Nos tempos corridos de hoje, é preciso aprender a cobrar dos amigos o afeto que lhes damos, para não ficarmos carentes.

Nesses nossos tempos modernos precisamos, e muito, de uma forte rede de relações de amizade. Quase tudo o que nos cerca nos conduz à solidão e à carência afetiva.

Amizade
Imagem: Pixabay (Amizade)

Aquela coisa gostosa de fazer o chá da tarde, bater papo por cima do muro ou debruçada na janela é mais típica do modo de vida de nossas avós, talvez mães. Hoje a mulher trabalha fora e suas amigas também. Ninguém consegue se ver com a frequência que gostaria. Tendo que nos dividir entre os cuidados com a casa e a família, além do trabalho, o que fica precário é nosso círculo de amizades.

Isso pode levar a um grande sentimento de solidão e insegurança, a um ponto perigoso de, numa emergência, não temos a quem recorrer. Numa gripe, numa hospitalização, são muitas as mulheres que se veem absurdamente sós, sem ter qualquer companhia, a não ser que… peçam!

Susana vai ser operada numa terça-feira de manhã. Uma semana antes, pega o telefone e vai ligando amiga por amiga, compondo uma agenda de quem poderá ficar com ela em que dia e a que horas. Todas têm mil compromissos. Mas Celina desiste, de boa vontade, de levar a filha à aula de inglês para fazer companhia à amiga na terça à tarde.

Corina ia fazer supermercado na quarta de manhã, mas deixa para outro dia. Naíde tinha uma consulta média, troca o horário. Leninha promete sair mais cedo do trabalho e ficar com Susana na sexta.

Essas mulheres, ocupadas, ativas, estão reaprendendo, com esse gesto, alguma coisa nova sobre a amizade. Por que, com raríssimas exceções, já não dá mais para largar tudo e sair correndo, disponível, para socorrer uma amiga em dificuldades.

Tem-se amigas, mas coisas passam, importantes, e não se fica sabendo, às vezes só se sabe depois. Além de tudo, porque uma não quer incomodar a outra enquanto puder resolver tudo sozinha. Todas trabalham, têm casa e filhos, dentista, ginástica, cartomante, psicoterapia. Mal têm tempo para cuidados pessoais (os cabelos são tingidos à noite ou aos domingos) e só vão a médicos que respeitem horários – de preferência que atendam durante o almoço ou após as 9 h da noite.

Na falta de empregada usam congelados, descobrem uma lavanderia fantástica (bem no caminho!), estão exaustas ao cair da tarde e vão levando. Mas, apesar de só conseguirem manter as amizades via telefone, trazem ainda na alma o desejo de ter toda a família almoçando junta durante a semana e a ilusão de que seus desejos serão adivinhados, suas necessidades satisfeitas. E como, então, se tornam carentes!

Dizem:

“Pedir, eu? Eu não peço. Se o meu marido (ou filho, ou amiga)se tocar e fizer espontaneamente, tudo bem. Mas pedir, não. Acho humilhante ter que pedir uma coisa óbvia, que deveria vir de graça. Pois quando eu percebo a necessidade de alguém não vou lá e ajudo, sem esperar que me peçam? Então, por que os outros não podem fazer isso por mim?”

E é ai que está montada um das maiores armadilhas para alguém se tornar uma pessoa carente, revoltada e solitária. Se a Gata Borralheira podia se dar ao luxo de chorar na calada de noite, e ser ouvida por uma Fada Madrinha, é bom saber que já não vivemos mais nesses tempos em que quem nos ama deve adivinhar e entender os nossos desejos, sem que movamos uma palha para isso.

Você pode estar pensando: “Mas será que tenho o direito de solicitar alguma coisa a alguém que não vejo há tanto tempo, em cuja festa de aniversário nem fui?”

Tem, sim. Uma verdadeira amiga é aquela que compreende isso. Que a gente falha com ela, ela falha com a gente, mas em ocasiões mais apertadas uma pode contar com a outra. Ser amiga, hoje em dia, não é estar disponível o tempo todo.

Amizade tem limites – se não tiver, é subserviência.

A boa amiga pode pedir e deve estar preparada para ouvir tanto um sim como um não. E também não deve pedir mais do que a outra está disposta a dar naquele momento. Pede-se o que se precisa, dá-se o que se tem, de boa vontade, sem sacrifícios.

Às vezes a boa amiga é a que diz “Não quero fazer tal coisa por você, não concordo com isso” e explica as razões, e não a que diz “Não posso”, inventa uma desculpa e sai por ai conduta da outra. E às vezes é hora de, em vez de dizer “Imagine, não é trabalho nenhum”, assumir claramente: “Sim, isso que você pede vai dar trabalho, mas faço com prazer porque gosto de você. E também por que espero que, se eu precisar um dia, você faça o mesmo por mim.”

Cobrar? Sim, cobrar também. Se numa amizade você começa a sentir-se explorada, sugada, abusada, em geral é porque… está sendo mesmo! Temos uma espécie de “fato”. Mesmo sem conseguir definir exatamente como, onde e quando os abusos acontecem, sabemos que eles acontecem.

Nossa tendência é achar que é implicância, falta de humanidade, e ceder em nome da amizade, desagradáveis (“Imagine se ela faria uma coisa dessas”, ou “Coitada, ela está em crise, desempregada, grávida, atormentada pelo marido” etc). Até que, depois de muitas concessões (presença, favores, dinheiro), se chega ao “E eu? Sempre que ela precisa eu digo sim, quando sou eu que peço ela nunca pode”.

Daí para uma ruptura é um passo. Assim terminam muitas amizades antigas, que eram mantidas pelo esforço de somente uma das partes. Aparentemente a de maiores recursos (alto-astral, posição, dinheiro, família, trabalho), porém no fundo a mais carente, a que morre de medo de, ao dizer um não, ficar só.

Essas pessoas geralmente viveram, na infância, profundas experiências de rejeição e abandono por parte dos pais. Ou então eram auto-suficientes e pouco reivindicativos, aquelas filhas que “não dão trabalho”, que “se criam sozinhas”…

É provável que esse senso de responsabilidade precocemente desenvolvido prive a criança e, mais tardem a adolescente, da experiência de se ver apoiada, protegida, levando a uma personalidade adulta em que o receber causa desconforto íntimo, como se fosse algo errado ou indevido. Receber fica associado a fragilidade e dependência, duas atitudes a serem evitadas, a não ser em casos de extrema necessidade.

Isso faz com que a pessoa vá acumulando carências, fique ressentida no dia-a-dia, apesar de desenvolver uma auto-imagem de quem-não-precisa-de-nada. É alguém que sabe ouvir um não com um sorriso nos lábios, mas que no fundo se sente muito ferida – não só frustrada, mas desqualificada. Afinal, se dificilmente pede alguma coisa (pois lhe é difícil receber), quando pede é porque precisa muito, e um não nessa situação é mesmo intolerável.

Então a questão é pedir e cobrar, sim. E esperar de volta tanto quanto se dá. Isso não quer dizer ser mesquinha e só viver na base do toma-lá-dá-cá, mas sim de manter o balanço dar/receber em equilíbrio dinâmico, bem distribuído. É comum ouvir alguém dizer: “Será que estou querendo muito? Só estou pedindo um mínimo de respeito e consideração!” Se é isso que essa pessoa pede, é isso que ela vai ter: um mínimo!

Nas questões humanas há que se pedir e cobrar um máximo de consideração e respeito, pagando na mesma moeda.

Cobrar a presença dos filhos em ocasiões importantes (mesmo que eles não gostem; afinal, quem é que só faz o que gosta na vida?), cobrar certas atenções do marido ou um favor especial de uma amiga significa zelar para que, continuamente, se tenham qualidade e satisfação nas relações – para todas as partes envolvidas.

Quem se dá conta das suas carências e não fica esperando que alguém compareça para resgatá-la da solidão, mas, pelo contrário, aprende a pedir e se dá a liberdade de receber, sem sentir-se humilhada por estar fazendo um pedido justo, está promovendo uma verdadeira revolução antiautoritarismo nas relações humanas.

A pessoa que é contemplada com um pedido da amiga sente-se valorizada e feliz por poder colaborar. Sente-se útil e necessária. Não é isso o que todos nós queremos? E se, frente a um pedido justo, recebemos um não, é porque esse não também é justo – ou, então, a pessoa não é nossa amiga. Daí, é hora de fazer novas amizades.

Magia no salão de beleza

Magia no salão de beleza

Eu fazia as unhas apenas para matar o tempo e acabei emocionada com a pureza do encontro da cabeleireira com uma menina de rua.

Magia no salão de beleza

"Era um daqueles salões de cabeleireiro em que a gente se arrepende de entrar. Todo grudento, mal cuidado, espelhos descascados, assentos furados e descosturados… E, por azar do destino, eu lá, meio que paralisada, sem entender porque continuo deixando a moça picotar minha cutícula mesmo morrendo de medo de contrair uma infecção. Pela boa educação? Calor excessivo? Talvez a solidão, numa cidade estranha, de passagem para pegar um avião dali a intermináveis cinco horas, sem nada para fazer, nem ninguém interessante para visitar.

Eu não havia reparado na moça, a não ser quando ela veio de volta da rua, segurando pelas mãos uma menina, de seus 7 anos. Ela tinha uma idade indefinível, entre 40 e 50 anos e um tipo vulgar. Avental branco manchado por tinturas, botões estourados na barriga, cabelos descoloridos. Faltava um dente, e os outros salvavam sobre seus lábios carnudos. Tinha pela parda e um vozeirão.

- Eu não disse que ia te trazer um sapatinho hoje?

A criança tímida assentiu.

- Fui buscar ela do outro lado da rua. Quase não achava. Vem cá, querida, vem lavar os pezinhos para experimentar.

Pegou a menina suja e franzina, sentada na borda do lavatório, e começou a limpá-la. Penteou seus cabelos. Pôs fitinhas. Lavou-lhes as mãozinhas, braços finos, pés e pernas. Tocava-a com tal cuidado e desvelo, falava-lhe tão suave e amorosa que pasmei. Enquanto cuidava da pequena, a morena foi se transformando, foi ficando bela, sublime, enorme de grande.

Enxugou os dedinhos um a um, passando a toalha e depois talco, finalizando com suaves beijinhos nos pezinhos, tão profundamente penetrantes que comecei a soluçar, perante tal encantamento. Meus olhos secos e arregalados não resistiram àquela bolha iluminada que emanava das duas.

- Beija aqui também. Agora esse outro dedinho, senão ele fica com ciúme. Pedia a menina, que arrulhava de satisfação. A pequena foi tomando ares de majestade, tornou-se uma verdadeira senhora, cheia de dignidade em sua presença infantil, soberba em sua confiança. Já ria alto, com pose de segurança. Sorria, como se sempre tivesse sido assim.

- Pronto, agora você pode experimentar. Eu trouxe dois, uma sandália e um tênis. Vê, qual você quer?

Sua hesitação devolveu-lhe o pequeno tamanho de sua pouca idade. Seu olhar tornou-se temeroso e furtivo.

- Ah! Você quer os dois, não quer? Então por que você não fala? Tome, leve o tênis com você e vai de sandália. Corre. Pode ficar com eles, ou então dá para um irmãozinho.

Os olhinhos da menina se arregalaram e brilharam de alegria e surpresa. Seu ar não era de gratidão, mas de novo, de realeza. A mulher invulgar fitou-a, serena. Deu um suspiro e recomeçou a eterna faxina no salão. A magia sossegou.

Chorei pra dentro copiosamente. Meu corpo todo tremia. Nunca mais vou esquecê-las. Minha maior vontade era encontrar essa menina hoje e perguntar-lhe: Ei, aquilo mudou alguma coisa na sua vida? Não sei se está viva ou morta, se continua na rua ou foi para a escola. Não sei onde ela está. Queira saber se o amor a salvou. E queria dizer àquela cabeleireira o quanto ela me ajudou.”

Depoimento de Ana Perwin Fraiman de São Paulo, SP. MAIO, 95, CLAUDIA.

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Feliz dia das Mães

Feliz dia das Mães

Já vencemos o tempo de discutir se o amor materno é inato ou aprendido.

Feliz dia das Mães

E, já penetramos o espaço-tempo de considerar que há mulheres que simplesmente dão à luz por puro instinto e outras que os trazem ao mundo para entregá-los à Luz que eleva suas consciências. Filhos do próprio ventre e filhos de puro amor.

Uma aloja em seu ventre um filho de outra mulher e crianças falam com naturalidade sobre suas muitas mães. Há filhos que dizem ter tido por mãe sua irmã mais velha ou sua avó e, quando o fazem, mesmo que 50 anos depois, seus olhos brilham de gratidão, porque se referem àquela que cumpriu fielmente com o que significa ser Mãe.

Alcançar o status de Mãe nos remete ao que essa palavra contém em si na sua origem: ser forte e paciente como a água, ter um fluxo permanente e renovador, buscar naturalmente outros caminhos nas grandes dificuldades, porém jamais desistir, seja o tamanho do obstáculo a superar.

Ser Mãe também significa aquecer o corpo e o coração daqueles que dela se aproximam.

Não sossegar, enquanto seus queridos não estão bem. É cuidar do próximo com doçura e com austeridade. Dizer sim e não com convicção, porque se investe de real autoridade, cujo propósito é a união.

Doces e preciosos momentos em que, apesar das grandes diferenças e divergências entre cada filho e cada neto, sentam-se todos ao redor de uma mesa, se não farta de boa comida, farta de amor e de fé. As Mães insistem em ter seus filhos reunidos, porque ela cumpre com uma função fundamental: é o traço de união, o agente organizador da unidade familiar. É a ‘cola’ que mantém todos em contato, mesmo quando as relações estão estremecidas.

Nem todas conseguem se sair bem ao longo do caminho.

Há mulheres más e negligentes. Há quem seja egoísta e se mostre ausente. Há mães que espancam e mães que matam. São pessoas infelizes e atormentadas. Nem todas conseguem unir a família, muito pelo contrário. Pode-se, no entanto, educá-las e tentar orientá-las ao que lhes compete realizar. A educação é primordial e traz resultados muito melhores do que a prisão.

Há, porém, uma espécie de mãe extremamente egoísta e possessiva, à qual não confiro um M maiúsculo, porque esse tipo de mulher age com pobreza de espírito, sem ética e, emocionalmente, assume atitudes pequenas. É aquela que toma posse de seus filhos e lhes nega um Pai. Essa mulher distorce os fatos, não permite que as crianças se aproximem dele, usa-as como moedas de troca, por meio de manobras que plantam na cabeça dos menores toda a sua própria raiva e negatividade.

Mulheres que agem assim ainda não cresceram e, portanto, não sabem exercer com critério sua autoridade, nem sua responsabilidade. Afetam, negativamente, a autoestima das crianças que, inocentes, se submetem ao rancor e à destrutividade de suas mães, que sentem prazer em atacar o Pai. Isso tem um nome na esfera da Lei: alienação parental.

Neste Dia das Mães eu gostaria de dizer palavras de amor, tão somente. De reconhecer em público o valor e o amor de minha própria Mãe. E aqui o faço. Quereria poder deixar de mencionar as injustiças e os ataques que muitas mães fazem contra seus filhos, mas não consigo. Não quero me limitar, na verdade.

Por isso peço, encarecidamente, a todas as mulheres que façam um exame de consciência: não falem mal do Pai deles para seus filhos. Não os tornem seus confidentes. Não os puxem para o seu lado por medo de perdê-los. Isso só vai ferir a vocês ainda mais, agora e mais tarde. E, também, não falem mal de um irmão para o outro, não os comparem, quando lhes convém.

Agindo assim, você não vai motivá-los a obedecer mais, a estudar mais, a se comportar melhor. Esse tipo de atitude é altamente destrutiva e leva, crianças, jovens, adolescentes, homens e mulheres feitos, a perderem a confiança no Amor. Comparar uma criança a outra, ainda que não seja essa a sua intenção, só tem por efeito humilhá-la. Dizem os sábios que humilhar uma pessoa adulta equivale a ferir de morte a sua alma.

Imaginem, então, como se sentem as crianças quando são humilhadas por suas próprias Mães e Pais, ao usarem de ironia e desdém para consigo, afirmando que a criança, tal como tem sido, não merecem seu apreço. Crianças que não são aceitas por aqueles de que tanto dependem, sentem-se ameaçadas de perderem sua segurança. Não confundam quem as crianças são com aquilo que elas fazem.

Deixe as desavenças, as decepções, a braveza de lado. Não faça manha, Mamãe. Cumprimente a sua própria Mãe, a sua sogra, as vovós. Seja um traço de União Familiar. E, viva seu Dia das Mães com amor e gratidão no seu coração: ao unir sua família e, unir-se a todos eles, também, você estará exercendo a sua função primordial!

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

É bom amar. Mesmo sem retribuição.

Naquele quarto de hospital, onde mais uma vida se despedia em agonia, quando se espera que as verdades compareçam, sim, é isso mesmo que acontece. A verdade se pronuncia.

\"Amor

Ao pé da cama de sua irmã, Clara timidamente perguntou, você gosta quando eu venho aqui? Num fio de voz, a irmã afirmou sim, gosto. Do que você gosta em mim? Clara insistiu e a resposta, você é divertida veio sem hesitação. A gente dá risada. Gilda se divertia com as histórias de Clara. Simples assim.

Puxa, ao menos ela enxerga em mim uma qualidade, pensou. É, tenho feito bem em vir, concluiu. Alguns meses já se passavam desde que Gilda fora internada. Ali aguardava sua partida. Consciente e revoltada. Dizia não sentir medo da morte. Também não sentia dor. Queria somente ir até sua casa botar ordem nalgumas coisas e os médicos não deixavam sair do hospital. Nem do quarto. Defesas arrasadas, a doença caminhava célere ocupando um corpo que mal conseguia vencer a distância entre o leito e o banheiro.

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Mazelas, deles e delas.

A sinceridade torna cada biografia um verdadeiro tratado de humanidades.

Mazelas
Imagem: Pixabay

Estou com 83 anos. Não sei se chegarei aos 84 e isso, de certo modo não é problema de meu interesse. Os médicos é que ficam procurando. Eles adoram encontrar doença. Querem logo tratar. Eles que tratem, então. Eu gosto é de viver a minha vida. Eles que fiquem preocupados. Eu fico com a saúde.

Não tem como. Quando chegar a minha hora, chegou. Meu compadre saiu do cardiologista feliz com o seu coração de jovem. Bateu com as botas às dez no dia seguinte. Infarto. A mulher acordou com ele lá, durinho na mesma cama. Esse daí é que soube morrer a Boa Morte. Eu não sei se vou saber.

Meu passado, com certeza foi muito mais emocionante que aquilo que antevejo para o meu futuro. Não que eu seja ou esteja deprimido. Minha vida é que está muito chata. Os dias passam sem maiores expectativas, não faço planos. Tudo muito uniforme. Nada de novo altera minha rotina. Três horas de novela todos os dias. Aquela gritaria. Só patifaria. Quem aguenta isso?!

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Aqui entre nós

Um dia me aposentei. Acho que cedo demais. Perdi meu trabalho, meu status, minha renda milionária. Fiquei mais velho, como todos ficam. Alguns amigos meus não tiveram essa sorte. Foram embora antes. Não tiveram que envelhecer. Porque isso é difícil. Põe difícil nisso!

Me aposentei
Imagem: Pexels

Já tive e precisei ter muitas coisas. Muitas. Correria desenfreada para manter tudo. Viagens, negócios, recepções. Compras, carros. Filhos, amigos, muitos amigos de meus filhos, além dos meus próprios amigos. Faculdades e cursos disso e daquilo, casa na praia, todos se refestelando à custa de meu trabalho.

Era muito feliz com isso. Minha esposa reclamava das minhas ausências, mais assíduas do que minhas presenças, pois que, mesmo estando em casa – hoje reconheço – mal conversávamos. Falta de tempo. Marcávamos hora para conversar. E para transar.

Assim vivíamos como casal, numa vida de grife e de sucesso. Para mim, isso era qualidade. Em determinado sentido, talvez o fosse. Dois loucos, pois é o que éramos. Mas loucos que se sentiam realizados! Era tudo pelo que lutávamos anos a fio. Eu daqui, ela dali. Para isso é que nossos pais, imigrantes, haviam se sacrificado.

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O que é virtude? Será que eu tenho alguma?

Virtude é um traço moral por meio do qual a pessoa pode formar competências essenciais para a vida pessoal e profissional.

Por Leo Fraiman*

Virtude
Imagem: Pixabay

É virtude uma atitude que a pessoa escolhe adotar diante de determinada situação. Uma pessoa que tenha medo de se expressar, por exemplo, pode usar a coragem para subir em um palco e falar em público. São as virtudes de cada um que levam a competência latente a se tornar efetiva.

As suas virtudes vão impulsioná-lo nos momento difíceis da vida. Serão como seu farol de navegação e seu combustível na vida para uma maior empregabilidade.

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Oásis Urbano

 

O primeiro jogo da Seleção Brasileira (contra o Exeter City, 1914, no Estádio das Laranjeiras) foto do Daily Mirror

Heraldo Palmeira

O bairro sempre esteve no meu mapa desde que cheguei à cidade no início dos anos 80. Asa morena já começava a virar clássico e ratificar Zizi Possi como uma das maiorais da música.

Me faz pequena, asa morena

Me alivia a dor

Aliviando a dor que mata

Me faz ser teu amor

Foi nesse clima de arrebatamento, a música tocando o tempo todo em todo lugar, que conheci o autor Zé Caradípia, então morador do bairro e “na batalha pela música”. Um gaúcho querido que faz tempo não vejo, a quem fui levado por outro querido dos pampas, Galileu Arruda – que dividia apartamento comigo em tempos inesquecíveis de Copacabana.

Sempre tive curiosidade para saber porque se chamava Laranjeiras um dos bairros mais antigos e bucólicos do Rio de Janeiro, que se estende do Largo do Machado, sob as bênçãos da enorme matriz de Nossa Senhora da Glória, até o túnel Rebouças. A rua das Laranjeiras, que vira Cosme Velho mais adiante, é o eixo da vida tranquila da região, sua grande perimetral que se perde da vista na subida para Santa Teresa.

A origem do nome gera controvérsias. Há quem garanta que havia uma grande quantidade de laranjeiras na parte mais baixa do vale do rio Carioca. Há quem garanta que é apenas uma referência ao bairro lisboeta também chamado Laranjeiras, pela semelhança de abrigar chácaras próximas do centro da cidade.

Logo no início, uma conexão histórica junta o Mercado São José e o Parque Guinle. O mercado, que virou polo de arte, cultura e gastronomia, era a antiga senzala e celeiro de uma fazenda localizada no parque, cujo conjunto de prédios residenciais hoje disputadíssimos tem a assinatura de Lúcio Costa e serviu de piloto para as superquadras do Plano Piloto de Brasília.

O lugar por onde se estendia a bacia do rio Carioca era conhecido como Região da Carioca, que foi sendo dividida na virada entre os setecentos e os oitocentos e deu origem aos bairros do Catete, Cosme Velho e Flamengo.

Endereço nobre e predominantemente residencial da Zona Sul, Laranjeiras começou a ser ocupado no século 17 com a construção de chácaras ao redor do rio Carioca – despenca da Floresta da Tijuca (nos arredores do Corcovado) na direção do mar do Flamengo –, que já abastecia a cidade de água doce desde os primórdios do período colonial, pois seu manancial oferecia “a melhor água da cidade”.

Hoje poluído e escondido em canal submerso sob o mar de asfalto, só pode ser visto na nascente e num pequeno trecho a céu aberto no Largo do Boticário, empreendimento imobiliário erguido pelo farmacêutico Joaquim Sotto em 1838, com sete casas para alugar, que virou relíquia arquitetônica e cultural com seu casario que parece parado no tempo.

A chegada da fábrica de tecidos Aliança à rua General Glicério, em 1880, provocou enorme transformação no bairro, fazendo surgir suas primeiras vilas operárias, grandes comerciantes e trazendo a primeira linha de bondes.

A fundação do Fluminense deu um retoque de modernidade, já que o futebol era grande novidade em 1902. Talvez pelo requinte já observado no bairro e pelos homens importantes envolvidos na sua criação, o clube terminou identificado com a elite.

A partir do atual Palácio Guanabara, o bairro virou polo importante do poder político desde a monarquia (serviu de residência para a princesa Isabel e Getúlio Vargas) e, quando o Rio virou capital federal da República, vieram embaixadas e outros órgãos da máquina administrativa. As lendárias palmeiras imperiais da rua Paissandu continuam uma espécie de portal nobre até o mar.

Laranjeiras se confunde e se mistura sem briga com o Cosme Velho, rota de turistas do mundo todo que enchem a estação do trenzinho do Corcovado para subir até o Cristo Redentor.

Ao longo do tempo – junto com o vizinho – foi endereço de Afonso Reidy, Alceu Amoroso Lima, Austregésilo de Athayde, Cândido Portinari, Cecília Meirelles, Ernesto Nazareth, Euclides da Cunha, Heitor Villa-Lobos, Jorge Mautner, Lima Barreto, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Noel Nutels, Oscar Niemeyer, Régis Bittencourt, Roberto Marinho, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta)...

Também ficou marcado pela moradora Cássia Eller e seu All Star azul, como se o bairro fosse cúmplice de uma boa conversa, um grande amor, de música e poesia.

Estranho seria se eu não me apaixonasse por você

O sal viria doce para os novos lábios

O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário

Estranho é gostar tanto do seu All Star azul

Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras

Satisfeito sorri quando chego ali

E entro no elevador

Aperto o 12 que é o seu andar

Não vejo a hora de te encontrar

E continuar aquela conversa

Que não terminamos ontem

Ficou pra hoje

A rua das Laranjeiras quase nunca fica livre do tráfego intenso de carros e ônibus, mas consegue manter a fleuma, um ar de que não há pressa, um espaço para continuar a conversa que não terminou ontem. O ambiente muito arborizado parece reforçar a impressão de que é bom viver ali. E viver ali significa também entender cenas e personagens do cotidiano.

Rua das Laranjeiras (fotografia Heraldo Palmeira)

Diante da naturalidade daquela conquista, não tive dúvida de que o encantamento do “jovem casal” era absoluto e mútuo, havia neles uma espécie de inconsciente plena consciência do que estavam vivendo.Quase hora do almoço, duas mulheres conversavam alegremente e pararam na faixa de pedestres diante do meu prédio. Aguardamos o sinal para atravessar a rua. Cada uma trazia sua criança, saídas da escola ali adiante, um menino e uma menina na faixa dos quatro anos. Os dois de mãozinhas dadas, absolutamente encantados; as mães curtindo aquele arremedo de namoro. Assim que pararam naquela espera, o menino começou a fazer carinho no rostinho dela e cobriu de beijinhos sua face.

Pode parecer estranho e exagerado, mas os adultos infantis que temos à solta no século 21 andam antecipando a infância das suas crianças, parece que reduzida para o tempo no útero materno.

Mas infância é infância e bastou o espetáculo de saguis andando nos fios da iluminação pública para os miúdos se entregarem a novo enlevo, excitados pela proximidade dos bichos, em grande farra pouco acima das nossas cabeças atravessando a rua por aquela via aérea particular.

Mas o sinal abriu para nós e o menino pegou a mão da sua amada e o cortejo do amor seguiu em busca do outro lado da calçada. Aqueles dois faziam suas primeiras travessias.

Saguis em rota alternativa (fotografia Heraldo Palmeira)

Num recorte da calçada a poucos metros do colégio, a imagem é definitiva, chama atenção. A mulher negra, miúda, em roupas sempre multicoloridas já foi incorporada ao cenário como ícone urbano.

Há sempre alguém conversando ao redor. Crianças, jovens, idosos, cerca-lourenços... Ela está no mesmo ponto todos os dias, no trabalho diário de flanelinha regular, profissional, com aparato oficial – aquele colete que teoricamente significa registro na prefeitura e os cupons que garantem estacionamento no amontoado sem nexo de carros como é comum às ruas do Rio.

Perguntar a idade, me disse o porteiro do prédio, pode ser motivo de crime. O cabelo acaju em calculado Black Power, interessantemente adornado por uma tiara de pano confere ar descolado, realça dois trunfos lindos: olhos em azul quase cinza e um sorriso de demolir qualquer brutamontes! Eu, mesmo forasteiro, ganhei o meu no primeiro contato, só porque ia passando “na área”.

– Tudo bem?

A dona do pedaço (fotografia Heraldo Palmeira)

Sorri encantado. Ainda mais quando vi uma Bic azul – paixão que professo – presa na tiara. Laranjeiras tem esse ar de grande família, onde parece que todos conhecem todos, a vida anda mais devagar, melhor.

Todas as ruas vicinais são simpáticas, parecem velhas conhecidas mesmo que nunca se tenha entrado nelas. A Pires de Almeida é objeto de desejo porque não tem saída, o sossego impera e ficou famosa como cenário de uma antiga novela de televisão.

Na verdade, a rua foi criada para abrigar o conjunto de prédios no estilo art déco, originalmente denominado Jardim Sul América, construído nos anos 20 para acomodar os funcionários da Cia. de Seguros Sul América. A proximidade da rua das Laranjeiras e o número de quartos diferenciavam seus ocupantes, de diretores a serventes. O conjunto tem hoje uma parte tombada e desde sempre a praça Múcio Leitão, cercada de amendoeiras centenárias, é ponto de encontro dos moradores e de brincadeiras das crianças do lugar.

Rua Pires de Almeida (fotografia Heraldo Palmeira)

Um pouco mais adiante, a rua General Glicério desemboca num bulevar duplicado de grande beleza, que suportaria duas pistas para carros, mas deu lugar a jardins maiores nas calçadas de prédios classudos, apartamentos enormes, onde dá vontade de morar já na primeira visita.

O bulevar abriga sua feira semanal, com música da boa, desfiles de blocos durante o Carnaval e comércio de bom porte que convive em perfeita harmonia com a proposta residencial reinante desde os tempos em que os leiteiros acordavam os moradores oferecendo seu produto bem de manhãzinha.

Rua General Glicério (fotografia Heraldo Palmeira)

Que ninguém se iluda: em toda a extensão do bairro, Cosme Velho irmanado, há muitas outras ruas assim, anônimas, recantos macios e silenciosos, endereço da natureza onde a vida parece passar mais devagar e com mais conforto.

Logo adiante está a famosa rua Alice, uma das subidas para santa Teresa, sede da lendária Casa Rosa que figura no imaginário carioca há várias gerações e terminou tombada como patrimônio cultural imaterial do Estado.

O cabaré do início do século 20 virou prostíbulo de luxo e atingiu o apogeu nos anos 50, ponto frequente de grandes empresários, políticos e artistas – preferiam entrar e sair pelo portão de emergência escondido entre o segundo e terceiro andares do casarão.

No início dos anos 80, já cambaleante, abrigou festas temáticas que espalhavam jovens pelo puteiro sem qualquer obrigação de intercâmbios – ainda participei de algumas, era uma grande curtição, juntava muitos artistas jovens para ouvir música, beber, fumar, zoar e até namorar. Ressurgiu como centro cultural e foi assim até 2004, entre noites de samba e de rock, quando os vizinhos deram um basta incomodados pela barulheira infernal e a desordem reinante nas festas e noitadas.

Preferi deixar subir a ladeira apenas minhas saudades, para não ver o casarão histórico mais uma vez abandonado naquele rosa cheio de manchas, à espera de uma reforma que lhe resgate a dignidade e estabeleça um novo relacionamento com a comunidade.

Fiquei entregue aos sabores do Sonho Lindo, que honra as tradições da culinária carioca dos botecos – outro patrimônio imaterial da grande cidade que vive no imaginário popular nacional.

Sabores no sopé da rua Alice (fotografia Heraldo Palmeira)

Os ares amenos do outono eram animadores para caminhadas diárias naqueles dias felizes em Laranjeiras. Tempo para estabelecer amizade de infância com o português da padaria, a japonesa de charme discreto do restaurante da galeria, o homem polido da lavanderia, a mocinha da lotérica, a caixa do supermercado, o porteiro do colégio, a senhorinha da farmácia, o rapaz do café, o garçom da pizzaria, a flanelinha descolada, a moça linda do cachorrinho malhado, o taxista da praça, a secretária da paróquia, a mulher deslumbrante fazendo artesanato na calçada do banco, o garoto flamenguista da banca de jornal, o balconista do bistrô...Os ares amenos do outono garantiam manhãs arejadas diante dos janelões da minha vista, com a mata atlântica intocada, pássaros, macacos e saguis em farra entre galhos.

Ah!, meu Deus

Eu sei, eu sei

Que a vida devia ser

Bem melhor e será

Mas isso não impede

Que eu repita

É bonita, é bonita e é bonita

(*) Trechos de Asa Morena (Zé Caradípia) / All Star (Nando Reis) / O que é, o que é (Gonzaguinha).

Fonte: Blog Conversas do Mano

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.