Medo de ficar sozinha

Medo de ficar sozinho

"Por que será que a partir de uma certa idade mesmo as pessoas que tiveram vidas independentes e solitárias sentem medo de ficarem sozinhas?"

Cleide de Souza, Paraná(PR)

Medo de ficar sozinha
Pixabay

Ana Fraiman

Em primeiro lugar acho importante dizer que esse medo está ligado muito mais ao lado emocional de cada um de nós do que relacionado com a idade. Claro que quem já traz esse medo tende a vê-lo crescer com o passar dos anos. Trata-se da percepção aguda de que se está frágil, vulnerável a tal ponto que a pessoa acredita que a dependência do outro irá protegê-la. Ela busca proteção contra algum mal eventual (morte, acidente, algum tipo de separação) ou que já sente (sentimentos de abandono, solidão, menos-valia, etc.). essa dependência pode ser assumida de uma forma passiva (requerendo cuidados adicionais) ou ativa (protegendo outras pessoas e, com isso, tornando-se imprescindível). Esse quadro de fragilidade emocional, que pode acontecer em qualquer idade, não significa que não possa ser revertido, superada a ameaça.

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3 gerações

Sem saber o que dizer

O texto retrata um encontro memorável: três gerações de uma mesma família, convivendo entre si por algumas semanas, com seus interesses, seus dilemas e seus diferentes modos de ser, cada um no seu quadrado.

Você já reparou que não precisa mais de tanto espaço para morar? Que suas roupas não são as mais modernas, mas que você ainda gosta pra caramba de quase todas elas e que, na verdade, a maior parte nem sequer é tão aproveitada, assim?

Seus casacos pesados enfrentam temperaturas que, no eixo São Paulo-Rio, nenhuma delas alcança. Aquele, de quando foi esquiar em Aspen. Outro, quando esteve num fim de ano em Nova York. E um terceiro, que foi de sua tia avó, uma capa preta de lã, do Canadá, que nem o Batman quereria herdar.

E tem aquele outro, dourado, de shantung de seda, para usar em festa a rigor, sobre qualquer roupa, só para dar um tchan a mais. Era de sua tia madrinha, não era? Só que, ela era bem gorda e, você é magrinha, magrinha. Então. Vai pagar mais para reformar do que custaria um novo. Além disso, amiga, você já não tem mais idade de se vestir de dourado, não é mesmo?

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Quando funciona bem, fica tudo bem. Ou não.

Começo meu dia conferindo se ainda tudo funciona. Em mim. Tem dado certo.

Senhora tomando café
Imagem: depositphotos

Para os meus intestinos o cheirinho de café recém-passado (no coador de pano) é tiro e queda. Peristaltismo imediato! É uma de minhas horas de maior satisfação. Pingo quatro gotinhas no fundo da xícara e café a gosto. As gotinhas é que dão o tchan. Às vezes são quatro. Ou doze. Às vezes é um jato. A gente não consegue controlar tudo. Um pouco de reumatismo nas mãos.

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Velhice sem afeto

Velhice sem afeto

"Sofro de culpas e remorsos. Creio que errei em tudo. Magoei minhas filhas quando elas mais precisavam de mim. Hoje elas me acusam e se afastam. Tenho 63 anos e vivo sozinha como uma velha de 80 anos. Fiz o que achava correto na época. Será que mereço a indiferença delas?"

Suzana Rodrigues. São Paulo (SP)

Velhice sem afeto
Imagem: Pixabay

 

Ana Fraiman

Se na meia-idade não acordamos para a grande importância que é fazer novos amigos, circular em vários ambientes, despertar interesses diferentes, se nessa ocasião adotarmos uma posição de procurar somente nos filhos e netos nossa fonte contínua de afeto e bem-estar interior, estaremos criando as bases de uma velhice afetivamente precária.

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Férias Curtas

Claudinha e eu nos conhecemos por acaso em um ambiente de trabalho. Bem, nem tão acaso assim. Claudinha trabalha numa empresa de construção e eu lá estive para apresentar-lhes um projeto.

Velhas Amigas
Velhas Amigas (Google Images)

Não levei a concorrência, mas ganhei uma amiga e tanto. Só que ainda não sabia disso, porque voltamos a nos ver a não mais do que dois anos, dois anos e meio atrás. E foi, realmente então, que me apaixonei por ela.

Seu tipo miúdo em nada traduz sua grandeza. Esperta, antenada e cheia das boas ideias, cativou-me pelo seu entusiasmo. Só não gosta de trabalhar na empresa em que trabalha. Eu também não gostaria. Melhor dizendo, eu não suportaria.

Os três sócios, simplesmente não se entendem a não ser nas canalhices que cometem cada qual em sua especialidade. Um tem pós-graduação em Mentiras e Sedução. Outro, exímio Mal Pagador. O terceiro e menos cruel tem título honorífico em Traição e Ladroagem.

Como você consegue suportar esse tipo de pessoa, ambiente...? Ah, minha amiga, quando é preciso, a gente suporta o que jamais imaginou! É a necessidade. A gente arranja forças. Uh, se arranja! Quem disse que viver é fácil? Principalmente para quem já chegou à nossa idade e não encontra quem nos pague pela experiência que temos. Se precisasse, você aguentaria.

Ao menos, ela se diverte ao contar em tom de confidência, eles também enganam uns aos outros e a empresa vai bem por conta e risco dos empregados. Eles vivem aparecendo na tevê. Lindos, elegantes, perfumados. Bem, não sei se perfumados também. Empreendedores ‘gente boa’. Não necessariamente fina. O pior de tudo, continua, é que eles atrasam os salários, se é que pode chamar salário o que não consta da folha de pagamento.

Claudinha vive na insegurança. Nunca sabe se, quando e quanto vai receber, porque eles também roubam dos funcionários. Um dia eu recebo, afirma, quando alguém deles está mais calmo ou mais saciado em suas fomes de sexo, coca e rock’n roll. Aproveito alguma brecha de boa vontade e saio com o meu. A cada três ou quatro meses eu me sujeito a não ter como pagar meu aluguel.

Imagine que o fulano já me disse que não dá em cima de mim porque sou velha. Não porque ‘não faça seu tipo’, mas porque já passei da idade que acende seus apetites. E eu tenho que ouvir isso! Ouvir e ficar quieta.

Como assim, ouvir e ficar quieta?!? Porque não consigo trabalho em outro lugar. Você, com a sua formação...? Pois é, nosso país é assim. Quem não fez seu pé de meia, quando chega a nossa idade está ferrado. Não é trabalho escravo porque permaneço por livre e espancada vontade, mas é de doer. E vai chegando um ponto em que a gente fica doente. Eu fiquei. Você não?

Concordo que também engulo meus sapos boi. A idade mais velha é porta aberta para a negação das nossas qualidades, que não são poucas, diga-se de passagem. Pergunto-me de quais espécies batráquias tenho me alimentado ultimamente e concordo haja sapo! Tem de montão, para todos os desgostos.

Chega a amiga de Claudinha, de quem já ouvira falar. Mulher grandona, espirituosa, um pouco sem noção, o que torna tudo menos calmo, porém bem mais divertido. Apresentações feitas às pressas na rodoviária, embarcamos como três adolescentes rumo a Extrema. É lá que vamos nos refugiar das agruras de estarmos na idade de descansar, mas ainda precisando trabalhar.

Por mais trinta anos, estão dizendo! Mais trinta anos passando perrengue em cima de perrengue?! Cláudia fica acesa com a perspectiva. Vai ser o máximo! Declara. Marilena, sua grande amiga grandona que acabo de conhecer, refuta eu, hein?! Quero mais é morrer numa idade mais conveniente, digamos, antes de começar a apodrecer. Gorda desse jeito, vocês acham que vou ter de volta meu corpitxo? Já sou diabética, pressão alta, duas safenas. Só não halitose...



Quando jovem os homens abriam alas para eu passar, mas sempre davam um jeitinho de relar em mim. Quantas passadas de mão nos meus peitos e bunda levei? Lembram? Eles beliscavam a bunda da gente! Eu fingia que me ofendia, mas adorava! Só que tinha que fingir, certo? Agora eles abrem espaço. Vejo suas caras de asco de o que é que essa gordona suada está pensando. Gargalha. Daqui a pouco alguém deles vai me tascar um processo de assédio.

Faço conjecturas sobre que tipo de férias curtas eu terei. Essa mulher maluca, fedendo a cigarro, assumindo que ronca alto – será que ronca mais alto do que fala e tem voz de trombone! - junto com a Claudinha e seu quase insuportável otimismo em relação ao mundo-futuro-que-já-bate-às-portas e eu, toda cheia de dedos, em relação a manter quarto, banheiro, meu penteado e minhas coisas em ordem, que baderna vai ser? Ou que surpresas vou viver? Bem, penso, férias são férias. Agora é encarar. Será que vou conseguir descansar?

Entrego-me a Deus. Olha, deuzinho querido, meu pai adorado. Vê lá o que você aprontou para mim, hein? Pedi férias divertidas. Diferentes. Ô, deu-us? Deus me-eu? Olhalá. O senhor sabe o quanto precisei me virar para juntar algunzinho para relaxar, não sabe? Claro que sabe. O senhor vê tudo, sabe tudo, tim tim por tim tim. Ai, meu Deus, o que vai ser?! Quase me desespero.

No trajeto chacoalhante, Marilena não parava de falar. Inventou que tinha que fazer xixi. Aporrinhou tanto que o motorista fez parada imprevista. Saiu para fumar e retornou com ares de safada. Precisei decidir. Ou ficaria irritada por quatro longos dias, ou ligava o f... e o mundo que explodisse. Apertei o botão.

Foram as férias mais encantadoras que tirei nos últimos seis anos. Sorvi do otimismo de Claudinha, fazendo de conta acreditar que a vida ainda me traria muitas ótimas oportunidades. Pelos olhos dela a vida é e sempre será bela. Com os maus modos e a irreverência de Marilena retornei a minha adolescência, quando quarto bagunçado era só isso mesmo: quarto bagunçado. Um fato sem valores morais nem interpretações.

Tão logo chegamos caiu a maior tromba d’água. Quem ainda fala assim tromba d’água? Nós três. Quase da mesma idade, rimos de nós, do nosso vocabulário e das nossas manias. Mania de nos abrigarmos das chuvas e dos ventos, de sermos previsíveis e corretas. Ô, que gente chata nós nos tornamos! Lá chegando, a primeira providência: largar as malas no quarto e sair. Para onde? Exatamente, para caminhar na chuva! Chuva fria.

Senti-me livre ao enfrentar aquele aguaceiro todo – quem diz aguaceiro? –desmanchando o penteado clássico que havia feito pela manhã para viajar bem arrumada, que bonita não sei mais se consigo ficar, depois que minha neta me perguntou um dia vó, onde você estava? No cabelereiro, querida. Fazendo o que? Ah, tingindo o cabelo. Por quê? Para ficar mais bonita. E porque não ficou? Olhei para seu rostinho cândido e não percebi nenhum sarcasmo.

Andei pelos campos e retornei encharcada, toda desgrenhada, calçados enlameados, meias de nylon – usar meias de nylon numa fazenda?! Nem uma ET faria isso – mas voltei tão feliz, tão feliz como há muito tempo não me sentia. Até me atrevi a não correr para uma chuveirada quentinha. De novo, quem diz chuveirada? Virei dois cálices de cachaça da boa e permaneci na sacada da pousada, vendo o sol se por devagarinho, cedendo espaço para o macio e confortável escuro onde melhor se mostram as estrelas. Milhares delas!

Quem precisa de lareira para se secar? Ou de pantufas para esquentar os pés frios e cansados? O barulho dos grilos. O voejar dos vagalumes! Va-ga-lumes! O coaxar dos sapos, não aqueles que vivo engolindo, mas os de verdade, que vivem à beira dos rios, que portam casacas verdes, esperando pelas suas amadas tremendo de frio. Quis ser uma delas. Ter quem ainda me espere.

Falamos dos nossos amores. Das nossas paixões e dos nossos sonhos. Contamos nossos segredos. Rimos e bebemos muito. Precisei ser carregada à cama. Foi maravilhoso. Marilena com seu vozeirão e Claudinha com seu otimismo me reviveram. Que fazer terapia, que nada. Viaje com as amigas!

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

A boa-fé dos idosos

"Minha mãe não sai de cartomantes e centros que exploram sua ingenuidade. Tento explicar que ela está gastando dinheiro e esperanças fora, sem resultado. O que posso fazer?"

Berenice Andrade, Guarulhos (SP)

Cartomante
Cartomante, Vidente, boa-fé (Imagem: Pixabay)

Ana Fraiman

As pessoas precisam acreditar em alguma coisa, se não a vida fica sem sentido, umas creem em Deus, outras na ciência outras, ainda, fazem da arte sua religião ou têm um trabalho a que se dedicam com devoção. Em qualquer desses campos também podem ser exploradas.

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