A sinceridade torna cada biografia um verdadeiro tratado de humanidades.

Mazelas
Imagem: Pixabay

Estou com 83 anos. Não sei se chegarei aos 84 e isso, de certo modo não é problema de meu interesse. Os médicos é que ficam procurando. Eles adoram encontrar doença. Querem logo tratar. Eles que tratem, então. Eu gosto é de viver a minha vida. Eles que fiquem preocupados. Eu fico com a saúde.

Não tem como. Quando chegar a minha hora, chegou. Meu compadre saiu do cardiologista feliz com o seu coração de jovem. Bateu com as botas às dez no dia seguinte. Infarto. A mulher acordou com ele lá, durinho na mesma cama. Esse daí é que soube morrer a Boa Morte. Eu não sei se vou saber.

Meu passado, com certeza foi muito mais emocionante que aquilo que antevejo para o meu futuro. Não que eu seja ou esteja deprimido. Minha vida é que está muito chata. Os dias passam sem maiores expectativas, não faço planos. Tudo muito uniforme. Nada de novo altera minha rotina. Três horas de novela todos os dias. Aquela gritaria. Só patifaria. Quem aguenta isso?!

Mulher e empregada tomam conta da televisão. E eu não gosto de assistir no quarto. Faço o que? Vou para o computador trocar fotos e filminhos com os amigos. Isso eu ainda gosto. De ver. Ao menos de vez em quando eu salvo um cinco a um. Ultimamente nem mais. Vou me desinteressando.

Eu achava uma graça danada, quando ouvia um velho dizer o dia em que eu não tiver mais o poder, peço a Deus que leve embora junto o meu querer. Pois então, estou sem querer. Um dos meus amigos, desolado, procurou uma sexóloga: - Doutora, disse ele, tenho dois problemas. E apontando para baixo completou: - Eu não durmo e ele não acorda. A gente morre de rir quando ele conta. O jeitão dele! Impagável.



Achou que ela daria um jeito. Tinha recebido indicação de outro amigo, que ela fazia terapia corporal. Contra ansiedade. Foi, levou até um pote de creme bom para contribuir. Contou que ficou lá parado em pé, no meio da sala, com o pote numa mão e o guarda chuva dependurado no braço, esperando pelos tais prazeres com os quais sonhara. Terapia? Corporal? Era do que estava precisando. E não foi nada disso. Pagou caro para sair ainda mais frustrado, levando consigo sua cara de tacho.

Nós rimos. Rimos muito daquilo que nos abate. A gente vive tirando sarro da própria cara e vai se consolando na roda de cerveja. Recordar é viver. O Carlão era o maior pegador. Agora está lá. Acenando com a cabeça que sim, que também está se dando mal. Um dos amigos desabafa: - Meu problema não é parar de fazer sexo. É esquecer como se faz! E a gente cai na gargalhada.

A gente tem vontade, mas alguma moça olha para algum de nós? Somos todos bons velhinhos. Inofensivos. A primeira vez em que uma moça cedeu seu lugar para mim no metrô tomei o maior susto. Quem?! Eu?! Virei velho fofinho. Faz pouco tempo. Quando me olhava no espelho eu não via a minha cara. Eu ainda era aquele. O de antes. Agora sabe o que eu faço? Não olho mais no espelho.

No meio dessas desditas chego a ficar entusiasmado quando saio do médico com uma nova receita que, ao menos, tenha trocado a cor da medicação prescrita. Sinto-me excitado será que não vou me confundir por inteiro?

Dúvida ou insegurança, não importa. Isso dá tema de conversa e de algumas risadas entre nós. Todos nos confundimos e montamos uma CCC - Comunidade de Confusos Conscientes, o que não nos faz, em absoluto, controláveis. Muito menos confiáveis, porque vivemos atrás de uma oportunidade em que o tempo se dobre para dentro e nos traga de volta as delícias de que desfrutamos um dia.

Vivemos feito cachorro correndo atrás do próprio rabo. Vai pegar nunca! Hoje, é uma porcaria. Ninguém se orgulha de ter ficado mais sábio. Nós nos orgulhávamos da nossa carreira. E da nossa paudurescência, isso sim!

As mulheres é que têm essas manhas de terem ficado mais sábias e pacientes. Bem, umas. Porque a maioria ficou é mais carrancuda. Autoritária. Insuportáveis, elas. E já não tiram mais as barbas do queixo. Nem as calosidades dos pés. Sabe o que? Elas ainda se orgulham disso. Das megeras em que se tornaram.

Bem fazem os filhos que aparecem uma vez por semana, quando vêm. Comem e logo se mandam. Eu iria junto de bom grado. Eles é que não me levam.

Só nós, os muito idosos, temos coragem para confessar esses pequenos pecadinhos da vida diária, essa canalhice toda e eleger uma ida ao banheiro, ou uma preferência qualquer, por esdrúxula que seja, tema relevante para ser contado, analisado e amenizado. Isso acontece é o veredito final.

A esposa de um tomou três drágeas de Remynil por distração. Oba! Deu hospitalização. Passou seis horas no PS tomando soro para desentuxicar. O marido de outra se esquece de tomar o Rivotril e não dorme direito noite após noite. Mais uma reclamação de peso! Peso pesado, porque ele se joga na cama e ronca feito motosserra, dormindo de atravessado. Quando joga o braço para o lado é no estômago dela que o punho aterrissa. É, ele se debate muito. Ela deve saber por que apanha. Dormindo, o desgramado não assume que está é sentando umas porradas bem sentadas. Todos nós gostaríamos de desfechar umas boas nas caras delas, mas a gente não tem a coragem dele.

Eu me divirto muito com os amigos. Tudo velho. Nem sombra do que fomos um dia. É até covardia fazer comparação. Por causa disso eu não gosto de álbum de fotografia, nem filme de família. Quando vejo um eu ainda penso: - Puxa vida, nesse dia eu saí com a fulaninha. Cheguei atrasado. Reunião de negócios! Que negócios, que nada. Bem, até era, ela com o dela e eu com o meu. Eu babo, sabia? Eu babo nessas lembranças todas.

Uma das nossas amigas, essa sim, é porreta. Viúva de um dos nossos. Anda reclamando que estão demorando demais para marcar cirurgia. Oito meses! Oito meses desde que saiu do diagnóstico de bronquite asmática para o de câncer no pulmão.

- Não podia ser como antes? Tirava uma radiografia, via a mancha e pronto. Ia para a faca. Dava, deu. Não dava, não deu! Imaginem vocês que agora entrou uma médica endócrino no pedaço. Pe-lo-a-mor-de-Deus! Para que uma médica endócrina nessas alturas?! Estão é querendo que eu morra de cansaço.

Vai ver que sai mais barato para os filhos. Querem me aposentar. Eles, meus filhos não param de me pressionar para ficar sem carro. Que eu não devo mais guiar, que agora tem aplicativo. Eu gosto, gosto mesmo de guiar. A mediquinha, quer que eu emagreça! Daqui a duas semanas entro na faca. Ela é sem noção. Falou tanto, mas falou tanto na minha cabeça que eu precisei protestar: - Olha, primeiro a senhora me deixa sobreviver. Se isso acontecer, daí eu vou pensar em emagrecer. Que coisa! Isso é hora de vir me falar de dieta?! Que diferença vai fazer dois quilos a mais ou a menos no meio dos meus quase cem?

Dos óculos todos esquecem e, dos aparelhos de surdez, a maioria desliga. Ficam lá, na gaveta da cômoda, porque usá-los torna o ouvir mais desagradável ainda, do que ouvir mal e menos do que seria devido. Ou desejado.

Um de nós tira os seus tão logo a esposa chega nervosa da rua, reclamando pelos cotovelos. Como ela reclama todos os dias e por todos os motivos, ele mal escuta, nem participa de conversas. Prefere assim. Tem feito leitura labial, mas só para o que lhe interessa.

Diz ela: - Se hoje ele ouve ou não, se me entende ou não, sabe que isso não vem mais ao caso? Ele nunca nem olhava para a minha cara quando eu falava com ele! Porque haveria de olhar agora? Ele faz um gesto com os ombros: - Olhar para que? Concordamos. Ela é muito feia e chata. Melhor não ver.

Não que sejamos mais do que bem apessoados. Ainda que barrigudos e flácidos, fazemos a barba diariamente e nos perfumamos. Damos boas risadas. Somos cavalheiros. E concordamos: - Não se fazem mais filhos e netos como antigamente! Nós não éramos como eles são agora. Éramos mais atenciosos com os nossos pais. Eles eram nossos convidados de honra a todas as festas que dávamos. O mundo mudou muito, mudou muito...

- Sou patético, não sou? Mas o que seria de mim, se não fossem meus amigos? É muito duro quando se perde a alegria de viver. Perdi a minha, quando nossa única filha morreu. Meu nome de família se encerra aqui. Nenhum herdeiro para passá-lo adiante. O galho da árvore da vida de minha família se esgota em mim.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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