É Difícil, Demorado, Custa Caro e Dói.

Minha memória está falhando. Minha cabeça já não é mais tão ágil como antigamente. Gostava de ler. Ficava lá, sentado numa poltrona ou numa rede à sombra por horas. Em tardes de domingo e noites de insônia devorava bons livros.

Idoso Triste

Já não consigo mais dormir pouco e acordar disposto. Problemas que antes me desafiavam agora se tornaram fonte de aborrecimentos diários. Quando minha secretária chega para despacharmos dá vontade de gritar com ela e sair correndo.

Noutro dia me percebi chorando à toa, sem nem saber por que. Foi algo que alguém apontou, no nosso balanço, que me desestabilizou. O que eu levava como meras opiniões de caráter genérico agora eu as tomo por afronta pessoal.

Meus filhos se reuniram e vieram até mim. Levei o maior susto. Esperava por um, entraram os três. Achei que havia acontecido algo de muito grave com uma das crianças, que alguém havia sido acidentado e que um familiar próximo estivesse hospitalizado. Olhei por sobre o ombro de dois deles, esperando encontrar algum médico amigo na retaguarda.

Eram só eles. E eu. Sentamo-nos no sofá. Não havia preparado comida para todos. Sugeri chamarmos uma pizza. Não quiseram. Disseram que a reunião seria rápida e que depois um teria uma festa, outro teria que viajar muito cedo e outro, ainda, que iria buscar a filha numa festinha. Em pleno meio da semana. Quem conseguiria acordá-la na manhã seguinte para ir ao cursinho?

Levantei-me e procurei no armário algum petisco para servir e nos distrair. Nada havia. Ofereci vinho bom. Pai, senta aí, soou a ordem como uma bomba em meus ouvidos. O mais velho a lançou no quintal da minha pacata existência, enquanto os dois outros desviaram o olhar. Então, respirei fundo e me sentei à mesa.

Sofá, mesinha de centro, tudo montado para receber bem, ser hospitaleiro. Mesa de jantar para discutir assuntos sérios. Aquilo tudo era muito sério. Ninguém mais disfarçou o constrangimento. O ar, de cortar com a faca. Vida não tão pacata assim. A beligerância se instalou entre nós quatro. Ela sempre se fazia presente.

Desembucha logo. Qual é o problema, me armei por inteiro. Pigarros. Silêncio. Vocês estão aqui para...? Pai. Não adianta ficar nervoso. Nós não vamos voltar atrás. Já conversamos com os advogados e trouxemos a papelada. Você só tem que assinar. Pa-pe-la-da?! Que papelada? Gelei. Meu estômago se contraiu e uma vertigem me tomou. Devo ter balançado antes de me sentar, por que me vi amparado por dois deles que, não sei se pularam a mesa ou passaram por debaixo, mal senti o baque do meu corpo no chão.

Zonzo, ouvi vozes assustadas. Chamem o resgate, ele bateu a cabeça, está sangrando, acho que foi atrás, não, foi na têmpora, chama logo seu imbecil. O papai caiu. Enquanto brigavam entre si ouvi a minha voz vinda de longe. Não tem mais reunião. Patifes, aqueles desgraçados. E sorri, sentindo-me vingado, para o doce sono que me arrancou dali e me jogou para bem longe.

Dias depois me puseram a par. Havia tido um infarto. Filhos desgramados. Aos poucos a lembrança daquela noite veio surgindo e pude analisar os fatos. Sofrera um golpe. Não na cabeça, mas no peito. Ainda doía. Não era uma dor física, mas moral. O que aqueles demônios foram fazer na quinta de noite em minha própria casa, falando de advogados e me dando ordens?

Fechei-me em copas. De mim não ouviriam nada. Não iria falar com nenhum deles. Talvez devesse fazer greve de fome. Os médicos declararam que estava em estado de choque. Perguntaram o que havia acontecido. Nenhum teve a coragem de assumir que invadiram minha casa feito tropa de choque. Eu sei o que eles queriam. A presidência da empresa. Estava tudo muito claro.

Nos últimos meses, meses ou anos? Não sabia bem. Estava confuso e me doía a cabeça enfaixada. Coisa de uns 20 pontos. Mas doía mais por dentro, que dor moral é bem pior. Enraivecido, procurei assentar a cronologia dos fatos. Nas últimas vezes em que estivéramos juntos, sempre me ofereciam conhecer paragens paradisíacas.

Papai, você precisa descansar. Papai, você já trabalhou muito na vida. Papai, você não precisa se estressar tanto. Papai, você já tem idade. Papai, você precisa descansar por que nalguma hora você vai ter um troço. Papai, você ainda é moço, quem sabe encontra uma companheira. Papai, você não precisa mais acordar tão cedo, nem ficar até tão tarde. Papai, você está se desgastando a toa. Papai, deixa com a gente. Confia. Confia. Confia... Pirralhos, querendo mandar em mim.

O papai deles atrapalhava seus planos de futuro. Um queria ficar com isso, outro com aquilo. Conversavam entre si para dividir meus bens. Até meus netos entraram nas brincadeiras de vamos fingir que vovô morreu. Minha neta teve a ousadia de pedir, pedir não, reclamar para si, as joias da avó. Disse-lhe que só quando se casasse. Saiu pisando duro e resmugando, que eu era um velho ultrapassado.

Meu filho do meio tomou posse da minha casa na praia e praticamente todo fim de semana a ocupava com seus amigos e os amigos de seus filhos. Num dia comentei que iria descer e me disseram que não, que não haveria quarto para mim. Miseráveis. Eu mantinha, pagava os caseiros, eles me enxotavam.

Teria feito algum mal, se me levassem junto? Cada qual estendia seus tentáculos fechando o cerco. Empurravam-me para fora de suas vidas e se adonavam de minhas propriedades. Fingia que não percebia. Confesso hoje, eu já me sentia fraco. São muito bravos eles e minha voz, sempre firme, perante eles se calava.

O próprio gerente do banco me aconselhou a vir sempre acompanhado, como se eu fosse um idiota. Inválido. O senhor não quer consultar seus filhos? Aquela solicitude, cuidados que eu não pedira me enojavam. Que filhos? Que filhos?! Eles jamais haviam construído nada que não fosse com o meu dinheiro.

Reuniam-se com os advogados e não me chamavam. Ficavam de conversinha entre si e disfarçavam quando me aproximava. Perguntava o que estava acontecendo, eles nada diziam além nada, pai, coisas da empresa que já estamos resolvendo. Diziam-me não se preocupe. Seus títulos impressionavam, mas quem tinha experiência era eu. Eu. O dono de tudo. Levavam aquela vida boa por conta dos meus méritos. E generosidade. O que eles tramavam?!

Aquela invasão de quinta. As imagens não saíam da minha cabeça e eram elas que alimentavam minha indignação. Papelada. Rasgo, boto fogo em tudo e faço xixi em cima, que não vou deixar empestear a minha sala! Não aquele tapete maravilhoso que trouxemos da Turquia. Eu e a mãe desses demônios. Não sei como daquela santa foram nascer filhos tão desnaturados.

Fechei minha boca. Por seis dias (disseram, porque eu mesmo não consegui conta-los) nada engoli. Fui mantido confinado numa UTI. Ouvi, entre momentos de sono e vigília, tem um coágulo, precisa dissolver. Entrou em estado de depressão. Não sabemos como será a evolução... Essas baboseiras de filmes. Quando achei que deveria, de algum modo fazer algo mais positivo, pasmei. Não consegui.

As dores que por vezes ainda sentia como que iam e voltavam, mas desta vez elas se instalaram nos ossos. Ou foi na alma? Eu não acredito em alma. Só força de expressão. Então, nos ossos, mesmo. Só ouvia e não conseguia falar, ainda que quisesse. A língua pesava em minha boca. Nalgum momento me dei conta de que estava entubado. Cantarolava entrei de gaiato num navio, entrei, entrei pelo cano.

Vi um eu que não era eu mesmo ali largado feito saco de batata. Motores rosnavam em torno e me ensurdeciam. Adormecia por falta de melhor opção. Perdi minhas vontades e não senti sua falta. Não precisava. Meus filhos, esposas, netos, primos, todos interesseiros, entravam, mal me olhavam e saíam. Conversavam entre si. Um dia passei a ouvir música boa no quarto. Um dia me levaram embora dali.

Não sei mais nada. Nem que dia é hoje. Decidem por mim e eu gosto. Lembro algumas coisas. Eles me levantando do chão e correria. Gritavam, mas não era comigo. Levado feito bebê, agora permaneço aqui, registrando o presente e conversando com ausentes. Nada mais dói, se mostra demorado, difícil ou me custa. Nem sei se envelheci ou se morri. Mesmo não sendo mais eu, estou aqui.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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