Eu sou um asno. Joguei fora, não uma mulher amada, mas a mulher amada.

Mulher Amada
Imagem: visualhunt

A que incendiou meus anos de envelhecimento, fazendo-me crer que nascera, mesmo, privilegiado. Sempre me senti assim. Diferente. Bafejado pela sorte. Eu, simples funcionário público, sempre me senti um rei.

Enquanto meus amigos, em almoços e jantares de alegria temperada à melancolia, comemorando cinquenta anos disso ou sessenta daquilo, gabavam-se de sua macheza dos tempos idos, calado eu sorria para preservar meu bem, meu segredo mais precioso. Em mim, tudo funcionava.

Não por quantidade, mas por qualidade. Amamo-nos perdidamente nas tardes. Nas manhãs, porém não às noites. Que ao escurecer dos dias, ela retornava à casa de sua filha, onde reside e eu me travestia de modos e quereres de bom velhinho, o que já tomara jeito.

Minha imagem, por certo, a ninguém mais ameaçava. Nunca uma crise de ciúme. Nunca nada. Minha esposa, que tola não é, deixou-me solto a vida toda, para que eu voltasse porque queria. Sempre voltei, cantarolando, feliz da vida, com o dinheiro honestamente ganho e as vergonhas totalmente perdidas.

Comporto-me adequadamente. Trabalho casa, casa trabalho. Na minha idade, isso é muito. Ela? Recebe-me muda e deita-se calada. Nunca um sorriso. Sempre com o semblante desfigurado por um amargor que a acompanha desde que desenvolveu sua principal ocupação. Doença é o seu nome.

Para mim, muito conveniente, ela. Ocupa-se de suas dores e me deixa em paz. Compra, nas butiques ou nos shoppings, tanto faz, é a sua segunda ocupação. Comida é a terceira, empatando com a quarta, que é ser massageada. A quinta - ou seria a segunda? Não sei mais – é reclamar.

Doente de tanto fazer nada. Doente por falta de vontade para ser mais. Doente para se ocupar de outras maneiras. Novelas das oito, são três todos os dias, ah, grandes aliadas de esposas que já não têm mais nem sobre o que conversar!

Poupam, a nós homens, de inventar desculpas e de buscar temas que lhes agradem, como falta de calcinhas e mais roupas de passear. Viagens também fazem parte de seus apetites mundanos por uma vida regada a iguarias.

Eu lhe ofereci isso, cumprindo bem a minha parte. Educamos filhos, construímos algum patrimônio. O suficiente para uma vida tranquila. Durante décadas, depois do trabalho e dos intervalos para almoços executivos, voltei a casa feliz e preenchido pelos meus segredos. Eu sou um bom marido. Qual o problema de dar umas escapadas inconsequentes? Uma paixão ou outra, mas nada que ameaçasse meu casamento, porque casei por amor e levo a vida que sempre quis. Homens são assim.

Voltava para o lar desejoso por um bom jantar. E, depois, tempo para pensar e organizar meu dia seguinte e, então, recordar e imaginar o próximo encontro que, nalguma hora, com toda certeza, aconteceria. Antes, após e durante, nos fecharíamos para o mundo e ficaríamos ali deitados, conversando sobre tudo e sobre nada, com as pernas enlaçadas, suspirando de tanta felicidade.

Já velho, depois de ter cumprido com meus deveres maritais, que não é de meu feitio deixar de dar prazer à mulher com quem vivo – e ela gosta, até hoje ela gosta - noites e noites adormeci sorrindo e acordei muito bem disposto. Amando duas mulheres, cada uma com sua feição. Com uma, vida boa que passa em branda aragem. Com outra, minha vida é furacão. Um homem completo. Sem problemas e sem grandes preocupações.



Os anos foram passando e eu não senti. Até na São Silvestre corri há três anos. Escoltado por neta e sobrinho, corri feito jovem, mesmo sendo já velhinho. Esposa não viu meu feito. Exultante, senti o brilho nos meus olhos, quando a vi ali, mulher amada me aplaudindo na avenida, no exato ponto onde disse que estaria. Ela não correu, porque não gosta. Prefere Pilates. Mas, se eu já gosto de correr, não tenho dúvida de que foi ela que me colocou asas nos pés.

Corri por mim ou para ela? Não importa. Eu corri. Já saí campeão logo na partida. Nada me deteria, a não ser um ataque cardíaco, que não sofri. Então corri, como corremos dias depois eu e ela para mais um de nossos encontros. Jamais vou me esquecer dela agachada a minha frente.

Pensei que seria para outra coisa, mas era para me beijar os pés. Depois me agachei para ela e, bem, quase não levantei. Pinçou-me a coluna, o que me custou semanas de recuperação e muita RPG, quarenta sessões, que meu convênio não cobriu.

E daí? Eu era feliz e sabia. Sou tão bobo, que lá atrás eu disse sempre ter sido confiante e seguro de mim? Mentira! Eu me sentia um nada, um pobre e já velho homem à deriva no continente da Maior Idade, com suas palestras, excursões e bailes da tarde. Não gosto de dançar. Prefiro ler e degustar bons vinhos. Mas nada de muito relevante, porque nunca fui de alimentar ambições.

Pessoa muito acanhada, naqueles tempos me encontrava para baixo, desinteressante, pouco inteligente. Um homem, que já vivera bastante e que teve todas as mulheres que quis. Muitas aventuras e só. Até que a conheci. Amiga distante de longa data. Figura de que me servi nalgumas noites mais afogueadas. Agora, nem mais precisava. Os vídeos trocados com amigos davam conta dos meus hormônios declinados.

Foi ela que veio para mim. Veio chegando, me seduzindo e me revelando seus recônditos, de corpo e de alma. Mulher valente e decidida, arrancou-me do torpor de uma velhice tranquila, para me levar ao cimo das mais altas montanhas e aos vales do paraíso. Ela nos meus braços, o céu. Ela longe? Tranquilo, sabia que ela voltaria. Inferno, não existia.

Seu riso e suas lágrimas durante os orgasmos, suas histórias sem pé nem cabeça. Nossas gargalhadas. Vivemos anos sem contar aniversários de nada. Era só vida que bailava entre nós. Deitamo-nos em camas alugadas por poucas horas ou caminhando por parques distantes, onde ninguém nos reconheceria. Nós nos fizemos muito bem. Eu a ela, ela a mim, sempre declaramos isso.

Nosso grande tesouro, um amor tão verdadeiro, tão sincero, profundo e de tal monta, que idade não existia. Então, do nada fiz o que jamais deveria ter feito. E não sei explicar por que o fiz. Eu a traí. Não pelo sexo, que é só ela, a mulher amada, que me faz feliz. Mas por desleixo. Por descaso. Ou por cansaço.

Deixei de ser seu amigo e a humilhei. Tratei-a feito nada. A ela, a mulher mais amada que jamais tive! Agora não tem mais jeito. Fui desleal. E o que fiz? Não importa o que. Foi o que deixei de fazer. Não sei por que eu a tratei como pessoa qualquer. Vaidade? Arrogância minha? Desejo de feri-la por ter-me feito tão feliz? Medo? Medo de que? Não compreendo.

Ela, agora fechada em sua concha, enterrada na areia do mar sem fim, não sei mais como encontrá-la, porque ela se recusa a mim. Ela, uma deusa que me trouxe de volta da velhice vazia à vida plena, a mulher mais completa que me foi dado amar, a mulher que mais me amou, deixei de respeitá-la.

Parei de ouvi-la. Transformei-a em simples conhecida que já não me dizia nada. Desprezei seus sentimentos. Sou um asno. Um homem desinteressante e abatido. Um sem jeito.

Onde agora haverei de depositar meu amor, minha amizade, meu carinho, meus sonhos de perfeição, com quem haverei de escapar da solidão e do medo da morte!? Bastou uma vez. Simples assim. E agora não tem mais jeito. Com quem vou rir? Com quem vou rir?! Desespero, o que foi que eu fiz!?

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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