Sem saber o que dizer

3 gerações

O texto retrata um encontro memorável: três gerações de uma mesma família, convivendo entre si por algumas semanas, com seus interesses, seus dilemas e seus diferentes modos de ser, cada um no seu quadrado.

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Você já reparou que não precisa mais de tanto espaço para morar? Que suas roupas não são as mais modernas, mas que você ainda gosta pra caramba de quase todas elas e que, na verdade, a maior parte nem sequer é tão aproveitada, assim?

Seus casacos pesados enfrentam temperaturas que, no eixo São Paulo-Rio, nenhuma delas alcança. Aquele, de quando foi esquiar em Aspen. Outro, quando esteve num fim de ano em Nova York. E um terceiro, que foi de sua tia avó, uma capa preta de lã, do Canadá, que nem o Batman quereria herdar.

E tem aquele outro, dourado, de shantung de seda, para usar em festa a rigor, sobre qualquer roupa, só para dar um tchan a mais. Era de sua tia madrinha, não era? Só que, ela era bem gorda e, você é magrinha, magrinha. Então. Vai pagar mais para reformar do que custaria um novo. Além disso, amiga, você já não tem mais idade de se vestir de dourado, não é mesmo?

Seus guarda-roupas. Mais cheios do que o necessário. Sapatos, bolsas de 30, 40 anos atrás pelo menos. Você gosta de usá-los quando está frio, não é verdade? De couro. Couro mesmo, daquele que fica manchado quando molha. As manchas, elas fazem parte, contam histórias. Agora, quem tem sapato de couro? Tudo pintado. Tudo para jogar fora e comprar outro. Pessoas como você, como eu, a gente cuida. Coloca as coisas para pegar ar, se prepara para os novos rigores gelados, que não vão acontecer. Se chegar um invernão daqueles, com certeza a gente vai se fechar em casa e não vai querer sair.

Estolas. Lembra? E pelerines. Ah, eram elegantes. Você tem muitas, não é? Disputavam holofotes com as golas de vison. Ao menos três: preto, cinza e bege. E duas outras, uma de raposa branca e outra toda rajada, em tons de marron e palha. Que pena, não se pode mais usá-las. Corre-se o risco de ser perseguida. Levar ovo na cara. Pois é. Ficam aí nos armários.

Eu vi, vi noutro dia, você fazer-lhes um carinho longo, suspiroso. Também faço. Gosto de tocar, de levar ao rosto, aquelas peles macias. Vou contar um segredo. Sabia que de vez em quando durmo abraçada com uma das minhas golas? Ah, você não. Você dorme com o seu cachorro. Eu acho anti-higiênico. Mas tem quem dorme. Respeito. Quem sou eu para dizer isso ou aquilo?

Faz tempo que eu não adormeço abraçada. Ao menos conservo as minhas peles. Sair às ruas? Nem pensar. Você poderá, no mínimo ser humilhada, ameaçada, além de levar raspança de um jovem que vai gritar na sua cara como você tem a coragem de sair com a pele de um animal esfolado? Sua bruxa. Já gritaram comigo. Só fora daqui é que a gente ainda pode usar vez ou outra. Ou fazer que nem a gente faz. Chama as amigas para um chá, para um carteado vê se chega antes das quatro e traz suas peles, tá? Eu preparo o bolo.

E seu neto, aquele advogado bonitão? Excelente por sinal. Só não gosto que ele é todo vegano. O único que ficou por aqui, né? Sei, vocês quase nunca se veem. Vive viajando, trabalha feito doido, que nem os meus dois. Workaholic, eles. Não é que ele exigiu que você comprasse uma segunda geladeira para guardar as comidas dele, para quando viesse tomar um lanche?

Foi ele, sim, o filho do seu filho, que na minha e na sua cara, em que pesem bigodes e barbas espessas, essa porcariada toda no buço, queixo. No pescoço! Não bastassem as pelancas – ah, isso é uma das piores coisas da velhice! Os homens ficam sem pelos e as mulheres têm pelos onde não deveriam, que desgosto! – não foi ele que acabou gritando: - Eu não como cadáver! Nem na mesma geladeira eles devem ficar! Vocês querem comer coisa morta, vocês comam. Eu e minha esposa, não! Até parece que a esposa vem aqui para visitar. Ela é que se faz de morta. Nem quando você pegou pneumonia.

Pois foi ele, sim, que teve o desplante de berrar com a gente, como se fôssemos canibais! Nós não falamos nada. Perdemos o gosto de continuar saboreando aquele sanduíche de carne defumada, preparado com o maior esmero. Sua ajudante que fez. Lembra? Claro que deve se lembrar, amiga, pois que desaforo foi aquele?! Neto gritando com avó. A mulher dele nem piscou.

Amiga, no nosso tempo isso jamais se admitiria. Outros tempos. Até que hoje eu consigo dar risada. Ele chamou de carne defuntada! Fiquei calada para não lhe constranger ainda mais. Seu neto pode ser um baita de um advogado, mas que é um abusado, isso ele é. Ele e a esposa, aquela lambisgóia, que não come isso, não come aquilo e que nem cozinhar ela sabe. Parece um esqueleto.

As mães não ensinam mais a cozinhar. Agora, quem cozinha é o homem. Por isso é que eles se habituam a ficar pedindo comida pronta e pagando uma fortuna por comida com gosto de plástico, tudo congelado. Do restaurante a casa, chega tudo frio e eles adoram. Nem pratos eles lavam. Comem das embalagens. Que horror.

Quisera eu ganhar a diferença entre o que essa juventude paga mais pela comida pronta e o que custaria se preparada em casa. Calculo que deve dar uns mil, mil e duzentos reais a mais por pessoa. Não interessa, né? Rabugice minha. Comem no almoço, no jantar, nos fins de semana e nós, igual você, amiga, conservando esse trambolho de madeira maciça para o dia em que tiver 10 à mesa, novamente disputando lugar para sentar perto da vovó. Nós.

Puxa, desculpa, desculpa. Não quis te fazer chorar. Longe de mim. Meus netos também são assim. Sentam-se na sala, mas ninguém desgruda do celular. Eles conversam entre si, sentados à mesma mesa, lado a lado, pelo celular! As brigas! Os bate boca. Eles não sabem conversar! Não olham nos olhos uns dos outros. Eles dizem coisas. Proclamam suas verdades, mas ninguém para, ninguém quer ouvir a opinião de ninguém. Eles querem falar. Dizer o que eles acham. Um bando de moleques malcriados, se dizendo politicados. Sei.

Mas não é culpa deles. Não é culpa de ninguém. É coisa desse novo mundo. Ficamos para trás, amiga. A gente envelheceu. Então, minha querida, está na hora de nós, velhos, mudarmos de casa. Melhor! Mudar nosso estilo de vida. Partir para morar pequeno, no máximo 50 metros quadrados, onde vai caber somente aquilo que for útil para a gente. Nada de quadros, esculturas, enfeites e lembranças. Vamos dar tudo embora! Xô. Chega de bugiganga.

Sabe de uma coisa? A gente vive com armários abarrotados de coisas que não nos pertencem. Nossa casa virou um depósito de coisas dos nossos filhos, que saíram do país e nós nem sabemos se um dia alguém deles vai voltar, mas conservamos a ilusão. Fora as coisas dos nossos pais. Você tem até coisa dos avós do seu marido! Lembra aquela maleta de médico que eles traziam?

A sua casa é um verdadeiro museu. Doa. Procura alguma associação que possa fazer melhor proveito, vender, sei lá. Onde já se viu ter coisas guardadas de cinco gerações?! Os brinquedinhos dos netos ainda bebês, de quando viviam na sua casa. Que era bom, era. Mas pronto. Já acabou.

A gente é besta, minha amiga. Vamos parar com essa coisa saudosista. Filhos não nascem para o mundo? Sim, eles nascem. Mas saem para o mundo, sob nossos auspícios, deixando as coisas deles sob a nossa guarda. E se a gente, como uma simples possibilidade, acenar-lhes de longe para que recebam as nossas coisas, mandam de volta a maior cara feia, com voz de nojo e quem é que quer essas tralhas todas, mãe?! Dá para a caridade! Dá para alguma noiva que quer casar. Desapega. Pois, então. Vamos botar num self storage e eles que paguem a conta.

Vez por outra alguém passa pelo Brasil, não é mesmo? Mais por conta de viagens a trabalho do que por vontade de passar uma temporada com a gente. Mas ainda conservamos a tal da mesa enorme ocupando a sala, pelo menos dois quartos totalmente montados, fechados e bem cuidados, com as coisas de quando eles eram nossos. E os panelões? Toalhas da Ilha da Madeira. Engomadas. Banquete. Talheres de prata. Quantos jogos? Quatro. Que loucura!

Ah. Antes vinham aos domingos, para se deliciarem com as nossas comidas. Agora, quando a gente - nas raras visitas de poucos dias - lhes oferece uma carne de panela, tal como eles gostavam, respondem que não, que não querem dar trabalho, que é melhor mandar vir. Pois que mandem. E que se mandem logo embora, também! Que ficar se preparando para recebê-los e depois nem sermos incluídas nos programas que eles fazem, só visitando amigos deles e viajando para ver mais belezuras da natureza, ah, isso deu para mim!

Não deu para você, também? A nossa amiga Carolina, aquela que de vez em quando vem jogar com a gente às 4as, está lembrada? Aquela, meio azeda. A gente chama por que ela joga bem, lembrou? Não? Não tem importância. Pois ela contou, um dia desses, que a filha, o genro e os dois netos vieram da Escócia, para passar quarenta dias aqui no Brasil, na casa dela.

Ela se preparou toda. No maior amor. Supermercado, sucos, tortas de carne e de palmito. Patês. Do bom e do melhor. Comprou até jogos de cama e banho. Tudo novo. Para os quatro. E umas roupinhas para ela também, para quando saísse com eles, visitar um familiar, pegar um cinema, um restaurante, essas coisas. Pois bem. Sabe o que aconteceu?

O genro pegou avião para cima e para baixo. Trabalho. No todo, dormiu na casa dela umas seis ou sete noites. A filha se matriculou num curso e ficou fora bem umas três semanas. Direto. Nem telefonava direito. Largou os filhos na avó. O neto se trancou no quarto e só saía para comer. E banheiro, lógico.

A neta foi a única com quem fez programa. Foram juntas ao cabelereiro umas duas ou três vezes. Também foram à 25, para comprar bijuteria, maquiagem e uma vez no Brás, comprar uns blusões. Não sei direito o que, umas bobagens. Ah, foram também lá, naquela papelaria chique do shopping? Bons passeios.

Na despedida vou te contar o que ela me contou. Que eles agradeceram pela hospitalidade. Que a filha estava aflita, que estavam em cima da hora, que se houvesse trânsito pesado seria problema. - Mãe, ligo quando chegarmos lá. Estou com medo de perder o avião. Ó, valeu, viu? Te achei muito bem. Nem resquício da pneumonia, né? Você está ótima. Me preocupei à toa. Que quando entrou no tai acenou com a mão e que esqueceu até de mandar beijo. Foi isso.

Só a neta a abraçou mais demoradamente: - Vó. Adorei ficar com você. Você é demais! Carolina não entendeu nada. Como assim, ficar comigo? Ela nem olhou na minha cara!

Quando nos contou dessa visita da família dela, falou que não sabia se chorava ou se ria. Nem nós soubemos o que lhe dizer. O freezer e a despensa permaneceram abarrotados. Disse que tem comida para um ano. Se nós queremos fazer uma reunião lá. Mas depois sumiu. Não soube mais dela.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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