Bolsa é algo que nos fascina. Sair de casa sem, parece sair despida.

Ana Fraiman

Fico aqui me perguntando de onde vem esse fetiche. Se nato ou adquirido, de qualquer modo, robusto e bem desenvolvido. Bolsas guardam segredos, mas também são indiscretas. Revelam a idade que temos.

Bolsa de Mulher
Imagem: pixabay

Antes de nascer, vivemos todos dentro de uma bolsa. Ela se chama útero. Confortável – até certo ponto – e quentinho. Tudo de que precisamos está lá. Até que um dia, arriscamo-nos a vir ao mundo: sem nada nas mãos! Caso sério.

A mamãe, porém, logo dará um jeitinho. Não sairá de casa sem levar uma bolsa junto com os nossos pertences. Seus próprios pertences, talvez, os enfie em meio aos nossos, talvez os leve pendurados num dos ombros. Mas a nossa bolsa não vai faltar. Talvez nos carregue a tiracolo, numa cestinha ou nos coloque num de seus bolsos? Duvido, mas há mamães muito práticas, enquanto outras, nossa, não sei nem o que dizer.

Têm, inclusive, mamães tão preocupadas que se arriscariam carregar consigo um baú de especialidades. Para isso, tem um personagem chamado papai. Ele vai ajudar. Sozinhas, conosco no colo, elas não aguentariam dar mais de dois passos. Um de cada vez.

O fato é que não existe bebê sem bolsa. Nenhuma mãe que se preze suportaria isso. Qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento! Então, as mamães precisam levar:

  1. Uma grande sacola, maior do que a gente e quase mais pesada que a própria mamãe. Não chega ainda a ser a nossa bolsa, mas se trata de um apêndice da relação mãe-bebê, assim chamado: a bolsa rosa. Que por sinal, é bem carinha.

  2. Começamos, então, a nossa vida fora do útero e da casa onde passamos a morar, cercada pelos cuidados de mamãe e pela preciosa bolsa rosa, toda fofa e macia, cheia de enfeites e sabe-se lá mais o que. Têm mamães que guardam seu maço de cigarros numa das laterais de nossa bolsa rosa. Mas isso não é correto, pois deveríamos ficar longe desses pacotinhos viciantes e nada oportunos. Há coisas que devem caber na bolsa rosa, outras, nem pensar.

  3. Conteúdo: 1 pacotão inteiro de fraldas descartáveis – as mamães preocupadas poderão levar 2. Acompanham lencinhos, creminhos, pomadinhas, 3 a 4 chupetas rosa, 5 a 6 mudas de roupinhas para frio, para calor e para mais ou menos, uma dúzia de apliques – entendam-se florzinhas – adesivos para os nossos cabelinhos de anjo (será que já não somos suficientemente bonitinhas sem essas gracinhas?). Várias chupetas rosa e mamadeiras para líquidos variados, suquinhos, paninhos de limpar um monte de lugares do nosso corpinho, mantas, meinhas, toucas, faixas, luvinhas e babadores, tanta coisa, mas tanta coisa, que chegamos a sentir medo de que a mamãe se distraia e nos deixe em casa ou que nos carregue dentro, puxe o zíper e, na hora H, não consiga nos encontrar, não sem antes revirar a bolsa toda!

  4. Tempo de preparo: sem contar o planejamento de véspera, deve levar umas duas a duas horas e meia. No meio, corremos o risco de engasgar, nos sujar e a temperatura do dia mudar. Daí, ficamos sem sair e, a mamãe põe-se a chorar.

O tempo passa e mamãe vai ficando mais velha, mas seus gostos de criança não vão mudando. Ela continua colocando nas nossas bolsas aquilo de que ela gosta, como por exemplo, brinquedinhos nada a ver, até que chegamos aos 10 anos de idade.

Teremos passado por fases: de mochilinhas com e sem rodinhas, com jeito de bichinhos de pelúcia ou estampas de Barbies, Pequenas Sereias e de fadinhas. Teremos as bolsas de piscina, de escola e de viagem. Algumas se parecerão com malas e estas nos servirão por mais tempo. A maioria, no entanto, não vai ter função alguma, a não ser nos habituar a carregar umas tranqueirinhas que quase sempre serão esquecidas nalgum lugar, por que não servirão para nada. A não ser para batôns de mentirinha e para carregar prendedores, fivelinhas, perfuminhos, balinhas (com e sem papel). E agora, com certeza: 1 ou 2 iphone. No meio disso tudo, bem, algumas borrachinhas temáticas.

Após os 10 anos: Entram a carteira do colégio e, quem sabe a chave da casa. A do diário é garantida. Bilhetes de namoradinhos e selfies de montão dispensam impressão. Algum dinheiro na carteira e as novas capas dos celulares, a maioria delas descartadas com pouco tempo de uso. Além dos batons, agora os gloss e os pincéis para aplicação de sombra, blush e lápis. Pacotinhos com creminhos para as mãos e unhas postiças a granel disputarão espaço nas bolsas com os estojos escolares e com os chicletes meio mascados e largados em meio ao conjunto de pertences indispensáveis. Ah, também elásticos de cabelo e aparelhos de corrigir dentição.

Chegadas aos 20: Bolsas da Twenty Five – as dos camelôs são muito práticas e atraentes – e, nas feirinhas de rua ou dos shoppings, encontram-se as de marca, tudo fake. Preço bem em conta. O que importa é a diversidade. Dá-se preferência às bolsinhas minúsculas de levar chave de casa, cartão de débito e um dinheirinho extra para voltar de taxi quando se bebe e dançar com elas nas baladas.

Conteúdo: muitos óculos, mas muitos óculos mesmo! De tudo quanto é cor, inclusive os quebrados. Balas e chocolates, barrinhas de cereal – embrulhadas - camisinhas, mesmo que se tomem pílulas anticoncepcionais, carteiras: de identidade, de motorista, do clube, das lojas, de crédito (filhote do cartão da mamãe) e de débito (na dependência do pai, da mãe ou da avó), de seguro de carro, saúde e acidentes pessoais.

Ah, e segundas vias das compras feitas. Talvez, uma agenda cheia de fotos de namorado e de amigas, mais anúncios de pizza dentro, a necessária escova de cabelos, chapinha e, com certeza, batôn de tudo quanto é cor, pincéis e glosses, dinheiro e moedas, no mínimo dois celulares com respectivos carregadores, dinheirinhos trocados, celular que troca a frente e toca tudo quanto é musiquinha, CD player portátil, alguns muitos Cds e chave de casa. E da casa do namorado. Se não cuidar, a carteira e todas as tralhas dos namoradinhos, que em bolsa de mulher cabe tudo. Ombros femininos são fortes.

Nalgumas bolsas ainda caberão uns OBs, calcinhas, meias de nylon, um sapato de plataforma e escova de dentes, pasta e enxaguante bucal, com direito a fio dental. Hum, lencinhos de papel e alguns band aids. Também, creme para as mãos, bem perfumado. Bolsinhas dentro da bolsa maior e um carrinho de supermercado para levar tudo isso, que nunca se sabe do que é que se vai precisar ou o que vestir. One never knows.


Aos 30 anos: A bolsa agora é de marca autêntica – mesmo que de marca desconhecida – e pelo menos uma deverá ser de couro de verdade. E danem-se os escrúpulos em relação aos maus tratos de animais. A concessão: uma cor que combina com tudo. Será uma senhora bolsa, de custo não menor que mil e quinhentos reais. Uma pasta de trabalho que tem pouco ou nada a ver com a bolsa mor. Dá-se início a uma coleção de bolsas de festa e de combos bolsa-sapatos.

Conteúdo: tudo aquilo que sempre coube na antecessora, mais dois pares de óculos de sol, adoçante em sachet, tabletes contra mau hálito e tablet com agenda atualizada, necessaire combinando com a bolsa, outra necessaire dentro ou ao lado desta primeira, com pinça de sobrancelhas e tudo o mais para dar conta de uma manicure emergencial, aparelho de barba modelo One never knows que combina com uma calcinha fio dental (dupla que veio para ficar por pelo menos três décadas adiante). Lencinhos higiênicos, batôn com filtro solar, corretivo para olheiras, pequenas ruguinhas, mais de 2 cartões de banco, celular pequeno e leve, de última geração, chaves de casa, do carro e do trabalho.

O que mais vai dentro: além da bolsa regular, muito grande, pesada e, já meio desgastada, uma coleção de peças – de roupas, acessórios e panelas sem cabo - para levar para arrumar, comprinhas de última hora, receitas de comida e receitas médicas, pedidos de exames laboratoriais, contas a pagar e boletos para arquivar, carteira da empregada doméstica para dar baixa ou para contratar, relação em papel do que trazer do supermercado, orçamento para conserto do carro, da geladeira, do fogão e do aquecedor. Tudo que couber e ainda mais. Sacolas de compras esquecidas nos porta malas dos carros e sacolas ecológicas para catar o lixo ali acumulado. Roupas grandes e pequenas para entregar a algum destinatário sortudo, malhas com bolinhas e, quem sabe, um biquini velho que não cabe mais.


Chegadas aos 40: - Ainda usamos a mesma bolsa dos 30, que afinal foi caríssima e ainda dá para o gasto. Vai dentro, além de tudo aquilo que aprendemos a carregar ao menos desde a puberdade: óculos de sol e de grau para longe (o de perto fica em casa), remédios e pílulas para uma porção de coisas, filtro solar e spray bronzeador para fingir estar de meia calça, 2 celulares desligados, ligados no silencioso ou, ao menos um sem bateria. Novidade: passamos a carregar bolsinhas, sacolas e mochilas dos netos, também. Ah! As lentes de contato e os paninhos e lubrificantes para tudo quanto for preciso. E garrafas de água.

Cartão múltiplo do banco: de crédito e débito, mesmo que a empresa pense em implantar reconhecimento pela voz ou pupilas, 2 pares de meias sobressalentes, sendo um deles imprestável para usar com saia curta, mas que com saia longa ninguém vai ver os fios puxados e selados com esmalte. Têm, também, os boletins impressos do rendimento escolar das crianças e uma certidão de alguma coisa para autenticar. Multa de carro por excesso de velocidade.

Chaves de casa, do carro e do escritório e da casa da praia. Chaves da casa dos pais e, quem sabe já dos filhos que moram fora, mas que ainda dependem dos cuidados maternos, tipo abrir e fechar a porta para uma faxineira ou receber comida pronta gostosinha da casa de mamãe. Relatórios para ler em casa, provas para corrigir e pelo menos dois livros de autoajuda.

Passando dos 50: Já teremos trocado de bolsa. Mas ainda usamos uma bem classuda. Só que agora começam a pipocar as mais variadas composições. Bolsa dentro de bolsa e bolsinhas dentro das bolsas, sacolas e saquinhos. Quase nunca conseguiremos caminhar pelas ruas sem bolsas e sacolas de tudo quanto é tipo e, ao mesmo tempo. As mais populares são as de plástico, até pouco tempo atrás, totalmente grátis nos supermercados e sacolões.

Mais bolsas que foram da mãe, da tia querida e até da filha que viaja o mundo todo e traz uma bolsa. Nora atenciosa também traz. O que importa é que a bolsa principal é de alguma marca famosa. As bolsas concorrerão entre si, mas sempre ganha aquela que estiver mais à mão à hora de sair e onde cabe mais coisas, inclusive tênis para caminhadas na academia e sapatos de salto para estar numa ocasião mais formal que pinte de última hora.

Leva dentro, pelo menos: 4 pares de óculos (1 para perto e 1 para longe com lentes brancas e outros dois, 1 para perto e 1 para longe), caixas de antidepressivos e ansiolíticos, blisters para os mais diferentes desconfortos. Além de dois livros, um romance e outro de autoajuda, agora as revistas e pelo menos 2 perfumes de griffe, celular desligado, mas que só liga quando quer, todos os cartões de crédito, vários talões de cheque, alguns já sem folhas, nunca menos de R$ 400,00 em dinheiro vivo, chaves de casa, dos carros e do sítio, da fazenda, da casa dos pais e dos filhos, de alguns cofres, chaves que já nem lembramos de onde, recuerdos de viagem com a chave do cofre, muitas barras de chocolate diet-light para distribuir para as amigas. Mais garrafas d’água.

Devem caber ainda: estojos de maquilagem e de demaquilagem. Sprays desodorizantes para tudo quanto é superfície e buracos do corpo. Dois tubos de KYGel. Leques de espantar fogachos. Toalhinhas para secar suor causado pelos fogachos. Bilhetes deixados pelos filhos e pelo marido. Toneladas de receitas disso e daquilo, páginas arrancadas de revistas disso e daquilo, guardanapos de papel onde está escrito isso e aquilo, cartões de visita e folders de restaurantes, viagens e de lançamentos imobiliários.


Aos 60 anos: Nossa bolsa muda de personalidade e, nela dificilmente haveremos de colocar algo que responda às necessidades imprevistas e urgentes de... One never knows. KYGel será utilizado somente em casa, mesmo, porque não há por que ter pressa. A bolsa passa a ser bem leve, feita de crochê com alcinhas finas, para atender aos ombros e lombares doloridos que já clamam por piedade.

Vai dentro: 2 pares de bifocais (um quebrado para consertar quando der), mas poderá também um binóculo para apreciar pássaros nos parques. Cartão de gratuidade do ônibus e do metrô, agendinha, agenda eletrônica ou tablet, porta moedas, sombrinha para o caso de chuva, fotos dos netinhos, do cachorrinho e do gatinho, foto do filhinho da empregada, uma gracinha, fotos de árvores e de pôr do sol, além de fotos de familiares já falecidos. Muitos saquinhos plásticos, que sempre terão alguma utilidade. Chaveiro com tudo quanto é tipo de chave, inclusive inglesa. Cartões de médicos, fisioterapeutas, advogados, consertos, cabeleireiros, restaurantes e telefones de não se sabe quem, anotados em pedaços de papel, enfiados em meio às agendas físicas.


Aos 70 anos ou mais: Nossa bolsa é qualquer uma valendo, inclusive, sacola de supermercado. Ou embalagem chic de uma loja de griffe.

Carregamos em nossa bolsa: nossa experiência de vida, nossos sonhos e encantamentos, mas sem necessidade de embalá-los em ilusões, alegria e gratidão, vontade de viver coisas novas, de ousar mais, estratégias para deixar barato aquilo que um dia tanto já nos irritou, modos flexíveis de resolução de problemas e uma determinação incrível de viver cada dia e dar um passo de cada vez. Sabedoria por adotar soluções ‘somente por hoje’ e de enxergar longe, mesmo sabendo que, potencialmente, nosso tempo futuro é menos que o tempo passado.

Claro que ainda levaremos um monte de tranqueiras de cá para lá, mas já sabendo que, se forem muito pesadas de carregar, poderemos pedir ajuda e alguém haverá de nos atender com doçura. Desde que o pedido seja feito com educação, simpatia e animação.

Claro que levaremos nossos remédios, nossas fotos, nossas chaves, nossos cartões, barrinhas de cereal, receitas antigas, livros e artigos para serem ainda lidos e relidos, um pedaço de bolo de maçã com canela, trocadinhos e tantas coisas mais: testamento vital, contas de banco, extratos e lencinhos.

Carregamos em nossas bolsas incríveis uma porção de troços e trecos que a gente simplesmente carrega e nem sabe mais por que o faz. Talvez por que, nelas gostemos de carregar aquilo que nos define como pessoas, mesmo sem saber nem precisar entender ou explicar.

Texto de autoria de Ana Fraiman inspirado em matéria publicada sobre o mesmo tema, em agosto de 2016, no www.tudoporemail.com.br

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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