De repente, trabalhar fora, ganhar o próprio dinheiro, se tornou uma verdadeira obsessão para muitas mulheres casadas.

Briga de casal por dinheiro
Imagem: Thinkstock

Elas acreditam que todos os problemas do seu relacionamento se solucionariam, como num passe de mágica, pelo simples fato de ganharem um salário. Verdade ou engano? Será que trabalhar, ter um salário, é o remédio que algumas pessoas precisam?

O meu dinheiro é meu. O dele é nosso. Quantas vezes a gente ouve essa frase dita por mulheres que trabalham, têm um bom salário e que poderiam, em caso de necessidade. dar conta da família toda? O meu e o dele apenas definem uma situarão muito comum: a de não termos a tradição de ganhar o nosso sustento e brigar para que uma carreira nos leve à independência total. Talvez por culpa da educação (nós somos preparadas para ser dependentes, eles, para nos manter), acabamos achando normal que o homem assuma o seu papel e nos dê o padrão de vida que “merecemos”. Mas, se o dinheiro falta, se ele ousa cobrar a nossa parte, se a gente suspeita de que está pagando mais do que devia, aí a situação se complica. A ilusão de que ter uma renda própria resolve todos os problemas termina em dúvida: de que adianta eu trabalhar, se nem assim ele me respeita? Mas será possível conciliar, numa boa mesmo, essas três coisinhas fundamentais que são o amor, o respeito e o dinheiro?

É muito comum as próprias mulheres encararem seu trabalho apenas como uma atividade complementar à do marido. Um bom exemplo desse tipo de visão é dado por mulheres que costumam dizer: “Com o que ganho, ajudo meu marido a complementar a renda familiar. Com o que ele ganha, não dá para nos sustentar”. Vista dessa maneira, a ajuda dela passa a ser um atestado de incompetência. Dele. Nesse caso, como respeitá-lo?

Nessa linha de raciocínio, os dois saem desvalorizados: ela, porque se contenta em ganhar apenas o suficiente (e não o que deveria ou poderia); ele, porque não entende o significado do trabalho dela, enquanto pessoa independente. Se ele não vê a mulher como tal, é natural que fique ressentido por ser ajudado. Ela, de sua parte, se ressente por não ser percebida como indivíduo trabalhador e por, além de ganhar pouco, estar casada com um perdedor, que não é capaz de dar segurança a toda a família. Dá para ter respeito?

Quem gosta de ser explorado?

Um outro caso típico é o das mulheres que dizem: “Eu ganho o suficiente para as minhas despesas. Tudo o que eu gasto comigo é fruto do meu trabalho: médico, dentista, empregada, roupas, cosméticos, presentes..." Aqui, a mulher se acha independente. Mas também, não raro, se queixa de que o marido não dá muita bola para ela ou para o trabalho dela, não a incentiva... Permanece o clima da casa paterna: papai garante casa, comida, impostos, condução e gastos de emergência, enquanto a filhinha recebe uma mesada (agora um salário batalhado) e começa a ver como é duro ganhar a vida. Só que ainda não viu nada. Porque esse sistema ilude o casal, Ele se desobriga com relação a ela (e é provável que a acuse de gastar demais com sua vaidade) e ela se sente injustiçada, já que acha que está fazendo um favor por não pesar no bolso dele. Pior ainda se ele precisar (para cobrir gastos da família) de um empréstimo dela. Aí ela vai se sentir roubada e ele, um explorador. Dá para ter respeito?

Um outro esquema é o da divisão: ele paga as despesas da casa, ela paga o supermercado. Ela compra a roupa das crianças, ele se encarrega das prestações. Não importa o tipo de composição: são casos em que o orçamento familiar nunca é fluido e é fácil — quando surge uma briga — um jogar na cara do outro que está pagando mais do que devia, ele não quer saber dos esforços dela, e vice-versa: a palavra de ordem é o cada um por si e Deus por todos, eu faço a minha parte, você que se vire. E o respeito, onde fica?

É possível encontrar outras variações em termos de quem ganha quanto e quem paga o quê, em que o forte é uma eterna competição (e não a solidariedade) entre marido e mulher. Eles não se levam a sério. Só levam a sério o orçamento.

Se os valores de um casal não forem bem definidos, se as afinidades não existirem, o resultado fatalmente serão brigas tendo o dinheiro como motivo.

Valores tais como se sentir bem no trabalho que faz, ter o reconhecimento dos colegas e chefes, ter a apreciação do companheiro ou companheira de vida... fazer coisas juntos ou separados, ter as próprias amizades, além das do casal... sentir prazer em estar juntos (não importa fazendo o quê), ter liberdade de discutir sentimentos. sejam agradáveis ou desagradáveis... Enfim, zelar pelo bem-estar próprio e do companheiro, ajudando o outro a se desenvolver como pessoa, se deliciando com as diferenças e se encantando com as semelhanças... Isso os casais raramente fazem. E, se fazem, é na surdina, sem contar para ó outro.

Passam a maior parte do tempo, quando juntos, dedicados a uma contabilidade (eu fiz isso, você faz aquilo, eu quero mais isso, você tem que deixar aquilo...) de cobranças. Anotam todas, mas rigorosamente todas, as faltas e débitos, mas se esquecem de anotar as presenças, os créditos. Querem ver? A mulher estar em casa esperando o marido (mesmo que ela trabalhe e corra feito louca no trânsito) não é mais do que a obrigação. Não estar quando ele chega (porque a diretória programou uma reunião extra para o fim do expediente), aí é um Deus nos acuda.

Se o homem chega em casa no horário, ela nem desgruda os olhos da televisão. Mas ai, se ele chegar atrasado. A briga está armada.

Ambos se arrumam melhor para sair de casa pela manhã do que para ficarem em casa juntos à noite. Os dois têm mais paciência com as pessoas no ambiente de trabalho do que tolerância no lar. Em casa a conversa é” instrumental”: são os deveres e obrigações, horários, trajetos, números, números e mais números... O orçamento é perfeito. A relação está deficitária. Dá para ter respeito?

Não é o fato de a mulher trabalhar que, automaticamente, vai fazer com que a relação conjugal se aprimore. As vezes até piora. Esse aprimoramento é fruto de diálogo, de compreensão, de intimidade... O respeito de um pelo outro acontece quando as pessoas se ouvem de verdade, quando a gente acredita que tão, ou mais, importante quanto a nossa felicidade é a felicidade do outro, a reciprocidade.

Trabalhar fora ajuda a ter essa noção de individualidade, de limites, de capacidades. Trabalhar no que se gosta (e se possível ganhando bem) eleva o amor próprio e nos torna mais brilhantes, interessantes e agradáveis. Quem sai de casa está sempre vendo e vivendo pequenas experiências curiosas que incrementam as conversas.

Mas tem gente que não sabe relatar, talvez nem mesmo perceber, as coisas curiosas que acontecem a seu redor. Tem gente que, mesmo trabalhando, só consegue uma coisa: ganhar dinheiro. E não autonomia, liberdade, prazer de viver.

Trabalho quer dizer respeito?

É na relação humana que nos fazemos gente. Trabalhar ajuda apenas à medida que, conhecendo outras maneiras de pensar, falar e viver, vamos nos individualizando. Mais importante, fundamental mesmo, para o casamento é se dedicar a conhecer o companheiro e ajudá-lo a vencer, e se sentir bem em partilhar a vida com ele.

Nem todos se dão a esse trabalho de cooperação. A maioria compete entre si. E aí não há trabalho externo, por mais bem pago que seja, que engrandeça um casamento.

Num casal que se dá bem e se respeita, não importa quem ganha mais, quem ganha menos. Não tem essa do “meu dinheiro, seu dinheiro”. O que os dois ganham é da família, ou pelo menos do casal. Ela é consultada e acatada nas decisões sobre o patrimônio do casal. E ele se sente envaidecido por ser digno da confiança dela. O casal, junto, gerencia a vida familiar. Quem trouxe o dinheiro para casa? Não importa. Dinheiro vem, dinheiro vai. Mas, um bom casamento, não há dinheiro que pague.

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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