Férias Curtas

Claudinha e eu nos conhecemos por acaso em um ambiente de trabalho. Bem, nem tão acaso assim. Claudinha trabalha numa empresa de construção e eu lá estive para apresentar-lhes um projeto.

Velhas Amigas
Velhas Amigas (Google Images)

Não levei a concorrência, mas ganhei uma amiga e tanto. Só que ainda não sabia disso, porque voltamos a nos ver a não mais do que dois anos, dois anos e meio atrás. E foi, realmente então, que me apaixonei por ela.

Seu tipo miúdo em nada traduz sua grandeza. Esperta, antenada e cheia das boas ideias, cativou-me pelo seu entusiasmo. Só não gosta de trabalhar na empresa em que trabalha. Eu também não gostaria. Melhor dizendo, eu não suportaria.

Os três sócios, simplesmente não se entendem a não ser nas canalhices que cometem cada qual em sua especialidade. Um tem pós-graduação em Mentiras e Sedução. Outro, exímio Mal Pagador. O terceiro e menos cruel tem título honorífico em Traição e Ladroagem.

Como você consegue suportar esse tipo de pessoa, ambiente...? Ah, minha amiga, quando é preciso, a gente suporta o que jamais imaginou! É a necessidade. A gente arranja forças. Uh, se arranja! Quem disse que viver é fácil? Principalmente para quem já chegou à nossa idade e não encontra quem nos pague pela experiência que temos. Se precisasse, você aguentaria.

Ao menos, ela se diverte ao contar em tom de confidência, eles também enganam uns aos outros e a empresa vai bem por conta e risco dos empregados. Eles vivem aparecendo na tevê. Lindos, elegantes, perfumados. Bem, não sei se perfumados também. Empreendedores ‘gente boa’. Não necessariamente fina. O pior de tudo, continua, é que eles atrasam os salários, se é que pode chamar salário o que não consta da folha de pagamento.

Claudinha vive na insegurança. Nunca sabe se, quando e quanto vai receber, porque eles também roubam dos funcionários. Um dia eu recebo, afirma, quando alguém deles está mais calmo ou mais saciado em suas fomes de sexo, coca e rock’n roll. Aproveito alguma brecha de boa vontade e saio com o meu. A cada três ou quatro meses eu me sujeito a não ter como pagar meu aluguel.

Imagine que o fulano já me disse que não dá em cima de mim porque sou velha. Não porque ‘não faça seu tipo’, mas porque já passei da idade que acende seus apetites. E eu tenho que ouvir isso! Ouvir e ficar quieta.

Como assim, ouvir e ficar quieta?!? Porque não consigo trabalho em outro lugar. Você, com a sua formação...? Pois é, nosso país é assim. Quem não fez seu pé de meia, quando chega a nossa idade está ferrado. Não é trabalho escravo porque permaneço por livre e espancada vontade, mas é de doer. E vai chegando um ponto em que a gente fica doente. Eu fiquei. Você não?

Concordo que também engulo meus sapos boi. A idade mais velha é porta aberta para a negação das nossas qualidades, que não são poucas, diga-se de passagem. Pergunto-me de quais espécies batráquias tenho me alimentado ultimamente e concordo haja sapo! Tem de montão, para todos os desgostos.

Chega a amiga de Claudinha, de quem já ouvira falar. Mulher grandona, espirituosa, um pouco sem noção, o que torna tudo menos calmo, porém bem mais divertido. Apresentações feitas às pressas na rodoviária, embarcamos como três adolescentes rumo a Extrema. É lá que vamos nos refugiar das agruras de estarmos na idade de descansar, mas ainda precisando trabalhar.

Por mais trinta anos, estão dizendo! Mais trinta anos passando perrengue em cima de perrengue?! Cláudia fica acesa com a perspectiva. Vai ser o máximo! Declara. Marilena, sua grande amiga grandona que acabo de conhecer, refuta eu, hein?! Quero mais é morrer numa idade mais conveniente, digamos, antes de começar a apodrecer. Gorda desse jeito, vocês acham que vou ter de volta meu corpitxo? Já sou diabética, pressão alta, duas safenas. Só não halitose...



Quando jovem os homens abriam alas para eu passar, mas sempre davam um jeitinho de relar em mim. Quantas passadas de mão nos meus peitos e bunda levei? Lembram? Eles beliscavam a bunda da gente! Eu fingia que me ofendia, mas adorava! Só que tinha que fingir, certo? Agora eles abrem espaço. Vejo suas caras de asco de o que é que essa gordona suada está pensando. Gargalha. Daqui a pouco alguém deles vai me tascar um processo de assédio.

Faço conjecturas sobre que tipo de férias curtas eu terei. Essa mulher maluca, fedendo a cigarro, assumindo que ronca alto – será que ronca mais alto do que fala e tem voz de trombone! - junto com a Claudinha e seu quase insuportável otimismo em relação ao mundo-futuro-que-já-bate-às-portas e eu, toda cheia de dedos, em relação a manter quarto, banheiro, meu penteado e minhas coisas em ordem, que baderna vai ser? Ou que surpresas vou viver? Bem, penso, férias são férias. Agora é encarar. Será que vou conseguir descansar?

Entrego-me a Deus. Olha, deuzinho querido, meu pai adorado. Vê lá o que você aprontou para mim, hein? Pedi férias divertidas. Diferentes. Ô, deu-us? Deus me-eu? Olhalá. O senhor sabe o quanto precisei me virar para juntar algunzinho para relaxar, não sabe? Claro que sabe. O senhor vê tudo, sabe tudo, tim tim por tim tim. Ai, meu Deus, o que vai ser?! Quase me desespero.

No trajeto chacoalhante, Marilena não parava de falar. Inventou que tinha que fazer xixi. Aporrinhou tanto que o motorista fez parada imprevista. Saiu para fumar e retornou com ares de safada. Precisei decidir. Ou ficaria irritada por quatro longos dias, ou ligava o f... e o mundo que explodisse. Apertei o botão.

Foram as férias mais encantadoras que tirei nos últimos seis anos. Sorvi do otimismo de Claudinha, fazendo de conta acreditar que a vida ainda me traria muitas ótimas oportunidades. Pelos olhos dela a vida é e sempre será bela. Com os maus modos e a irreverência de Marilena retornei a minha adolescência, quando quarto bagunçado era só isso mesmo: quarto bagunçado. Um fato sem valores morais nem interpretações.

Tão logo chegamos caiu a maior tromba d’água. Quem ainda fala assim tromba d’água? Nós três. Quase da mesma idade, rimos de nós, do nosso vocabulário e das nossas manias. Mania de nos abrigarmos das chuvas e dos ventos, de sermos previsíveis e corretas. Ô, que gente chata nós nos tornamos! Lá chegando, a primeira providência: largar as malas no quarto e sair. Para onde? Exatamente, para caminhar na chuva! Chuva fria.

Senti-me livre ao enfrentar aquele aguaceiro todo – quem diz aguaceiro? –desmanchando o penteado clássico que havia feito pela manhã para viajar bem arrumada, que bonita não sei mais se consigo ficar, depois que minha neta me perguntou um dia vó, onde você estava? No cabelereiro, querida. Fazendo o que? Ah, tingindo o cabelo. Por quê? Para ficar mais bonita. E porque não ficou? Olhei para seu rostinho cândido e não percebi nenhum sarcasmo.

Andei pelos campos e retornei encharcada, toda desgrenhada, calçados enlameados, meias de nylon – usar meias de nylon numa fazenda?! Nem uma ET faria isso – mas voltei tão feliz, tão feliz como há muito tempo não me sentia. Até me atrevi a não correr para uma chuveirada quentinha. De novo, quem diz chuveirada? Virei dois cálices de cachaça da boa e permaneci na sacada da pousada, vendo o sol se por devagarinho, cedendo espaço para o macio e confortável escuro onde melhor se mostram as estrelas. Milhares delas!

Quem precisa de lareira para se secar? Ou de pantufas para esquentar os pés frios e cansados? O barulho dos grilos. O voejar dos vagalumes! Va-ga-lumes! O coaxar dos sapos, não aqueles que vivo engolindo, mas os de verdade, que vivem à beira dos rios, que portam casacas verdes, esperando pelas suas amadas tremendo de frio. Quis ser uma delas. Ter quem ainda me espere.

Falamos dos nossos amores. Das nossas paixões e dos nossos sonhos. Contamos nossos segredos. Rimos e bebemos muito. Precisei ser carregada à cama. Foi maravilhoso. Marilena com seu vozeirão e Claudinha com seu otimismo me reviveram. Que fazer terapia, que nada. Viaje com as amigas!

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

Votos cumpridos

Tenho 67 anos de idade. Sessenta e sete incompletos. A quem faria alguma diferença isso? Eu. Sou muito preciosista. Levo letras ao pé da letra.

Viúva
(depositphotos)

Recém-alfabetizada me vi tomada pela magia das palavras. Penso ser uma escritora não assumida, para não dizer frustrada. Tornei-me professora de português, única língua que mais ou menos domino. Em outras me arrisco.

Menina brincava de dicionário. Grande, pesado, cheio de surpresas e de novidades. Capa preta de couro bem cheiroso, bem cuidado e tratado. Pronunciava uma palavra e procurava associar seu som com uma imagem, uma sensação qualquer, a que sua musicalidade me remetia. Dificilmente acertava.

Não era acertar aquilo que me movia e, sim o gosto pelas descobertas, o rastreio das palavras, que têm a força de me conduzir para bem longe e me apresentar o mundo. Acariciava as folhas sedosas e, com o dedo indicador de minha mão direita tateava de leve as muitas páginas enquanto, de olhos fechados, buscava uma na qual parar o gesto, aleatória, para decifrar.

Por parceiros meus amigos e minhas bonecas, a quem dei aulas e mais aulas, explicando aquilo que aprendia e que, ao falar, gravava, mesmo sem saber direito do que se tratava. Palavras, minha paixão. Estudo como se encaixam em minha boca e, com o som que lhes é próprio preenchem o vazio dos meus pensares e sentires.

Presto atenção em detalhes do meu corpo todo, enquanto lido com elas, o movimento das minhas faces e o tremular dos meus olhos ao pronunciá-las. Um som ora ouvido, ora intuído. Palavras de que jamais haveria de me servir no dia a dia, mas que estão lá, para os que delas gostam ou necessitem.

Encantei-me com as aulas de declamação. Oradora de todas as turmas sentia-me feliz ao ocupar lugar de destaque nas cerimônias de encerramento dos anos escolares, agradecendo aos pais, professores e louvando a Deus pelos estudos e progressos que fazíamos. Eu não era nada. As palavras eram e com elas eu me fundia, fazendo de minha recitação forte escudo contra minha timidez.

Sempre fui tímida. Insegura. Lembro o dia em que, com menos de três anos de idade, baita laço de fita prendendo meus escorridos cabelinhos, vestidinho de organza rosa e mangas bufantes e florezinhas aplicadas, sandalinhas brancas com gordos dedinhos de fora, após saudar a todos com uma aleluia qualquer, cem pares de olhos postos em mim ali, de pé e sozinha toda iluminada no palco da escola, fiz xixi nas calças e, ato contínuo, as risadas – hoje sei, de provável simpatia - fizeram-me sentir escarnecida e humilhada neste momento foi selado meu destino.



Passei a ser a mulher da palavra e precisei somente do correr do tempo e de minha dedicação a elas para me formar professora e me esconder como escritora. Digo, portanto, que arrisco ao publicar meus textos e o faço com pseudônimo. Livros? Somente para o jardinzinho e sob pseudônimo.

Oradora de fim de ano. Representei algumas turmas, jamais nada além disso. Meu âmbito, as classes em que lecionei português e, mais tarde, história e filosofia. Somente porque gosto de palavras e de como se articulam para formar histórias e estórias para serem, transformadas e deixá-las ir.

Conservo hoje meus diários onde desenhei em palavras minha alma de menina, de mocinha, de mulher e agora, de idosa. Quase velha. Na verdade, não pretendo ficar velha, a não ser por somente três dias antes de morrer. Será tempo suficiente para que me cuidem. E que me deixem logo partir para o silêncio sem fim. Lá onde estarei em paz, sem medo de me urinar toda de medo, emoção transbordada por dizer o que sei e o que não sei.

Não me arrisco ao crivo público, a não ser o da família, para quem declamo meus versos, mesmo sabendo que a eles nada do que digo ou faço é de grande valia. Talvez, sim, de pouco interesse. Todos bem educados, até os mais jovens que me ouvem gentilmente, por vezes até pedem, fala tia, fala tia.

Contam comigo para uma leitura em voz alta nos aniversários, nas bodas de uns e outros e, com certeza, ao pé das covas, onde acabo de fazer a homilia. Da conversa familiar eu gosto. Religião? Dispenso.

Tem pouco mais de duas horas que cheguei do cemitério onde deixei duro, frio e bem enterrado, aquele que foi meu marido por cinquenta anos incompletos, como os meus meia sete de idade. Aqui estando só, faço questão de me despir das minhas vergonhas todas e declarar nua em pelo, com quem estive casada.

Conhecemo-nos por um azar do destino. Eu, quatorze, ele vinte e seis. Homem feito, barbudo e cheio das poses, trajando ternos escuros e barbas espinhadas, que me arranharam o rosto, o pescoço, os seios, a barriga e o meu entre coxas, por todos os anos em que partilhamos o leito.

Tímida, logo fui conduzida pelos seus modos de misoginia ao universo da violência contra as mulheres. Não. Mulher ainda não era. Fui estuprada pelos seus desejos insaciáveis. Assim, a seco. Lembro-me do ardor (dele) e da secura com que o recebi (apavorada) em mim, se é que receber é a palavra. Invadiu-me por meus dois buracos naquela noite e ao longo de todos os anos e quase todas as vezes em que nos deitamos para que ele se servisse.

Numa pracinha, certa noite, ele arrancava as minhas roupas com ferocidade, estourando o zíper do vestidinho que eu mais prezava, escolhido para tentar, com alguma doçura e simplicidade, fazê-lo gostar de mim. Na escuridão da noite, atrás do coreto, ele me mordia os ombros e me estapeava o rosto. Eu me debatia, me defendia, chorava, mas nada dizia. Eu, amante das palavras, não sabia que poderia dizer não e mandá-lo à puta que o pariu naquele instante.

O assalto foi detido por dois guardas que o interpelaram o que o senhor está fazendo aí com a mocinha?! O cavalheiro teje preso. Os dois, vão me acompanhar até a delegacia.

Lembro meu alívio e o meu terrível medo. Delegacia? Pai sendo chamado? Vergonha, vergonha, vergonha. E medo. O vestidinho deslizava abaixo rasgado, acariciando meu corpo machucado, expondo minhas espáduas e ameaçando minha honra. O que estaria eu fazendo ali no escuro com aquele homem que nunca me beijara sem enfiar sua língua dura em minha boca, que me esbofeteava e dizia que não se aguentava de tanto gastar de mim?! Como explicar isso? Eu não poderia. Eu é que havia provocado tudo aquilo.

Como dizer a meus pais que minha virgindade já era e que eu odiava com todas as minhas forças aquele homem por eles escolhido, o grande Bom Partido? Como encarar meus irmãos e ser exemplo para minha irmãzinha, que se espelhava em meu recato, em minhas prendas e nos meus sorrisos tímidos, como toda boa moça faria?

Olhando nos meus olhos os guardas insistiam, ele está lhe batendo, quer dar parte? Balbuciei, deixa moço, estamos somente brincando. Nada disso. É meu noivo. Brincando mesmo, tem certeza? Pode confiar na gente. Reiterei meu rendimento ao homem que se adonava de minha pessoa, não precisa, estamos de casamento marcado.

Não registraram o desespero que fazia por alterar minha voz? Minha mãe não via os meus roxos? Ninguém ouvia os choros doídos que antecipavam nossos encontros? Nem tios, nem primos, nem professores ou amigos, ninguém via nada a não ser a imagem de uma noiva triste. Eu mesma não me via nem ouvia. Fui conduzida a um psiquiatra, que passou suas mãos nojentas no meu peito, como se por distração. Foi nossa única sessão.

De meus pais fui filha obediente que daria noiva linda, com quem nunca mais precisariam se preocupar na vida. Vivi a era do silêncio, que terminou hoje, quando não tenho mais para quem me queixar, a não ser para o delegado.

Morreu fedido de feridas purulentas, barbaramente infeccionadas pelo diabetes, cortado feito salame apodrecido. Um pedaço aqui outro ali, seu corpo foi sendo mutilado, da mesma forma que minha alma. Cuidei dele, mesmo com gosto amargo de rancor antigo, testemunhando seu longo desespero tal qual o meu havia sido. Ninguém merece isso.

Por anos eu o banhei, alimentei, vesti e fiz dormir. Fechei seus olhos ontem pela última vez e hoje o enterrei, para ali permanecer calado e bem fechado, tal como sempre fomos um para o outro. Honrei a palavra empenhada no altar da igreja em que meus pais se casaram e foram felizes para sempre. Como disse, sou uma mulher de palavra.

Pronto. Votos cumpridos. Comichão gostoso, forte e quente me sobe do ventre para o peito. Sinto vida correr em minhas veias. Meu corpo todo palpita. Estou toda molhada. Urinei?! Ou de meu sexo verte o gozo? Sinceramente, não sei. Já ouvi dizer.

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Ano novo, velho Alzheimer

Ele me ajuda na cozinha. Para, no entanto, vasculhando o nada com seus olhos que se embaraçam ao menor comando que requeira reconhecimento e maior concentração. As palavras já não mais sucedem a simples e certeira ação.

Velho Alzheimer
Imagem: Pixabay

Observo e suspiro, procurando conter a acidez do Demônio do Desespero que me assalta porque ele já não pode mais. Ele já não pode muita coisa mais.

Vou reconhecendo, como se examinando pelo avesso, os passos e os gestos descoordenados que desde os primeiros dias de vida vamos treinando, até ganhar destreza e automatismos.

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Joguei fora a mulher amada

Eu sou um asno. Joguei fora, não uma mulher amada, mas a mulher amada.

Mulher Amada
Imagem: visualhunt

A que incendiou meus anos de envelhecimento, fazendo-me crer que nascera, mesmo, privilegiado. Sempre me senti assim. Diferente. Bafejado pela sorte. Eu, simples funcionário público, sempre me senti um rei.

Enquanto meus amigos, em almoços e jantares de alegria temperada à melancolia, comemorando cinquenta anos disso ou sessenta daquilo, gabavam-se de sua macheza dos tempos idos, calado eu sorria para preservar meu bem, meu segredo mais precioso. Em mim, tudo funcionava.

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Biografia de um homem absolutamente comum

Nasci no Maranhão, oitavo filho de mãe pobre, analfabeta e terrivelmente brava. Sobrevivi graças a dois de meus irmãos, que me cuidaram: uma, tratando-me feito boneca. Outro, alimentando-me feito bezerro.

A primeira brincou de fazer tranças em meus bastos cabelos, já que ela própria não os tinha em quantidade que bastasse. E também se ressentia por não ter uma verdadeira boneca. Só uma muito feia de palha e sabugo. Nenhum de nós ganhou brinquedo. Naquele calor de cortar o ar com faca, cobertores não havia, mas alguns panos nos garantiam sombra de dia e, nas noites frias nos protegiam.

Dormíamos ao relento, em covas escavadas na terra, forradas por folhas e, quando dava sorte, por alguns trapos e pedaços de papel jornal. Ninou meus dormires com canções da terra e seus balouçantes braços que ventos brandos simulavam ao me trazerem dependurado em seu colo ou nas suas saias que vez por outra voejavam. A aragem era pouca, mas havia.

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Mazelas, deles e delas.

A sinceridade torna cada biografia um verdadeiro tratado de humanidades.

Mazelas
Imagem: Pixabay

Estou com 83 anos. Não sei se chegarei aos 84 e isso, de certo modo não é problema de meu interesse. Os médicos é que ficam procurando. Eles adoram encontrar doença. Querem logo tratar. Eles que tratem, então. Eu gosto é de viver a minha vida. Eles que fiquem preocupados. Eu fico com a saúde.

Não tem como. Quando chegar a minha hora, chegou. Meu compadre saiu do cardiologista feliz com o seu coração de jovem. Bateu com as botas às dez no dia seguinte. Infarto. A mulher acordou com ele lá, durinho na mesma cama. Esse daí é que soube morrer a Boa Morte. Eu não sei se vou saber.

Meu passado, com certeza foi muito mais emocionante que aquilo que antevejo para o meu futuro. Não que eu seja ou esteja deprimido. Minha vida é que está muito chata. Os dias passam sem maiores expectativas, não faço planos. Tudo muito uniforme. Nada de novo altera minha rotina. Três horas de novela todos os dias. Aquela gritaria. Só patifaria. Quem aguenta isso?!

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Ninguém gosta de mim. Nem eu.

Só sinto pena de, mais dia menos dia, ter que me ir, antes de ter aproveitado bem o por aqui. Sei ouvir. Sei falar. Mas não sei conversar. Que para tanto é preciso amar e sentir-se amada. Jamais, porém, coube-me quem houvesse validado quem sou.

Mãe e Filha
Imagem: Pixabay

Uma pena. Não, mais do que isso, um grande vazio. Há tanto tempo não conversamos entre nós, eu e minha mãe, que já nem sei mais o que é isso. Se é que um dia soube. Nem sei, também, se essas conversas, de fato, ocorreram.

Trago algumas lembranças de infância. Deitada em minha cama, minha irmã dormindo ao lado, eu e minha mãe ficávamos horas e horas falando e falando. Ela me aguardava chegar da escola, de um passeio e... Eu contava tudo.

Não, neste tempo eu já adolescia. Nos tempos de infância, ela mais falava e eu é que ouvia. Contava-me como sua infância fora pobre, triste e solitária. Sem pai, muitos irmãos, mãe sempre ocupada. Dizia e reafirmava, até eu estar convencida, de que sorte mesmo, quem tinha era eu, ia aos bailinhos e me divertia.

Sorte indizível por ter mãe carinhosa e presente, que aceitava e me incentivava a sair, estudar e dançar. Mãe atenta, que adorava ouvir minhas estórias. Chegava a sentir inveja da mãe que eu tinha, segredando, me confessava.

Era a filha de quem ela mais gostava. Tínhamos tantas afinidades. Mas que eu jamais dissesse, para quem quer que fosse, que havia dito isso. Ela negaria! Cresci ouvindo que, com minha irmã, ao lado de quem eu dormia, era muito fechada e malcriada, que a maltratava. Como se eu também não a reprovasse.

Inspirava-me sono e alguma paz, aquela hipnótica voz monocórdica de mamãe. O Sambinha de uma nota só terá sido inspirado nessa minha mãezinha. Ah, que paciência ela tinha comigo. Ouvia-me tim tim por tim tim. O quanto me sentia amada. Assim me tornei, coisa mais natural do mundo, uma filha predileta.

Minha infância foi povoada pelas suas confidências de guerra, fome, frio e perseguição. E pelas dores que vivia por conta de meu pai grosseiro e indiferente, que murmurava linda quando a procurava. Sim, ele era um marido ausente, mas na hora do sexo era tão gentil e carinhoso! Era ardoroso, intenso. Para ele, tornava-se dama na sociedade e sei lá o que na cama. Engolia a palavra com cara de asco, me parecia. Mas eu intuía.

Pelas impressões de mamãe tomei conhecimento de quem era o homem que ocupava o meio de suas coxas. Não que precisasse de sexo. Nunca sentiu aquelas coisas todas, de que as mulheres tanto falam e fazem questão. Ele sim. Todos os dias. Adorava agradá-lo, me contava com ares marotos que eu um dia pude decifrar sem errar.

Um dia, me enchi de coragem e dedurei que beijava a empregada, quando ela, minha mãe, não estava em casa. Beijava o pescoço, chupava os seios e outras coisas mais. Quanta vergonha eu senti. Muito serena, em momentos de crise, acalmou meu nervosismo e assegurou não, filha, você viu errado, ele jamais faria isso comigo e ela é moça honesta, limpinha.

Acreditei, porque jamais mentiria para mim. Meu pai não lhe dava presente em dia de aniversário, nem a levava para sair em dia de feriado. Garantia a pizza no sábado à noite ou um cinema, para o qual ela se preparava, se perfumava, coloria os lábios de vermelho, passava rímel nos cílios, prendia os cabelos num coque recatado. E usava o colar de pérolas de três voltas, no seu colo macio.

Eu ficava no alto da escada vendo-os sair, comprada por um saco de balas Toffee, para chupar até eles voltarem, acalmando uma insegurança que me fazia ver fantasmas e ouvir passos e correntes pelo longo e escuro corredor.

Fechavam a porta atrás de si, minha irmã que sempre parecia dormir ao lado, se punha em pé. Graças a deus, exclamava, ela saiu. E logo saía atrás, para namorar às escondidas. E eu que não me atrevesse a dizer nada. Só a empregada sabia.

Eu não entendia o porquê daquela raiva toda. Nossa mãe, tão boazinha. Até conversava, enquanto outras, na vizinhança, gritavam e espancavam as filhas que iam a bailes. Minha irmã é que via errado. Minha mãe tão querida e linda, para minha irmã, que sempre dormia ao lado ou fingia, ela era má, uma verdadeira bruxa disfarçada.

Alguém em nossa casa, sempre via errado. Mamãe, não. Conversávamos madrugadas adentro. Fui cura para suas dores de cabeça e insônias mil. Para tristezas e frustrações aos milhões. Ainda bem que teve a mim, sua filha que nunca a decepcionava. Sentia-me muito importante, melhor que minha irmã desnaturada, que teimava em ter seus próprios olhos. Bobona, ela. Para que isso, se mamãe encurtava caminhos? Mamãe via, sabia e era muito zelosa.

Vasculhou os fundilhos das minhas calcinhas, quando me tornei mocinha. Atirou-se ao chão gritando preferir estar morta se eu não me casasse virgem, viu só o que havia acontecido com a filha da dona Carminha?! Dormiu com o noivo, estava es-tra-ga-da. Irremediavelmente perdida. Nenhuma mãe merecia isso! Foi um espetáculo bem impressionante, vê-la estendida no chão da cozinha, a urrar as dores de dona Carminha como se fossem próprias.

Minha irmã, enquanto não adormecia na cama ao lado, revirava os olhos e se afastava. Eu era leal a nossa mãe e jamais a magoaria. Vivíamos de conversinha. Na infância, ela falava, eu ouvia. Na adolescência eu falava e ela se servia. Na idade adulta eu já não sabia mais falar, a não ser para agradar.

Não tive pai. Desconfio que ele nem soubesse qual série eu cursava. Quando reclamava às lágrimas, de sua indiferença para comigo, ela me abraçava não fala assim do seu pai, ele te ama tanto, que vive falando para mim o quanto ele se preocupa com você.

Eu não queria que ele se preocupasse comigo. Queria que me tratasse como a minha irmã! Eles são iguais, aqueles dois. Egoístas ao extremo. Ainda bem que eu tenho você, que não me dá trabalho. Você, sim, é minha menina. Deixa os dois para lá. Sua irmã é manipuladora e interesseira. E ele cai feito patinho.

Assim fui sendo alienada, doutrinada para ser meiga, obediente, mas corajosa e autossuficiente. Assim eu pensava. Mamãe me possuía com suas doces e lisonjeiras palavras. Vivia não só para mim, mas através de mim. Seu olhar me esquadrinhava e sugava. Acordava sobressaltada no meio da noite, com ela ali parada no corredor escuro, à porta do meu quarto?! Zelando pelo sono da filha predileta.

Aos 22 anos, fui parar num hospício. Além de pai, não tive irmã. Saiu de casa assim que pode e nunca mais deu sinal de vida. Não para mim. Só falava com as amigas e era assim que soube de seus paradeiros. Hoje sei que deveria tê-la seguido até os confins. Mas, então, eu não sabia. Minha irmã era ingrata, tomei como justa e verdadeira a sentença de minha pobre e sofredora mamãe.

Umas insanas, essas mães que nos sufocam. Minha mãe sempre chorou pitangas de que sua mãe não a deixara viver. E ela, deixou a mim?! Levei décadas para dar-me conta de que antes, as mães eram invasivas. Agora são abusivas e é tudo a mesma coisa. O estrago é do mesmo tamanho. Fui estuprada, mais de vez. Enlouqueci e quase me matei. Assassinei três crianças que não viveram para nascer. Nunca me casei, porque nunca confiei nos homens. E poderia?!

Nessa toada envelheço atordoada e estou só. Ninguém gosta de mim. Nem eu. Minha mãe, que tanto se importou comigo, morreu faz tempo e, com certeza, nem lá no céu minha irmã estará com ela. Nem no céu, não terei ninguém a visitar, porque não soube fazer amigas e quando as fiz, não as soube reconhecer e conservar. Então, me demoro por aqui. Para que ir tão já?

Só sinto pena de, mais dia menos dia, ter que me ir, antes de ter aproveitado bem o por aqui. Sei ouvir. Sei falar. Mas não sei conversar. Que para tanto é preciso amar e sentir-se amada. Jamais, porém, coube-me quem houvesse validado quem sou.

Quisera ter sido minha irmã que dormia na cama ao lado e só acordava quando nossa mãe não estava. Teria sido feliz, quem sabe, se também tivesse sido a empregada. Não fui ela, nem outra. Não sei quem sou, além de ser uma velha. Mas uma velha rica. Muito rica. Que dei certo em minha vida profissional e soube me garantir para o futuro, que já chegou, mas desaprendi a gastar comigo. Será que ainda daria tempo de arranjar um namorado que prestasse?

Veja bem. Os homens que são bons, as esposas não largam. Os que são mais ou menos, elas também não largam. E tem os que não prestam. Esses eu até aceitaria, mas eles preferem as mais jovens. E tem os que não valem nada. Desses, eu quero distância. Imaginou? Do meu lado, eu que nunca me acho e do outro alguém que vive se achando?! Não iria dar certo. Ah, não daria.

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Aqui entre nós

Um dia me aposentei. Acho que cedo demais. Perdi meu trabalho, meu status, minha renda milionária. Fiquei mais velho, como todos ficam. Alguns amigos meus não tiveram essa sorte. Foram embora antes. Não tiveram que envelhecer. Porque isso é difícil. Põe difícil nisso!

Me aposentei
Imagem: Pexels

Já tive e precisei ter muitas coisas. Muitas. Correria desenfreada para manter tudo. Viagens, negócios, recepções. Compras, carros. Filhos, amigos, muitos amigos de meus filhos, além dos meus próprios amigos. Faculdades e cursos disso e daquilo, casa na praia, todos se refestelando à custa de meu trabalho.

Era muito feliz com isso. Minha esposa reclamava das minhas ausências, mais assíduas do que minhas presenças, pois que, mesmo estando em casa – hoje reconheço – mal conversávamos. Falta de tempo. Marcávamos hora para conversar. E para transar.

Assim vivíamos como casal, numa vida de grife e de sucesso. Para mim, isso era qualidade. Em determinado sentido, talvez o fosse. Dois loucos, pois é o que éramos. Mas loucos que se sentiam realizados! Era tudo pelo que lutávamos anos a fio. Eu daqui, ela dali. Para isso é que nossos pais, imigrantes, haviam se sacrificado.

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