Se não fosse para chorar, seria para rir.

Ana Fraiman, psicóloga (2017)

Demência
Imagem: Pixabay

PARA CHORAR

No exato dia em que você tomar conhecimento de que seu marido / esposa está com Alzheimer, o medo estará instalado na sua vida.

Embora você pudesse estar desconfiada / desconfiado, duas coisas haverão de acontecer:

  1. Muita coisa passará a fazer sentido;

  2. Muita coisa passará a não fazer sentido;

Em decorrência, você haverá de sentir insegurança, revolta e dor. Onde vai doer? No seu coração, na sua mente, na sua moral e no seu bolso. Talvez a dor no bolso se torne a pior delas. O conjunto da obra, porém, além de doloroso é pesado.

Portanto, sente-se e chore. Deite-se e chore. Caminhe e chore. A Escola da Vida haverá de cobrar muito de você e, sim, você estará sempre despreparada / despreparado para enfrentar isso. Chore muito e não se cobre tanto. Você vai aprender. Mas vai demorar.

Vai aprender a pedir – por ajuda – principalmente. E vai aprender a receber, sem se sentir um peso para os demais familiares, amigos, vizinhos e estranhos. Para conviver com um doente de Alzheimer em casa é preciso desenvolver muitas virtudes: humildade, paciência, bondade, abnegação e tantas outras.

Não é fácil entranhar estas virtudes no dia a dia. Fácil é falar sobre cada uma delas. Praticá-las é que são elas. De início, portanto, você vai errar muito. E vai sentir dó de você. E vai praguejar, também.

Com certeza, desejará nunca ter se casado com aquela pessoa. Desejará largar tudo e sumir. Desejará matá-la, também. Enquanto fizer seu caminho de Iluminação, entenda-se tornar-se uma pessoa melhor, será um erro pensar em ficar meditando e vendo coisas belas e cenas harmônicas dentro de si.

Você vai acertar ao decidir conhecer-se mais profundamente e enfrentar-se com seus demônios, respeitando-os, porque ninguém se supera sem autoconhecimento e disciplina, à exaustão.

Muito provavelmente, quando você já estiver ‘craque’, seu companheiro / companheira, terá morrido. E você quase não vai chorar, por que seus olhos terão secado e seu coração estará muito mais macio.

Me agrada lembrar de um casal em que, quando o médico sentenciou: Alzheimer. Eles se deram as mãos, olhos mareados, muito abalados, clima que desanuviou, quando ele soltou um bem colocado: - Sobrou pra você, né, querida?

PARA RIR

De acordo com Freud, precisamos compreender que os chistes nos colocam frente a frente com o nosso ID, a instância mais profunda, mais selvagem e indomável, quase insondável perfeita e maluca de cada um de nós.

E é exatamente assim, que através dos chistes, tão inocentes e engraçados, que o inconcebível e o desconhecido em nós, podem ser intuídos e, raramente, descortinados. E, no entanto, fazem todo sentido. Ele, o chiste, é tão engraçado por algumas razões:

1) Trata-se de uma fala espontânea e inesperada, que surge atravessando e implodindo o universo da organização e da previsibilidade humana.

2) Há sempre um elemento de verdade nesta resposta-surpresa, que nos desconcerta e que nos liberta.

3) São verdadeiros vertedouros de sabedoria. Praticamente improvisada e não acumulada.

4) O chiste é igualmente: interessante e preocupante. É o acabamento perfeito de uma discussão e, preocupante, por que pode dar azo a muito desentendimento, porque tira as pessoas da certeza de seus domínios e conhecimentos.

Deve haver outros motivos tão bons, profundos e ricos, como estes que acabo de apontar, mas me detenho por aqui, que já vai ser muito complexo me expressar com calma e, bom humor, sobre angústias que todos podemos enfrentar, antes de aprender a lidar e lidar bem, com elas.

Em breve direi algo sobre o poder libertador e desorientador-reorientador do riso, que nos salva do peso das vergonhas, culpas e humilhações, que nos cura a alma e nos aproxima da verdadeira saúde mental. Não necessariamente nos conduzindo à saúde familiar e social. Por que para muitas pessoas que nos são caras, brincar com o que é sério as ofende de morte.

Os chistes são inspiradores e quase se confundem com o cinismo. W. C. Fiels, ator americano, comediante, malabarista ... E alcoólatra. Certa vez ele disse: - "Eu bebia whisky com água e ficava bêbado; bebia bourbon com água e ficava bêbado; igual com o gin. Sabe o que aprendi? Permaneça afastado da água!"

Ele também dizia “Este mundo está se tornando tão perigoso, que um sujeito pode se dar por feliz se sair dele vivo”. Ele lia a Bíblia em busca de brechas. E afirmava ser um homem livre de qualquer preconceito: “Odeio todo mundo, indistintamente”. E provocava gargalhadas quando, em seus shows conjecturava: “Um homem que detesta crianças e cachorros não pode ser mau de todo”.

Ele e tantos outros showmen fazem sucesso exatamente porque desafiam a moral e os bons costumes. Pessoas confundem fazer coisas erradas e ser petulante o suficiente para dizer coisas erradas: aquilo que não se diz, nem para o travesseiro!

As autoridades insistem em ensinar coisas certas com palavras erradas. Em momento isso é mais prevalente do que com as crianças, aprendendo com seus pais sobre as coisas importantes da vida, como o Poder da Oração: "É melhor você rezar para esta mancha sair do tapete". Desenvolvendo o Pensamento Lógico, com o pai bravo: “É assim porque eu disse que é".

Os pais ensinam, principalmente, a Pensar Filosoficamente, sobre a Busca do Sentido, ameaçando: "Continue chorando, que eu te dou uns bons tapas e daí você vai ter bons motivos para chorar".

Os pais também educam baseados em fatos e realidades, sobre o Crescimento e Como Lidar com o Impossível: "Fecha essa boca e come a janta. Se você não comer, você não vai crescer". Além disso, os avós ensinam sobre a Virtude Cardeal da Perseverança: "Você vai ficar sentado olhando aí para o prato até que todo este espinafre tenha sumido". Ou sobre Exageros: “Já te disse um milhão de vezes para não exagerar!"

Mas o melhor de tudo é passar ensinamentos bíblicos sobre Justiça e Lançamento de Pragas: "Um dia você terá seus filhos e eles serão exatamente como você!"

Os principais elementos sobre verdades e realidades é que estes não se confirmam, mas acreditamos nelas, como se fossem imperativas para que bem viver. E muito. Daí que, além de hilárias e ridículas, em respeito ao que se sabe e se sustenta, acabamos por precisar nos tornar rebeldes. Senão, nos tornaremos velhos chatos.

E o que isso tem a ver com o doente de Alzheimer? Você não poderá exercer a sua autoridade ao mesmo modo como o fez em relação aos seus filhos. A primeira atitude a ser feita é conquistar a confiança daquele se tornará cada vez mais dependente e vulnerável.

Ele perderá lógica e insistirá – ad nauseam – em manter sua independência. A pessoa continuará a ser si própria, até que todas as suas forças e tentativas de autopreservação se esgotem. E você aprenderá a respeitá-la, senão a sua vida se tornará um verdadeiro inferno.

Não deixe de usufruir de tudo, mas de tudo aquilo que houver de bom entre vocês.

  • Riam. Riam muito. Brinquem como as crianças o fazem. As coisas não precisam fazer sentido o tempo todo.

  • Valham-se das artes, por exemplo: a pintura, o uso das cores, a dança e a música.

  • Cantem errado e desafinado. Façam coisas novas. Pare de corrigir tanto. Soltem-se na água da piscina, da chuva e no chuveiro. Tomem banho junto. Ensaboem as costas, um do outro. E não só as costas.

  • Toquem-se intimamente. Deem-se prazer. Façam certo, façam errado, não importa. Crianças são felizes mesmo quando as coisas não se encaixam como deveriam.

Quando as faculdades cognitivas se ausentam, a sensibilidade se revela a via preferencial de contato. A perda da memória não é o principal medidor do progresso da doença. A desorganização é. A desconexão é. Além do que, não existe a Doença, existe O Doente e, o percurso a ser trilhado será tão diverso, quanto a rica diversidade humana se mostra.

Para finalizar, considere que o Alzheimer é uma doença social e não individual como tem sido tratada. Isso é um grave erro. Afirmamos que o cuidador necessário e, praticamente exclusivo, fica tão ou mais doente. E o tratamento deverá contemplar a todos aqueles que mudaram seu rumo de vida para servir a um familiar que pode ser muito amado. Ou não.

O fato é que a pessoa doente precisa sentir-se amada. Mesmo que não o seja. Para ser gentil não é preciso amar. Para Amar Incondicionalmente é preciso, sobretudo amar-se e incluir-se no pacote de bondades que serão distribuídas.

Suspenda o julgamento sobre si, sobre o outro, sobre todos. Aí a possibilidade de ser feliz, mesmo tendo ‘trocado de marido / pai, irmão ou avô’, você se sentirá muito mais digno e o trabalho dispensado, o trato entre vocês ficará facilitado.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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