Ano novo, velho Alzheimer

Ele me ajuda na cozinha. Para, no entanto, vasculhando o nada com seus olhos que se embaraçam ao menor comando que requeira reconhecimento e maior concentração. As palavras já não mais sucedem a simples e certeira ação.

Velho Alzheimer
Imagem: Pixabay

Observo e suspiro, procurando conter a acidez do Demônio do Desespero que me assalta porque ele já não pode mais. Ele já não pode muita coisa mais.

Vou reconhecendo, como se examinando pelo avesso, os passos e os gestos descoordenados que desde os primeiros dias de vida vamos treinando, até ganhar destreza e automatismos.

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Joguei fora a mulher amada

Eu sou um asno. Joguei fora, não uma mulher amada, mas a mulher amada.

Mulher Amada
Imagem: visualhunt

A que incendiou meus anos de envelhecimento, fazendo-me crer que nascera, mesmo, privilegiado. Sempre me senti assim. Diferente. Bafejado pela sorte. Eu, simples funcionário público, sempre me senti um rei.

Enquanto meus amigos, em almoços e jantares de alegria temperada à melancolia, comemorando cinquenta anos disso ou sessenta daquilo, gabavam-se de sua macheza dos tempos idos, calado eu sorria para preservar meu bem, meu segredo mais precioso. Em mim, tudo funcionava.

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Biografia de um homem absolutamente comum

Nasci no Maranhão, oitavo filho de mãe pobre, analfabeta e terrivelmente brava. Sobrevivi graças a dois de meus irmãos, que me cuidaram: uma, tratando-me feito boneca. Outro, alimentando-me feito bezerro.

A primeira brincou de fazer tranças em meus bastos cabelos, já que ela própria não os tinha em quantidade que bastasse. E também se ressentia por não ter uma verdadeira boneca. Só uma muito feia de palha e sabugo. Nenhum de nós ganhou brinquedo. Naquele calor de cortar o ar com faca, cobertores não havia, mas alguns panos nos garantiam sombra de dia e, nas noites frias nos protegiam.

Dormíamos ao relento, em covas escavadas na terra, forradas por folhas e, quando dava sorte, por alguns trapos e pedaços de papel jornal. Ninou meus dormires com canções da terra e seus balouçantes braços que ventos brandos simulavam ao me trazerem dependurado em seu colo ou nas suas saias que vez por outra voejavam. A aragem era pouca, mas havia.

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Mazelas, deles e delas.

A sinceridade torna cada biografia um verdadeiro tratado de humanidades.

Mazelas
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Estou com 83 anos. Não sei se chegarei aos 84 e isso, de certo modo não é problema de meu interesse. Os médicos é que ficam procurando. Eles adoram encontrar doença. Querem logo tratar. Eles que tratem, então. Eu gosto é de viver a minha vida. Eles que fiquem preocupados. Eu fico com a saúde.

Não tem como. Quando chegar a minha hora, chegou. Meu compadre saiu do cardiologista feliz com o seu coração de jovem. Bateu com as botas às dez no dia seguinte. Infarto. A mulher acordou com ele lá, durinho na mesma cama. Esse daí é que soube morrer a Boa Morte. Eu não sei se vou saber.

Meu passado, com certeza foi muito mais emocionante que aquilo que antevejo para o meu futuro. Não que eu seja ou esteja deprimido. Minha vida é que está muito chata. Os dias passam sem maiores expectativas, não faço planos. Tudo muito uniforme. Nada de novo altera minha rotina. Três horas de novela todos os dias. Aquela gritaria. Só patifaria. Quem aguenta isso?!

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Ninguém gosta de mim. Nem eu.

Só sinto pena de, mais dia menos dia, ter que me ir, antes de ter aproveitado bem o por aqui. Sei ouvir. Sei falar. Mas não sei conversar. Que para tanto é preciso amar e sentir-se amada. Jamais, porém, coube-me quem houvesse validado quem sou.

Mãe e Filha
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Uma pena. Não, mais do que isso, um grande vazio. Há tanto tempo não conversamos entre nós, eu e minha mãe, que já nem sei mais o que é isso. Se é que um dia soube. Nem sei, também, se essas conversas, de fato, ocorreram.

Trago algumas lembranças de infância. Deitada em minha cama, minha irmã dormindo ao lado, eu e minha mãe ficávamos horas e horas falando e falando. Ela me aguardava chegar da escola, de um passeio e... Eu contava tudo.

Não, neste tempo eu já adolescia. Nos tempos de infância, ela mais falava e eu é que ouvia. Contava-me como sua infância fora pobre, triste e solitária. Sem pai, muitos irmãos, mãe sempre ocupada. Dizia e reafirmava, até eu estar convencida, de que sorte mesmo, quem tinha era eu, ia aos bailinhos e me divertia.

Sorte indizível por ter mãe carinhosa e presente, que aceitava e me incentivava a sair, estudar e dançar. Mãe atenta, que adorava ouvir minhas estórias. Chegava a sentir inveja da mãe que eu tinha, segredando, me confessava.

Era a filha de quem ela mais gostava. Tínhamos tantas afinidades. Mas que eu jamais dissesse, para quem quer que fosse, que havia dito isso. Ela negaria! Cresci ouvindo que, com minha irmã, ao lado de quem eu dormia, era muito fechada e malcriada, que a maltratava. Como se eu também não a reprovasse.

Inspirava-me sono e alguma paz, aquela hipnótica voz monocórdica de mamãe. O Sambinha de uma nota só terá sido inspirado nessa minha mãezinha. Ah, que paciência ela tinha comigo. Ouvia-me tim tim por tim tim. O quanto me sentia amada. Assim me tornei, coisa mais natural do mundo, uma filha predileta.

Minha infância foi povoada pelas suas confidências de guerra, fome, frio e perseguição. E pelas dores que vivia por conta de meu pai grosseiro e indiferente, que murmurava linda quando a procurava. Sim, ele era um marido ausente, mas na hora do sexo era tão gentil e carinhoso! Era ardoroso, intenso. Para ele, tornava-se dama na sociedade e sei lá o que na cama. Engolia a palavra com cara de asco, me parecia. Mas eu intuía.

Pelas impressões de mamãe tomei conhecimento de quem era o homem que ocupava o meio de suas coxas. Não que precisasse de sexo. Nunca sentiu aquelas coisas todas, de que as mulheres tanto falam e fazem questão. Ele sim. Todos os dias. Adorava agradá-lo, me contava com ares marotos que eu um dia pude decifrar sem errar.

Um dia, me enchi de coragem e dedurei que beijava a empregada, quando ela, minha mãe, não estava em casa. Beijava o pescoço, chupava os seios e outras coisas mais. Quanta vergonha eu senti. Muito serena, em momentos de crise, acalmou meu nervosismo e assegurou não, filha, você viu errado, ele jamais faria isso comigo e ela é moça honesta, limpinha.

Acreditei, porque jamais mentiria para mim. Meu pai não lhe dava presente em dia de aniversário, nem a levava para sair em dia de feriado. Garantia a pizza no sábado à noite ou um cinema, para o qual ela se preparava, se perfumava, coloria os lábios de vermelho, passava rímel nos cílios, prendia os cabelos num coque recatado. E usava o colar de pérolas de três voltas, no seu colo macio.

Eu ficava no alto da escada vendo-os sair, comprada por um saco de balas Toffee, para chupar até eles voltarem, acalmando uma insegurança que me fazia ver fantasmas e ouvir passos e correntes pelo longo e escuro corredor.

Fechavam a porta atrás de si, minha irmã que sempre parecia dormir ao lado, se punha em pé. Graças a deus, exclamava, ela saiu. E logo saía atrás, para namorar às escondidas. E eu que não me atrevesse a dizer nada. Só a empregada sabia.

Eu não entendia o porquê daquela raiva toda. Nossa mãe, tão boazinha. Até conversava, enquanto outras, na vizinhança, gritavam e espancavam as filhas que iam a bailes. Minha irmã é que via errado. Minha mãe tão querida e linda, para minha irmã, que sempre dormia ao lado ou fingia, ela era má, uma verdadeira bruxa disfarçada.

Alguém em nossa casa, sempre via errado. Mamãe, não. Conversávamos madrugadas adentro. Fui cura para suas dores de cabeça e insônias mil. Para tristezas e frustrações aos milhões. Ainda bem que teve a mim, sua filha que nunca a decepcionava. Sentia-me muito importante, melhor que minha irmã desnaturada, que teimava em ter seus próprios olhos. Bobona, ela. Para que isso, se mamãe encurtava caminhos? Mamãe via, sabia e era muito zelosa.

Vasculhou os fundilhos das minhas calcinhas, quando me tornei mocinha. Atirou-se ao chão gritando preferir estar morta se eu não me casasse virgem, viu só o que havia acontecido com a filha da dona Carminha?! Dormiu com o noivo, estava es-tra-ga-da. Irremediavelmente perdida. Nenhuma mãe merecia isso! Foi um espetáculo bem impressionante, vê-la estendida no chão da cozinha, a urrar as dores de dona Carminha como se fossem próprias.

Minha irmã, enquanto não adormecia na cama ao lado, revirava os olhos e se afastava. Eu era leal a nossa mãe e jamais a magoaria. Vivíamos de conversinha. Na infância, ela falava, eu ouvia. Na adolescência eu falava e ela se servia. Na idade adulta eu já não sabia mais falar, a não ser para agradar.

Não tive pai. Desconfio que ele nem soubesse qual série eu cursava. Quando reclamava às lágrimas, de sua indiferença para comigo, ela me abraçava não fala assim do seu pai, ele te ama tanto, que vive falando para mim o quanto ele se preocupa com você.

Eu não queria que ele se preocupasse comigo. Queria que me tratasse como a minha irmã! Eles são iguais, aqueles dois. Egoístas ao extremo. Ainda bem que eu tenho você, que não me dá trabalho. Você, sim, é minha menina. Deixa os dois para lá. Sua irmã é manipuladora e interesseira. E ele cai feito patinho.

Assim fui sendo alienada, doutrinada para ser meiga, obediente, mas corajosa e autossuficiente. Assim eu pensava. Mamãe me possuía com suas doces e lisonjeiras palavras. Vivia não só para mim, mas através de mim. Seu olhar me esquadrinhava e sugava. Acordava sobressaltada no meio da noite, com ela ali parada no corredor escuro, à porta do meu quarto?! Zelando pelo sono da filha predileta.

Aos 22 anos, fui parar num hospício. Além de pai, não tive irmã. Saiu de casa assim que pode e nunca mais deu sinal de vida. Não para mim. Só falava com as amigas e era assim que soube de seus paradeiros. Hoje sei que deveria tê-la seguido até os confins. Mas, então, eu não sabia. Minha irmã era ingrata, tomei como justa e verdadeira a sentença de minha pobre e sofredora mamãe.

Umas insanas, essas mães que nos sufocam. Minha mãe sempre chorou pitangas de que sua mãe não a deixara viver. E ela, deixou a mim?! Levei décadas para dar-me conta de que antes, as mães eram invasivas. Agora são abusivas e é tudo a mesma coisa. O estrago é do mesmo tamanho. Fui estuprada, mais de vez. Enlouqueci e quase me matei. Assassinei três crianças que não viveram para nascer. Nunca me casei, porque nunca confiei nos homens. E poderia?!

Nessa toada envelheço atordoada e estou só. Ninguém gosta de mim. Nem eu. Minha mãe, que tanto se importou comigo, morreu faz tempo e, com certeza, nem lá no céu minha irmã estará com ela. Nem no céu, não terei ninguém a visitar, porque não soube fazer amigas e quando as fiz, não as soube reconhecer e conservar. Então, me demoro por aqui. Para que ir tão já?

Só sinto pena de, mais dia menos dia, ter que me ir, antes de ter aproveitado bem o por aqui. Sei ouvir. Sei falar. Mas não sei conversar. Que para tanto é preciso amar e sentir-se amada. Jamais, porém, coube-me quem houvesse validado quem sou.

Quisera ter sido minha irmã que dormia na cama ao lado e só acordava quando nossa mãe não estava. Teria sido feliz, quem sabe, se também tivesse sido a empregada. Não fui ela, nem outra. Não sei quem sou, além de ser uma velha. Mas uma velha rica. Muito rica. Que dei certo em minha vida profissional e soube me garantir para o futuro, que já chegou, mas desaprendi a gastar comigo. Será que ainda daria tempo de arranjar um namorado que prestasse?

Veja bem. Os homens que são bons, as esposas não largam. Os que são mais ou menos, elas também não largam. E tem os que não prestam. Esses eu até aceitaria, mas eles preferem as mais jovens. E tem os que não valem nada. Desses, eu quero distância. Imaginou? Do meu lado, eu que nunca me acho e do outro alguém que vive se achando?! Não iria dar certo. Ah, não daria.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

Aqui entre nós

Um dia me aposentei. Acho que cedo demais. Perdi meu trabalho, meu status, minha renda milionária. Fiquei mais velho, como todos ficam. Alguns amigos meus não tiveram essa sorte. Foram embora antes. Não tiveram que envelhecer. Porque isso é difícil. Põe difícil nisso!

Me aposentei
Imagem: Pexels

Já tive e precisei ter muitas coisas. Muitas. Correria desenfreada para manter tudo. Viagens, negócios, recepções. Compras, carros. Filhos, amigos, muitos amigos de meus filhos, além dos meus próprios amigos. Faculdades e cursos disso e daquilo, casa na praia, todos se refestelando à custa de meu trabalho.

Era muito feliz com isso. Minha esposa reclamava das minhas ausências, mais assíduas do que minhas presenças, pois que, mesmo estando em casa – hoje reconheço – mal conversávamos. Falta de tempo. Marcávamos hora para conversar. E para transar.

Assim vivíamos como casal, numa vida de grife e de sucesso. Para mim, isso era qualidade. Em determinado sentido, talvez o fosse. Dois loucos, pois é o que éramos. Mas loucos que se sentiam realizados! Era tudo pelo que lutávamos anos a fio. Eu daqui, ela dali. Para isso é que nossos pais, imigrantes, haviam se sacrificado.

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