É bom amar. Mesmo sem retribuição.

Naquele quarto de hospital, onde mais uma vida se despedia em agonia, quando se espera que as verdades compareçam, sim, é isso mesmo que acontece. A verdade se pronuncia.

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p align=\"justify\">Ao pé da cama de sua irmã, Clara timidamente perguntou, você gosta quando eu venho aqui? Num fio de voz, a irmã afirmou sim, gosto. Do que você gosta em mim? Clara insistiu e a resposta, você é divertida veio sem hesitação. A gente dá risada. Gilda se divertia com as histórias de Clara. Simples assim.

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p align=\"justify\">Puxa, ao menos ela enxerga em mim uma qualidade, pensou. É, tenho feito bem em vir, concluiu. Alguns meses já se passavam desde que Gilda fora internada. Ali aguardava sua partida. Consciente e revoltada. Dizia não sentir medo da morte. Também não sentia dor. Queria somente ir até sua casa botar ordem nalgumas coisas e os médicos não deixavam sair do hospital. Nem do quarto. Defesas arrasadas, a doença caminhava célere ocupando um corpo que mal conseguia vencer a distância entre o leito e o banheiro.

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p align=\"justify\">Gilda sabia que seu tempo se esgotava e que suas forças se esvaíam. Os dias se arrastavam na monotonia própria do não há mais nada a fazer além de esperar. E ver tevê. Mesmos programas chatos, mesmos filmes bobos que não lhe interessavam. Mesma política predatória. Gilda queria dar uma passadinha em casa. Três doutores não autorizavam. Insistia, insistia, insistia frustrada, que precisava ver umas coisas. Ordem pessoal. E umas contas. Mas, nada.

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p align=\"justify\">Teria ela algum segredo cabeludo, desses que se leva para o túmulo? Intrigada, Clara também se incomodava. Devia poder ir, sim, a gente não pode morrer e deixar as coisas bagunçadas e não cuidadas. Apoiava sua irmã, ali confinada. Segredos próprios? Alheios? Com ares de advogada, foi conversou com os doutores mais a enfermeira chefe. Irredutíveis.

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p align=\"justify\">Não fazia sentido. Por que sua irmã não podia? De ambulância. A família tinha dinheiro. Pagaria. Faz de conta que faria exame externo. Mas não, não podia. Sua irmã deu-lhe um cala boca. Não se meta com eles que você piora tudo. É muita coisa? Não. Só uns papéis. Umas caixinhas. Uns envelopes. Me diz, então, o que você quer e eu busco. Vou lá pegar, rapidinho e você arruma aqui.

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p align=\"justify\">Não, deixa. Não precisa. Já falei. Você é teimosa, hein? O que é que você tinha que se meter com os médicos? Eu te pedi? Quem fala com eles sou eu! Uma vez mais Clara sentiu-se dispensada. Sempre fora assim, porque agora seria diferente? Mas ficou mordida. Desejaria ser fiel depositária de sua confiança. Por uma pequena temporada haviam sido confidentes.

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p align=\"justify\">Contaram-se segredos de mulher. De esposa e de mãe. Mas a temporada durou pouco. Clara não gostava do jeito que Gilda tocava a sua vida. A recíproca era a mesma. Zero afinidade. Mas, poxa, não daria ao menos para se curtirem? E daí que eram tão diferentes? Nunca nenhuma delas havia mexido no dinheiro uma da outra, nem roubado namorado. De onde brotavam tantas reservas?

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p align=\"justify\">A recusa, a recriminação de sua irmã doeram fundo, mas respeitou. Queria ser prestativa e a irmã não deixava. Poucos dias depois a cuidadora comentou dona Gilda está mais sossegada. A vizinha Amélia já foi pegar. Ela e mais a empregada remexeram em tudo por lá e trouxeram umas poucas joinhas.

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p align=\"justify\">Clara não conseguiu evitar o incômodo despeito. Engoliu as lágrimas que ameaçaram brotar e nada fez, além de comentar com a irmã que bom, que bom que você já resolveu as suas coisas. Mas não era bem o que eu queria. Faltaram umas peças. As empregadas devem ter mudado de lugar. Minha nora vai encontrar. Se não, paciência, não era nada de muito valor, não.

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p align=\"justify\">Clara ficou pensando cuidados paliativos é isso? As pessoas querem por suas coisas em ordem nessa hora. Se despedir de sua morada, antes de subir à do Pai. Clara é muito religiosa. Gilda se proclamou sem religião. Não quis presença de padre algum. Clara fez o sinal na cruz. Gilda olhou feio, do jeito que sempre foi. Clara pôs-se a orar. Gilda virou o rosto para o outro lado e fez que dormiu.

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p align=\"justify\">Ato contínuo ao chegar a sua própria casa, foi conferir se suas cartas e joias estavam intocadas. Não estavam. Frustração. Clara sempre fora descuidada. A cada nova estação arrumava tudo. Prateleiras, gavetas, sapateira e caixas de documentos. Joias? Largava de qualquer jeito sobre a pia do banheiro, em cima da mesa da sala. Papéis, recibos e, notas, enfiava nos livros e, não fazia muito tempo, guardara três mil e duzentos reais sabe-se lá onde!

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p align=\"justify\">Duvidou que tivesse sacado o dinheiro. Será mesmo? Vai ver que pensei, mas não fiz. Não fui assaltada... Não botei no bolso... Nem numa bolsa velha. Procurou dentro de suas botas favoritas. No estojo de maquiagem. Não achou nem rastro do dinheiro. Logo concluiu que a empregada afanou. Qual delas? A faxineira ou a fixa?

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p align=\"justify\">A filha da fixa estivera em sua casa dois dias antes. Tinha sido ela. Bufou e depois sossegou. Nada como encontrar respostas! Sempre as empregadas são as primeiras suspeitas! Oh, cultura de senzala. Isso ou já se manifestava o Alzheimer. Estava perdida! Não podia mais confiar em sua memória e a empregada, hum, não sei não. Uma desgraça.

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p align=\"justify\">Ia e voltava ao hospital onde sua amada irmã definhava a olhos vistos. Naquele fim de tarde a irmã contou que os médicos tinham liberado que descesse ouvir piano no hall de entrada. Ah, que bom, te fez bem, comentou. Quer saber, não fez a menor diferença. Clara murchou e sentiu na pele que sua irmã já se despedira da vida. Em poucos dias, contados em horas, haveria de partir.

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p align=\"justify\">Olhar esgazeado, inapetência, pele cinzenta, tudo indicava. Nem mais quis receber comadres, nora, primas e vizinha. Umas poucas amigas tinham entrada livre. E Clara. De seu marido já se despedira e até pintara os lábios, aplicara um leve toque de blush, para o grande último abraço entre os dois. Ambos sabiam. Nada disseram e não choraram. As lágrimas secas não rolaram. Um beijo na boca, de leve, como se virgens e castos houvessem se tornado.

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p align=\"justify\">Sofrendo tudo que lhe cabia, Gilda só sorria e um pequeno brilho de alegria lhe acendia o olhar, quando seu filho entrava. Filho, que bom que você veio. Eu amo você, filho. Clara assistia às cenas de afeto deles dois e um dia se tocou. Não se recordava de qualquer gesto de amor entre elas. Nunca sua irmã havia chamado às pressas vem cá, vem cá, vem ver uma coisa. Era só sai daqui. Batidas de porta na sua cara e gritos, quando queria acompanhar nos passeios.

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p align=\"justify\">Você é café pequeno, ladrava Gilda. E mais os contos de terror que insistia em contar, para fazê-la calar a boca de medo de fantasma e chorar sob as cobertas, para não ter que ver o escuro do apagar das luzes, quando terminavam as badaladas da meia noite, hora em que os mortos se alevantam e se pode vê-los e ouvir o ranger de correntes que lhes pendem dos pés e mãos.

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p align=\"justify\">Nas silentes horas tardias, Clara ouvia sussurros e via luzinhas, morrendo de medo dos monstros de mãos geladas que dormiam nos armários e sob sua cama. Preferiria já mocinha, urinar na cama, que atravessar a longa distância escura feito breu, ao fim de que era o banheiro. Ir correndo de bexiga cheia e voltar voando sem lavar as mãos, cheia de coragem para vencer o corredor polonês das almas penadas. Era isso ou o penico.

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p align=\"justify\">À Gilda interessava zombar dos terrores de Clara e, se não pusesse ainda mais fogo, com suas histórias de lobisomem e mula sem cabeça, preferia ouvir rádio alto, fazer bastante ruído ao virar as páginas de suas revistas de novela e de bons modos, recortar as estampas dos rostos de artistas idolatrados para montar seus álbuns da fama, do que atender a uma irmã choramingante, desejosa de consolo, ávida por um único abraço de afastar angústia.

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p align=\"justify\">Pois que Clara sempre fora menina, moça e mulher, agora velha, uma pessoa muito angustiada. A angústia e a insegurança, suas velhas companheiras, acompanhavam-na em todos os seus passos. Clara invejosa, Clara sozinha, Clara insegura, Clara bobinha. Clara sem filhos nem marido para chorar no dia de sua partida. Clara nunca estivera à altura de ser amiga de Gilda, nem de ser tão querida pelo pai, como o fora sua irmã mais velha. Mãe botava pano quente e Clara era a criança boazinha que não dera trabalho, que se criara sozinha.

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p align=\"justify\">Ali, nos minutos finais, pouco antes de acabar o jogo, Clara criou coragem e pediu à irmã fala que você me ama. Queee!? Coisa mais boba essa. Para que eu haveria de dizer que te amo, contradisse Gilda. Por que eu preciso ouvir isso. Como assim, nessa hora, não me enche, coisa idiota. Fechada em seu desdém, Gilda virou-se para o outro lado. Eu preciso ouvir de sua boca que você me ama. Ah, não amola com esse seu chororô. Você adora faturar em cima das suas carências. Fala. Tá bom, falo. Numa voz seca cheia de deboche, imitando criancinha, disse à irmã Clara tá, eu te amo, tá bom assim?

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p align=\"justify\">Uma geleira do Ártico tomou conta do quarto e deixou Clara sem voz. Nada mais tendo a ouvir, nem a dizer, no silêncio absoluto saiu do quarto com cara de ué. Mas não fora sempre assim? Porque o choque? O que ela esperara? Um milagre. Cuidadora ainda conseguiu alcançá-la no elevador. Não fique assim, não fique assim. Ela já nem sabe mais o que fala. Não quis dizer isso.

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p align=\"justify\">Numa voz baixa e rouca, Clara recebeu o abraço solidário e disse ela falou a verdade. Quis, sim, e disse. A verdade que nunca admiti. Eu é que a amolei a vida toda, implorando por um amor que ela não sentia por mim. Besta fui eu por aguardar por mais de 70 anos, que ela dissesse um eu te amo, minha irmã. Ela nunca me amou. Eu fui uma pentelha. Precisava ter ouvido o que acabo de ouvir. Agora sim, posso me despedir. A verdade é essa. Errei ao pedir.

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p align=\"justify\"> Com seu psicanalista Clara se abriu. Sem chorar a perda da irmã, ainda que muito triste, aprendera na pele, no coração, nos rins, no peito e na barriga o que antes somente ouvira. Um amor não se prova. Se sente. A única verdade é que a gente ama. E isso basta. Fique com o seu amor por ela e você vai se sentir muito rica e agradecida. De qualquer forma é bom amar, mesmo sem retribuição. Quase o mandou àquele lugar. Mas reconsiderou. Ele tinha razão.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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