Muito a conversar

Um dia você acorda e se encara: “Quem é esse velho que me olha no espelho?” Seu nariz e suas orelhas cresceram. Há um a luminosidade clara em torno de sua cabeça.

Muito a conversar. Sem sogra, sem filhos, sem nada!
Imagem: Pixabay

Não, não se trata da aura, mas dos seus — remanescentes? — cabelos. Até seus dentes parecem maiores! E por mais que você “chupe” a barriga, ela não encolhe mais do que um tantinho. E, ainda, as custas de você perder o fôlego.

Seu filho não brinca mais de médico. Ele é médico. Sua filha discute abertamente com a mãe sobre métodos anticoncepcionais. E ainda descreve o quarto do motel que mais gosta. Você se sente aliviado. Ela lembra, sim, com quem esteve lá.

Você é que não se lembra do último dia em que acordou sem azia. Ou da última noite que passou em claro, por outros motivos que não preocupações...

Descobre em seu rosto pálido, não mais marcas de expressão, mas uma ruga funda, muito funda. Há quanto tempo formada?! Há anos, sim, você se olha sem se ver. E agora?

Quem é aquela senhora que fala, com tanta alegria, do desejo de ser avó? Com certeza tem pouco a ver com a menina com quem se casou. Ah! Doces erros da juventude... Mulher se casa achando que logo vai conseguir mudar seu marido. O homem, achando que ela não vai mudar nunca!

Roliça, menopausada, loira (ela não era castanha, antes?) e entusiasmada. Onde passa o seu tempo, enquanto você se mata no trabalho? Com que desenvoltura diz palavrões!

Admirável. Jovens e velhos, parece ter conversa com todos. Só perto de você é que tranca a cara. Por que? Quem é essa mulher chata e exigente que “vive no seu pé”? Se cruzasse com ela na rua, arriscaria um segundo olhar para o seu lado?

Você se olha fixo e mergulha naquela ruga funda do seu rosto, como se dobra do tempo fosse, e vai em busca de você. Encontra um menino perplexo, que se defronta com um senhor competente, poderoso, estável, experiente, honesto, confiável, que se esqueceu de como se ri à toa! Que acha divertido trabalhar, e trabalhoso se divertir.

É! Você não se vê bem! A quem procurar? Um clínico? O seu cardiologista? Um psiquiatra? Ou um... (argh!) geriatra? Concluí que, talvez, uma aventura-com- mulher-bem-mais-nova seja de “bom tamanho”. Com o Paulão deu certo. Mudar de vida, mudar de área. Mudar de esposa, de casa, de cara... Ah! Já sabe: vai procurar um cirurgião plástico. Começar de novo. Tomar chá de sumiço.

A vez da mulher

Um dia você acorda e se encara: “Quem é essa velha que me sorri no espelho?”. Seus lábios eram carnudos e vermelhos. Seus cabelos tinham brilho e balado. Seus olhos, maiores. E não havia aquele vinco a desenhar o contorno de suas faces, ligando o nariz à boca. Seus seios eram altos e firmes. Tão sensíveis e redondos...

Seu filho mora “de pensão”. Só porque trabalha muito, não lava nem o próprio copo. Tranca-se no quarto com as dez namoradas. Uma por vez. Ao menos isso. Sua filha quer fazer filho. E você está perdidamente apaixonada pelo bebé da sua empregada. E pelo papagaio Júnito. Até compreende e aceita melhor sua velha e invasiva mãe! Tsc, tsc, ela fez o que pode.

Frequenta grupos de terceira idade sem ter idade, ainda. Mas, é que... sobra tanto tempo sem ter o que fazer... Diploma, engavetado. Não, não se arrependeu. Sim. Talvez, um pouco. Agora essa pressa, para não cometer a mesma besteira. A ordem é aproveitar! Enquanto tem saúde e companheiro. Se bem que esse não e tão companheiro, assim. Ao menos “não pega no pé”. Não o tempo todo, como antes. Aliás, pensando bem, ultimamente não tem pego em nada. Há quantos meses? Dois? Três?

No que ele se tornou? Na verdade, nele mesmo. Sempre foi assim. Fechado. Tenso. Esquisito. Também, com a mãe que teve! Pior que a mãe, a irmã. O tipinho. Maldosa, edípica, intrometida. A própria vítima que nunca desistiu do irmão.

Com “essas”, na vida dele, quedam inacabados seus sonhos de mudança. Ele nunca aprendeu a dançar. Nunca lhe trouxe flores. Tem alergia a viagens! Igualzinho a quando se casou. Paciência, fazer o quê? E um bom homem, mais sereno, equilibrado, bom pai... Acha até que já “sossegou o pito”. Antes, lhe dava uns ciúmes...! Agora, quem pensa naquilo?

Aprendeu a falar besteira, a dar gargalhada na rua, tem até amigos gays. Bem moderna, só se sente pouco sozinha, meio desamada... Sonha com um Don Juan de Marco.

Por falar nisso, um dos amigos do filho e um perigo solto. Um deus! Que calorão! Menopausa ou tesão? Resolve ir a um ginecologista.

Ouvindo o especialista

O especialista, para ele: “O senhor está estressado. Melhor parar um pouco com tanta correria, responsabilidade... Pensar na aposentadoria. Curtir mais a casa, a esposa, viajar... A vida é uma só. Tira essas minhocas da cabeça. Tem uma esposa fabulosa. Volte a namorar com ela. Que tal? Viajar juntos, desfrutar...”.

O especialista, para ela: “Que o quê, casa e família. Já fez o que tinha que fazer. Sabe de uma coisa? Está na hora de assumir novas responsabilidades. Marido não é filho, não! Pegue umas amigas e saia de viagem. Sozinhas. Só mulheres. Fazer compras em shopping, sem culpa de gastar. Então, não ajudou a construir o patrimônio? Tem direito, sim senhora! Esqueça a cara feia dele, que isso não leva a nada. Homem e assim mesmo, nessa idade. Chato, emburrado. Eu também sou assim em casa. Liga, não. Passa. Logo passa. E, quem sabe, você poderia trabalhar?

Ele quer sumir. Ela quer sumir.

Ambos sonham em sumir. E, sumindo, quem sabe se encontrar de novo, lá longe, bem distante? Sem sogra, sem filhos, sem nada. Só com a cara, a coragem e a verdade. Dinheiro no bolso, olhos nos olhos, sorriso no coração: “Vem cá, meu bem, vamos conversar!”.

Ana Fraiman - Revista PHARMACIA - Janeiro 1997

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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