Por Ana Fraiman, abril de 2016.

Continuação do Artigo Idosos Órfãos de Filhos Vivos – Os novos desvalidos.

Velhos hábitos

 

Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões. Desde os poucos minutos dos sinais luminosos para se atravessar uma rua, até as grandes filas nos supermercados, a dificuldade de caminhar por calçadas quebradas e a hesitação ao digitar uma senha de computador, qualquer coisa que tire o adulto de seu tempo de trabalho e do seu lazer, ao acompanhar os pais, é causa de irritação. Inclusive por que o próprio lazer, igualmente, é executado com horário marcado e em espaço determinado.

Nas salas de espera veem-se os idosos calados e seus filhos entretidos nos seus jornais, revistas, tablets e celulares. Vive-se uma vida velocíssima, em que quase todo o tempo do simples existir deve ser vertido para tempo útil, entendendo-se tempo útil como aquele que também é investido nas redes sociais. Enquanto isso, para os mais velhos o relógio gira mais lento, à medida que percebem, eles próprios, irem passando pelo tempo. O tempo para estar parado, o tempo da fruição está limitado. Os adultos correm para diminuir suas ansiosas marchas em aulas de meditação. Os mais velhos têm tempo sobrante para escutar os outros, ou para lerem seus livros, a Bíblia, tudo aquilo que possa requerer reflexão. Ou somente uma leve distração.

Os idosos leem o de que gostam. Adultos devoram artigos, revistas e informações sobre o seu trabalho, em suas hiper especializações. Têm que estar a par de tudo just in time – o que não significa exatamente saber, posto que existe grande diferença entre saber e tomar conhecimento. Já, os mais velhos querem mais é se livrar do excesso de conhecimento e manter suas mentes mais abertas e em repouso. Ou, então, focadas naquilo que realmente lhes faz bem como pessoa.

Restam poucos interesses em comum a compartilhar. Idosos precisam de tempo para fazer nada e, simplesmente recordar. Idosos apreciam prosear. Adultos têm necessidade de dizer e de contar. A prosa poética e contemplativa ausentou-se do seu dia a dia. Ela não é útil, não produz resultados palpáveis.

Os filhos pouco admitem sua conduta descuidada para com seus pais mais velhos. E quando admitem, pouco ou nada fazem para mudar de atitude. Para atualizar o seu olhar em relação à orfandade de seus pais. São adultos para quem ‘ser bom filho’ consiste em não deixar faltar nada de básico: remédios, empregados e cuidadores, compras de açougue e supermercado. Um ou outro traje mais apropriado para uma ocasião social formal, quando é o caso. Levá-los à praia – algo de que, por razões óbvias, os de mais idade pouco usufruem. Ações que tratam, mas não cuidam. Comprar coisas para dar a seus pais, os filhos gostam. Fazer-lhes companhia sem tarefa a cumprir, isso é o que tem estado em falta. Melhora quando a televisão está ligada num jogo ou novela, noticiário, qualquer coisa ou programa em que conversar não se faz necessário.

Os pais de mais idade evitam o enfrentamento direto, enquanto pouco a pouco os filhos se tornam cada vez mais críticos em relação a seus pais. Os velhos têm-se calado, têm-se aberto tão somente com estranhos ou com seus poucos amigos: - Meus filhos?! Eles não têm tempo para nada! Passam seus sábados, domingos e grandes feriados sem que seus telefones toquem para saber de si. Quando os filhos respondem às ligações de seus pais, o mais frequente é adiar a conversa: - Posso ligar mais tarde? Estou no meio de uma reunião, agora. Doenças e medicações merecem atenções. Dores agudas alarmam. Nada se conversa, porém, sobre o que uns e outros têm vivido. O fracasso dos filhos que abandonam seus pais é reputado à correria da vida. Há pouca sinceridade.

De modo geral os mais velhos são vistos como chatos e manipuladores. Estes, por sua vez, veem seus filhos como egoístas, superficiais e autoritários. Assemelham-se a duas tribos que mal se toleram, onde então, uma distância prudente e prolongada, far-se-ia mais do que necessária para manter o armistício.

De onde surge esta intolerância dos filhos à inclusão dos pais em suas vidas? Não afirmo que não haja intolerância, também, de pais para com filhos adolescentes e, mesmo, para com seus filhos pequenos, extremamente demandantes. Vivemos uma cultura de reprovação mútua: os mais velhos julgam os mais jovens, que julgam os mais novos. Trata-se de uma pseudoliberdade de falar e de quase ausência de respeito mútuo a praticar. As reprovações e intolerâncias mútuas, represadas pelas ausências, pela excludências, pelas impaciências, magoam a uns e outros.

Leia o Artigo Completo: Idosos órfãos de filhos vivos – os novos desvalidos

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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