Casada há vinte anos, Nina vive um momento difícil no seu relacionamento com o marido. Ele a compara com as amigas, reclama do seu jeito de vestir, enfim, só faz críticas. Ela chegou à conclusão de que a origem do problema está no fato de ela depender financeiramente dele, como conta aqui.

Mulher Independente
Imagem: Pixabay

Depoimento à Aída Veiga

“Se me queixo da vida, minhas amigas dizem que eu sou exigente demais. Afinal, nesses vinte anos nunca me faltou nada. Me formei professora, pouco antes de casar, mas, como o Clóvis já estava bem na época, nem pensei em trabalhar. Hoje eu percebo o erro que cometi.

Não posso nem mesmo dizer que eu não tenha culpa nessa história. Primeiro porque me acomodei. Depois, porque demorei tanto tempo a me dar conta do problema. Comecei a sentir que as coisas não iam bem há muito pouco tempo. Acho que despertei porque, cada vez que saíamos, via os olhos compridos do Clóvis para as minhas amigas, com uma admiração que ele nem tentava disfarçar. Pra mim, só dizia que a ‘Fulana se veste tão bem', ‘a outra vive com o cabelo bonito". Como se eu pudesse competir em roupas, cabelo e trato com mulheres que se vestem nas melhores butiques, frequentam bons cabeleireiros.

Se eu reclamo que não tenho dinheiro, a resposta é sempre a mesma: ‘Mas você tem a sua mesada. O problema é que você não sabe administrar o seu dinheiro’. A mesada a que ele se refere é de um salário mínimo para todos os meus gastos.

O jeito autoritário do Clóvis toma qualquer diálogo — quando o assunto é dinheiro — impossível. Ele ganha bem, que eu sei, tem mil investimentos e realmente se preocupa com a família. Tanto assim que nossos filhos (são três) e eu temos a nossa poupança. Mas ele parece nos considerar incapazes: embora o extrato chegue em casa, nenhum de nós tem permissão para examinar, quanto mais usar esse dinheiro.

E isso não começou hoje. Foi assim sempre. Só depois de muitos anos de casados, e muita reclamação minha, ele concordou em abrir uma conta conjunta no banco. O detalhe é que tenho de prestar conta de cada tostão que eu gasto. E olha que o dinheiro é todo para as contas da casa.
Há algum tempo, cansada de me sentir humilhada, comecei a vender roupas. Ele virou fera. Disse que não fica bem para ele a mulher ‘dar uma de sacoleira’.

Vivemos um impasse. Eu quero trabalhar, porque preciso ter o meu dinheiro. Mas ele finca pé. acha que eu não preciso. Como fazê-lo entender que enquanto eu não tiver o meu dinheiro vamos estar condenando a nossa relação? Ele poderia me ajudar a conseguir um trabalho, mas nem quer falar no assunto, dizendo que não tenho experiência, não vou ganhar nada. E eu fico desesperada, querendo salvar o nosso casamento. Eu me esforço, mas ele não ajuda em nada.” FIM

A mulher que não ganha dinheiro se sente incompetente

O dinheiro, como o sexo, é simplesmente o pano de fundo onde estouram os conflitos conjugais. Numa relação conjugal, quando só um ganha dinheiro, o outro se sente lesado, como se fosse incapaz de dar o atestado de competência que é se manter do seu trabalho. A independência da mulher torna a relação mais igual, na medida em que ela só fica com o marido porque quer, e não porque precise dele para sustentá-la. A mulher economicamente independente, adquire mais respeito por si mesma e pelo marido, porque está escolhendo, no dia-a-dia, ficar com ele. São pessoas que falam a mesma língua, vivem no mesmo universo (não um especializado em ganhar dinheiro, o outro em criar filhos). Desse respeito nasce uma relação igual.

Ana Fraiman - Revista CLAUDIA - Novembro 1987

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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