Uma proposta de alfabetização digital

Estas minhas considerações nascem inspiradas por um trabalho acadêmico realizado pelas colegas Maristela Compagnoni Vieira e Dra. Lucila Maria Costi Santarosa, desenvolvido em meio ao Programa de Pós-Graduação em Educação – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

idoso digitais

Logo que li o resumo deste estudo, que ‘analisa as motivações, necessidades e interesses de idosos com relação ao uso de tecnologias como o computador e a Internet’ (sic), observei que as autoras abordaram aspectos nucleares daquilo que neste momento passo a veicular em minha pré-campanha para Vereadora: futuramente: um mecanismo social, uma lei municipal, que faculte o uso extensivo e mais amplamente difundido destes recursos técnicos por parte dos idosos.

Verifico na minha experiência diária que os mais velhos e os ainda não tão velhos, se batem com os equipamentos elétricos e eletrônicos. A começar, dentro das próprias casas! Quem não fica chamando neto, neta à toda hora, para aprender a dar um comando simples, mas que para nós, que já temos mais idade, é ‘um bicho de sete cabeças’?

Eu mesma já solicitei a presença de um técnico de tevê de última geração, para que viesse o mais rápido possível, ‘consertar’ o que nem eu, nem meu marido conseguíamos! Nós queríamos, simplesmente assistir à televisão da sala e nenhum dos dois sabia dar os comandos para ligar a bendita televisão! Como, o que havia acontecido?! Não entendíamos porque, da noite para o dia a tela ficara escura e nem som fazia E mais! Não chovera na noite anterior! Assistimos a um filme, tudo certo, tudo funcionando. Ao clarear do dia, desejando tomar o café com as notícias da manhã, nada acontecia. Mexemos de tudo quanto era jeito, apertamos todos os botões, pegamos os manuais dos controles... Nada.

Minha conclusão: perdemos a conexão! Sem sinal! Um vai buscar a nota fiscal e o certificado de garantia. O outro se larga no sofá apertando de novo todos os comandos, aleatoriamente, feito louco! Ou a televisão veio com defeito ou foi um de nós que mexeu onde não devia. Daí para as acusações mútuas, meio passo. Um aperta daqui, outro dali... Aperta de qualquer jeito! Quase começou uma brigar feia entre nós. Mas eu falei para você não mexer! Mas eu não mexi! Fui dormir antes de você! Não, quem saiu da sala por último foi... Quem foi, mesmo? Porque um ligou e outro desligou ao mesmo tempo, essas rusgas de velhos rabugentos que se toleram a milhares de anos.

A quem recorrer para sanar a de falta de conhecimento

Filho viajando, filha trabalhando o dia todo, netos na escola, ali ficamos de pé plantados, dois idosos desconsolados, já pensando em quem iria levar para a oficina, em que dia, considerar rodízio etc e tal e, com certeza, já fazendo as contas de quanto nos custaria o conserto daquele bizarro defeito. Com neto a coisa é braba. Eles vêm, em três segundos já sabem o que fazer. Ó, vô, é assim. São tão velozes que não dá tempo de acompanhar onde colocam seus dedinhos. Peraí! Onde você apertou? Faz pr’eu ver. Que nada. Eles já devolvem o controle, com olhar de ‘e o que é que eu tenho a ver com isso?!’. Fazer eles fazem e voam para o outro canto das nossas casas. Querendo afastar neto de perto da gente é só ficar perguntando ‘qual comando eu dou?’. Eles se mandam para longe. Ou mergulham em velocidade supersônica em seus ipods, tablets ou o que valha.

É, também, o que acontece quando nas discussões sobre política, à mesa do jantar, nossas opiniões divergem das deles! Nos tempos lá de trás, bem se dizia: - Assim como gosto não se discute, futebol, política e beleza não se põem à mesa! Eu havia me esquecido deste sábio conselho. E querem saber? Também já chamei técnico de computador para apertar um único botãozinho que me ajudaria a restabelecer a conexão com a internet! E eu sem conseguir usar meu computador por quatro dias a fio! Bem, o rapaz sorriu e não cobrou pela visitinha. Tomou café comigo, levou consigo duas bolachinhas e pronto. Mas agora não é o caso de me estender nisso.

Retorno ao estudo que me inspirou. Continuei pesquisando e pensando e, pensando e pesquisando. Uma boa parte das notícias veiculadas sobre a participação de idosos no tocante ao uso das novas tecnologias e computação, alardeia um grande acréscimo de usuários. Quando se vai ver, as amostras são muito pequenas.

Segundo pesquisa realizada pelo IBGE(2), de 2008 para 2013, o percentual de idosos que acessam a internet passou de 5,7% para 12,6%. Agora observem as mudanças na distribuição das faixas etárias, especialmente entre os anos 2000 e 2020. Procurem um pouquinho mais adiante as 4 pirâmides que ilustram o que eu falo, digo, escrevo agora. Mantenham o foco nas idades de 60 anos e mais, representadas pelas quatro faixas (retângulos) no topo das pirâmides. De 2000 para o ano 2016, onde nos encontramos hoje, o que aconteceu? O número de idosos praticamente dobrou, já a partir dos 60 anos de idade. Então, o uso da internet haveria de dobrar, naturalmente.

Repare que, em relação às quatro figuras a seguir, nas duas pirâmides na parte de baixo (referentes aos anos de 2000 e de 2020) os retângulos superiores vão ficando bem mais estendidos (a representação gráfica do número de pessoas com 60 anos e mais vai ‘engordando’) e os demais, que se referem às idades mais jovens, vão ‘emagrecendo’. Isso significa que a população de idosos está aumentando rapidamente, em velocidade maior que a de crianças e jovens, que vai diminuindo.

Podemos supor, então, que as faixas etárias superiores vão ganhando participação de adultos que ‘já sabiam’ lidar com computador antes de chegarem aos 60! Então, não são programas massivos de educação digital. Os idosos aprendem, mesmo, depois dos 60. Muitos, por vontade própria, as Faculdades da Maturidade também estimulam que o façam. Mas o tal ‘número que dobrou entre os idosos, não aconteceu em relação aos que foram desenvolver uma nova competência, buscando se alfabetizar na linguagem dos computadores, mas porque, conforme as pessoas de 40 vão envelhecendo, elas vão sendo computadas como incremento nas faixas mais velhas. Parece óbvio mas, não é.

Percebam que, de 1980 até 2020 a região ‘da cintura da pirâmide, como que engordou’? A parte mais cheinha, a dos jovens, vai subindo e se constituindo na parte dos adultos, na pirâmide seguinte. Em, relação a ‘saber lidar com o computador’, eles levaram junto consigo este saber maravilhoso. Os adultos que também tiveram que aprender a lidar com computadores em seus estudos e no trabalhando, foi levando para cima, para o topo da pirâmide, um conhecimento já adquirido. Daí que, por certo, aumentou significativamente o número de idosos que se utiliza de computador com vários objetivos e por inúmeros motivos. Mas ainda são poucos os idosos de 60 ou mais que usam o computador e sabem que botão apertar frente ao televisor.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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