Por Ana Fraiman, abril de 2016.

Continuação do Artigo Idosos Órfãos de Filhos Vivos – Os novos desvalidos.

Até o momento, nas áreas da pedagogia, do ensino e da psicologia estivemos discutindo a suposta importância da quantidade versus a qualidade do tempo dedicado ao filho para justificar, ou não justificar, uma ausência paterna e, mais recentemente, materna. Mas, o que é qualidade de tempo numa relação autêntica?

Presença paterna

É oportuno reiterar que não se alcança um tempo de qualidade sem um tempo alocado, primeiramente, à quantidade. Qualquer coisa, em qualquer trabalho que se realize é sabido que a pessoa precisa se comprometer e se dedicar à exaustão, para tornar-se experiente e exímio naquilo que faz. Cunhou-se, inclusive, o termo ‘tempo de qualidade’. Uma falácia, porque aquilo que pode ser de qualidade para um pai pode não o ser para um filho. As perspectivas são absolutamente diferentes e não equivalentes.

Os pais já foram crianças, mas as crianças não têm a menor noção do que é ser adulto.

Da mesma forma, mais tarde, os filhos adultos não têm a menor noção do que é ser velho ou idoso, conforme se queira denominar. Muitos de nós não têm liberdade de escolher os melhores horários para si próprios, quando precisam fazer suas coisas.

Os tempos biológicos, sociais e existenciais não batem ponto a ponto com os tempos cronológicos. Este já é um drama vivido no cotidiano. A preguiça bate à hora de levantar da cama. O desinteresse bate à hora de comparecer à aula ou reunião. Os afetos duelam com os perceptos. Além disso, impõem-se os deveres, os múltiplos ‘precisares’ e ‘tem que’. Precisar fazer e querer fazer alguma coisa, exatamente num tempo previsto ou determinado é, minimamente dizendo, antinatural. Nós não escolhemos nossos horários de trabalho. Nós não escolhemos as horas que nos são disponibilizadas pelas agendas médicas, para os exames nos laboratórios, para as reuniões de pais e mestres, para as competições nos clubes, salas de cinema e por aí afora. Vamos nos encaixando. Assim como para as crianças é difícil acompanhar o ritmo de seus pais e vice-versa, é difícil para os mais velhos acompanharem os ritmos das crianças e de seus filhos multi atarefados. Então, os tempos compartilhados vão sendo reduzidos e cada qual permanece na sua própria casa. Breves visitas e telefonemas, contatos são interrompidos pelas obrigações às quais os idosos já não mais têm a corresponder.

Há uma luta constante travada entre o interesse, a necessidade e a vontade de fazer algo.

E outra luta que acirra a primeira, entre a vontade de fazer e a vontade de fazer isso naquela exata hora. Para demonstrar esta complexidade, os tempos da infância, da adolescência, dos adultos, e dos mais velhos são tempos absolutamente diferentes entre si. As crianças querem ‘na hora’. Os adultos precisam espichar as horas para darem conta das inúmeras solicitações. Os idosos querem usufruir das horas e aproveitar o quantum de prazer que o contato humano lhes propicia. Ou evitar estarem presentes no tempo tumultuado do outro. Filhos adultos encaixam seus pais nos tempos que lhes convêm. Os idosos se ressentem, então, do pouco tempo de fruição da companhia dos seus queridos.

Por mais que os pais idosos tentem se convencer, dizendo deixa, eles têm a vida deles, o fato é que eles querem e precisam muito do respeito e da dedicação afetiva mais assídua de seus filhos. Levar de carro, estar presente a uma consulta, ligar para saber se os intestinos funcionaram não é, em definitivo – nutrição emocional. É busca de informação, um saber racional mínimo que um filho ou filha pode e deve fazer pelo bem de seus pais. E, de mínimos em mínimos, os afetos caminham num diminuendo atroz, que faz calarem-se as vozes melódicas do amor compartilhado.

As responsabilidades obrigam a todos fazerem suas escolhas. Serão, porém, todas elas ‘obrigatórias’? E ‘têm que’ ser desempenhadas exatamente naquela hora? Ah, fica mais um pouco. Vamos conversar mais. Você vem tão pouco aqui. São estas as falas às despedidas. As crianças choramingam ‘não sai, fica comigo, conta outra história, pega um copo d’água’, como que ‘obrigando-os’ a lhes conceder mais de sua presença antes de dormir. Sentem-se seguras ao lado de seus pais. Os idosos também pranteiam a solidão de suas vidas e, publicamente, oferecem almoços, lanches e jantares em troca de uma supérflua visitinha, uma quase ‘inspeção’ do estado de coisas em que eles vivem. Ou sobrevivem. Por que romper com laços familiares, deixar para lá e não fazer questão, atenta contra a saúde física e mental

Leia o Artigo Completo: Idosos órfãos de filhos vivos – os novos desvalidos

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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