Ana Fraiman, psicóloga. SP, 2017.

Alzheimer
Alzheimer | Imagem: Pixabay

  1. Fazer perguntas simples e, uma de cada vez.

O pensamento comum é muito veloz. Especialmente para quem está habituado a resolver muitas coisas num pequeno espaço de treino. Para quem tem alzheimer, o pensamento se processa de forma muito mais lenta e, por vezes se interrompe a meio caminho.

Para quem já pensou nalguma coisa que precisa ser feita ou resolvida, a resposta aparece de imediato ou demora muito pouco para se revelar a nossa mente.

Para o doente, porém, ele pode estar ouvindo a coisa pela primeira vez ou já ter-se esquecido de como se resolve algo. Ao pedir alguma coisa, perguntar ou orientar, faça tudo isso, mas em menor velocidade e uma coisa de cada vez. Passo a passo. E, se precisar, mostre, escreva ou desenhe.

Pergunte à pessoa se ela entendeu e peça-lhe para dizer o que ela entendeu. Isso, porém, não garante que ela vai se lembrar, rigorosamente e vai saber o que, como e em que hora fazer.

  1. Facilitar as escolhas.

Antecipe-se às necessidades da pessoa. Tenha em mente que escolher é um processo bastante complexo e que, dependendo do estágio de desenvolvimento da doença, o simples fato dela precisar escolher pode causar-lhe muita ansiedade. Ler um cardápio, por exemplo, pode se mostrar uma tarefa muito além de suas capacidades atuais.

O mesmo em relação a escolher a roupa que deverá usar. Levamos muitos anos até aprender o que vestir – inclusive em termos de adequação e significados – o que combina com o que, como prever do que se vai necessitar, que temperatura se haverá de enfrentar. Além disso, pode-se perder a ordem do que vestir primeiro.

Apresente, portanto, não mais do que duas coisas ou opções de escolha. Poderá lhe dar mais trabalho, mas será mais eficaz e nenhum dos dois terá com o que se frustrar demais.

  1. Não discuta.

A capacidade de argumentação estará muito diminuída. Discutir, além de complicar, gera um clima tenso e pesado. Argumente e, se preciso, assuma o comando.

Diga que sim ou diga que não. Em relação a tomar a medicação, crie um ritual para que a pessoa se habitue a toma-la sempre no mesmo horário e, de preferência, sempre no mesmo local da casa.

A associação de ideias e a regularidade das situações favorece a obediência e a disciplina. Há momentos em que é preciso, sim, dar uma ordem, ou inibir um comportamento muito inadequado. Nesta hora, tire a pessoa da situação. Dificilmente você conseguirá fazê-la mudar de ideia.

  1. Não ralhe, não humilhe, nâo ria da pessoa.

A pessoa doente não se dá conta de estar fazendo as coisas de forma errada, nem de que não estão à contento. A capacidade de avaliação é falha: na preparação, na execução e na avaliação.

Leva-se décadas para que se aprenda o passo a passo da excelência em qualquer gesto ou função. E existe gente muito boa que também não chega lá. O senso crítico da pessoa doente está bastante diminuído e pode ter, inclusive desaparecido.

Se você se sentir muito irritado / a com a pessoa, afaste-se. Ou refaça o que precisa ser feito, incluindo-a neste segundo momento. Façam junto. A energia gasta para corrigir, o tempo dispendido e o trabalho serão o mesmo.

Quanto a rir, convide-a a rir junto, daquilo que não deu certo, que não ficou bom e até mesmo, rir de si própria. Ela vai aceitar tudo, desde que seja alvo da sua bondade e atenção.

E, se ela fizer algo realmente indevido, como tirar a roupa em público ou falar, fazer coisas grosseiras, lembre-se: se ela tivesse opção, ela não o faria. Não se sinta você, envergonhado por ela. Doença é doença e não se deve sentir vergonha a este respeito. Simplesmente, se houver alguém junto, sorria gentilmente, pegue a pessoa doente pelo braço e conduza-a para uma situação mais segura.

  1. Repita a sua resposta até quando for necessário.

Algumas vezes a pessoa pergunta porque ela realmente quer saber e não gravou a sua resposta. Algumas vezes, perguntar será um jogo que ela vai fazer. Uma conversa a toa, sem maior significado.

Em vez de demonstrar sua impaciência – porque esse tipo de coisa traz consigo um grande potencial de irritação. Comece a cantar ou mude de assunto. Conte-lhe uma história.

Quando uma pessoa com alzheimer insiste demais em perguntar sobre algum assunto e o faz da mesma maneira, ou ela está precisando de atenção, ou simplesmente está falando consigo própria e nem precisa ou vir sua resposta.

Nem tudo faz sentido em nossa fala comum. Há quem cantarole – há quem balance os pés, há quem fique dedilhando sobre a mesa, provocando um barulhinho chato para quem está ouvindo. Perguntar, perguntar e perguntar, pode preencher um vazio de sons que a pessoa tenha dentro de si. Pode ser por mera distração.

  1. Não fale da pessoa na frente dela.

Ser tratada na terceira pessoa é muito desagradável. Esta é uma forma de qualificar quem quer que seja. Só deveríamos fazer isso ao apresentar alguém para alguém, para tratar com respeito e cerimônia um palestrante, uma autoridade.

De resto, falar de alguém ou com alguém na terceira pessoa é desqualifica-la. Crianças, desde pequenas, adolescentes e, mesmo adultos, quando se fala deles e do que eles são capazes, ficam encabuladas e irritadas. Quando um médico fala da pessoa na frente de familiares, sem incluir um doente na conversa, o doente se sentirá menosprezado.

Não se fala da pessoa em sua presença, nem quando ela está em coma. O respeito é mais do que uma obrigação, especialmente em se tratando de vulneráveis. A pessoa, mesmo que não entenda as palavras, entenderá seu significado e poderá captar aquilo que se diz com muito mais sensibilidade de que o comum.

  1. Não diga “já falei mil vezes”.

Caso você não tenha tempo para ajudá-la a lembrar, dar-lhe pistas ou repetir a coisa até que ela compreenda e assimile, ao menos naquela hora, simplesmente repita. Pior ainda, se você começar a repreendê-la em público.

É óbvio que, quem cuida ‘não tem toda paciência do mundo’. Mas isso não lhe dá o direito de desfazer da pessoa doente, usar de modos rudes ou gritar com ela. Inclusive porque, qualquer pessoa, doente ou não, reage muito mais aos efeitos emocionais dos gritos e da estupidez com que é tratada, do que ao conteúdo daquilo que lhe está sendo dito.

Se para você é difícil se conter, imagine para a pessoa que está sob seus cuidados. Não a ameace, nem a amedronte. Caso você esteja sob alto estresse, trate-se. Respire fundo e faça algo diferente de ‘tratar o outro como seu saco de pancadas’.

  1. Mude seu foco: daquilo que a pessoa não consegue fazer para aquilo que ela é capaz de fazer.

A confiança em si e no outro nasce e se sustenta na medida em que as pessoas se sentem reconhecidas e valorizadas em seus atributos.

O alzheimer é uma doença que tem sérios efeitos morais. Tanto no que diz respeito ao abatimento, como na autoimagem e autoestima. Não é nada fácil ir-se apercebendo da crescente incapacidade de dar conta daquilo que um dia se fez com a maior tranquilidade.

Desde vestir uma camisa com botão, amarrar o cadarço ou pentear o cabelo, estas são ações que requerem perspicácia e capacidade motora global e específica. A desorientação toma conta e a pessoa entra em ansiedade, o que piora tudo.

Seja o que for que ela ainda faça, bem feito ou não tão bem feito, reconheça seus méritos. E, também, suas tentativas. Ela estará procurando preservar ao máximo sua independência e autonomia. Errar faz parte e sempre fez.

Porque elogiarmos o aprendizado das crianças e atacarmos uma pessoa que está desaprendendo e errando tanto quanto? A mesma alegria e gentileza com que estimulamos aqueles que querem aprender, devem contemplar aqueles que estão ‘fazendo a seu modo’, insistindo em ainda fazer.

Além disso, aprenda que o seu próprio modo, não necessariamente, é o único nem o melhor modo. Quando uma pessoa está doente, ela se conduzirá diferente. Ninguém permanece o mesmo, quando uma doença tão grave se instala em sua vida. Então, modere suas expectativas e acompanhe a pessoa no que ela é capaz.

  1. Celebre o bom.

Mas não imponha o que é bom para você e, não necessariamente é bom para uma pessoa mais fraca e doente.

Festas ruidosas. Passeios muito prolongados. Bebida alcoólica, nem pensar. Os passeios que são bons para crianças não são os mesmos que para os adolescentes, que não são os mesmo para os adultos e assim, até a alta velhice.

Pessoas mais velhas e que estão com a saúde física e mental já comprometidas, com certeza sofrerão abalos na sua saúde social, na sua capacidade e interesse nos relacionamentos. Quem dirá nas atividades.

Embora elas necessitem de contato humano e, mesmo, com animais, especialmente com os de estimação, elas não aguentam o mesmo tipo de contato, nem em intensidade, nem em duração. Ruídos lhe farão mal. Temperaturas muito altas ou baixas. A pessoa doente está muito mais sensível que em seu estado comum de ser e de agir.

Coloque-a a par de tudo aquilo que tem sido decidido e que lhe diz respeito. Mudanças, contratos, aplicações financeiras, viagens e, disposição de seus bens. Mesmo que a pessoa não entenda e não mais seja capaz de tomar decisões, poderá – talvez – ainda dar um palpite – e dizer o que pretende para si. No mínimo ela sentirá que está sendo tratada com dignidade e alta consideração.

  1. Quando não tiver o que dizer, simplesmente abrace.

Você já reparou que pessoas de mais idade, especialmente as que estão severamente doentes não têm quem as abrace com sinceridade?

Da mesma forma como o abraço e um murmúrio doce asseguram serenidade para um bebê assustado, confortam profundamente os idosos demenciados. Você pode acolher a pessoa em seus braços. Ou colocar sua cabeça sobre a cama em que a pessoa repousa e pedir-lhe carinho.

Mesmo que ela nem se mexa, conecte seu coração com o coração da pessoa e, tal como faria com um serzinho inocente, diga-lhe – com sua presença e seu afeto – de seu amor por ela. Nem é preciso conhece-la. Basta você sentir-se ao lado e com um ser humano altamente vulnerável e desassossegado, sentindo um mundo em seu redor, que não consegue mais decifrar.

Essa pessoa também já poderá estar desconectada deste mundo. Mas seu corpo vive e está presente. O corpo é, todo ele, muito inteligente. O corpo capta as mais sutis vibrações do ambiente e das pessoas que estão em seu campo.

Permaneça você presente e admita que a pessoa não responde mais como um dia o fez. Ela não tem mais com o que retribuir, mas saberá que você está com ela e, de alguma forma, por um suspiro ou um leve gesto, poderá lhe agradecer.

Minutos e, mesmo horas passam céleres, quando as pessoas vibram na energia do amor. A linguagem do amor nunca se perde nos silêncios e ausências. Simplesmente, conecte-se e terá sido um grande e feliz encontro.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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