A violência existe desde que o mundo é mundo. Não há quem a desconheça numa ou noutra de suas muitas formas. E algumas delas são perfeitas em seus disfarces.

Filhos da violência
Imagem: Pixabay

Fácil é reconhecê-la em sua feição escancarada. Um bando de jovens perturbados que incendeiam o mendigo adormecido. Uma mulher que espanca sua enteada. Um adolescente que estrangula o gato. Uma menina que encomenda a morte de seus pais e foi beber com amigos, enquanto bandidos simulam invadir a casa. Torcidas revoltadas que barbarizam o time rival.

Por mais chocantes, são casos com que convivemos no cotidiano, que nos contam histórias sobre o que os homens podem fazer de mal a outros homens. E mulheres, claro. Pais e filhos se matam entre si. Irmãos, desde tempos bíblicos, são inimigos mortais. Traições e enganos vis. Heranças disputadas centavo a centavo. Amantes que jogam ácido. Bebês largados nas lixeiras.

A violência explícita é fácil de reconhecer e, por justo afeto, nos indignamos quando acontece. O julgamento moral é imediato. Como pode?! Como podem?! Chegamos a acreditar que a violência bem fundamentada, com causa moral claramente definida pode ser tolerada. Mas não há explicação para a violência. Ela se manifesta, faz estragos e só. Os motivos apontados para justificar os atos de violência não passam de racionalizações para o que não deve ser tolerado nem estimulado.

O que dizer das guerras, das milícias assassinas? Guerrilhas e homens-bomba? Lobos solitários? Crianças cooptadas pelo tráfico? A geração mais velha foi criada com suas mães invocando ajuda do ‘homem do saco que vem pegar crianças’, mas só as desobedientes. A palmatória não intimidava tanto. Mães amorosas, porém muito duras, ameaçavam seus rebentos de sequestro ou de abandono em colégio interno, pelo simples fato de que seus filhos a ‘enlouqueciam’.

Há violências de estado. Há violências de caráter social. Famílias podem cultivá-la como de sua cultura intrínseca, por muitas e muitas gerações. O mal perpassa as mentes obtusas. E a violência impera onde faltam as palavras. Ela faz parte. Não há como erradica-la. Reside em nós, como parte constituinte, ao menos em potencial.

Disse Freud que todos têm no mais profundo de si mesmos, núcleos psicóticos e destrutivos que podem, a qualquer momento, eclodir feito um vulcão. E, como não se pode contê-los, a solução é aprender a reconhecê-los e lidar com suas ameaças, prestando-lhes atenção ao menor sinal, para que não efervesçam. Com certeza, qualquer um de nós está sujeito a cometer alguma barbaridade.

Rogamos, portanto, por piedade, porque somos imperfeitos, irracionais e violentos.  Alguns se apoiam e se confortam na ética religiosa. Outros, na ética do caráter bem formado. O fato é que a violência que nos cerca é angustiante. Mas o que dizer da violência que reside em cada um de nós e, disfarçada por crenças sem fundamento, acaba fazendo parte do modo como nos relacionamos com os outros e, principalmente, com os nossos íntimos?

Os disfarces da violência.

1- Acreditar que é sempre o outro que é violento. Nós? Gostamos de acreditar que somos vítimas inocentes e passivas de suas explosões de ira, no mais das vezes. Ah, ledo engano! Isso transparece de pronto nos consultórios de psicologia dos experientes profissionais.

Uma senhora ainda jovem, em seu quinto mês de gravidez, chorava copiosamente, magoada e indignada com o fato de que seu marido, executivo atormentado, havia atirado um sapato em sua direção. Ela ali, em pé ao lado da cama, só fazia por insistir num assunto irritante. Ele implorava para deixa-lo descansar. Precisava estar em silêncio. Ela falava cada vez mais alto e ele, exasperado, fez voar de suas mãos o tal sapato, que nem relou na barriga da esposa, deixando marca negra na parede.

- Eu vou me separar dele! Ele é um monstro! Um monstro! Quase matou o nosso filhinho! Doutora, eu olho para a marca, me parece estar acontecendo tudo de novo! Eu sinto a sapatada. E se tivesse pegado em cheio na minha barriga?! Não pegou por um triz! Meu o bebê teria o seu cerebrozinho afundado! Não vivo ao lado desse homem nem mais um dia! Na minha família, isso nunca aconteceu! Meus pais, nem brigar, eles brigavam! Quanto mais tacar coisas em mulher grávida!

Ele pedira. Implorara para que ela parasse de falar. Doutora! Eu não sou nem um monstro! Eu não devia ter tacado, mas eu dizia para ela parar, que eu não estava aguentado aquela falação toda. Eu pedia, pedia e quanto mais eu pedia mais ela falava alto! Não me ouvia. Eu errei, mas eu não atirei o sapato nela, atirei o sapato na parede, mesmo. Eu só atirei para ela parar mesmo.

Atirou em mim, sim! E a desavença era alimentada por acusações pesadas de parte a parte. Ele era um monstro, ela era uma doida e era assim que se viam naquela hora. Acabaram se entendendo dias mais tarde. Voltaram abraçados à próxima consulta. Carinhos mútuos iluminavam seus olhos. Já sabemos o sexo do bebê, doutora, vai se chamar Jaiminho, né meu amor?

Ela revirou os olhinhos, como que dizendo: ele é que pensa! Ele continuava: igual ao meu avô, eu e meu pai. É nome de família. Por detrás, ela fazia caretas e mostrava a língua. O segundo nome ela escolhe, não é, meu amor? Ela olhava para mim, com ares triunfantes. Nós, mulheres, deixamo-los pensar. Mas, quem decide somos nós, não é mesmo, doutora?

O casal se preparava para receber um filho e estava tomado pelo medo: daremos conta? Em vez de entrarem em contato com seus sentimentos, se atacavam. Ela havia engravidado por culpa dele, ele havia caído no laço da pílula que não fora tomada. O medo minava o que poderia ser um dos momentos mais mágicos na vida de um casal que ensaiava tornar-se família. E sua comunicação era muito violenta.

Resumo da ópera: quanto mais medo se sente, maior é a tendência a fugir ou atacar. Porém nem sempre isso fica claro. Instala-se uma dinâmica  de caça às bruxas, e a insegurança de cada qual não encontra guarida na compreensão e no acolhimento do outro. Um casal pode se afastar quando aquilo de que mais necessita é se aproximar.

2- Uma criança, menininho de cinco anos, aterrorizado com os berros de sua mãe, tendo feito xixi nas calças de tamanho pavor, olhinhos vermelhos e arregalados, simplesmente murmura: mamãe, quando você grita assim comigo, eu não ouço nada...

Algo de muito inteligente desponta na mente da mulher exausta nesta hora, apressada com o preparo do jantar, para a chegada de seu temível marido, sempre ranzinza e mal humorado. Especialmente quando, esfaimado, chegando à noite do trabalho, tudo que ele quer é devorar a comida e jogar-se na poltrona para ouvir o final dos noticiários.

Esse pico de inteligência expandida fê-la ouvir aquela voz trêmula e fraquinha e repercutiu em sua mente. Uma vozinha tímida e chorosa de um filhinho sincero e corajoso, que – declarando sua dor – restaurou o amor no coração daquela mulher atormentada. Então, se perguntou, surpresa: porque eu desconto minha raiva no meu anjinho, quando eu não tenho coragem de enfrentar os ataques de ira, o egoísmo de meu marido!? A partir desta nova consciência ela não mais despejou sua infelicidade nos ombros do menino. Foi fazer psicoterapia.

Depois de se remoer em culpas por meses a fio, mais uma luz se acende: doutora, descobri que eu gritava muito, sempre que eu me sentia sozinha, parecendo que estava muito longe das pessoas de quem eu sinto que preciso. Meu marido não me ouvia, meu pai não me ouvia, minha mãe sempre me criticava. Que não dou valor a nada, que meu marido trabalha tanto para me dar conforto e que eu nem agradeço. Tudo isso me fere tanto, doutora, que me tornei uma mulher que grita por desespero. Para me fazer ouvir. Mas não adianta, porque como disse meu menininho: quanto mais eu grito, mais as pessoas não me ouvem e se afastam.

Resumo da ópera: as falas e os modos violentos só fazem por afastar os outros e o poço escuro da dolorosa solidão se aprofunda. Por desespero, pessoas podem se perder umas das outras e tentar encurtar caminho para o reencontro, mas a comunicação violenta destrói a reconstrução do espaço de intimidade que suportamos para viver em paz. Derivar a nossa dor para os mais fracos é se eximir de realizar as mudanças necessárias.

3- Um homem nem tão jovem, nem tão velho, parecia divertir-se naquela hora, quando buscou explicar porque estava internado na ala psiquiátrica do HC: ataque de depressão. Eu me joguei do viaduto. Para morrer, mesmo. Quarta vez. Mas não consegui até agora. Acho até que nem vou conseguir mais. A senhora doutora veja: perdi o uso das minhas pernas. Minha coluna se partiu. Agora é que não vou para lugar algum. Antes, eu não encontrava sentido na vida. Agora não posso nem caminhar. Eu sou um incompetente, mesmo. A senhora ajudaria eu me matar?

A violência pode ser direcionada para o próprio indivíduo. Ódio auto a si, como pessoa que não vale nada. Uma crença que se instala desde muito cedo, especialmente quando sofreu de abusos e maus tratos. Toda criança nasce pronta para amar a pessoa por quem é cuidada. A criança nasce inocente e sem a menor capacidade de saber por que a mãe, o pai, o irmão mais velho, nela descarrega a sua ira.

Ela, simplesmente sofre e cresce sob uma matriz de relacionamento que, posta em palavras simples, é regulada mais ou menos assim: toda mamãe ama seus filhos. Se minha mãe me bate e me castiga tanto, é porque eu não mereço o seu amor. A culpa é minha. Eu é que provoco. Eu é que sou ruim. A confiança básica, necessária para que pessoas se vinculem e se importem umas com as outras, fica prejudicada.

Futuramente, vai se ligar a pessoas infelizes, que vão fazer-lhe muito mal, abusar de suas forças, confirmando suas crenças precoces que ela, mesmo adulta, não conseguirá, sozinha, reformular. Altamente provável que também se torne uma pessoa violenta. Seja para com outras pessoas, seja para consigo própria.

Resumo da ópera: Ainda que todos tenham o potencial para se tornarem pessoas violentas, é pela cultura que ela se expande e maximiza. A menos que a pessoa já herde de seus antepassados um caráter mal formado e desde cedo demonstre ser uma criança que sente prazer em praticar o mal, a conduta e a comunicação violentas podem ser corrigidas. Princípios elevados podem vir a substituir uma aprendizagem mal feita na infância e na adolescência. Novas atitudes e crenças poderão passar a conduzir os relacionamentos: da pessoa consigo própria e com os demais, inclusive com o ambiente. O amor, embora não possa ser aprendido, está presente em todos os corações e o que podemos fazer é despertá-lo: com amor, respeito e muitos cuidados. A psicoterapia é um excelente instrumento para isso.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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