Chag Purim. Boa Páscoa!

Tenho estado muito sensível nestes tempos sombrios. Ataques terroristas. Governos instáveis. Alta corrupção.

Ameaças de toda parte. No Brasil é morta uma pessoa a cada 9 minutos! Assassinada. Alvos preferenciais: homens negros em idade jovem. PIB despencando pelo terceiro ano consecutivo. Toda uma geração despreparada. Outras, na dependência de terceiros. Muitos em desespero.

O fluxo de apoio se inverteu: 30% dos idosos é responsável pelo sustento dos filhos e netos. Aposentadoria virou renda familiar. Quem mais trabalhou e contribuiu é a pessoa do aposentado, que entrega todo seu dinheiro para a família. E em nome desta também acaba inadimplente. O próprio aposentado não usufrui.

Aposentadoria se inclina para muitas e muitas perdas, além do financeiro. Perda de acesso, perda de sua rede social de segurança e de pertença, perda de credibilidade. Perda do trabalho. Abatimento moral. Perda do entusiasmo. Perda da alegria de viver. Quantas perdas uma pessoa suporta sem adoecer?

A maior parte dos meus amigos já é aposentada. Poucos deles ainda trabalham. Me perguntam por que ainda trabalho tanto.

É porque amo o que faço. Poucos trabalharam, naquilo que realmente amavam. Mas gostavam de trabalhar e era isso. Muita coisa boa foi realizada. Não é preciso trabalhar naquilo que, de fato, se ama. É só se dedicar. Existe o amor ao trabalho e o amor a trabalhar naquilo. Desfruto dos dois. E fico triste e preocupada com a situação do nosso país.

Uma coisa, porém, ao alcançar esta minha ‘mais idade’, a vida me ensinou com certeza. Parar de trabalhar a gente consegue. Mas abrir mão dos amigos, isso não, jamais! Com o trabalho a gente deixa por aqui os traços da nossa passagem. Junto aos amigos a nossa alma se engrandece. Que tamanho alcança? Nossa alma ganha o tamanho de cada sorriso, de cada abraço, de cada presença de que desfrutamos junto.

Enquanto a aposentadoria pode nos empobrecer de uma hora para outra, as amizades cultivadas, elas só nos fazem enriquecer. Também de uma hora para hora podemos ir à cata dos velhos amigos com quem há tempos não falamos. Ou dos amigos de sempre. E, também, dos novos amigos.

Como assim? Onde se arranja um novo amigo?! Na esquina?! Sim, na esquina. A vida é um trajeto de esquinas. Você sempre pode escolher seguir para cá ou para lá. Só não dá para voltar. Viver é um longo caminho a trilhar. Hoje eu escolhi falar com meus amigos. Falar com o coração. Que eu sou a pessoa que sou hoje por conta dessa rede linda, vibrante, quase incrível, de pessoas que me cumprimentam, que se importam comigo e com os meus, que me dedicam seu tempo e seu abraço. Um conselho. Uma advertência. Um olhar cúmplice, uma palavra verdadeira.

Nestes dias estamos nós, os judeus, celebrando PURIM. Uma festa de querer bem ao outro, conhecido e desconhecido. De partilhar riquezas, de confraternizar a distribuição dos pães. De nos alegrarmos por Ester, que nos livrou de sermos dizimados. Seu livro, o livro de Ester não menciona D’us uma única vez. Porém o amor de Ester pelo povo de Israel, salvou todos. Mais um de Seus milagres.

Meus amigos cristãos celebram a Páscoa. Para alguns, uma data ainda mais importante que o próprio Natal. Data em que, mais do que o martírio, é celebrada a Ressurreição.

Liberdade, perpetuação da Vida, a presença da família e a alegria de ter com quem compartilhar as histórias e as graças recebidas. A festa e o júbilo sucedendo os tempos de medo, de amargor, de sérias ameaças. Festa de celebrar com a família e com os amigos. Compartilhar e elevar o espírito que nos une. Haveremos, sim, de superar estas turbulências econômicas e políticas, todas. Com fé e com muito amor e apoio dos que sempre têm uma palavra e um gesto elevado a oferecer aos demais. Chag Purim. Boa Páscoa!

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