Por Ana Fraiman, abril de 2016.

Continuação do Artigo Idosos Órfãos de Filhos Vivos – Os novos desvalidos.

A dificuldade de reconhecer a falta que o outro faz
Imagem: fonte desconhecida

Do prisma dos relacionamentos afetivos e dos compromissos existenciais, todas as gerações têm medo de confessar o quanto o outro faz falta em suas vidas, como se isso fraqueza fosse. Montou-se, coletivamente, uma enorme e terrível armadilha existencial, como se ninguém mais precisasse de ninguém. A família nuclear é muito ameaçadora para o conforto, segurança e bem-estar: um número grande de filhos não mais é bem-vindo, pais longevos não são bem tolerados e tudo isso custa muito caro, financeira, material e psicologicamente falando.

Sobrevieram a solidão e o medo permanente que impregnam a cultura utilitarista, que transformou as relações humanas em transações comerciais. As pessoas se enxergam como recursos ou clientes. Pais em desespero tentam comprar o amor dos filhos e temem os ataques e abandono de clientes descontentes. Mas, carinho de filho não se compra, assim como ausência de pai e mãe não se compensa com presentes, dinheiro e silêncio sobre as dores profundas as gerações em conflito se infringem. Por vezes a estratégia de condutas desviantes dão certo, para os adolescentes conseguirem trazer seus pais para mais perto, enquanto os mais idosos caem doentes, necessitando – objetivamente – de cuidados especiais. Tudo isso, porém, tem um altíssimo custo.

Diálogo? Só existe o verdadeiro diálogo entre aqueles que não comungam das mesmas crenças e valores, que são efetivamente diferentes. Conversar, trocar ideias não é dialogar. Dialogar é abrir-se para o outro. É experiência delicada e profunda de auto revelação. Dialogar requer tempo, ambiente e clima, para que se realizem escutas autênticas e para que sejam afastadas as mútuas projeções. O que sabem, pais e filhos, sobre as noites insones de uns e de outros? O que conversam eles sobre os receios, inseguranças e solidão? E sobre os novos amores? Cada geração se encerra dentro de si própria e age como se tudo estivesse certo e correto, quando isso não é verdade.

Ainda que não se possa afirmar que este estado de distanciamento afetivo e cognitivo entre pais e filhos nunca tenha sido, anteriormente tão profundo e gritante, pode-se afirmar que a nossa educação, ao longo do século XX, especialmente depois da Segunda Grande Guerra, criou altas expectativas de que, mais atentos, estudados e civilizados, não viéssemos a sofrer deste afastamento. Pensamos haver conquistado definitivamente a convivência amorosa entre pais e filhos a partir dos modelos românticos veiculados pelas propagandas de todos juntos, felizes e bem arrumados, em torno de uma farta mesa já posta para o café da manhã numa cozinha limpa e iluminada, antes de todos saírem para o trabalho e para as escolas. Incluam-se os eventos comerciais patrocinados por inspiração da moderna pedagogia e pediatria, dos manuais de pais e filhos, das reuniões escolares e presença nas festinhas de fim de ano, dia das mães, dos pais, das crianças, dos avós, sem que o público fosse alertado: quanto mais se procura determinar um único dia para reforçar o amor e o carinho de uns para com outros, através de presentes materiais, mais isso denuncia que não há trocas espontâneas de carinho, substância imaterial, em todos os dias.

Ainda que sentimentos não mudem, muda a aprendizagem do que se deve esperar de um relacionamento e, quando e quanto uma pessoa ‘deve se alegrar ou sofrer’ por este ou aquele fato. Ou pelo não-acontecimento. O império das identidades pessoais sobrepujou o valor das experiências de comunidade e comunhão. O modo de educar e viver em família não era melhor. Provável que fosse até mais limitante, com maior rigidez em muitos aspectos. No entanto, as definições mais precisas sobre direitos e deveres em família, a autoridade dos pais e a subordinação dos filhos, ainda que excessos fossem cometidos, tornavam a convivência mais segura e moderavam as expectativas mútuas.

Os pais não precisavam ser simpáticos e compreensivos. As mães não precisavam ser amigas e companheiras de seus filhos. Nem guiar carro, nem saber matemática para sentarem-se com seus filhos para ensinar o que não conseguiram apreender nas escolas, durante as aulas. Os papéis não se intercambiavam, também. Pais e mães não sabem mais exercer sua autoridade, nem sabem de que, exatamente, seus filhos precisam. A maioria dos jovens de hoje afirmam o fato de que seus pais não os conhecem bem, mas pensam que sim. E que, portanto, insistem em dar conselhos que não se aplicam.

As ausências tinham uma denotação, enquanto hoje em dia elas têm infinitas conotações. Hoje o excesso é de frustração das expectativas de uns e de outros. Há, na verdade, uma verdadeira lacuna de solidariedade intergeracional e, mesmo, intrageracional. A família comete, na pós-modernidade, um excesso de autoritarismo – pela dureza das críticas mútuas – e padece de grande escassez de presença e acolhimento. Os pais de mais idade não conseguem aprovar, nem conviver, com o modo atual de educar os filhos. Pais e filhos que se xingam e competem de igual para igual pela ocupação dos quartos, dos aparelhos, dos assentos à mesa, pelo uso do carro da família e pelo dinheiro, quando há. E competem, da mesma forma, pelo mesmo posto no mercado de trabalho.

Filhos adultos são arrogantes com seus pais de mais idade. Irmãos são arrogantes entre si. A inflação dos egos está presente em praticamente todas as transações familiares. O modelo pobre e insuficiente, do ponto de vista do conforto moral e afetivo de toda a família, insufla a postura narcísica: - Se eu fiz, você pode fazer também, a qual tem por corolário o faça você mesmo. Essa brutalidade emocional com que pais, filhos e irmãos se tratam, leva-os a ser intransigentes com os erros e falhas de uns e de outros e, por demais complacentes para com suas próprias.

As famílias vêm cultivando um estilo famélico de reconhecimento, atenção e carinho. A insistência na autossuficiência conduz quase todos os membros de uma mesma família à sensação de insuficiência. e todos padecem da síndrome da solidão no seio da própria família. E o terror de se envolver mais profundamente com outro alguém, pois já que na família não se encontra respaldo, nem guarida, o que esperar de quem? A desconfiança está, epigeneticamente, instalada na cultura familiar.

Leia o Artigo Completo: Idosos órfãos de filhos vivos – os novos desvalidos

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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