Por Ana Fraiman, abril de 2016.

Continuação do Artigo Idosos Órfãos de Filhos Vivos – Os novos desvalidos.

Pais desvalidos

Pais desvalidos

Este estilo de vida, nos dias comuns, que não inclui conversa amena e exclui a ‘presença a troco de nada, só para ficar junto’, dificulta ou, mesmo, impede o compartilhar de valores e interesses por parte dos membros de uma família na atualidade, resulta de uma cultura baseada na afirmação das individualidades e na política familiar focada nos mais jovens, nos que tomam decisões ego-centradas e na alta velocidade: tudo muito veloz, tudo fugaz, tudo incerto e instável. Vida líquida, como diz Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. Instalou-se e aprofundou-se nos pais, nem tão velhos assim, o sentimento de abandono. E de desespero. O universo de relacionamento nas sociedades líquidas assegura a insegurança permanente e monta uma armadilha em que redes sociais são suficientes para gerar controle e sentimento de pertença. Não passam, porém de ilusões que mascaram as distâncias interpessoais que se acentuam e que esvaziam de afeto, mesmo aquelas que são primordiais: entre pais e filhos e entre irmãos.

O desespero calado dos pais desvalidos, órfãos de quem lhes asseguraria conforto emocional e, quiçá material, não faz parte de uma genuína renúncia da parte destes pais, que ‘não querem incomodar ninguém’, uma falsa racionalidade – e é para isso que se prestam as racionalizações – que abala a saúde, a segurança pessoal, o senso de pertença. É do medo de perder o pouco que seus filhos lhes concedem em termos de atenção e presença afetuosa. O primado da ‘falta de tempo’ torna muito difícil viver um dia a dia em que a pessoa está sujeita ao pânico de não ter com quem contar.

Disso sabem as mulheres cujo ex-marido abandonou os filhos do casal, as mulheres sobrecarregadas pelos afazeres que lhes pesam nos ombros pelas frequentes ausências de seus bem sucedidos maridos, os quais garantem alto padrão de vida, porém baixa quantidade e qualidade de relacionamento conjugal e familiar. Sabem, também, as mulheres que se afirmaram longe de suas famílias, em busca de uma carreira brilhante e que não tiveram filhos. Como se tê-los fosse garantia de não estarem sozinhas em momentos importantes de suas vidas.

Chama atenção que os aposentados se ressentem por não se sentirem mais úteis. Não falam em solidariedade, mas em utilidade, de significado intrinsicamente ligado à produtividade. O sucesso da atividade útil é mensurado pelo que as pessoas fazem e possuem e, não pelo que são, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos interpessoais. Dificilmente uma pessoa terá seu valor reconhecido se não for através da qualidade dos relacionamentos que tem com a família, com a sociedade e o mundo.

É o olhar do outro que afirma o ser. Até mesmo o mendigo, o morador de rua mais maltrapilho, será bem visto, caso alimente um cachorro que o acompanhe. O ser humano é, por excelência, um ser de relações. De nada vale aos filhos, quando os pais cobrem-nos de presentes materiais, mas descuidam de dar-lhes sua presença autêntica. Filhos apreciam o conforto e os bens que seus pais lhes propiciam, mas entre o partilhar experiências e ganhar tudo que se deseja, os filhos sempre elegem a presença dos seus próprios pais.

A necessidade da presença do outro na vida de relacionamentos é crucial. Presença atenta e, em sendo possível, amorosa. Se desejarmos ferir profundamente a alma de uma criança, basta ignorá-la. Ignorar, ironizar, desdenhar é um trio maldito de forças de ataque a qualquer ego, da infância à alta velhice. Começamos por apontar as necessidades básicas da infância. A verdade é que esta necessidade, de fundo cognitivo e emocional, é permanente ao longo da vida, mesmo que as distrações aconteçam.

Crianças apartadas sem contato afetivo, sem presença nem conversa, podem resultar hipodotadas no futuro. E não se sabe o que é pior: tornar-se um adulto funcionalmente comprometido ou sem a menor capacidade empática. O contato humano, desde a mais tenra infância é primordial para a aprendizagem das habilidades sociais e aquisição de valores nobres, de caráter e de comportamento moral. O mesmo é válido para idosos excluídos da sociedade maior e, principalmente apartados do convívio com seus familiares.

Por mais que se adote uma família de afeto, constituída por amigos leais, não somente pelos conhecidos sociais, as pessoas de mais idade que não podem contar com a proximidade física e emocional de quem lhes dê presença, são muito mais vulneráveis a doenças, estresses e, mesmo depressão. A filha de uma senhora a quem atendi por alguns meses contou-nos, com muito pesar, ter-se dado conta de ser a única pessoa da família a abraçava. Sua irmã não tinha a menor afinidade com ela. Seus irmãos passaram a trabalhar e residir no exterior. Suas tias, irmãs da senhora sua mãe, haviam falecido todas nos últimos dois anos. Era na residência de longa permanência que, vez por outra, era abraçada pelas atendentes. Gente estranha que tocava seus ombros e cabelos, passava creme nutritivo em suas costas, pernas e braços. Consequência: sua mãe havia emprestado seu cartão de crédito, claro que com senha e tudo, a uma manicure que quinzenalmente afagava suas mãos e dizia-lhe como ela era linda e querida. Em menos de 40 dias sua conta poupança fora zerada e a manicure sumida.

Leia o Artigo Completo: Idosos órfãos de filhos vivos – os novos desvalidos

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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