Baixa seniorização nas gestões corporativas

Chegamos a ponto de colocar a perder quase tudo aquilo que uma empresa levou décadas para formar: a competência e o saber dos executivos mais maduros que estão por se aposentar. Perde a empresa, perde a sociedade: a voz da experiência fica sem vez.

Na natureza existem duas formas básicas de cometer desperdícios: colhendo frutos antes da hora ou deixando de colhê-los. O que vem acontecendo com a aposentadoria dos executivos mais experientes, que são conduzidos ao desligamento da empresa face à aposentadoria é um duplo desperdício: nas empresas são tidos como aqueles que passaram da hora e, na sociedade, como aqueles que são destituídos antes da hora.

Ainda que sejam substituídos pelos juniores e, com isso a empresa obtenha uma redução sensível em seus custos com o quadro de pessoal, existe o risco embutido de – com essa medida – perder em Capital Intelectual e apagar a Memória Corporativa. Quem haveria de saber tomar determinadas decisões que exigem anos de prática e conhecimento?

A ruptura precoce do vínculo profissional leva embora todo um cabedal de competências. Competências, pelo que significam, são portáveis: saem junto com aquele que é demitido. Quando a alta competitividade exige o desenvolvimento e a fidelização dos talentos, aposentar por idade é, nada mais, nada menos, que submeter o esplendor do conhecimento e potencial humanos a uma simples questão de redução de custos.

O profissional é “convidado” a sentir-se estimulado pelos novos desafios de uma segunda carreira e, no mínimo, a desvendar os mistérios de sua família atual, com que o terá que lidar rapidamente, melhor dizendo, de um dia para o outro, sem qualquer aviso prévio ou estrutura de suporte, dispondo apenas de seus recursos internos e pessoais de adaptação e dos quais, durante toda a sua vida de trabalho, nunca precisou dispor, nem testar.

Profissionais brilhantes em suas áreas têm sucumbido às próprias tentativas de recolocação. Fazem um esforço brutal, sem se aperceber com clareza de que, os meios com os quais estão lutando, são apropriados para a vida empresarial, mas quase que totalmente inoperantes para a sua social. Os fracassos são vistos como falhas pessoais.

O ingresso prematuro de um profissional no auge de suas capacidades laborativas, na fase da aposentadoria, escreve uma história de grandes insucessos: fortunas que são enterradas, casamentos que são desfeitos, saúde que é minada, esperança que queda desfalecida. Ao passar da condição de elegível à aposentadoria para a de ter-se tornado, certamente, um demissível, sofre o impacto de uma grande desmoralização: já não serve para permanecer dentro e não sabe como haverá de se recolocar e se sustentar fora.

 Implicações de um modelo que exclui talentos e compromete resultados.

Em todo o mundo ocidental os profissionais que mais sofrem o impacto desmoralizante de uma aposentadoria são os

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Aquela feiosa

Viveu a vida ouvindo ser feiosa. Visitas, em sua casa, representavam o vexame de ser apresentada “está é aquela minha filha de que lhe falei…” Nem precisava mais do olhar enviesado para baixo, da boca torta ao sussurrar “a feiosa”, muitas vezes captada, pelos seus argutos ouvidos!

Gravado a ferro e fogo em seu espírito, o cognome saltava-lhe à mente, sem nem ser pronunciado, sempre e sempre que alguém a ela se referia. E mesmo quando não o faziam, não precisava, ela sabia. Ela se enxergava. Sabia ser feiosa, a mais feiosa dentre as demais meninas, as dentuças e banguelas, quatrolhos ou narigudas, gorduchas ou magrelas, sardentas ou branquelas. Altas baixas, negras, japas, barrigudas ou sem-bunda, nada, nenhum nome pelo qual qualquer delas fosse distinguida, lhe parecia mais vergonhoso que o dela.

Chegava a sentir-se culpada pelo acontecido. À noite rezava para que Deus tirasse de seus ombros tal castigo e vivia seu minuto de esperança. Rapidamente, adormecia para não perder o doce embalo que tal alento lhe trazia. Nutria-se das pequenas esperanças que todas as noites lhe nasciam.

Isso, até adolescer, quando tudo que as manhãs mostravam era uma nova espinha em seu rosto já tão transtornado e os peitinhos que já brotavam, marcando suas blusinhas de cambraia, que não mais fechavam direitinho. Peitinhos ainda pequeninos, não de mulher, mas já longe de serem de menina, que a envergonhavam mais ainda.

Ah, e a tristeza, que despertava, também, junto com as dores suas conhecidas… Dor nas juntas, dor de dente. Às vezes ocorria, de repente, dor mensal e, principalmente, a de cotovelo, que mais a incomodava. Esta era diária. Chá disso, chá daquilo, todas as dores passavam, menos aquela que a marcava como diferente. A dor de ser feiosa, feiosa externamente. Que era o que importava.

Suas esperanças noturnas foram sendo minadas. Deus não ligava a seus rogos e já tinha esgotado tudo que sabia sobre

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Dimensões psicológicas e sociais da aposentadoria

Resultados obtidos com a aplicação de questionário junto a 1298 profissionais que estão em fase de se preparar para se aposentar (junho/2013)

Quando se conquista o direito da aposentadoria surgem muitos questionamentos: sobre as próprias habilidades e capacidades, sobre a repercussão disso tudo na vida familiar, sobre a saúde, o estilo de vida, os antigos compromissos e as múltiplas e rápidas mudanças e decisões a tomar. Novos rumos serão trilhados e, com eles, novos riscos, motivações e perspectivas.

sete dimensões existenciais fundamentais a considerar nesta transição, em especial quando ocorre cessação do vínculo de trabalho, demandando empreender novas e específicas dentre muitas que virão, ocasionando alta carga de stress de transição: interpessoal, corporal, motivacional, valores, prática, espaço-temporal e afetiva.

1. INTERPESSOAL

a) haverá, com certeza, um distanciamento do grupo de trabalho original, senão no todo, ao menos em grande parte;

b) no círculo familiar, da família de origem e da família atual, ocorrerão mudanças estruturais e dinâmicas com a saída dos filhos e envelhecimento dos pais; as três gerações e, até mesmo uma quarta geração poderá tornar-se dependente e demandar mais cuidados;

c) o esgarçamento do tecido social disponível até na empresa demandará grande e premente necessidade de desenvolver melhor a sociabilidade e recursos de relacionamento pessoal para recompô-lo; surgirão pressões para se integrar a novos grupos e cumprir com novas expectativas sociais, de circular por novos ambientes, com linguagens e códigos muitas vezes desconhecidos e estranhos;

2. CORPORAL

a) redefinição dos padrões, expectativas e condutas sexuais, tendo em vista o anseio de preservar uma vida ativa e de prazer, compreendendo as transformações nas esferas do desejo e da própria performance sexual, conduzindo-as para esferas de maior sensualidade;

b) a (re)construção da imagem corporal positiva em virtude detecção de sinais da maturidade plena, meia-idade e envelhecimento;

c) necessidade de incluir mais atenção e autocuidados;

3. MOTIVACIONAL

a) será necessário rever a questão da autonomia pessoal, uma vez que a necessidade de ser aceito e aceitar novos relacionamentos e compromissos haverá de impactar na saúde geral;

b) estará em jogo a reconstrução da identidade profissional e/ou ocupacional, em torno das quais foram estruturadas muitas das razões de ser e de viver;

d) os temas e estados concernentes à delegação de poder e revisão do status social serão presentes, tanto na esfera da ocupação, como da família;

4. VALORES

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Uma ponte para a saúde dos aposentados e das comunidades

trabalhador-aposentadoUm importante estudo realizado na última década e publicado em 2009 lançou novas luzes sobre a passagem do emprego para a aposentadoria. Realizado por pesquisadores da Universidade de Maryland em parceria com a Universidade do Estado da Califórnia (1) Bridge Employment and Retirees’ Health: A Longitudinal Investigation, in Journal of Occupational Health Psychology, 2009, Vol. 14, number 4, 374-389 By Yujie Zhan, Mo Wang, and Songqi Liu, University of Maryland e Kenneth S. Shultz, Califórnia State University, San Bernardino foi registrado o surgimento de um outro status que vem sendo alcançado pelos trabalhadores mais velhos: o trabalho remunerado ou não, que se realiza logo após a aposentadoria os assim chamados emprego-ponte (Shultz, 2003).

O conceito emprego-ponte é definido pelos pesquisadores pela participação da força de trabalho exibida pelos trabalhadores mais velhos, conforme eles deixam suas carreiras e, contudo, prosseguem trabalhando de outras formas, por exemplo em trabalhos por período de tempos mais curtos, trabalhos part-time, trabalhos temporários que são realizados depois do emprego de tempo integral e antes de se aposentar.

Estudos anteriores estiveram focalizados os ganhos psicológicos, como ajustamento, satisfação com a aposentadoria e com a vida, mas muitos deles negligenciavam ou não incluíam as perspectivas de melhoras para os aposentados. O estudo a que me referi acima como sendo inovadores de grande contribuição preenche este intervalo de pesquisa, entre o levantamento dos benefícios potenciais na saúde e o engajamento no emprego-ponte.

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PPA – Programas de Preparação para a aposentadoria e Pós-Carreira

Breve histórico de 1978 a 2009, no Brasil

estudo-ana-fraiman-aposentadoriaDesde 1978, ano em que se formou pela UNIP, em São Paulo, a psicóloga Ana Fraiman trabalha estreitamente envolvida com a grande temática do envelhecimento social. A primeira vez em que ouviu falar do tema foi durante o Curso de Gerontologia Social, organizado e co-ordenado pela psicóloga Raquel Vieira da Cunha, no Instituto Sedes Sapientiae, pelo Departamento de Gerontologia Social.

Ana Fraiman fez parte da primeira turma de alunos do curso, tão logo se formou. O curso tinha a duração de um ano, mas essa primeira turma foi contemplada com mais seis meses de estudos, agora visando um aprofundamento dos temas que foram debatidos no ano anterior. Paralelamente, a professora Dra. Raquel Vieira da Cunha organizava cursos de orientação abertos para senhoras da comunidade, que desejassem debater suas experiências de vida em torno do envelhecimento e da meia idade.

Ana Fraiman recebeu convite para participar como observadora, desses grupos, como parte prática do curso que veio a se estender para aquela primeira turma e, nessa ocasião, tendo acompanhado de perto a sua organização,
aprendeu a conduzi-los e moderá-los. Com isso constatou que às mulheres importava, tanto quanto discutir suas próprias experiências, como a de seus maridos. Para os homens ainda não havia qualquer tipo de programação, que lhes facilitasse enfrentar suas dificuldades vividas e a necessidade de adaptar-se a um novo posicionamento familiar e social.

Apaixonada pela temática e pelo desafio, Ana Fraiman se propôs, de acordo com o modelo de trabalho oferecido pela sua grande mestra, Dra. Raquel, a organizar grupos para os homens, mas não houve aceitação pela comunidade.

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Aposentadoria: afastamento imprevisto é potencialmente traumático, não só para o empregado, como para a empresa.

afastamento-traumatico-empresaCustos elevados de reposição se revelam como um dos principais aspectos que têm sido foco das atenções, naquilo que se referem à má gestão do conhecimento, que se evade quando empregados e colaboradores se afastam do trabalho sem o compromisso firmado de manter o processo produtivo em andamento.

A sua descontinuidade pode acarretar grandes danos para toda uma população, interna e externa aos serviços prestados, a qual depende do conhecimento daqueles que se afastam sem treinar um sucessor. Empregados que se vêem frustrados nos seus planos profissionais, que são mal aproveitados nos últimos anos antes de sua saída têm por regra se omitir, se poupar e deixar o tempo passar até poder se desligar de forma imprevista pela empresa.

A prática é mais freqüente ainda em se tratando do serviço público, pois a gestão burocrática tem negado aos mais velhos as mesmas chances de desenvolvimento e promoção, que os mais jovens têm recebido. Seja no serviço público, porém ou no privado, os mais velhos sentem-se profundamente desestimulados e, com isso, se desinteressam por prestar um bom atendimento ao cliente: tanto ao externo, como ao cliente interno, seus colegas.

“Repassar para que? Eles que se virem e aprendam sozinhos” tem sido a resposta que eles, despreparados para sair mas já sem vontade de ficar, no compasso de espera de melhores condições para ir embora, têm dado em relação ao descaso generalizado com que são tratados pelas políticas ageistas. Sem chances de progredir, as pessoas tendem a deixar de ser tão produtivas quanto poderiam, caso lhes fossem oferecidas as mesmas chances que aos mais jovens.

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Fundamentos de um P.P.A.

Programa de Preparação para uma Aposentadoria Sustentável

Vivemos num país que terá de enfrentar uma realidade inédita de envelhecimento da população, mas que ainda mantém valores que incentivam projetos de futuro desenvolvidos a partir de uma visão de curto prazo e o imediatismo consumista juvenil.

Aposentadoria Sustentável

Ao enfrentar esse envelhecimento populacional, ainda não terá solucionado as graves questões da ausência de políticas públicas eficazes, no que se refere à saúde, educação, cultura e moradia, portanto, responderá muito mal às demandas das famílias urbanas e verticalizadas, formadas por cinco gerações.

O nosso trabalho, na área de preparação para uma aposentadoria sustentável, produz uma necessária reflexão acerca do desafio de possibilitar manter e sustentar a honra e a dignidade do trabalhador nas várias etapas de sua vida. Vai, porém, mais além, se assentando numa cultura que contempla uma longevidade saudável e produtiva para todos, cultura essa que se instala a partir do ingresso no mercado de trabalho.

Em especial, no que diz respeito aos poucos anos que se constituem na fase pré e pós-aposentadoria, promove a atualização e a troca de conhecimentos, que resultam na tomada de atitudes que são necessárias para a construção de uma aposentadoria bem sucedida, mas não se restringe somente a esses poucos anos: alarga seu alcance, possibilitando a que jovens trabalhadores sejam beneficiados por posturas positivas e colaborativas por parte dos mais velhos, enquanto também os beneficiam com suas forças e seus saberes renovados.

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Assédio moral: uma das formas de violência no trabalho que se tornou um problema de saúde pública.

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No contexto das novas estruturas e dinâmicas de trabalho o assédio moral vem tomando uma dimensão cada vez maior, nas empresas tanto públicas, como privadas, tendo se constituído num problema complexo de múltiplas causas, sendo simultaneamente humano, social e econômico, que atinge não só a pessoa e sua rede de relacionamentos próximos – família, filhos e cônjuges – como também colegas de trabalho, a parte empregadora e o próprio governo, pelo ônus saúde, que o assédio moral acarreta.

O assédio moral se caracteriza pela prática de atos hostis, mais ou menos explícitos, ocorridos intencionalmente no ambiente de trabalho. Estes atos são praticados por um ou mais assediadores, e deterioram as condições de trabalho: atingem o clima organizacional, a confiança nos relacionamentos, a aceitação do poder e da palavra das autoridades que representam a empresa e, mesmo, a confiabilidade em relação à qualidade dos materiais empregados na confecção dos serviços e do trabalho prestado, por uma ou mais vítimas da conduta de assédio moral.

A conduta de assédio moral visa atingir a integridade psicológica e/ou física da vítima, minando seus direitos e sua dignidade, podendo alterar seu estado de saúde de forma grave e prejudicar seu desenvolvimento profissional e, até mesmo chegando a interromper sua carreira, tirando-a de sua profissão. Ao atingir a vítima existe, ainda a intenção de excluí-la do grupo, do ambiente, de suas funções, da própria empresa, fazendo-a sentir-se inferior e inadequada, de tal forma que nada do que ela tente ou proponha resulte positivamente. Ou ainda levá-la à auto-exclusão, como última forma de enfrentamento às terríveis perseguições sofridas.

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