Seja justo, ponha a mão na consciência

O que é consciência?

O que quer dizer “por a mão na consciência”? O que é consciência? Do que é feita a consciência, sua substância? É algo real, concreto, que se possa tocar com as mãos...??

*Por Ana Fraiman

O que é consciência?
(Imagem: Pixabay | O que é consciência?)

Podemos dizer que a consciência é feita de experiência. De muitas experiências sobre as quais se reflete e se tece um significado, uma aprendizagem. Ainda que intangível é palpável, pelo tato profundo da sensibilidade.

Não se trata de uma aprendizagem horizontal, em que se acresce mais um dado àqueles já sabidos, uma variação que enriquece o conhecimento a respeito de alguma coisa, mas não muda a nossa percepção sobre a coisa.

Trata-se de uma aprendizagem vertical, em profundidade, que transforma a visão que temos: da coisa, de nós mesmos e nossas capacidades e da nossa relação com a coisa.

Algumas experiências são repetitivas e nada acrescentam àquilo que já sabemos, nada acrescem à consciência. Outras, são transformadoras e atingem os nossos saberes mais profundos, fazendo com que a nossa visão se amplie e que a nossa consciência se ilumine. São experiências reveladoras, possíveis somente porque a elas se aplicou a capacidade de reflexão, que propicia o autoconhecimento.

Então, a consciência ganha corpo conforme refletimos sobre nossas experiências vividas e concretamente aprendidas pelos nossos sentidos, até um ponto em que, já pela força e luz adquiridas neste processo de evolução, começamos a poder dispensar a experiência concreta e nos basear na experiência simbolizada. Esta, tão real quanto aquela.

Em outras palavras, se num primeiro momento evolutivo precisamos da experiência sentida na própria pele, num segundo momento, a partir da sua própria força, a consciência se expande e evolui tendo por base experiências refletidas e/ou intuídas.

Neste momento e só neste momento é que nos tornamos habilitados a adentrar o universo da compaixão, verdadeiro sentimento e escopo da consciência social. Mas, vamos por partes.

Num primeiro nível é preciso viver, em profundidade, nossos laços de dependência.

É como se falássemos de um primeiro patamar da consciência, que se funda na experiência de sermos frágeis e necessitados, dependentes dos cuidados de outrem.

Na infância este é o nosso estado natural de ser, física-psicológica e socialmente falando e, é aqui que vivenciamos a profunda necessidade de sermos nutridos, cuidados e orientados.

Enxergamos o mundo pelos olhos de nossa mãe e desenvolvemos nossa auto-estima segundo ela nos toca. Com meiguice e firmeza, experiências necessárias para nos dar as bases para nos sentir aceitos e queridos,  para que saibamos e arrisquemos confiar.

Neste primeiro patamar da nossa consciência a nossa dependência e fragilidade nos conduzem diretamente à aprendizagem da aceitação pelo outro e confiança no outro.

No segundo nível é preciso viver a experiência de explorar o ambiente, possuir e trocar. É o triunfo da conquista e da aprendizagem do movimento de ter e reter ou perder e entregar. Sem saber o que nos pertence, ou não, vamos testando o mundo e formando a ideia de que, aquilo que está à nossa volta nos pertence e que, se quisermos conservar, precisamos aprender a defender as nossas posses e dominar nossos impulsos.

É o tempo de tomar consciência sobre aquilo que nos pertence por direito e aqui, praticamente, tudo passa a ser de nosso direito. Sobre quase tudo,  também, passamos a sentir obrigações.

Consciência da Responsabilidade

Trata-se da consciência da responsabilidade baseada no sentimento de posse e domínio e, na percepção daquilo que é pessoal e/ou coletivo. Para isso a linguagem nos fornece os pronomes e advérbios de posse: meu, teu, deles ou nossos.

Estabelece-se a noção do “comum a todos” e se instala a nossa obrigação para com o bem conquistado ou recebido.

No terceiro nível nos sentimos impelidos a assumir maiores responsabilidades, agora não sobre coisas e tarefas, mas sobre pessoas e, passamos a desejar ter nossos próprios filhos.

Sentimo-nos seguros de nós mesmos, o suficiente para acreditar que daremos conta de fazer grandes sacrifícios pessoais e sentirmo-nos felizes e enaltecidos com isso.

Há os que geram seus próprios filhos. Há os que desenvolvem trabalhos e ações que haverão de influir na vida alheia.

Aqui observamos o fascínio que a liderança exerce, na medida em que o “status” de líder nos confere todo o prestígio e o poder de exercer a influência a que tanto aspiramos. Na forma ativa, como condutores do processo. Na forma passiva, como seguidores leais de uma liderança forte com que nos identificamos.

Competindo aberta, ou veladamente, com os nossos pais, buscamos, através do exercício da “maternagem” ou “paternagem”, corrigir e aperfeiçoar aquilo que acreditamos estar errado conosco e em nossa educação.

Filhos e família formam, então, um excelente palco para a aprendizagem da consciência da autoridade e do poder de mando e influência, bem como para os primeiros ensaios de aprender a amar com desvelo e total dedicação.

Consciência da Autoridade e do Poder

É com a experiência de fazer filhos de carne e osso ou através do trabalho, que desenvolvemos a consciência de que alguém mais tem tanto valor quanto nós mesmos e passamos a prestar atenção nesse outro, por quem – se necessário – daríamos a nossa própria vida, com sentimento de honra por fazê-lo, transformando o sacrifício pessoal em sacro-ofício.

Fica claro, então, que são os nossos filhos que, moralmente, nos ajudam a construir a consciência do valor alheio e a nossa vida se preenche de maiores e mais profundos significados.

Consciência Social

Contudo, não é neste patamar que a nossa consciência social já está construída. Aqui ainda temos a impressão de que nossos familiares nos pertencem e que, estando bem conosco, as coisas que não estão bem com outros não nos incomodam mais do que racionalmente seria de se esperar.

Podemos dizer boas palavras, palavras consoladoras, fazer discursos e escrever livros inspiradores, mas a nossa ligação básica é para com os “nossos”, pouco importando como os outros vivem, se para nós as coisas estiverem bem.

Neste patamar o risco é de, em vez de evoluir, estacionar e nutrir sentimentos de pena e culpa e perpetuar a pobreza psico-espiritual em que temos pena dos menos favorecidos e culpa de ser bem nascido, de ser privilegiado ou não fazer aquilo que é esperado.

Se participarmos de ações sociais, neste patamar iremos adotar um grupo qualquer como propriedade nossa ( “meus velhinhos”, “minhas crianças”, “os doentes que dependem só de mim” ) e ter uma falsa noção do que é caridade: “tirar dos ricos para dar  aos pobres e necessitados”, “sentir pena dos outros” e “sofrer com eles” , “não dormir direito por causa dos problemas a serem enfrentados”, ser infeliz e “revoltado com este mundo em que se vive”. Da mesma forma, ingenuamente, acreditar que, “se formos bonzinhos, seremos poupados”.

Neste nível de consciência ainda somos movidos por prêmios e castigos, atuando facilmente como sedutores e sendo manipulados. As relações refletem o movimento de uma gangorra, em que hora estão uns por cima e noutra por baixo.

É o nível das desigualdades, onde se aprende, basicamente, o apego e desapego do poder.

No quarto nível, que é o intuitivo, a consciência agrega o senso estético, aprende a enxergar além das convenções e ver o feio no bonito e o bonito no feio.

Consciência Intuitiva

A consciência intuitiva opera no mundo das artes, com liberdade para criar e antecipar mudanças, sem preocupação de acertar ou agradar. Transpõe barreiras de culturas e sistemas de pensamento.

É aqui, na verdade, que a cultura se expressa e se recria, pois a arte é simbólica e afetiva por natureza.

A consciência intuitiva se apóia num juízo estético que expressa um profundo sentimento de satisfação, universalmente válido, o que significa que é – igualmente – universalmente comunicável e livre dos determinismos, preconceitos e condições particulares que separam povos, mundos e nações.

Neste patamar estético, a pessoa vive a liberdade, sua e alheia, das coerções comuns que travam o fluxo de suas faculdades mentais.

É onde o ser humano aprende a se comunicar e a descobrir o que tem em comum com os demais seres e com a própria natureza. São as bases da diferenciação, não só entre o agradável e o belo, mas entre o público e o privado.

O privado da sensação particular, incomunicável de pessoa a pessoa e o público da discussão das sensibilidades e o respeito dos gostos. O público de uma comunidade de gostos que existe, enquanto se busca e se afina, enquanto se cultivam as divergências partilhadas.

Consciência Estética

A consciência estética, conforme evolui, é o cerne a partir do qual nasce a arte de se fazer política, pois não há política sem o conflito e a certeza de ser possível dialogar sobre aquilo que diverge e, exatamente, por isso é tão valioso e apreciável.

Fazer arte e criticá-la é o primeiro exercício  de participação política que empreendemos, espontaneamente, ainda na infância. Sem a dimensão estética, podemos afirmar que não evolui a própria ética.

Consciência Comunal

Conquistamos, pela arte, o quinto nível da evolução da consciência, que é o patamar da consciência comunal. Aqui não basta que esteja bom “para mim e para os meus”. Não basta que possamos compartilhar nossas experiências com os que se comunicam em busca de um acordo dialogado.

Há que se desenvolver o senso de pertença à comunidade humana como um todo, de fazermos parte da multidão.

Se, no patamar anterior a consciência, através das faculdades da imaginação, nos remete à liberdade sem fronteiras e ao nosso engrandecimento sem tamanho, perceber-se como parte ínfima da multidão requer o exercício dos aspectos mais elevados dos valores morais, porque a noção da pequenez particular é excepcionalmente ameaçadora e dolorosa para o ego pessoal.

Consideradas em separado, as pessoas que compõem a multidão são sem valor. As virtudes individuais não são e jamais serão suficientes para vencer o mundo de desafios à integridade da humanidade que é, simultaneamente, orientada para a paz e para a guerra, para a criação e para a destruição, para o sublime e para a degradação.

E, que virtudes são estas?

De acordo com André Comte – Sponville, citando Spinoza:

“é melhor ensinar as virtudes, do que condenar os vícios”.

Não se trata de dar lição de moral, mas de:

“ajudar cada um a se tornar seu próprio mestre, como convém. E seu único juiz. Com que objetivo? Para nos tornarmos mais humanos, mais doces e mais fortes”.

“Virtudes são nossos valores morais encarnados”.  São o poder, por exigência e excelência e, ainda que da esfera do intelecto, são expressões concretas, objetivamente vividas e percebidas, voluntariamente escolhidas e desenvolvidas mediante muita disciplina.

Não é possível ser livre sem desenvolver as próprias virtudes, através do fazer para aprender e do aprender a fazer. Trata-se de um trabalho árduo, pois nenhuma virtude é natural. É preciso que a pessoa torne-se virtuosa, o que só aparentemente é simples e fácil.

De início é preciso “imitar as maneiras das virtudes”, simulando-as e praticando-as, ainda que à contra gosto e, mesmo, não sabendo do seu significado. Somente depois de muita prática e rigor, pelo exemplo, ensino e orientação das famílias e nas famílias e escolas é que as virtudes tornam-se suficientemente atraentes, a ponto de motivar a nossa evolução.

Deste modo, primeiro os pais cuidam dos filhos e depois aprendem com a nova geração. Não é possível, portanto, aprender a ser um grande cidadão, se não soubermos o que significa: estabelecer laços de dependência, o reconhecimento e a defesa do território e posse, o valor sagrado da família, as necessidades de cuidar muito bem de tudo isso e as calamidades que advêm das negligências individuais.

Individualmente, porém, não conseguimos sustentar direitos, nem os naturais, nem os conquistados. Nenhum trabalho, por mais virtuoso que seja, é suficientemente bom e permanente, se não for integrado e internalizado pelas diferentes gerações, se não for aceito e apreciado pela multidão.

Aqui aprendemos que, é só na experiência da coletividade que cada fração de virtude, bem como de sabedoria prática, são todas agregadas e delas nos beneficiamos.

“No corpo da multidão são reunidos os maiores e mais sábios juízos, que nenhum de nós é capaz de desenvolver, quaisquer sejam as nossas elevadas faculdades morais e intelectuais”. Daí a veracidade dos que sustentam que “a voz do povo é a voz de D’us”, pois que a busca da perfeição se encontra no todo, na congregação.

Tornamo-nos, então, cidadãos, não somente por deveres e direitos, que os temos desde que nascemos até a nossa morte. Quer saibamos disto, ou não, a cidadania nos é garantida pelas leis, pela Constituição. Mas isto não basta. É preciso que nos tornemos cidadãos conscientes.

Consciência Religiosa

Neste quinto nível, mesmo num ateu, observa-se um viver religioso, norteado por convicções políticas democráticas e por princípios e ideais de liberdade. Enquanto o cidadão consciente vive segundo as leis dos homens, no próximo patamar, que é o sexto nível, a consciência religiosa agrega à cidadania consciente, a experiência de temer e obedecer.

Segundo Rabi Donim, o homem religioso faz quatro tipos de prece: a prece do pedido, a prece do agradecimento, o louvor e a introspecção ou confissão. Seja qual for, porém, “toda prece está destinada a ajudar-nos a convertermo-nos em seres humanos melhores”.

Enquanto no patamar anterior o homem que crê ainda busca rezar segundo os textos e escrituras milenares, neste novo patamar ele faz preces espontâneas, o que não é nada fácil, pois todos nos angustiamos com “o que dizer” e “como dizê-lo”.

Se antes acreditávamos que “o sentimento do outro pode suprir a nossa parte, agora compreendemos que toda pessoa tem os mesmos direitos e as mesmas obrigações de dirigir-se a D’us, e que fazê-lo diretamente pode resultar ser mais significativo do que fazê-lo através de representantes ou intercessores”.

Este patamar da consciência religiosa é, também, entendido como transcendental, pois tudo, “desde as mais simples necessidades materiais até as mais elevadas aspirações espirituais, transcende ao homem e chega ao infinito”.

Ao fazermos uma prece, buscamos a conexão com aquilo que a nossa consciência vigil não consegue abarcar e com Aquele que não podemos nominar. Para aqueles que ainda não rezam espontaneamente, a “estruturação de uma prece é destinada a expressar valores fundamentais: mútua responsabilidade e preocupação”, como os votos matrimoniais e os juramentos profissionais, bem como a sua ética.

São feitos declarações de comprometimento pessoal, que envolvem, tanto o assistir às necessidades alheias e os cultos que os demais professam, como participar, com envolvimento, das ações que dizem respeito ao coletivo.

É a intersecção daquilo que é público com aquilo que é privado. Aqui cabem os sentimentos puros de pudor ou de culpa real, sempre que o pessoal e o coletivo desrespeitarem as fronteiras, o que é promíscuo.

A promiscuidade é, então, entendida como ausência nefasta de limites precisos entre o público e o privado, entre aquilo que é puro e íntimo e o que é compartilhado sem pureza e sem cuidados.

Consciência Moral e Ética

Em termos práticos e voluntários, no entanto, os resultados conquistados pelas ações provocadas pelas necessidades da consciência moral e ética mais elevada, e os resultados conquistados pela virtude religiosa, são exatamente os mesmos.

A consciência pura e plena da cidadania  evolui a partir de um proceder baseado em valores morais, quando a ação é ditada pelo prazer em servir ao outro e sentimo-nos satisfeitos conosco por isso.

Baseado em valores éticos, de caráter, quando a ação é ditada pela responsabilidade a que somos chamados a obedecer e sentimo-nos realizados com isso.

Este proceder consciente evolui, ainda, baseado em valores religiosos quando a ação torna-se, ela própria, a nossa forma de expressar louvor e gratidão, sem maiores distinções entre “aquilo que é de cada homem e aquilo que acontece entre todos os homens”.

Aqui sabemos que, cada homem, independente de seus erros e acertos, de suas limitações ou brilhante genialidade, de suas ações perversas ou sua bondade, cada homem faz o que neste seu momento lhe é dado fazer de melhor.

A equidade e a compaixão nos permitem enxergar a profunda diferença entre a pessoa que erra e o seu erro, entre a pessoa que acerta e o seu sucesso, libertando-as do fardo das experiências de até então, aceitando-as como seres humanos livres para voltar a errar ou  acertar, pessoas que têm seus direitos e a quem devemos cobrar obrigações.

É a consciência do valor de cada ser humano que, enquanto ser em evolução, busca tornar-se exatamente isso, humano.  Ou entendemos, vez por todas, que todos temos valor ou ninguém de nós tem valor.

Essa é a consciência plena da cidadania: quando nossa consciência está ao alcance das nossas mãos, um modo de ser e de agir tão evoluído, puro e simples, em nossos gestos mais banais no cotidiano, que nem nos apercebemos disso.

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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Canivez, Patrice – “Educar o Cidadão ?” Ensaio e Textos, Papirus Editora.

Comte-Sponville, André – “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, Editora Martins Fontes.

SIDUR da Semana, tradução de  por Jairo Fridlin, de trechos do livro de orações e o culto na Sinagoga “Rezar como Judeu”, do Rabi Hayim Halevy Donim.

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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