“Celebrar é sonhar um sonho de total perfeição, tão vívido, que você quase chega a tocá-lo. Ao celebrarmos uma relação, afirmamos e trabalhamos arduamente para que o sonho se torne realidade.”

Datas Especiais
Imagem: Pixabay

É por isso que os casais se sentem como que envoltos e protegidos por uma bolha mágica, separados do mundo. Deu-se um encontro. Ambas as pessoas se encontram no mesmo lugar em que estão, pelo mesmo tempo que transcende o rigor do relógio. Um tempo sem tempo, que para tudo o mais, para o amor chegar e se instalar.

Um encontro que fala de futuro e de esperança, sem se dizer palavra. O melhor som brota do silêncio. A melhor luz, do brilho do olhar. Sem tal celebração, que casal pode se encontrar? Sem celebrações, que relação pode perdurar?

Datas especiais são sinais que demarcam muitas direções.

Dizem da passagem do tempo e se este foi vivido junto, compartilhado. Permitem comparações: o que já conquistamos e como estamos nos dando hoje, em relação ao ano passado e ao tempo em que nos conhecemos. Também possibilitam projeções: como vamos viver daqui para frente, que promessas serão cumpridas, que desejos serão satisfeitos, que necessidades serão preenchidas, que vontades serão concretizadas, esquecidas ou transformadas?

Datas especiais também registram, publicamente, um acordo privado que é vivido a dois e somente por estes.

Convidados são chamados a testemunhar mais um trecho do caminho percorrido, o que sempre acontece em meio a gratas surpresas e justificadas invejas: “como estes dois conseguem?!”. Uma variação deste tema é: “como é que esse homem aguenta uma mulher destas?!”. Outra: “bem que eles se merecem!”. Mesmo quando o casal se isola, querendo ficar a sós, pessoas, parentes e amigos, mantidos a parte da celebração, justamente pela ausência do casal, chancelam a relação, apoiando o afastamento.

Comemorar em família, só com amigos ou fechados num quarto, é praticamente a mesma coisa. A relação é publicamente validada, e todos tendem a sonhar o mesmo sonho de perfeição. “Eles é que são felizes de poderem viajar, só os dois, nesta data!”. Nem passa pela cabeça que o casal pode estar infeliz e brigado. E, se assim for, o conselho: “porque vocês não viajam só os dois, feito pombinhos? Não é o aniversário do casamento de vocês?!”.

Datas especiais podem ter, portanto, um dia marcado.

O dia em que se conheceram, em que fizeram amor, em que se reconciliaram, em que se casaram... Casais mais modernos podem chegar a comemorar o dia em que se divorciaram. Não sei se comemorariam juntos, mas mesmo longe, estaria presente na mente de todos a ausência do “ex”.

Podem ter, também, lugar determinado. O restaurante, o quarto de motel, aquela cidade, a praia, o shopping... Lá, onde houve o primeiro encontro. E hora. Embora datas especiais quase sempre ocupem o dia todo, algumas horas podem se tornar mais marcantes. Casais e namorados já começam a celebrar, com abraços e beijos ou telefonemas (é permitido acordar o outro) nos primeiros minutinhos do dia que nem raiou.

Não há trajes especiais para datas especiais. Se muito, quem repete o terno é ele (especialmente se só tem um, ou se detesta usar). Ela varia bem mais o modelo, a cor e... o tamanho. Já, as comidas, podem ser as mesmas já preferidas porque o sabor e o cheiro das coisas parecem cumprir papel primordial no registro dos prazeres associados.

Datas especiais podem envolver músicas e outros símbolos: um anel diferente a cada ano, uma camiseta, uma flor. Gasta-se, também, um pouco ou muito – mais. A felicidade que se sente gosta de se enfeitar, de se exibir, de circular. Pessoas bem-vindas e outras indesejáveis. As obrigatórias e as que são recém-conhecidas. Outros símbolos de maior ou menor importância, como convites, tagalos aos convidados, a qualidade do serviço, tamanho da festa, a gentileza do casal. Há tanto a se pensar e providenciar no plano social!

O risco é o casal investir tanto na fachada, nos símbolos e sinais que, embora duradoura, a relação se esvazie e o afeto se perca nos meandros das obrigações para com os outros, ao invés de continuarem a se perder nos braços, um do outro. Classicamente: - “puxa, depois de tantos anos você ainda o chama de Bem, e ele a trata por Querida?!” - “Vou lhe contar um segredo, a gente vive tão afastado que ele já nem se lembra do meu nome. E eu confundo o dele”.

É um perigo, quando ele passa a ser chamado de “pai”, pela esposa e ela “mãe”. Ambos podem se aperfeiçoar tanto nos papéis parentais, que acabam descuidando de serem um casal. Ao invés de “meu homem”, ele passa a ser, para ela, “o pai dos maus filhos”. O mesmo, do outro lado.

Conservar, portanto, os próprios nomes e apelidos de quando se conheceram consagra, mais apropriadamente, a relação do casal. Conheci uma senhora, nem mais tão jovem, porém ainda não tão velha, que levou o maior susto, quando seu marido, resolvido a tentar salvar o casamento, lhe enviou um buquê de flores e ingressos para o teatro: “Vera, querida, quer sair comigo hoje?! As oito virei buscá-la. Esteja pronta. Seu George.” Há anos ela não ouvia o seu próprio nome pela boca de seu marido. Tinha a sensação de nem mais ser percebida, de ter virado “móveis e utensílios”, como se diz. Dá para celebrar, romanticamente, uma relação com ele sussurrando em seu ouvido: “Mãe, vamos fugir daqui? Só nos dois?”.

Datas especiais requerem nomes próprios, vontades e identidades explicitadas e, principalmente, o reconhecimento, não do próprio esforço em tentar fazer da dura realidade cotidiana um lindo sonho de verdade, mas do esforço do outro. O quanto essa pessoa nos tolera, nos suporta, nos atende. Celebrar datas importantes e especiais e, principalmente, reconhecer que estamos com a pessoa certa. Não com a pessoa que mais nos faz feliz, mas com a pessoa que amamos. E por amar, dela precisamos.

E quando é só um que se lembra da data, que faz festa, compra presente? Quando a outra pessoa é esquecida, desligada? Ainda assim, vale a pena a celebração? O amor não se prova. Se sente. Há pessoas mais românticas e muito expressivas, prodigas em dar carinho e propiciar mimo. Outras, são muito fechadas, secas, até. Como é impossível saber se o “tamanho” do amor do outro é maior ou menos do que aquele que a gente sente, celebrar não é comprovar que o outro nos ama, através dos agrados que nos faz, mas elevar os pensamento e sentir gratidão por amar alguém, além de nós mesmos. E convidar esse alguém a um simples passeio conosco, uma boa macarronada, uma televisão de mãos datas, sorrindo por dentro e por fora pelo fato de se conhecer o verdadeiro amor.

Celebrar não é exigir, mas sentir. É, se juntos, muito melhor”!

23/09/1999

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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