Quando funciona bem, fica tudo bem. Ou não.

Começo meu dia conferindo se ainda tudo funciona. Em mim. Tem dado certo.

Senhora tomando café
Imagem: depositphotos

Para os meus intestinos o cheirinho de café recém-passado (no coador de pano) é tiro e queda. Peristaltismo imediato! É uma de minhas horas de maior satisfação. Pingo quatro gotinhas no fundo da xícara e café a gosto. As gotinhas é que dão o tchan. Às vezes são quatro. Ou doze. Às vezes é um jato. A gente não consegue controlar tudo. Um pouco de reumatismo nas mãos.

O de maquininha, todo frufruzado fica num canto do meu buffet da sala. Para impressionar bem minhas visitas. Meu filho me deu de presente no ano passado. Depois de quarenta anos me observando reparou que eu gosto de café preto, imaginem vocês! Muito atencioso, ele. Um amor de pessoa.

Filho a-do-ra ficar observando pai. Mãe, principalmente. Tudo é mãe. Mãe, você vai à farmácia? Não? Como não? Ontem você comentou que ia. Até pediu o cartão do pai, que o seu estourou... Mãe, você viu minha cueca nova que deixei no bidê? Mãe, ‘ce sabe onde foram parar meus dólares? Mãe, mãe, mãe. Tudo eu, tudo eu. Ah, quando casou senti uma falta dele ficar ali, só de butuca vendo onde eu estava fazendo o que. Logo vinha, pedindo alguma coisa. Uma graça.

Voltando ao meu café. Desenvolvi todo um procedimento, quer saber? Cronometro direitinho. Sento na cama e me levanto, não sem antes contar até 10, 20 ou 30, dependendo da minha paciência matinal, que por outro lado depende da noite bem ou mal dormida. Para evitar vertigem.

Calço meus chinelos. Digo meus, porque já calcei os do meu marido e levei um tropeção a caminho da cozinha, que me custou quatro dias de cama com dores terríveis só de respirar, os analgésicos mais o protetor da mucosa do estômago e mais a consulta médica, o táxi de ida e volta, mais o táxi da amiga que é dura e não viria só para me levar ao Dr. Alfredo, um amor de pessoa. E mais as 10 sessões de fisio, os analgésicos e táxis, até concluir que teria sido melhor pisar descalço no piso frio do meu quarto, mesmo correndo o risco de pegar pneumonia, do que me fazer de valente e enfiar o pé em qualquer coisa à vista, inclusive na jaca. Falando assim fica parecendo piada.

Chinelo nos pés, fico sentada por mais uns dez minutos, fazendo meus esticamentos. Cabeça e pescoço, braços, mãos, costas - tudo sentado – para acordar o corpo e focar a minha mente. Ah, tem um negócio novo, o de esticar a língua, pra dentro e pra fora da boca, direita, esquerda, cima e baixo, limpar os dentes e escovar as bochechas, com a língua, pelo lado interno. Dizem que evita o Alzheimer. Meu médico geriatra é que falou e mostrou. Explica tudo direitinho e fez comigo, lá no consultório mesmo. Um amor de pessoa.

Meu marido está rindo até agora. Faz umas três semanas. Chegou a ficar com dor de estômago. Imitou para as visitas. Maior humilhação. Nunca mais ele me acompanha aos médicos! Nunca mais mesmo! Prefiro a sonsa da minha sobrinha, um amor de pessoa, do que passar por idiota, com marido rindo dos meus temores. Pensa. E se eu ficar zureta só por não ter feito os exercícios?

Já tenho até alguns sintomas. Preciso ir ao neurologista. Minha mãe teve, minha avó teve, minha irmã mais velha tem. E tem uma tia, um amor de pessoa que acho que também teve. A família lá é muito fechada, eles nunca contam nada para a gente. Esquisitões. Vivem de segredinho. Coisa boa a gente conta, não é? Eles não. Guardam tudo. Acho que foi câncer, que não foi Alzheimer. Parece que já foi curado. Sei lá. Ouvi dizer. Pensei que tinha sido. Mas também pode ter sido câncer e Alzheimer, né? Iriam esconder por quê?

Comigo tem um tempo, já. Fico meio confusa logo cedo, sem saber direito se teria acordado por que bateu vontade de café preto, mas não muito forte, se teria algum compromisso, que prefiro não marcar para antes das onze ou se, acordei por causa de bexiga cheia. Ai, essa minha bexiga. Preciso ir ao urologista que ele não gosta muito de ficar conversando quando acompanho meu marido. Mandou marcar uma para mim, que ele quer me examinar. Ora vejam se eu vou. Só para falar que a bexiga tem esvaziado por conta própria, mas só de vez em quando, tenho que ir ao médico? Ele quer é ganhar o dele!

Certa vez, não sabia se estava com infecção no lugar do xixi ou nas partes baixas, aquelas, íntimas. Aproveitei que era hora perto do almoço, liguei para a casa dele e falei com a sogra. Um amor de pessoa. Ela me prescreveu lá uns remédios meio populares, umas ervas tipo quebra-pedra, vai mais no banheiro, não sei direito. Da cultura dos antigos. Um dia, numa conversa, ela me passou umas coisas que resolveram zás-trás. De tanto ouvir o genro, ela fica ouvindo as conversas dele pelo telefone, né, aprendeu a receitar. Pode confiar.

Bem, isso tudo já passou. Só sei que acordo, embora meus olhos não saibam disso logo que me sento à beira da cama. Mas não sento muito na beirada, que corro o risco de cair. Queda em idoso é muito perigoso. Não sei quantos por cento chega a morrer de queda no lar. Não quero morrer por motivo besta. Pior, bater a cabeça, estraçalhar o crânio, não morrer e ficar entrevada na cama, olhando para as paredes, só dando trabalho. E custando caro.

Pois é para não dar trabalho que levanto mais cedo que meu marido e antes que a empregada, digo, minha auxiliar doméstica chegue. Quase nunca atrasa. Um amor de pessoa. Os olhos pesam, minha querida, os olhos pesam. Inchaço. Será que preciso fazer uma plástica para levantar as pálpebras? Eu acho. Vou marcar logo com o plástico que fez a barriga da minha nora. Um amor de pessoa, ela. Perdeu 28 quilos depois da gravidez e hoje está com aquele corpinho. Quem dera eu... Quem está gordinho é meu neto. Uma bolinha.

Eu falo para o meu filho. Eu falo. Sabe o que eu ouço de volta? Mãe, não se mete! A gente cria filho, sabe das coisas e eles respondem isso. Não reconheço mais o meu filho. Depois que casou é assim. Para a esposa, tudo. Para a mãe, já viu. É não se mete. E como é que não vou me meter se estou vendo as coisas erradas? É a minha nora. Ela só pensa nela, nela, nela e mais nela. Mas eu falo que ela é um amor de pessoa para não ficar mal para mim, né?

Então, eu me ocupo assim. Acordo, esfrego os olhos, mas não muito forte, para não esticar mais a pele e criar mais ruga. Faço as minhas ginásticas no quarto mesmo, espero o meu marido sair e volto para a cama fingindo dormir, só para a minha empregada, quero dizer, auxiliar doméstica não pensar que sou preguiçosa. A gente sempre pode dizer que dormiu pouco, que o marido roncou demais, que está muito preocupada com a política. Esse tipo de desculpa cola.

A gente já tem idade. Quando eu quero eu levanto e faço logo o meu café. Ah, Era isso. Estava falando do meu método. Visto os chinelos, os meus e, vou para a cozinha. Fervo a água e só quando está borbulhando eu jogo o pó, mexo rápido, desligo o fogo e passo no coador. Daí eu passo para a térmica. Mas antes tem que escaldar. Daí eu tenho que correr para o banheiro, senão não dá tempo. Os intestinos logo começam a funcionar. Um reloginho.

Já deixo a porta aberta, tampa do vaso levantada e tiro antes o tapete da entrada, que é para não escorregar. Primeiro sai o xixi, número 1, e logo o número 2. É tão bom, mas tão bom ver que tudo funciona bem em mim... Tenho o maior orgulho, sabia? Uma saúde de ferro.

Só que tem dias que não funciona. Tomo que tomo café e nada. Daí, tenho que ter um estoque de laxantes em casa. Não pode faltar. Por isso é que não marco nada fora de casa antes de funcionar. Toda minha família é assim.

Até acordar direito, até o olho abrir, até fazer os esticamentos, até passar o café, até ir ao banheiro, depois tomar café direito, depois tomar o banho, depois me secar, depois passar os cremes. É só depois de assistir o jornal do tempo que vai saber que roupa usar. Faço uma ligação aqui, outra ali. Marcar dentista. Marcar a ginecologista. Ah, e tem a massagista, duas vezes por semana, tudo isso pela manhã. Então, já é perto da hora do almoço. Nem vale a pena sair antes. As consultas? Só na parte da tarde. E tem também os exames, que a maioria é na parte da manhã.

Quando meu marido pode, ele me leva. Se não, tenho que pegar táxi e ir sozinha. É duro a gente ficar velha e não ter quem acompanhe. Vivem me falando que é bom ir fazer aula, que tem faculdade da maturidade isso e que aquilo. Mas eu não gosto muito de ler e já não tenho mais idade para sair e fazer essas coisas. Em mim tudo funciona, não tem no que mexer.

Para quê? Esse tipo de coisa não é para pessoas como eu. É para mulheres mais agitadas, para gente que não tem parada. Que tem bicho carpinteiro. Comigo está tudo certo. A manhã passa voando. Ah, por falar nisso, tenho que ligar para marcar uma hora no meu gastro. Ando sentindo umas pontadas. Será que são gases? Ando comendo muito repolho doce. Adoro.

Só que a gente tem que ir ver. Senão, para que pagar seguro? Prevenir é melhor, certo? Se não é a gente que cuida da gente, quem vai cuidar? Eu adoro assistir os programas da tarde, quando tem médico falando. Psicólogo é bom, mas não para mim. Uma vez levei meu filho, quando era pequeno e não gostava da escola. Para mim não faz efeito. Já fui, mas não tinha nem o que contar. Gastar dinheiro, tempo para quê? Eu vivo em paz comigo mesma.

Comigo tudo funciona bem, mas tem vezes que não. Tenho sentido umas pontadas no peito. Estou preocupada. Pelo sim, pelo não, vou marcar com a minha cardiologista. Um amor de pessoa, ela. Muito atenciosa. Muuuito. Aproveito e já falo com ela se já não está na hora de fazer uma colono. Há uns anos tirei um pólipo e a gente tem que acompanhar.

Nossa, estou com uma coceira no olho esquerdo. Já é a segunda vez nessa semana, que dá coceira a toa. O que será? Será que é uma alergia? Comi camarão na moranga ontem. Acho que vou marcar no meu oftalmo. Boa gente ele, bem-humorado, conversa que dá gosto. Um doce de pessoa. Ou procuro meu clínico? Ah, vou pingar um colírio. Se não passar eu ligo e peço para meu marido me levar.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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