Pensem o que quiserem

O texto retrata o despertar de um idoso, que retoma sua vida, após anos dedicado a sua esposa doente. Final interessante e algo surpreendente.

\"Pensem

Casei-me uma única vez na vida. Por 43 anos fomos felizes até que a morte a tomou de mim. Levou-a embora numa noite estrelada, onde se pode imaginar de tudo, menos que a Grande Muda chegue e a carregue para o Tempo Sem Fim.

Ao fazê-lo, a primeira coisa que pensei, talvez como todos os enamorados pensem, foi e agora, o que será de mim?

Cuidei-a em sua doença prolongada, que foi tomando conta de seu corpo e de sua respiração, até que já não mais suspirava, porquanto mal respirava.

Mulher romântica, desde cedo uma das coisas que nela me cativou é que gostava de suspirar, seja para o alegre e lindo, seja ao triste e sombrio. Suspirava. Frente a uma obra de arte. Ouvindo uma bela canção. Assistindo a uma apresentação do Lago dos Cisnes, que ela própria um dia já dançara, quase à perfeição. E suspirava pela tarde que caía e pela luz que se escondia para dar lugar à noite.

Foi assim que me apaixonei pelo seu jeito de inspirar profundamente frente a qualquer coisa, a qualquer manifestação, da natureza, dos bichos ou dos outros, que a conduzisse para o mundo dos sonhos e tocasse seu coração. E depois, depois exalar e enaltecer o que se perdia.

Ouvia minhas juras de amor e suspirava sorrindo. Enterrou pai e mãe, sempre suspirando. Fê-lo por tristeza ou por amor infindo. Lia e suspirava. Tomava seu chá da tarde e ouvia contemplativa a boa música ou bordava delicados lenços de cambraia branca, plácida em seus suspiros. Uns profundos, outros nem tanto.

Suspirou quando me deu o sim, estendendo sua mão delicada e macia para receber o anel de noivado em seu anular e, alguns meses depois, quando se abandonou em meus braços para me receber dentro de si em nossa primeira noite de amor.

A maldição da doença foi estraçalhando meu coração, enquanto entrevando meu amor, pedaço a pedaço, até paralisar seus pulmões. Seu corpo gracioso foi se atrofiando lentamente, ganhando o aspecto de um bloco disforme, mal mantido em pé ou sentado, sem vigor, tudo em si degenerando, num tic tac implacável que passou a regular o andamento do tempo do dia a dia, mês a mês, ano a ano.

Já não levava comida à boca, nem sorria mais para mim. Seus olhos sem brilho e seus esgares imputaram ao seu semblante uma horrenda aparência de desgosto e, depois, de nojo. Sua voz melódica, agora rascante e desafinada, seus cabelos ralos e sem viço, tudo sinalizava que a morte espreitava pérfida o momento de tomá-la de mim. E eu diria, mesmo que culpado, leve-a logo! Por que demorou tanto?!

Em meu amor quase cego, eu já não mais reconhecia a mulher encantos mil dos meus sonhos de homem apaixonado. Aquela que lá se encontrava, não era a que eu queria, exigente e mal agradecida.

Tudo que não a atendia de imediato lhe despertava impaciência e a irritava. E sua irritação me transtornava. Nada lhe bastava. Fechava, então, meus olhos e procurava não ver em quem ela se transformara, mas enxergar com olhos de bondade, nesta desconhecida, aquela que eu ainda tanto amava. Fui marido de duas ao mesmo tempo. Aquela com quem me casara e esta, que passei a detestar.

Aconteceu assim, quero ser sincero, embora me sinta encabulado. Éramos eu e ela, ela e eu, só nós dois. Nenhum filho para dividir a atenção de um e outro. Não fazia falta. Nada além de nós dois cabia em meio à felicidade, que preenchia o espaço, tempo e distância que se colocasse entre nós. Sempre sabíamos onde estávamos e o que fazíamos, mesmo quando nossos corpos se separavam e se dirigiam para onde precisávamos. Ao trabalho, por exemplo. Visitar pai e mãe de cada lado.


Unha e carne, tampa da panela, almas gêmeas! Assim éramos e, até que adormecesse para sempre, forçada a me largar, quem não a largou fui eu. Apaixonei-me pela sua serenidade que, às noites e às manhãs roubadas aos deveres, transfigurava-se em tentadora sensualidade.

Dama na sociedade, puta na cama, perdoem-me pela palavra que fielmente retrata do que se tratava. Talvez nem tão puta assim, mas era como eu a via e não julgava. Se ela não correspondesse, minha imaginação me levava para onde e com quem eu queria.

Um dia, foi-nos dado o diagnóstico da Besta Fera com que duelamos por alguns anos e para a qual perdemos nosso orgulho, nossos pudores e despudores. Na doença a vergonha desaparece e resta a rendição que sucede à autocomiseração. Rendidos, tudo se torna mais fácil. É só esperar pelo desfecho.

E passei a aguardar sem, contudo, querer apressar, a não ser nos momentos de desespero quando sentia que não aguentava mais de tanta reclamação. Não mais queria vê-la prostrada, já não queria tocá-la. Não queria sequer olhar para suas mãos de fada, para seu peito contraído ou para o seu rosto desfigurado.

Veio em nossa ajuda uma sua sobrinha. Moça discreta e piedosa que tomou seu espaço e cumpriu com seus deveres. Doce como a tia, silenciosa como uma lagoa calma de águas tépidas e cristalinas. Lagoa ao pé da montanha cujo cimo desaparece por entre altas nuvens altas e neves invernais. Paisagem confortante.

A participar do desfecho, a presença da menina sobrinha se fez mais forte. Menina moça, que em poucos meses se fez mulher sob nossas vistas e que, na manhã seguinte ao enterro de minha amada, despediu-se de mim chorando e se desculpando não posso continuar morando aqui, na casa de um viúvo. Bem que gostaria, mas minha mãe não me permitiria se viva fosse. Minha tia doente tudo justificava. Agora preciso ir, senão o que vão falar?

Os baques que suas palavras desfecharam em meu peito deixaram-me sem fôlego. Não. Não poderia deixá-la partir. Era muito cedo. Eu não sabia, como até agora não sei, viver só. Tanto nos debruçamos, eu e a inexperiente sobrinha, em função das necessidades de minha esposa, sua tia, que nem me dei conta de estar também doente. E do quanto agora eu precisaria ser tratado e cuidado por ela, uma meiga menina. Quem haveria de ter pensamentos impolutos sobre morar, tio adotivo e sobrinha no mesmo casarão em que suportamos tal tragédia?! Pessoas impuras!

Deixei-me cair sobre uma poltrona e lá passei o todo de quase um dia, imóvel, sem trocar palavra. Imagino que meu olhar atônito, esbugalhado, deve ter-lhe feito o insistente pedido de que não me largasse. Ao menos, não tão cedo, enquanto não me recompusesse. Supliquei-lhe, em meu silencio, que não se fosse, que aguentasse. Até que consegui falar de novo e aumentei-lhe o salário em três vezes.

Passei a observar, poucos dias depois, seus modos agora mais alegres e descontraídos até ouvi-la cantar distraída, enquanto cozinhava a minha comida. Na minha mente ainda turva pela dor, ganhou brilho um novo pensamento. E porque não conceder-lhe uma situação decente para que não tivesse pejo de ser tida, pela vizinhança, por qualquer? Morar em casa de viúvo era uma coisa. Casar-me com ela resgataria sua honra.

Não mais do que dois meses se passaram e lá estava eu deliciado com sua voz, com seu riso e sua graça, que até se assemelhava à tia, que era esguia, enquanto sobrinha roliça se fazia. Recobrava suas forças e suas cores, assim como eu recobrava vontades há anos perdidas. E se fossemos caminhar no parque? Mal não me faria. Sem deixar de venerar a falecida, a nova, em minha mente mais e mais presente se fazia.

Observei-a no banho ao ar livre, não totalmente protegida pelas tábuas que o chuveiro circundava. Via-a pendurar no varal seus paninhos alvos, que coletaram seu sangue menstrual. Quão caprichosa ela era, em sua higiene pessoal. Um anjo, aquela menina. Passava sabonete por todas suas entrâncias e reentrâncias, sem deixar de tratar bem e democraticamente qualquer centímetro de seu corpo ágil.

Cabelos longos escorridos, molhados e perfumados, pele fresca e pés descalços, menina sobrinha corria com suas saias esvoaçantes pelo gramado e sua inocência por vezes permitia-me vislumbrar seu traseiro, que portava uma calcinha de algodão enfiada no rego. Quando flagrava meu olhar, sorria, me acenava. E corria.

Despertei certa manhã com a consciência de uma nova descoberta. Então, ela me tinha por viúvo. Vira-me como homem! Não mais somente um velho senhor alquebrado, um tio por afinidade, com quem nem se pensa em travar intimidade. E se assim a mim considerara, passei a considerá-la, também. Não mais menina gazela, mas vibrante jovenzinha, por certo detentora de segredos feminis que ela ainda, e com certeza eu, desconhecia.

Minha macheza, depois de anos adormecida, passou a importunar-me cedo, às horas matutinas. E bem acordadas, embaladas não mais por sutilezas de suave romance correspondido, mas por imagens tórridas de sexo incestuoso, selvagem, imperioso, penetrante e transbordante. Pura lascívia, gostei disso que antes lera, mas não sentira. Eu, velho viúvo desgastado, pronto para refazer a vida.

Passei a segui-la amiúde. Em casa. Pelas ruas. Inventei-lhe mais trabalho para que não saísse de perto. E corroí-me em ciúmes de amantes que, com maldades mil lhe atribuía. Resmunguei de tarefas não tão bem feitas, inventava eu, só para assistir o tremor de seus lábios carnudos e rosados. E suas pestanas baixadas, também umedecidas, modos de virgem aguardando ser inaugurada.

Ela corava e me provocava, com poses de devassa e ares traquinas. Fazia e ria. Ria e fazia. Permitiu-me cuidar de seu sono à luz da lua, mas sem tocá-la. Disse ter cócegas, quando em brincadeiras a relava. Brincamos, bem sei, de mão boba. Mãos de vontades próprias, que experimentavam aqui e ali o calor, a maciez e a dureza de algumas partes. Seus gritinhos e escapadelas fizeram-me perder o juízo. Deixou cair toalha no pós-banho e foi ao mato fazer necessidades sem se esconder direito.

Enquanto eu enlouquecia, ofereci-lhe frutas e biscoitos. Uvas geladas, bananas e, na temporada certa, figos doces, de lamber os beiços e gemer de prazer. Sem nenhum suspiro, lançando-me setas com olhar profundo, timidamente, me pedia posso me servir de mais um? Claro filha, lhe dizia, pega, pega, sirva-se de quantos quiser e couber. Caberia eu, um dia, dentro dela?! Essa pergunta me torturava.

Fitando-me com seus olhos negros, fincava seus dentinhos brancos pontiagudos, chupando o polegar e permitindo-me entrever sua linguinha inquieta, tateando cada fruta, enquanto extraía o néctar das carnes vegetais, me instigando a submetê-la a mim, ali e naquela hora, com a força de todo o meu ser e, assim fiquei. De quatro por aquela que eu queria de quatro para mim.

Desejei ser um pêssego, manga ou figo, não importa, para ser tragado por aquela boca e ser todo lambido, sorvido de fio a pavio, sentir-me revirado e conduzido para o mais íntimo do seu ser. Queria penetrá-la por todos os poros, buracos e que tais. Derreter-me em sua boca, percorrer seus intestinos, mas só depois de habitar seu ventre, dentro ou fora, todos os dias, o tempo todo. Queria fazer parte dela.

Reprimendas e elogios se sucediam, mas ela permanecia. Ora fazendo biquinho, ora beicinho. Ofegante, oferecida e provocante, por vezes recatada e bobinha. Foi ficando, ficando e meu corpo passou a exigir o seu, com voracidade e destemor, mas sem deixar de ser cavalheiro, que assim eu sou. Até que me enchi de coragem e fiz a proposta case-se comigo. Ela sorriu, sem suspirar e respondeu por quanto?

Pensei que falasse em tempo, até quando desfrutaríamos da nossa amizade eivada, reconheço e confesso, de desejos imperiosos e tamanhos. Mas não. Falou foi de dinheiro mesmo, esfregando seus marotos dedinhos indicadores contra os polegares, dando-me uma piscadela e um largo sorriso. Chocado, fiquei ainda mais eriçado e, com isso, um tanto agressivo e arrogante, fora do meu feitio. O que você pretende de mim?!

Sua aposentadoria. Você não é ex-Banco do Brasil?

Pensem o que quiserem. Ao vê-la esfregar seus ágeis dedinhos, menina me engoliu.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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