Educar é uma arte
Imagem: pixabay
Por Heraldo Palmeira*

 

Rever Pirenópolis é sempre um grande prazer. A cidade, voltada ao turismo e acostumada a receber gente do mundo inteiro aos borbotões, consegue manter aquele ar de cidade do interior que parou no tempo colonial e nos faz sentir em casa. Com o charme do roteiro gastronômico obrigatório.

No restaurante do jantar da primeira noite havia uma sala para espera ao lado do balcão principal, com sofá de quatro lugares e duas poltronas diante de uma tevê. O programa jornalístico tratava de meio ambiente e mostrava o fechamento de um lixão.

Quatro crianças assistiam ao programa com surpreendente interesse. Eram todas de Belém e desfrutavam mais uma das viagens de férias em família.

Duas estavam realmente cansadas. As outras, os irmãos Cauê e Raiana – peço desculpas à minha amiguinha se errei a grafia do seu nome –, de nove e onze anos, se mostraram adoráveis.

Diante da imagem de uma criança magricela falando a respeito do que era viver no lixão, eu provoquei:
– Já pensou, uma criança vivendo assim?
– Não, eu nunca pensei – respondeu Cauê de pronto, inquieto.

Com o fim do programa, entramos em animada conversa. Raiana e eu falamos de muitas coisas, das viagens que ela já fez, das que pretende fazer, das aventuras escolares, do pai que já não é casado com a mãe mas continua presente, e com quem já tinha planejada a primeira viagem internacional.

Pouco depois, alguns familiares se achegaram para conferir o bem-estar das crianças proseando com um estranho e logo se entregaram simpáticos a mais um pouco de conversa. Saí daquele restaurante encantado e certo de que, com crianças como aquelas, há esperança no futuro.

Mesmo diante da quantidade de pequenas criaturas insuportáveis que infestam o mundo – quase sempre “formadas” à imagem e semelhança dos adultos que as cercam (que bem poderiam aproveitar alguma dica do livro Crianças francesas não fazem manha) –, encontrar por acaso aqueles dois meninos e duas meninas adoráveis ficou guardado como uma prova de que educar é uma arte que pode passar pelas melhores escolas, mas começa em casa, no comprometimento dos pais e demais responsáveis.

*Heraldo, escritor e comentarista, é um ser humano incrível, com quem tenho a honra de privar de uma amizade antiga, sincera e profícua. De erguer as mãos para os céus e agradecer por estar próxima a alguém tão lúcido, crítico, criativo, culto e, importante, bem humorado. Combinação perfeita para que leiamos seus textos e saibamos de seu trabalho. Seus escritos de natureza política, assim como suas narrativas que, por singeleza e sensível originalidade, nos transportam para dentro das cenas tão bem retratas sobre o quotidiano das ruas e das pessoas, Heraldo ainda produz e dirige eventos com uma competência ímpar.

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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