A vida não lhe trará o sucesso de bandeja. Velho ou novo vá buscar. Este é a grande mudança da aposentadoria: comece de novo.

Aposentado Marionete

“Eu já estava convencido que, dali para frente, a minha vida não seria mais do que uma sucessão de dias que eu tentaria preencher de alguma forma útil, tal qual uma To Do List diária, a qual eu fazia todas as noites, antes de dormir e cumpria no dia seguinte ou poucos dias depois: ir ao banco pagar o INSS da nossa empregada; passar no sacolão e comprar as frutas que estavam faltando; levar meus tênis para reparo; lavar o carro na esquina, enquanto usufruísse alguma cortesia do posto; comparecer ao dentista e, tantas coisas mais, que faz com que o dia a dia de um aposentado se preencha. Passei a levar uma vida de ‘dona de casa’ e dando graças que minha esposa, ao menos, reconhecia meus esforços e tentava fazer sentir-me útil. Sim, útil eu me sentia, mas não produtivo. Era isso que me martirizava. Eu havia sido um homem de primeira linha e agora não produzia nada. Só fazia. Até que minha filha jogou tudo para o alto e pediu demissão de um emprego que remunerava muito bem, mas que estava acabado com a sua alegria, pois segundo ela, não tinha nada a ver com o que desejava da vida. Fiquei louco! Ela, dando as costas para o garantido, nesses tempos tão difíceis, enquanto eu ‘mataria’ para voltar a ter um emprego decente. E quem haveria de garantir as contas? E se ela precisasse de mim novamente e viesse a consumir, junto com os nossos netos, as nossas economias? As dúvidas me angustiavam, passei a não dormir. Minha esposa, habilidosa na máquina de costurar, buscava resolver as mesmas tensões de outra maneira. Começou a fabricar marionetes e roupinhas de boneca e oferecer às mães do bairro e nas escolas, num precinho bem acessível. Costurava tanto que, à noite, caia exausta e dormia, feito pedra. Eu, acordado, sem saber o que fazer para atenuar minhas angústias passei a contribuir para com a feitura desses brinquedos que, até então, não me diziam nada. Aprendi a lixar madeira, passar verniz e cola, pregar barbante. Nada edificante, mas calmante o suficiente par eu não enlouquecer ainda mais. Fui tomando gosto pelo serviço e dois meses depois ficávamos, os dois, até quase meia-noite trabalhando e papeando juntos, confeccionando marionetes na mesa da sala. Comecei a fazer entregas e a colher pedidos. E não é que as pessoas, realmente, compravam aquelas bugigangas todas e ainda encomendavam mais?! Meu interesse cresceu. Passei, além disso, a andar pelas ruas e ficar nas esquinas das escolas, em horários convenientes, junto com minha filha e, de vez em quanto com os netos, também, brincando de marionetes, puxando os cordéis, enquanto ela, muito habilidosa, contava pequenas estórias, divertidas. Vocês podem chamar a isso de marketing de experiência. Pois, foi. Minha filha é muito simpática e cativante. Resultado? Hoje temos uma fábrica de marionetes e de roupinhas de bonecas e não damos conta das encomendas. Trabalhamos todos os dias, a família unida. Nosso relacionamento às vezes se complica por tratar-se de empresa familiar, mas, sobretudo, tenho o privilegio de conviver com todos eles, ver meus netos crescerem e ter voltado a ganhar aquilo de que preciso, sem ter que dilapidar nossas economias. Status? Para que status? Uma vida simples é tudo o que eu quero, hoje em dia.”

A vida não é dividida em fases. Isso é só uma figura de retórica. Pouca coisa ou quase nada vai acontecer de um instante para outro. Além de ganhar na loteria (mas para isso você terá que ter colaborado, ao menos, comprando um bilhete antes), sofrer um acidente ou a perda súbita de um ente querido, apaixonar-se perdidamente à primeira vista e, (que mais…?), você mesmo que terá que batalhar para fazer as coisas acontecerem. Para mudar aquilo que precisa ser mudado e deixar quieto o que não tem mais jeito. Ninguém está interessado em fazer você vencer, em lhe entregar o sucesso de bandeja. Você não é mais um jovem promissor. E somente será requisitado se tiver uma experiência sólida e bons relacionamento a compartilhar. Além disso, seus pareceres serão solicitados por tempo determinado.

Ninguém é tão sábio a ponto de tornar-se um oráculo. Se a vida fosse dividida em fases ou capítulos, poderíamos tirar férias entre uma e outra ou dar um jeito de pular certos capítulos chatos ou repetitivos. Não é isso que ocorre. Então, a aposentadoria não é uma fase em que você está colhendo os bons frutos daquilo que plantou.

Alguns acontecimentos servem de divisor de águas para uns e não para outros. Quando nossa vida (ou o nosso jeito de enxergá-la) muda substancialmente, dizemos que “entramos em outra fase”. Mas, na verdade, novas ideias perspectivas e atitudes fluem, ininterruptamente de uma situação ou status para outro, sem que nos apercebamos disso com clareza. Somente quanto a mudança está completa é que podemos aquilatar o acontecimento e ter uma boa noção dos esforços empreendidos.

O que podemos afirmar, com toda certeza, é que aquilo a que chamamos “a fase da aposentadoria” é a resultante de várias mudanças, umas mais dramáticas, outras menos, umas que haverão de acontecer em curto espaço de tempo e outras que haverão de acontecer muito mais lentamente e, além disso, a conservação de certos aspectos, coisas, relacionamentos, ideias e tudo o mais, que não haverão de mudar nada, por mais que se tente. Por tudo isso, em vez de nos maravilharmos ou nos angustiarmos com o que virá, o melhor a fazer é encarar aquilo que a vida haverá de nos pedir para realizar. Portanto, o que está reservado para nós, daqui para frente, é mais trabalho, esteja certo disso. Poderíamos, então, dizer que: “a fase da aposentadoria” consiste em deixar de trabalhar de um jeito, numa certa coisa e começar a trabalhar de outro jeito, na mesma ou em outra coisa.

Apesar de não sermos mais jovens promissores, isso não quer dizer, no entanto, que não possamos realizar todo o nosso potencial, exatamente, depois de nos aposentarmos de um determinado trabalho.

Ana Fraiman | A Era do Javalí – Verdades em tempo para aqueles que se aposentam. (Saiba+)

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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