Confie nos jovens e fale tudo com eles

Um dos lamentos mais comuns que ouço de pais e mães é: “Não consigo falar de sexo com meus filhos”.

Eles se justificam: “Eu não aprendi com meus pais a falar disso”. Mas será que nos só fazemos o que nossos pais nos ensinaram?

Falar sobre sexo

Minha filha ainda era bem criança e eu já via aquelas meninas saidinhas, que nos seus 12 ou 13 anos já se pintavam todas, cigarro nos lábios, cerveja à frente, decotes provocantes, e entrava em pânico. Ao mesmo tempo em que me preocupava em educar bem a minha menina, ensiná-la a ser feminina, porém recatava, eu me questionava sobre a minha capacidade de fazê-lo. E não sabia bem o que deveria traduzir a ela por feminino e recatado.

Por certo, feminino não seria falar mole e fino como gato miando, nem apenas usar saias e babados. Também não queria dizer que é feio brigar, que mulher tem que ser boazinha ou que tem idade certa para começar a namorar. O que seria, então, ser feminina? Eu sabia definir o que é ser mãe, mas mulher… Sugeria uns brincos, uma roupinha confortável mas bordadinha, ensinava a dizer “por favor” e “muito obrigado” e ficava alucinada quando a via, agora nos seus 10 anos, peitinhos florescentes, continuando a sentar-se estabanada, agachar-se mostrando as calcinhas ou a brigar de tapa com um moleque.

Daí eu achava que ela tinha em quê de machona e entrava em pânico: melhor uma perdida ou homossexual? Eu pensava que lésbica era toda mulher masculinizada, vozeirona grossa, cara lavada e brava. E os pés da minha filha cresciam. Aos 11 anos ela calçava 38! Eu já a via, moçona, vestida para um baile, calçados sapatos de homem. Era um tormento interior, porque eu também não conseguia exprimir o tal do recado. Era dizer não para o segundo docinho que lhe fosse oferecido? Era não beijar em público? Eu achava tão lindo dois adolescentes se namorando, isolados do mundo. Na deles em plena Avenida Paulista…

Eu tive que guardar minha virgindade para o meu marido, porque senão estaria estragada. E quando eu chorei, arrependida, por não ter desobedecido e seguido os destinos do meu amor? Devo dizer que nessa época estava em terapia e tinha com quem discutir e me esclarecer. Os medos, que eram meus, sobre minha sexualidade reprimida, puderam ganhar imagens, movimentos, palavras. Com o tempo fui descobrindo o que é isso de ser mulher.

Naquele dia decidi conhecer minha filha

Tive uma boa prova quando, um dia, a mãe de uma coleguinha da minha filha me telefonou e, com mil cuidados, me falou: “Estão dizendo na escola que sua filha não é mais virgem. E que foi ela mesmo quem contou”. Parecia que o chão se abria sob meus pés! Era de manhã e eu passei o dia em transe, aguardando a menina voltar. Tive febre, calafrios, mas fiquei pronta para enfrentar tudo. Eu queria, sobretudo, ajudar. E consegui.

Ela entrou toda alegrinha, 12 anos, aquela carinha limpa, inocente, iluminada. Entrou fricoteira no meu quarto, me beijou, se tocou: “Uai, você em casa a essa hora?” (Eu trabalhava.) Tive em resto de dúvida: será que estou vendo coisas que não existem? Quem é essa menina, minha filha? Eu a conheço? Ela me conhece?

Foi a chave. Resolvi conhece-la. “Filha, estou com um problema e você pode me ajudar a resolver.” (Jamais jogaria na cara dela que ela era o problema, mesmo porque não era. O que eu menos queria era assustá-la, afastá-la de mim, perder sua confiança.) “Sabe… (hesitei) é que eu soube uma coisa que eu queria que você confirmasse, se é que você sabe… (a questão era ainda uma fofoca, não um fato) É verdade que seus colegas estão dizendo que você não é mais virgem? Você sabe alguma coisa sobre isso?”

Ela caiu numa solene gargalhada. “Ah, mãe, besteira, deixa isso pra lá…”

A verdadeira honra é ter palavra firme

Eu não entendi. “Como, besteira? Como é que se começou a falar?” – “Besteira, mãe! Outro dia, os meninos estavam se bacaneando, que conhecem mulher, que foram em casa de massagem… E daí eu falei que também conhecia homem. Não esquenta, eu falei por falar. Pensei que fosse uma coisa mais séria. Você estava com um cara…

Minha cabeça rodou. Então ela estava medindo forças? E, descuidada, não tinha a mínima ideia de que fora mexer em um vespeiro.

Dali a puco ela voltou para o meu quarto, furiosa: “E quem é a fofoqueira que te telefonou? O que é que ela tem com a minha vida?

Fez um esparramo. Mas aí eu pude explicar que ela havia se exposto demais, dado margem a falatórios, e que a pessoa queria é protege-la. Foi duro fazê-la entender. Ela insistiu que ninguém tinha nada a ver com isso. Mas fomos falando, um pouco num dia, mais um pouco no outro, até que ela me perguntou: “Mas por que é que os meninos podem falar e as meninas não?
Concordei com ela que é um sistema injusto. Mostrei-lhe as opções e dei-lhe até exemplos do que seria a verdadeira honra: ter palavra.

Ela entendeu muito bem. E eu me senti muito mulher. Um dos lamentos mais comuns que ouço de pais e mães é: “Não consigo falar de sexo com meus filhos”. Eles se justificam: “Eu não aprendi com meus pais a falar disso”. Mas será que nos só fazemos o que nossos pais nos ensinaram? Será que, na idade madura, já não estamos em condições de deixar isso para lá? Uma boa ideia é aprender junto com os adolescentes a quem devemos orientar. Se nos abrirmos, como desejamos que eles se abram, tudo vai ficar mais fácil.

Nos tempos corridos de hoje, é preciso aprender a cobrar dos amigos o afeto que lhes damos, para não ficarmos carentes.

Nesses nossos tempos modernos precisamos, e muito, de uma forte rede de relações de amizade. Quase tudo o que nos cerca nos conduz à solidão e à carência afetiva.

Amizade
Imagem: Pixabay (Amizade)

Aquela coisa gostosa de fazer o chá da tarde, bater papo por cima do muro ou debruçada na janela é mais típica do modo de vida de nossas avós, talvez mães. Hoje a mulher trabalha fora e suas amigas também. Ninguém consegue se ver com a frequência que gostaria. Tendo que nos dividir entre os cuidados com a casa e a família, além do trabalho, o que fica precário é nosso círculo de amizades.

Isso pode levar a um grande sentimento de solidão e insegurança, a um ponto perigoso de, numa emergência, não temos a quem recorrer. Numa gripe, numa hospitalização, são muitas as mulheres que se veem absurdamente sós, sem ter qualquer companhia, a não ser que… peçam!

Susana vai ser operada numa terça-feira de manhã. Uma semana antes, pega o telefone e vai ligando amiga por amiga, compondo uma agenda de quem poderá ficar com ela em que dia e a que horas. Todas têm mil compromissos. Mas Celina desiste, de boa vontade, de levar a filha à aula de inglês para fazer companhia à amiga na terça à tarde.

Corina ia fazer supermercado na quarta de manhã, mas deixa para outro dia. Naíde tinha uma consulta média, troca o horário. Leninha promete sair mais cedo do trabalho e ficar com Susana na sexta.

Essas mulheres, ocupadas, ativas, estão reaprendendo, com esse gesto, alguma coisa nova sobre a amizade. Por que, com raríssimas exceções, já não dá mais para largar tudo e sair correndo, disponível, para socorrer uma amiga em dificuldades.

Tem-se amigas, mas coisas passam, importantes, e não se fica sabendo, às vezes só se sabe depois. Além de tudo, porque uma não quer incomodar a outra enquanto puder resolver tudo sozinha. Todas trabalham, têm casa e filhos, dentista, ginástica, cartomante, psicoterapia. Mal têm tempo para cuidados pessoais (os cabelos são tingidos à noite ou aos domingos) e só vão a médicos que respeitem horários – de preferência que atendam durante o almoço ou após as 9 h da noite.

Na falta de empregada usam congelados, descobrem uma lavanderia fantástica (bem no caminho!), estão exaustas ao cair da tarde e vão levando. Mas, apesar de só conseguirem manter as amizades via telefone, trazem ainda na alma o desejo de ter toda a família almoçando junta durante a semana e a ilusão de que seus desejos serão adivinhados, suas necessidades satisfeitas. E como, então, se tornam carentes!

Dizem:

“Pedir, eu? Eu não peço. Se o meu marido (ou filho, ou amiga)se tocar e fizer espontaneamente, tudo bem. Mas pedir, não. Acho humilhante ter que pedir uma coisa óbvia, que deveria vir de graça. Pois quando eu percebo a necessidade de alguém não vou lá e ajudo, sem esperar que me peçam? Então, por que os outros não podem fazer isso por mim?”

E é ai que está montada um das maiores armadilhas para alguém se tornar uma pessoa carente, revoltada e solitária. Se a Gata Borralheira podia se dar ao luxo de chorar na calada de noite, e ser ouvida por uma Fada Madrinha, é bom saber que já não vivemos mais nesses tempos em que quem nos ama deve adivinhar e entender os nossos desejos, sem que movamos uma palha para isso.

Você pode estar pensando: “Mas será que tenho o direito de solicitar alguma coisa a alguém que não vejo há tanto tempo, em cuja festa de aniversário nem fui?”

Tem, sim. Uma verdadeira amiga é aquela que compreende isso. Que a gente falha com ela, ela falha com a gente, mas em ocasiões mais apertadas uma pode contar com a outra. Ser amiga, hoje em dia, não é estar disponível o tempo todo.

Amizade tem limites – se não tiver, é subserviência.

A boa amiga pode pedir e deve estar preparada para ouvir tanto um sim como um não. E também não deve pedir mais do que a outra está disposta a dar naquele momento. Pede-se o que se precisa, dá-se o que se tem, de boa vontade, sem sacrifícios.

Às vezes a boa amiga é a que diz “Não quero fazer tal coisa por você, não concordo com isso” e explica as razões, e não a que diz “Não posso”, inventa uma desculpa e sai por ai conduta da outra. E às vezes é hora de, em vez de dizer “Imagine, não é trabalho nenhum”, assumir claramente: “Sim, isso que você pede vai dar trabalho, mas faço com prazer porque gosto de você. E também por que espero que, se eu precisar um dia, você faça o mesmo por mim.”

Cobrar? Sim, cobrar também. Se numa amizade você começa a sentir-se explorada, sugada, abusada, em geral é porque… está sendo mesmo! Temos uma espécie de “fato”. Mesmo sem conseguir definir exatamente como, onde e quando os abusos acontecem, sabemos que eles acontecem.

Nossa tendência é achar que é implicância, falta de humanidade, e ceder em nome da amizade, desagradáveis (“Imagine se ela faria uma coisa dessas”, ou “Coitada, ela está em crise, desempregada, grávida, atormentada pelo marido” etc). Até que, depois de muitas concessões (presença, favores, dinheiro), se chega ao “E eu? Sempre que ela precisa eu digo sim, quando sou eu que peço ela nunca pode”.

Daí para uma ruptura é um passo. Assim terminam muitas amizades antigas, que eram mantidas pelo esforço de somente uma das partes. Aparentemente a de maiores recursos (alto-astral, posição, dinheiro, família, trabalho), porém no fundo a mais carente, a que morre de medo de, ao dizer um não, ficar só.

Essas pessoas geralmente viveram, na infância, profundas experiências de rejeição e abandono por parte dos pais. Ou então eram auto-suficientes e pouco reivindicativos, aquelas filhas que “não dão trabalho”, que “se criam sozinhas”…

É provável que esse senso de responsabilidade precocemente desenvolvido prive a criança e, mais tardem a adolescente, da experiência de se ver apoiada, protegida, levando a uma personalidade adulta em que o receber causa desconforto íntimo, como se fosse algo errado ou indevido. Receber fica associado a fragilidade e dependência, duas atitudes a serem evitadas, a não ser em casos de extrema necessidade.

Isso faz com que a pessoa vá acumulando carências, fique ressentida no dia-a-dia, apesar de desenvolver uma auto-imagem de quem-não-precisa-de-nada. É alguém que sabe ouvir um não com um sorriso nos lábios, mas que no fundo se sente muito ferida – não só frustrada, mas desqualificada. Afinal, se dificilmente pede alguma coisa (pois lhe é difícil receber), quando pede é porque precisa muito, e um não nessa situação é mesmo intolerável.

Então a questão é pedir e cobrar, sim. E esperar de volta tanto quanto se dá. Isso não quer dizer ser mesquinha e só viver na base do toma-lá-dá-cá, mas sim de manter o balanço dar/receber em equilíbrio dinâmico, bem distribuído. É comum ouvir alguém dizer: “Será que estou querendo muito? Só estou pedindo um mínimo de respeito e consideração!” Se é isso que essa pessoa pede, é isso que ela vai ter: um mínimo!

Nas questões humanas há que se pedir e cobrar um máximo de consideração e respeito, pagando na mesma moeda.

Cobrar a presença dos filhos em ocasiões importantes (mesmo que eles não gostem; afinal, quem é que só faz o que gosta na vida?), cobrar certas atenções do marido ou um favor especial de uma amiga significa zelar para que, continuamente, se tenham qualidade e satisfação nas relações – para todas as partes envolvidas.

Quem se dá conta das suas carências e não fica esperando que alguém compareça para resgatá-la da solidão, mas, pelo contrário, aprende a pedir e se dá a liberdade de receber, sem sentir-se humilhada por estar fazendo um pedido justo, está promovendo uma verdadeira revolução antiautoritarismo nas relações humanas.

A pessoa que é contemplada com um pedido da amiga sente-se valorizada e feliz por poder colaborar. Sente-se útil e necessária. Não é isso o que todos nós queremos? E se, frente a um pedido justo, recebemos um não, é porque esse não também é justo – ou, então, a pessoa não é nossa amiga. Daí, é hora de fazer novas amizades.

Humildade

O que é Humildade e por que precisamos dela?

Humildade é algo que todos valorizamos – normalmente nos outros.

Humildade
Imagem: Pixabay - Humildade

Teoricamente, é uma virtude. Na realidade, muitos acham que é algo prejudicial. Por quê? Estas pessoas confundem ser humilde com humilhar-se, diminuir-se, pois identificam ‘humildade’ como `fraqueza de caráter`, ou seja, permitir que os outros nos pisem.

Não é assim! A Torá nos ensina que Moshe Rabeinu (Moisés, nosso Mestre) foi a pessoa mais humilde que já existiu (Bamidbar 12:3) e, também, o único profeta que conversou ‘cara a cara’ com o Todo-Poderoso (Devarim, 34:10).

Todos os outros profetas recebiam sua profecia dormindo ou em transe, mas Moshe podia falar diretamente com o Criador. D’us ditou-lhe como escrever a Torá, palavra por palavra, letra por letra. Moshe, portanto, sabia que D’us afirmou que ele era e seria o maior de todos os profetas.

Como era possível, então, que permanecesse humilde?

A resposta reside na definição de humildade. Humildade não é ser um nebah – um dócil, hesitante, patético e humilhado perdedor.

A humildade é a característica de sabermos exatamente quais são nossos talentos e capacidades e reconhecer que isto e tudo o mais são uma dádiva do Todo-Poderoso. Eis o segredo para conquistar algo essencial para ser aplicado às nossas vidas: conhecer as próprias forças e tomar posses, reconhecer as próprias conquistas, sem jamais negar uma verdade básica e vital: tudo que se tem e se consegue são dádivas do Todo-Poderoso.

A humildade é um requisito para se estudar a Tora, bem como qualquer texto inteligente e sagrado. Os Sábios traçam uma analogia do conhecimento profundo com a água: necessária para a vida, é essencial para o crescimento e para atingirmos nosso potencial.

Um sujeito arrogante coloca-se numa posição alta como uma montanha. O que ele esquece é que a água flui da montanha para os lugares mais baixos e não o contrário. Para extrairmos o máximo de nosso potencial, precisamos ser humildes.

Ao percebermos nossa pequenez em relação ao Universo e ao poder do Todo-Poderoso, adquirimos humildade. Ao nos darmos conta da gigantesca quantia de sabedoria disponível, mas que não a temos e, quando muito, dela participamos, usufruindo e/ou criando, dos pequenos e grandes erros que cometemos, adquirimos humildade.

Ao entender a magnificência e a fragilidade do corpo humano e como até as pessoas mais fortes no final enfraquecem e morrem, adquirimos humildade. Se pensarmos bem, a única maneira de ser arrogante é desconectar-se do ‘grande quadro’ , também chamado realidade. Assim como O Profeta Moisés, todos os grandes homens, os sábios e os santos, possuem o mais alto nível de consciência da realidade e, portanto, são os mais humildes dos homens.

Por que precisamos de humildade?

Uma pessoa verdadeiramente humilde aprende com as demais, faz perguntas quando tem dúvidas e está aberta a críticas. Não sente necessidade de exercer poder sobre os outros ou de sentir-se superior a eles, focando em seus defeitos e falhas. Esta pessoa não irá agir com desprezo, nem dar-se-á o direito de julgar as demais. Evitará discussões e brigas. Pedirá desculpas e não porá a culpa nos demais. Conseguirá enxergar o lado positivo dos demais e amar o próximo. Podemos enxergar o amor como um grande sentimento de prazer, de que desfrutamos ao focar nas virtudes dos demais.

Humildade é liberdade. O que nos refreia e nos inibe são nossas preocupações desnecessárias sobre nós mesmos, incluindo como nos parecemos aos olhos dos demais. Quando uma pessoa preocupa-se apenas com a verdade e vive por isto, então, ela é livre para realizar as coisas mais significativas.

Uma pessoa arrogante é extremamente focada em si mesma para conseguir ouvir a verdade, para enxergar suas próprias falhas e para ajudar os outros. Precisamos, antes, conseguir enxergar as necessidades dos demais para poder ajudá-los, não sem antes pedirmos permissão para fazê-lo.

Uma pessoa arrogante está mais preocupada consigo mesma e sobre como os outros a encaram do que em fazer as coisas certas. Ela também sofre de ‘falta de paciência’ e isto lhe causa muita frustração e sofrimento. Além disso, considera que os demais têm o dever de aceitar a sua ajuda e que o mundo lhe deve satisfações.

Uma pessoa humilde descobre ser fácil aceitar que nem tudo acontece da maneira que ela gostaria que fosse. Ela foca no lado positivo de cada situação e circunstância, mesmo que num primeiro momento possa duvidar e se desesperar. Aqui temos um lindo paradoxo: a pessoa desesperada diz estar brigada com D’us e ter deixado de acreditar Nele, mas reza e implora (a Ele) para recuperar a sua fé.

Os humildes têm mais alegria em viver, pois entendem a realidade do que é importante: D’us, a Torá, os sábios ensinamentos, a verdade e não o seu próprio ego.

Autor: Rabino Kalman

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Me libertei

Afinal, foi para isso que eu me liberei?

Tem dias (e quem não tem?) que a gente pensa em todas as tarefas da casa, da família e do trabalho e tem vontade de jogar tudo para o alto.

Dá um desânimo, uma vontade de voltar correndo para o colo da nossa mãe. É nesses dias que nos perguntamos: afinal, foi para isso que eu me liberei?

Afinal, foi para isso que eu me liberei

Assim que acordo percebo que estou de mau humor. Porque eu não acordo, sou acordada. Vilmente arrancada do meu sono profundo por dois despertadores e um rádio - relógio que jamais conseguem sincronizar os trim-pin-pin-trim e a voz escandalosa do locutor: “Bom dia, minha gente!” Eu aceno de levinho com a cabeça, para conferir se ela hoje vai doer logo cedo ou se vai demorar um pouco mais. Meu corpo pede por se espreguiçar na cama, enquanto eu já vou fazendo exercícios vigorosos para espantar o sono e erguer a coluna. Afinal, é mais um dia de trabalho, e eu a-do-ro trabalhar.

Meu pessoal dorme. Parece que sou só eu a ser contemplada pela disposição de enfrentar o dia. Isso me irrita, porque, além de trabalhadora, faço as vezes de despertador da família e ninguém reconhece isso. Ao contrário, eu chego de mansinha e sussurro: “Filha, está na hora” ... E ouço de volta: “Pô, mãe, precisa gritar desse jeito?” Mas quem é que grito? Tenho vontade de deixar todo mundo perder a hora, mas desconfio que isso não será nenhum castigo, ao contrário. Com toda justificativa do mundo, eles poderão ir para o clube e eu vou achar que estou criando uns delinquentes.

Decido que vou comprar uma buzina e “fonfonar” na cabeça deles, amanhã mesmo. Todos os oito despertadores tocam agora, inclusive o da empregada, e a reação que vejo é a de resmungos, ouvidos tapados pelos travesseiros, como se eu estivesse sendo inconveniente.

Não encontro o cafezinho pronto à minha espera. Morro de raiva e de inveja da minha “secretária do lar”, mas engulo tudo (porque preciso dela) e, gentilmente, bato à sua porta e escuto: “Ai, dona, perdi a hora, né? Não posso levantar. Passei uma noite horrível preocupada com os meus filhos, umas cólicas, estou com a boca amarga...” Respondo: “Espera aí que eu trago uma aspirina e um café”. Meu coração bate acelerado e a minha dor de cabeça matinal se instala.

Volto para o meu quarto tensa, imaginando como seria a minha vida num flat, já bem acordada pelo meu corpo. A família já está de pé e meu marido ocupou o banheiro! Quinze minutos se passaram e só tenho mais quinze para sair de casa. Procuro pela “roupa adequada”. Tenho dezenas de peças e raramente acerto vestir aquela que me dará o conforto necessário. É quase como acertar na loto. As demais... vivo passando frio ou calor. Como é que se vai saber o tempo que vai fazer?

A viagem no automóvel

Os escritórios deveriam ter um vestiário para a gente se trocar, tomar banho, se aliviar... Ai, meu Deus, enquanto vou pegando as peças, combinando brincos e sapatos, a dor de barriga aumenta. O tempo passou e eu só posso agora: ou caprichar no visual, ou deixar a lista das tarefas do dia e os cheques preenchidos para os fornecedores, ou tomar meu café da manhã, ou me trancar no banheiro e desejar que a fechadura se quebre e eu não possa sair de lá por dois dias, recebendo revistas e comida pela janelinha!

Os filhos já estão no carro, meu marido me dá as “instruções verbais” para o dia e a empregada começa a se coçar, me pedindo a tarde de folga, sei lá pra que. Eu dou tudo! Desde que ela não vá embora nessa fase. Afinal, como mulher, tenho que respeitar suas preocupações maternais e suas cólicas menstruais. Sorte dela que pode descansar enquanto eu tenho que marcar ponto e sorrir, sorrir sempre, mesmo que queira rosnar. O café dela ninguém controla. O meu é cronometrado. Só dois por dia, que é tempo de contenção de despesas na firma.

Enquanto vou colocando meu lanche, minhas pinturas, minha malha e guarda-chuva, tudo numa bolsa muito pesada, ouço as reclamações: “Mãe, cê tá atrasada”. “Querida, você precisa chamar a atenção da empregada que a camisa amarela está sem botão”. “Dona, pede pras crianças não trazerem amigos hoje, que não vai dar pra arrumar a sala e fazer almoço...” “Mãe, eu já combinei com eles que a gente vai fazer trabalho em grupo...”

Bendita dor de cabeça que não me deixa ouvir mais nada! Eu só faço que sim, e partimos. Vou comendo meu sanduíche e fazemos a maquilagem no espelhinho do carro. Entre uma brecada e outra cuido dos olhos e do batom. Tenho uma sensação íntima de ser super mulher. Afinal, este é apenas um dia comum. Mas, que diabo! Por que é que cada um não cuida das suas coisas?

Sinto vontade de voltar para a casa da minha mãe. Só que estou indo para uma reunião com os chefes da empresa, apresentar uma proposta revolucionária que beneficiará a todos nós. Sinto muito medo. Essa eu não posso perder. Dela dependem várias famílias. No “tchau-tchau”, um desce do carro aqui, outro ali, vou me aproximando do escritório. Um beijo no rosto do meu marido, que me diz com olhar grave e sério: “Temos que ter mais tempo para nós dois. Esta noite eu te procurei e você... nada! Sempre cansada...” De novo deixo de escutar e só respondo: “É. Depois a gente se fala, tá?” Um depois que nunca acontece, porque, quando não sou eu, é ele quem desaba, no meio da novela. Fim de semana? Ou vamos para a praia e ninguém quer falar de coisas sérias, ou tem filhos, sogros e amigos no meio. Nunca dá para parar. E quem é que quer parar?

A aflição no escritório

Agora começa o meu dia de trabalho remunerado. Foi por isso que eu tanto lutei. Respiro fundo e me concentro no serviço, não sem antes reparar que minhas unhas estão descascadas. Puxo a gaveta e pego a acetona. Afinal, serão vários pares de olhos focalizados em mim e tenho que fazer jus à imagem de uma mulher de sucesso. Detalhes bem cuidados ajudam a gente a se impor.  Já que temos que “falar grosso”, não podemos ter “ar de lavadeira”. Vejo com carinho essa minha primeira gaveta da escrivaninha. Aí guardo minhas perfumarias, agulha e linha, bilhetinhos, remédios, lembranças e uma série de coisinhas inúteis que atestam a minha futilidade. Imagino o que pode ter na primeira gaveta do meu chefe. Sempre achei que seriam documentos importantes... ou dólares. Tenha a ideia de que os homens são sempre homens são sempre racionais. Afinal, dificilmente têm crises histéricas que acontecem entre as mulheres. Uma porque está grávida sem querer, outra porque a mãe está doente. Daí ter sempre alguém com os olhos vermelhos de choro e o nariz fungando, se queixando de dores... e atrapalhando o nosso trabalho. Tenho o maior ódio quando me flagro sendo “boazinha” e desculpando os erros dessas mulheres que trazem a sua vida doméstica, particular, para dentro do escritório. E o faço por também ser mulher e ter dificuldade em “mandar”.

Ser autoritária em casa é uma coisa. Isso eu tiro de letra. (Tiro de letra nada, tirava quando estava lá...) Mas no trabalho? Já me disseram que eu pareço um homem de saias. Poucas coisas me magoaram tanto. Quando um superior meu é compreensivo, eu penso: “Que beleza de homem, quanta humanidade!”. Eu mesma tenho dúvidas sobre quando estou sendo “entreguista”. Beleza de educação essa em que menino não chora e menina não pode brigar! Está tudo na minha cabeça hoje. Só que, a cada vez que me pego brigando, impondo, tenho medo de ser rejeitada: ou é porque estou “masculinizando”, ou é porque estou “naqueles dias” e não consigo me controlar. Que sufoco!

Raramente eu vejo um homem desabafando. E, quando o faz, é com muito pudor. Se nervosos no ambiente de trabalho, quando muito, ficam é mais autoritários, calados, distantes, esbravejantes. Nós, mulheres, não. Parece que vivemos num eterno galinheiro, com mil fofocas, ti-ti-tis. Não que isso não nos alivie também. É bom poder chorar em público. Além do que, é uma boa arma para se usar quando a gente não sabe o que fazer...

Ao cair da tarde

Apresentei meu trabalho e saí da reunião com ares de pombamor: peito estufado, exultante. Não sentia mais nem a dor nos pés apoiados precariamente num salto sete e meio. Lembrei do meu primeiro namorado, de quando estudávamos química e ele disse: “Puxa, você tem cabeça de homem!” Foi o máximo que ele conseguiu para me elogiar. Senti que havia algo de errado naquilo, mas deixei pra lá. Eu mesma achava que mulher muito inteligente e homem muito bonito eram desperdícios da natureza...

Percebi estar sendo cumprimentada, admirada, invejada. Senti orgulho e muito medo. Sempre medo! Como estaria minha aparência: despenteada, com a pele oleosa? Nos filmes, as executivas terminam essas reuniões com cara de quem está indo a uma festa. Eu tenho a péssima mania de passar a mão nos cabelos, borrar a maquilagem, tirar os brincos... Fico exatamente como o meu marido, que chega em casa desalinho, com a gravata no bolso, os punhos dobrados. Ah, meu Deus, falta um contra-regra na minha vida!

Me chamou atenção ter recebido tapinhas nas costas. Que coisa mais inócua! E se, ao invés disso, meu chefe tivesse alisado meus ombros?! Quero fugir dali e voltar para o aconchego do meu lar. Mas antes devo passar pelo supermercado, batalhar um táxi, telefonar para saber da minha mãe que foi ao cardiologista, comprar presente para a namorada do meu filho, cancelar de novo a visita de um casal de amigos, escrever uma carta. Meu Deus! E jantar? O pessoal já está entupido de pizzas e hamburguês. Hoje será uma sopa pronta e omelete. Dane-se... ninguém está desnutrido. Mas que dói, dói. Quando sentamos á mesa e eles debocham: “Mãe, esta casa está uma fartura. Farta tudo”. Eu me sinto a mais incompetente da donas-de-casa. Logo eu que me dizia: “Nem que eu ganhe só para pagar uma empregada, em casa eu não fico!”. Agora vejo que não é muito mais do que isso o que eu ganho, pois tudo me sai mais caro: desde os táxis (pois vivo atrasada), as compras de roupas (pois não tenho tempo de procurar), até os 20 a 30% a mais nas despesas da casa!

Na hora de dormir

Fico magoada ao me olhar no espelho. Eu vivia reclamando que meu marido se arrumava mais para estar com os outros que comigo. Em casa era barba crescida, chinelo, roupa amassada e um humor de cão. Resmungos alternados com silêncios de quem não tem energia para pensar, quanto mais para dialogar. Eu o recebia alegrinha: “Me conta como foi o seu dia”. E ele, nada. Eu achava que ele não queria saber de mim. Ledo engano. Imagina se ele estaria a fim de continuar remoendo as tensões do trabalho? Eu ficava esperando que ele tomasse qualquer iniciativa diferente de desabar na poltrona. Quando ressentimento inútil...

Agora eu faço a mesma coisa. E vejo com outros olhos, com mais carinho, esse homem guerreiro que até aprendeu a usar o meu salário sem se sentir humilhado. Vou pensando que continua a haver algo de errado comigo. E começo a saber o que é: preciso aprimorar meu balanço entre dar e receber, me fazer um eu no social.

Para que eu me liberei

Encarando meu rosto cansado, sem viço, sentindo-me feia e pouco atraente neste momento, começo a entender um pouco mais da vida e de mim mesma. Tenho noção do amor e de que casamento é compromisso profundo e prolongado, um contrato de mutualidade e respeito pelo que se é, pelo que o outro também pode ser. Que maternidade é tarefa de renúncia e exercícios de limites, em que todos crescem e aprendem continuamente.

Que não é possível querer mudar sem mexer em nada, fazer de conta que ainda se é a mesma, embora a situação seja outra. Que o trabalho não facilita tudo. Talvez até complique. Que trabalhando eu não fujo dos problemas, mas tenho oportunidades diferentes para resolver o mesmo problemão central: o quanto eu gostaria de ser ideal e não sou! E me liberar é ser quem eu sou!

Daí fica possível conciliar se mãe-esposa-dona-de-casa-trabalhadora: não como mulher ideal, mas como alguém que, corajosamente, amplia seu espaço de ação e participação! E eu, que também gosto de reclamar, afirmo já: “Quero poder me queixar de tudo, mas de tédio não”.

Afinal, foi para isso que me liberei!

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Trabalho na Adolescência

Falar sobre trabalho e emprego em plana adolescência não é cedo demais?

Os jovens não estão tendo sua juventude roubada pela pressa dos pais? Quando se deveria iniciar esse processo?

*Por Leo Fraiman

Trabalho na Adolescência

Os jovens se sentem muito agradecidos quando têm alguém que fale a eles sobre como conseguir seu espaço no mundo. Muitos já começam a trabalhar durante a faculdade ou mesmo durante o ensino médio, seja em um trabalho voluntário, na animação de festas infantis ou como vendedores de fim de ano em uma loja de roupas.

Se a preparação para a entrada no mercado de trabalho for feita aos poucos, com cursos de capacitação condizentes com a idade escolar e com as possibilidades de cada aluno, a passagem da adolescência para a vida adulta pode ser feita de modo mais seguro e suave.

Em muitas empresas, no processo de seleção para um estágio, a primeira linha que se olha no currículo é a de cursos extracurriculares.

Os pais e os educadores devem ajudar os jovens a refletirem como um todo: nos aspectos cognitivos, sociais, comportamentais e emocionais. Tudo conta.

Quando se concorre a um estágio, diversos aspectos são relevantes e muitos deles não se formam de um dia para o outro, ao contrário, se a formação for feita ao longo de anos, pode ser muito melhor implantada. A partir do 9º ano do ensino fundamental, muitos jovens já conseguem perceber a importância de se preparem para o futuro, com trabalhos temporários, cursos de formação diversos, línguas e outras atividades. Em outros países, o trabalho nas férias também já é bastante comum.

*Referência: FRAIMAN, Leo. Projeto de Vida: 100 dúvidas. 1ª edição. São Paulo: Editora Esfera, 2013. [saiba+]

 

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

A boa-fé dos idosos

"Minha mãe não sai de cartomantes e centros que exploram sua ingenuidade. Tento explicar que ela está gastando dinheiro e esperanças fora, sem resultado. O que posso fazer?"

Berenice Andrade, Guarulhos (SP)

Cartomante
Cartomante, Vidente, boa-fé (Imagem: Pixabay)

Ana Fraiman

As pessoas precisam acreditar em alguma coisa, se não a vida fica sem sentido, umas creem em Deus, outras na ciência outras, ainda, fazem da arte sua religião ou têm um trabalho a que se dedicam com devoção. Em qualquer desses campos também podem ser exploradas.

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Filhos da violência

A violência existe desde que o mundo é mundo. Não há quem a desconheça numa ou noutra de suas muitas formas. E algumas delas são perfeitas em seus disfarces.

Filhos da violência
Imagem: Pixabay

Fácil é reconhecê-la em sua feição escancarada. Um bando de jovens perturbados que incendeiam o mendigo adormecido. Uma mulher que espanca sua enteada. Um adolescente que estrangula o gato. Uma menina que encomenda a morte de seus pais e foi beber com amigos, enquanto bandidos simulam invadir a casa. Torcidas revoltadas que barbarizam o time rival.

Por mais chocantes, são casos com que convivemos no cotidiano, que nos contam histórias sobre o que os homens podem fazer de mal a outros homens. E mulheres, claro. Pais e filhos se matam entre si. Irmãos, desde tempos bíblicos, são inimigos mortais. Traições e enganos vis. Heranças disputadas centavo a centavo. Amantes que jogam ácido. Bebês largados nas lixeiras.

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