Já que ela é uma hipócrita, também posso ser.

Broche para casamento

Eu assumo. Não gosto da moça que meu filho escolheu. Muito tosca. Não sei o que ele viu nela. Só imagino. Cara de safada.

Broche para casamento

Os homens só querem isso. Deve ter lá, suas qualidades, mas que eu não vejo, não vejo. Os modos dela – sabe - não estão à altura dos nossos amigos. Não que eu aceitasse somente uma grande herdeira, mas uma mulher de projeção, bem relacionada, que abrisse portas para ele. Veja bem. Nós somos uma família de empresários.

Meu marido, por exemplo. Ele mesmo nunca estudou. Mas eram outros tempos. Não precisou de faculdade, não tem finesse. Mas é uma pessoa correta. Quem era trabalhador conseguia as coisas. Honesto. Cabeça boa para negócios. Claro que molhava as mãos dos fiscais. Quem não molhava? É um homem dedicado aos negócios e à família. Tudo que ele faz é pela família. A mim, por exemplo, ele nunca me deixou trabalhar. Tem um princípio: mulher minha não precisa botar dinheiro em casa. Eu banco tudo.

Para mim foi bom, também. Pude ficar só com a casa e com os filhos. Trabalhava como secretária numa pequena firma perto de onde morávamos. Foi lá que ele me conheceu. Eu era bonitinha. Sem muitas pretensões, não tinha carteira assinada nem nada. Esse negócio aí de aposentadoria. Meu pai pagava, mas nunca foi tirar a dele. Dizia que ele tinha o seu ganha-pão e que essas coisas de governo era para os pobres. Então, não importou que eu não fosse registrada, até porque o dinheirinho que ganhava já aliviava o bolso dele. Nós éramos muito unidos. Não sobrava, mas também, não faltava.

Estudamos, todos nós, na escola estadual do bairro. Tinha exame de admissão. Só os mais inteligentes entravam. Cinco filhos. Todos lá. Os uniformes e os livros passavam de um para outro. Depois do ginasial meus irmãos foram estudar longe, fizeram faculdade. Nós, as filhas, ficamos para ajudar nosso pai na firma. Mas eu preferia cuidar da casa e da minha mãe. Vê só. Uma família humilde, mas digna. Então, não é o título. Não é a riqueza que importa.

A nossa família começou praticamente do zero. Meu pai, um pé de boi. Não tinha tempo feio. Férias, ele não sabia o que era isso. Carregava baldes pesados, misturava o cimento lado a lado com os pedreiros. Firma de construção. Teve cabeça. Acabou virando esse império. Os filhos entraram, os três muito bem formados. Um toca a parte financeira. Outro o comercial. O terceiro é que não quis saber de estudar pesado, foi cuidar do marketing. Ele é muito criativo. Toca vários instrumentos. É a alma das festas.

Agora, esse casamento. Justo ele, um filho que sempre nos trouxe tanta alegria, está nos dando tanto desgosto. Trouxe assim, do nada, uma artistazinha e teimou de casar com ela. Quase morri de susto. Como assim? O que ela faz na vida? Ah, mãe, ela estudou artes dramáticas. Logo percebi. É uma fingida. Artes dramáticas. Como se isso fosse profissão. Fica por aí saindo com um, com outro e meu filho acha tudo normal. Até ri quando ela conta o que acontece nos bastidores.

Diz que confia nela. Que é interpretação. As novelas, as festas. As fotos sempre se beijando. Vai me dizer que os agarramentos são só para constar? Que eles não vão além? Fico enojada de como essas moças se expõem. E meu filho quer dar o nome da nossa família para ela!

Nem conhecemos ainda a família dela. Não sei quem é o pai, não sei quem é a mãe. Não tem berço, não tem dinheiro, não tem família. Aproveitadora. Todo mundo acha que ela é muito bonita. Até poderia ser, se não usasse aquelas maquiagens pesadas, aqueles decotes de mostrar umbigo, aqueles shortinhos enfiados. Saltão. Roupa de bagaceira. Leva placa nas costas me come, me come! E meu filho gosta. Eu achava que era isso que ele deveria fazer. Aproveitar tudo que quisesse. Mas casar? Para casar tem que ser com moça de família, respeitadora.

Essa é a nossa tradição. Meu pai me tirou do ballet quando fiquei mocinha. Gostasse ou não gostasse, menina não tinha querer. O pai mandava e pronto. A gente obedecia. Agora os jovens chamam os avós de você. Nunca vi isso. Meus filhos me chamam de senhora até agora. Mas os filhos deles tratam por você. Eu não falo muito, porque se a gente der palpite eles param de vir visitar a gente. Então a gente engole.
Mas aquela zinha, ah, não vou ficar quieta, não. Imagina que ela teve o desplante de me pedir emprestado o meu broche, um lindo que eu tenho, para colocar no vestido de noiva dela! Disse que vai ser um vestido simples e que prefere entrar com um vestido fino, discreto, nada de transparência nem de bordado, simples e elegante. Até parece que ela pode aparentar ter alguma categoria. Diz que não quer que olhem para o vestido, mas para ela! Onde já se viu. E que o broche vai deixá-la mais elegante.
Disse que sim, que emprestava, mas não vou emprestar, não. Ela que use bijuteria. Para o meu filho não brigar comigo eu até já bolei, com a minha mais velha, que dois dias antes ela simule um assalto e esconda o broche. Lindíssimo. Tudo comprado com o trabalho do meu marido. Sim, ele me deu muitas joias, nos tempos das vacas gordas, não nesse Brasil de hoje, tudo feio, tudo sujo, tudo depredado. Por isso que a gente nunca passa férias aqui. Tem que viajar. Ir para fora. Aproveitar enquanto a gente tem saúde, certo?

No dia seguinte ao casamento eu e meu marido vamos viajar. Descansar dessa desgraceira toda. Se é que vai ter mesmo esse casamento. Que por mim eu já começava a devolver os presentes. Cada um que chega me dá vontade de quebrar tudo! Mas essa piranha - peço desculpas pelas palavras grosseiras – ela me irrita muito, ela vai pagar caro. Ah, se vai. Quem ela pensa é? Já falei para o meu filho. Se ela não assinar o acordo pré-nupcial, não vai ter casamento. Separação total de bens. Total, total, total.

Ela diz que quer conservar o nome de solteira, que é nome artístico. Que já é conhecido. Conhecidos são os filmes pornográficos que ela fez e que circulam por aí. Minha neta viu e veio correndo me mostrar, morrendo de rir. Todo mundo da família já tinha visto. Eu não mereço isso, eu juro que não mereço. Todo mundo! Fiquei duas semanas sem sair de casa. Que vergonha, que vergonha. Meu filho se casando com uma vagabunda desqualificada, que abre as pernas e se deixa filmar com as indecências todas à mostra! E meu filho diz que não passa de interpretação e que os cachês são muito bons.

Você acha que eu posso estar feliz com isso? Meu filho, meu caçula, eu não esperava isso dele. Quer aproveitar a juventude? Aproveite. Veja. Meu marido também deu seus pulinhos. Cá e lá. Mas eu mantive a compostura. Fingia que não sabia. Se dissesse que sabia, teria que tomar atitude, não é mesmo? Então, moita. A cidade toda ria de mim, que ele saía com umas putas. Que rissem. Uma vez eu até peguei doença. Ele chorou arrependido.

Acho que depois disso nunca mais. Nunca percebi, mas também não fiquei indo atrás. Nem abri o bico. Mulher que se preza não fala mal de marido. O meu me traía e eu sei o quanto dói. Destrói a alma da gente. Agora, o meu filho vai se casar com uma mulher da vida?! Casar?! Se ela já chifrou ele antes de conhecer, depois de casada vai chifrar ainda mais. Ele vai ser alvo de zombaria.

Eu falei isso para ele. Que ela não valia nada, que era toda furada. Que ele não podia casar com uma mulher que passava de mão em mão. Que a nossa família não merecia isso. Sabe o que ele me respondeu? Que não vai se casar com uma moringa de barro! Que se ela já tinha estado com um e com outro, se ela era furada ou não, que ele amava ela! Do jeito que ela é! E que exige - exijo, ele me falou, apontando o dedo na minha cara – que ela seja bem tratada aqui em casa e que, se alguém da família ousar desacatá-la, ele vai embora e nós nunca mais saberemos dele!

Que dor, que dor. Um dia eu morro mesmo. E se for para ser logo, que seja no dia do casamento. É por isso que não vou emprestar merda nenhuma de broche para casamento de merda alguma. Minha filha vai fazer a merda do assalto e vai esconder o broche. Eu vou ter uma merda de uma crise de pressão alta e vou botar 60 gotas de laxante no café da manhã do meu marido, que ele vai parar no hospital. Mas que eu não queria estar viva para estar presente no dia da merda desse casamento, ah, isso eu não queria mesmo. Pai e mãe no hospital, quero ver se ele vai ter peito para se casar. Cancela tudo! E daí que já está pago?! Broche. Meu broche de brilhantes. Ela que peça para uma das amigas dela, essas putinhas de merda com quem se dá e que se case com um broche de plástico no decote do vestidinho de merda que mandou fazer! E que meu filho, meu filho vai pagar. Com o nosso dinheiro! Nosso.

Mal agradecido. Degenerado. Ele não é mais meu filho. Nossa, falei tanto que estou até sem energia. Até gritei, né? Mas botei tudo para fora. Coitadinha de você, ficar ouvindo essas coisas. Eu não sou assim. Você veio aqui para me entrevistar, né? A senhora me compreende. Uma mãe dedicada, uma família fina como a nossa, que desgraça, que desgraça. Que filho de merda eu fui ter!

Olha, desculpa o desabafo. Mas agora vou ter que parar. A senhora não vai publicar isso, vai? Quer dizer, eu dei a entrevista, mas não vai jogar o nome da nossa família na lama. Essa moça, ela é meio conhecida. Só pode falar que vai ter o casamento do herdeiro tal com a atriz tal, que vai ser no dia tal, mas não diz onde nem a hora. Por favor. Posso contar com a sua discrição, não é? Eu disse coisas que nem imaginava. Saiu. A senhora é boa de fazer a gente falar, né? Posso ter confiança? A senhora não vai publicar?

Pode até dizer que eu, a sogra, prometeu dar-lhe de presente o broche da família. No dia do casamento não vai ter broche mesmo. Uma beleza de peça. Os repórteres, acho, vão querer fotografar e... Nada. A puta, vagabunda, desgraçada não vai usar, porque eu vou ser assaltada. Eu, minha filha, nem sei direito. Na hora ela me diz o que vou fazer.

Meu filho, idiota, essa moça leva, mas meu broche, jamais! E o merdinha do meu marido ainda prometeu entrar com ela, que o pai dela não consegue andar e ela quer desfilar devagar pela nave para dar bastante tempo de fotografar. Bem, que ela tem um corpão, ela tem. Só não sei o que meu filho viu nela. Peitos e bunda não significam nada! O que vale é o caráter.

Ah. Está tocando a campainha. Deve ser ela. Não estranhe se eu tratar bem, porque ela não pode desconfiar de nada. O casamento vai ser no outro final de semana. A safada está lambendo meu traseiro, para me conquistar. Ela que pense. Convidou para assistir a prova do vestido, que hoje vai ser de véu e tudo. Casar de branco. Veio me buscar. Quer ver a cara dela? Quer ver? Olha ela lá. Já desceu do carro. Pode ver por aqui. Fingida de merda, mas só falo isso para você. E para as minhas filhas. Enfim, mesmo famílias boas podem ser atacadas. E, já que ela é uma hipócrita, também posso ser. Não custa. Ah, o que não se faz para não perder um filho! Olha, foi um prazer falar com você.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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