarapiranga. Vou me informar. Tomara seja para nós, os mais velhos e não só para crianças e jovens.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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