Magia no salão de beleza

Magia no salão de beleza

Eu fazia as unhas apenas para matar o tempo e acabei emocionada com a pureza do encontro da cabeleireira com uma menina de rua.

Magia no salão de beleza

"Era um daqueles salões de cabeleireiro em que a gente se arrepende de entrar. Todo grudento, mal cuidado, espelhos descascados, assentos furados e descosturados… E, por azar do destino, eu lá, meio que paralisada, sem entender porque continuo deixando a moça picotar minha cutícula mesmo morrendo de medo de contrair uma infecção. Pela boa educação? Calor excessivo? Talvez a solidão, numa cidade estranha, de passagem para pegar um avião dali a intermináveis cinco horas, sem nada para fazer, nem ninguém interessante para visitar.

Eu não havia reparado na moça, a não ser quando ela veio de volta da rua, segurando pelas mãos uma menina, de seus 7 anos. Ela tinha uma idade indefinível, entre 40 e 50 anos e um tipo vulgar. Avental branco manchado por tinturas, botões estourados na barriga, cabelos descoloridos. Faltava um dente, e os outros salvavam sobre seus lábios carnudos. Tinha pela parda e um vozeirão.

- Eu não disse que ia te trazer um sapatinho hoje?

A criança tímida assentiu.

- Fui buscar ela do outro lado da rua. Quase não achava. Vem cá, querida, vem lavar os pezinhos para experimentar.

Pegou a menina suja e franzina, sentada na borda do lavatório, e começou a limpá-la. Penteou seus cabelos. Pôs fitinhas. Lavou-lhes as mãozinhas, braços finos, pés e pernas. Tocava-a com tal cuidado e desvelo, falava-lhe tão suave e amorosa que pasmei. Enquanto cuidava da pequena, a morena foi se transformando, foi ficando bela, sublime, enorme de grande.

Enxugou os dedinhos um a um, passando a toalha e depois talco, finalizando com suaves beijinhos nos pezinhos, tão profundamente penetrantes que comecei a soluçar, perante tal encantamento. Meus olhos secos e arregalados não resistiram àquela bolha iluminada que emanava das duas.

- Beija aqui também. Agora esse outro dedinho, senão ele fica com ciúme. Pedia a menina, que arrulhava de satisfação. A pequena foi tomando ares de majestade, tornou-se uma verdadeira senhora, cheia de dignidade em sua presença infantil, soberba em sua confiança. Já ria alto, com pose de segurança. Sorria, como se sempre tivesse sido assim.

- Pronto, agora você pode experimentar. Eu trouxe dois, uma sandália e um tênis. Vê, qual você quer?

Sua hesitação devolveu-lhe o pequeno tamanho de sua pouca idade. Seu olhar tornou-se temeroso e furtivo.

- Ah! Você quer os dois, não quer? Então por que você não fala? Tome, leve o tênis com você e vai de sandália. Corre. Pode ficar com eles, ou então dá para um irmãozinho.

Os olhinhos da menina se arregalaram e brilharam de alegria e surpresa. Seu ar não era de gratidão, mas de novo, de realeza. A mulher invulgar fitou-a, serena. Deu um suspiro e recomeçou a eterna faxina no salão. A magia sossegou.

Chorei pra dentro copiosamente. Meu corpo todo tremia. Nunca mais vou esquecê-las. Minha maior vontade era encontrar essa menina hoje e perguntar-lhe: Ei, aquilo mudou alguma coisa na sua vida? Não sei se está viva ou morta, se continua na rua ou foi para a escola. Não sei onde ela está. Queira saber se o amor a salvou. E queria dizer àquela cabeleireira o quanto ela me ajudou.”

Depoimento de Ana Perwin Fraiman de São Paulo, SP. MAIO, 95, CLAUDIA.

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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