Por Ana Fraiman, abril de 2016.

Última parte do Artigo Idosos Órfãos de Filhos Vivos – Os novos desvalidos.

A vida é de mão única e flui num único sentido: primeiro os avós, depois os filhos e depois os netos. A inversão dessa ordem é impraticável, por isso sentimos tanto pesar quando ela se inverte. Os privilégios devem, portanto, ser conferidos aos que aqui primeiro chegaram.

Família
Imagem: Pixabay

Não há soluções fáceis para todos os conflitos familiares. Nem sabemos como realizar mudanças imprevistas e indesejadas sem sofrer, sem reclamar, sem querer desistir. Algumas soluções, porém, não devem ser descartadas. Especialmente as soluções ditadas pelo amor incondicional. E, não havendo amor, buscar as soluções possíveis em nome da honra a que pais e filhos se obrigam e por onde todos desenvolvem seus mais elevados valores de caráter. Se fosse fácil honrar pai, não haveria de ser um Pronunciamento. Bastaria promulgar uma lei dos homens. Mas, não. É uma lei imposta pelo Criador, uma autoridade maior do que qualquer um de nós, mais gigante que todos nós que habitamos e, convivemos em várias dimensões, neste nosso multiverso.

Estar presente. Mostrar-se presente. Significar a presença.

Honrar pai e mãe significa: honrar os papéis e os consequentes deveres que assumimos ao trazer uma vida a este mundo. Tornarmo-nos uma pessoa honrada, em nome dos nossos filhos. E, também, significa honrar nossos pais, por eles terem nos trazido até aqui. Honrar não significa gostar, nem concordar, nem esquecer as muitas dores que eles possam ter-nos causado. Mas é fazer a parte de que nos cabe, gostando ou não. E fazê-la com nobreza e espírito elevado, porque – assim como cada filho é um filho - pai e mãe só temos um em nossas vidas. Podemos ser outros pais: de afeto, por afinidade. Fazem a vez de pai: os mentores, os apoiadores, os que cuidam de nós e nos colocam no bom caminho. Fazem a vez de mãe: as nutrizes, as que alimentam e, que nos conduzem ao longo do bom caminho.

Existem pais adotivos. Existem pais por afinidade. Existem pais por afinidade e identificação. Existem pais amorosos e, também os terríveis, que são pessoas ‘que não valem um tostão’, como diriam os antigos. Alguns pais e mães são tão adoráveis e desagradáveis, quanto temíveis. Pais, filhos e irmãos formam uma unidade que pode ser rompida e se mostrar disfuncional, mas que não pode ser dissolvida. Pais não são o problema. Filhos não são o problema. E irmãos não são o problema. Não há problema. Há algo maior a ser desenvolvido e cultivado: o cuidado com a família sempre.

Existe a experiência de doar e de se doar para quem, talvez e, muito provavelmente, não nos dará de volta o que recebe ou recebeu de cada um de nós. Mas o retorno sempre advirá em relação às atitudes e condutas que tomamos. Não se faz isso porque o outro nos fez aquilo. Não, essa não é a resposta de uma alma livre. Honra-se pai e mãe só porque eles existem. E devemos honrá-los até depois deles já não estarem mais vivos e presentes. A eles e a seus pais e pais dos seus pais, nossos ancestrais. Uma comunidade é tanto mais estável e confiável, quanto mais presta honrarias aos antepassados, celebrando datas de acontecimentos, espacialmente as datas de chegada e de partida.

Honramos com as nossas atitudes e com a nossa palavra: por meio das admoestações quando nossos filhos fazem coisas erradas. E, também, quando lhes damos nossas bendições. A honra não é vivida em segredo. Ela exige uma manifestação pública e uma concretude que seja percebida pela própria pessoa e por todos os demais. Estar presente em um momento de júbilo, bem como estar presente numa hora de amargor. Estar presente e existir, de fato, na vida uns dos outros: pais, filhos e irmãos. Mesmo na ocorrência de brigas inevitáveis, saber que podemos contar com a nossa família.

A vida é de mão única e flui num único sentido: primeiro os avós, depois os filhos e depois os netos. A inversão dessa ordem é impraticável, por isso sentimos tanto pesar quando ela se inverte. Os privilégios devem, portanto, ser conferidos aos que aqui primeiro chegaram. Honrar pai e mãe é outra concessão de privilégio que agora cabe aos filhos e netos praticar, primeiro passo para a aprendizagem da devoção, a expressão de um amor incondicional. Na infância não precisamos provar nosso amor aos nossos pais. A nossa simples existência já lhes basta. Conforme nossos pais e avós envelhecem, o amor que é natural se converte, futuramente, em uma sábia escolha existencial: fazemos, então, a tradução deste amor em palavras e gestos de gratidão e honra, para com eles, fontes primordiais, por onde fluem todas as vidas.

 

Leia o Artigo Completo: Idosos órfãos de filhos vivos – os novos desvalidos

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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