Me libertei

Afinal, foi para isso que eu me liberei?

Tem dias (e quem não tem?) que a gente pensa em todas as tarefas da casa, da família e do trabalho e tem vontade de jogar tudo para o alto.

Dá um desânimo, uma vontade de voltar correndo para o colo da nossa mãe. É nesses dias que nos perguntamos: afinal, foi para isso que eu me liberei?

Afinal, foi para isso que eu me liberei

Assim que acordo percebo que estou de mau humor. Porque eu não acordo, sou acordada. Vilmente arrancada do meu sono profundo por dois despertadores e um rádio - relógio que jamais conseguem sincronizar os trim-pin-pin-trim e a voz escandalosa do locutor: “Bom dia, minha gente!” Eu aceno de levinho com a cabeça, para conferir se ela hoje vai doer logo cedo ou se vai demorar um pouco mais. Meu corpo pede por se espreguiçar na cama, enquanto eu já vou fazendo exercícios vigorosos para espantar o sono e erguer a coluna. Afinal, é mais um dia de trabalho, e eu a-do-ro trabalhar.

Meu pessoal dorme. Parece que sou só eu a ser contemplada pela disposição de enfrentar o dia. Isso me irrita, porque, além de trabalhadora, faço as vezes de despertador da família e ninguém reconhece isso. Ao contrário, eu chego de mansinha e sussurro: “Filha, está na hora” ... E ouço de volta: “Pô, mãe, precisa gritar desse jeito?” Mas quem é que grito? Tenho vontade de deixar todo mundo perder a hora, mas desconfio que isso não será nenhum castigo, ao contrário. Com toda justificativa do mundo, eles poderão ir para o clube e eu vou achar que estou criando uns delinquentes.

Decido que vou comprar uma buzina e “fonfonar” na cabeça deles, amanhã mesmo. Todos os oito despertadores tocam agora, inclusive o da empregada, e a reação que vejo é a de resmungos, ouvidos tapados pelos travesseiros, como se eu estivesse sendo inconveniente.

Não encontro o cafezinho pronto à minha espera. Morro de raiva e de inveja da minha “secretária do lar”, mas engulo tudo (porque preciso dela) e, gentilmente, bato à sua porta e escuto: “Ai, dona, perdi a hora, né? Não posso levantar. Passei uma noite horrível preocupada com os meus filhos, umas cólicas, estou com a boca amarga...” Respondo: “Espera aí que eu trago uma aspirina e um café”. Meu coração bate acelerado e a minha dor de cabeça matinal se instala.

Volto para o meu quarto tensa, imaginando como seria a minha vida num flat, já bem acordada pelo meu corpo. A família já está de pé e meu marido ocupou o banheiro! Quinze minutos se passaram e só tenho mais quinze para sair de casa. Procuro pela “roupa adequada”. Tenho dezenas de peças e raramente acerto vestir aquela que me dará o conforto necessário. É quase como acertar na loto. As demais... vivo passando frio ou calor. Como é que se vai saber o tempo que vai fazer?

A viagem no automóvel

Os escritórios deveriam ter um vestiário para a gente se trocar, tomar banho, se aliviar... Ai, meu Deus, enquanto vou pegando as peças, combinando brincos e sapatos, a dor de barriga aumenta. O tempo passou e eu só posso agora: ou caprichar no visual, ou deixar a lista das tarefas do dia e os cheques preenchidos para os fornecedores, ou tomar meu café da manhã, ou me trancar no banheiro e desejar que a fechadura se quebre e eu não possa sair de lá por dois dias, recebendo revistas e comida pela janelinha!

Os filhos já estão no carro, meu marido me dá as “instruções verbais” para o dia e a empregada começa a se coçar, me pedindo a tarde de folga, sei lá pra que. Eu dou tudo! Desde que ela não vá embora nessa fase. Afinal, como mulher, tenho que respeitar suas preocupações maternais e suas cólicas menstruais. Sorte dela que pode descansar enquanto eu tenho que marcar ponto e sorrir, sorrir sempre, mesmo que queira rosnar. O café dela ninguém controla. O meu é cronometrado. Só dois por dia, que é tempo de contenção de despesas na firma.

Enquanto vou colocando meu lanche, minhas pinturas, minha malha e guarda-chuva, tudo numa bolsa muito pesada, ouço as reclamações: “Mãe, cê tá atrasada”. “Querida, você precisa chamar a atenção da empregada que a camisa amarela está sem botão”. “Dona, pede pras crianças não trazerem amigos hoje, que não vai dar pra arrumar a sala e fazer almoço...” “Mãe, eu já combinei com eles que a gente vai fazer trabalho em grupo...”

Bendita dor de cabeça que não me deixa ouvir mais nada! Eu só faço que sim, e partimos. Vou comendo meu sanduíche e fazemos a maquilagem no espelhinho do carro. Entre uma brecada e outra cuido dos olhos e do batom. Tenho uma sensação íntima de ser super mulher. Afinal, este é apenas um dia comum. Mas, que diabo! Por que é que cada um não cuida das suas coisas?

Sinto vontade de voltar para a casa da minha mãe. Só que estou indo para uma reunião com os chefes da empresa, apresentar uma proposta revolucionária que beneficiará a todos nós. Sinto muito medo. Essa eu não posso perder. Dela dependem várias famílias. No “tchau-tchau”, um desce do carro aqui, outro ali, vou me aproximando do escritório. Um beijo no rosto do meu marido, que me diz com olhar grave e sério: “Temos que ter mais tempo para nós dois. Esta noite eu te procurei e você... nada! Sempre cansada...” De novo deixo de escutar e só respondo: “É. Depois a gente se fala, tá?” Um depois que nunca acontece, porque, quando não sou eu, é ele quem desaba, no meio da novela. Fim de semana? Ou vamos para a praia e ninguém quer falar de coisas sérias, ou tem filhos, sogros e amigos no meio. Nunca dá para parar. E quem é que quer parar?

A aflição no escritório

Agora começa o meu dia de trabalho remunerado. Foi por isso que eu tanto lutei. Respiro fundo e me concentro no serviço, não sem antes reparar que minhas unhas estão descascadas. Puxo a gaveta e pego a acetona. Afinal, serão vários pares de olhos focalizados em mim e tenho que fazer jus à imagem de uma mulher de sucesso. Detalhes bem cuidados ajudam a gente a se impor.  Já que temos que “falar grosso”, não podemos ter “ar de lavadeira”. Vejo com carinho essa minha primeira gaveta da escrivaninha. Aí guardo minhas perfumarias, agulha e linha, bilhetinhos, remédios, lembranças e uma série de coisinhas inúteis que atestam a minha futilidade. Imagino o que pode ter na primeira gaveta do meu chefe. Sempre achei que seriam documentos importantes... ou dólares. Tenha a ideia de que os homens são sempre homens são sempre racionais. Afinal, dificilmente têm crises histéricas que acontecem entre as mulheres. Uma porque está grávida sem querer, outra porque a mãe está doente. Daí ter sempre alguém com os olhos vermelhos de choro e o nariz fungando, se queixando de dores... e atrapalhando o nosso trabalho. Tenho o maior ódio quando me flagro sendo “boazinha” e desculpando os erros dessas mulheres que trazem a sua vida doméstica, particular, para dentro do escritório. E o faço por também ser mulher e ter dificuldade em “mandar”.

Ser autoritária em casa é uma coisa. Isso eu tiro de letra. (Tiro de letra nada, tirava quando estava lá...) Mas no trabalho? Já me disseram que eu pareço um homem de saias. Poucas coisas me magoaram tanto. Quando um superior meu é compreensivo, eu penso: “Que beleza de homem, quanta humanidade!”. Eu mesma tenho dúvidas sobre quando estou sendo “entreguista”. Beleza de educação essa em que menino não chora e menina não pode brigar! Está tudo na minha cabeça hoje. Só que, a cada vez que me pego brigando, impondo, tenho medo de ser rejeitada: ou é porque estou “masculinizando”, ou é porque estou “naqueles dias” e não consigo me controlar. Que sufoco!

Raramente eu vejo um homem desabafando. E, quando o faz, é com muito pudor. Se nervosos no ambiente de trabalho, quando muito, ficam é mais autoritários, calados, distantes, esbravejantes. Nós, mulheres, não. Parece que vivemos num eterno galinheiro, com mil fofocas, ti-ti-tis. Não que isso não nos alivie também. É bom poder chorar em público. Além do que, é uma boa arma para se usar quando a gente não sabe o que fazer...

Ao cair da tarde

Apresentei meu trabalho e saí da reunião com ares de pombamor: peito estufado, exultante. Não sentia mais nem a dor nos pés apoiados precariamente num salto sete e meio. Lembrei do meu primeiro namorado, de quando estudávamos química e ele disse: “Puxa, você tem cabeça de homem!” Foi o máximo que ele conseguiu para me elogiar. Senti que havia algo de errado naquilo, mas deixei pra lá. Eu mesma achava que mulher muito inteligente e homem muito bonito eram desperdícios da natureza...

Percebi estar sendo cumprimentada, admirada, invejada. Senti orgulho e muito medo. Sempre medo! Como estaria minha aparência: despenteada, com a pele oleosa? Nos filmes, as executivas terminam essas reuniões com cara de quem está indo a uma festa. Eu tenho a péssima mania de passar a mão nos cabelos, borrar a maquilagem, tirar os brincos... Fico exatamente como o meu marido, que chega em casa desalinho, com a gravata no bolso, os punhos dobrados. Ah, meu Deus, falta um contra-regra na minha vida!

Me chamou atenção ter recebido tapinhas nas costas. Que coisa mais inócua! E se, ao invés disso, meu chefe tivesse alisado meus ombros?! Quero fugir dali e voltar para o aconchego do meu lar. Mas antes devo passar pelo supermercado, batalhar um táxi, telefonar para saber da minha mãe que foi ao cardiologista, comprar presente para a namorada do meu filho, cancelar de novo a visita de um casal de amigos, escrever uma carta. Meu Deus! E jantar? O pessoal já está entupido de pizzas e hamburguês. Hoje será uma sopa pronta e omelete. Dane-se... ninguém está desnutrido. Mas que dói, dói. Quando sentamos á mesa e eles debocham: “Mãe, esta casa está uma fartura. Farta tudo”. Eu me sinto a mais incompetente da donas-de-casa. Logo eu que me dizia: “Nem que eu ganhe só para pagar uma empregada, em casa eu não fico!”. Agora vejo que não é muito mais do que isso o que eu ganho, pois tudo me sai mais caro: desde os táxis (pois vivo atrasada), as compras de roupas (pois não tenho tempo de procurar), até os 20 a 30% a mais nas despesas da casa!

Na hora de dormir

Fico magoada ao me olhar no espelho. Eu vivia reclamando que meu marido se arrumava mais para estar com os outros que comigo. Em casa era barba crescida, chinelo, roupa amassada e um humor de cão. Resmungos alternados com silêncios de quem não tem energia para pensar, quanto mais para dialogar. Eu o recebia alegrinha: “Me conta como foi o seu dia”. E ele, nada. Eu achava que ele não queria saber de mim. Ledo engano. Imagina se ele estaria a fim de continuar remoendo as tensões do trabalho? Eu ficava esperando que ele tomasse qualquer iniciativa diferente de desabar na poltrona. Quando ressentimento inútil...

Agora eu faço a mesma coisa. E vejo com outros olhos, com mais carinho, esse homem guerreiro que até aprendeu a usar o meu salário sem se sentir humilhado. Vou pensando que continua a haver algo de errado comigo. E começo a saber o que é: preciso aprimorar meu balanço entre dar e receber, me fazer um eu no social.

Para que eu me liberei

Encarando meu rosto cansado, sem viço, sentindo-me feia e pouco atraente neste momento, começo a entender um pouco mais da vida e de mim mesma. Tenho noção do amor e de que casamento é compromisso profundo e prolongado, um contrato de mutualidade e respeito pelo que se é, pelo que o outro também pode ser. Que maternidade é tarefa de renúncia e exercícios de limites, em que todos crescem e aprendem continuamente.

Que não é possível querer mudar sem mexer em nada, fazer de conta que ainda se é a mesma, embora a situação seja outra. Que o trabalho não facilita tudo. Talvez até complique. Que trabalhando eu não fujo dos problemas, mas tenho oportunidades diferentes para resolver o mesmo problemão central: o quanto eu gostaria de ser ideal e não sou! E me liberar é ser quem eu sou!

Daí fica possível conciliar se mãe-esposa-dona-de-casa-trabalhadora: não como mulher ideal, mas como alguém que, corajosamente, amplia seu espaço de ação e participação! E eu, que também gosto de reclamar, afirmo já: “Quero poder me queixar de tudo, mas de tédio não”.

Afinal, foi para isso que me liberei!

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Magia no salão de beleza

Magia no salão de beleza

Eu fazia as unhas apenas para matar o tempo e acabei emocionada com a pureza do encontro da cabeleireira com uma menina de rua.

Magia no salão de beleza

"Era um daqueles salões de cabeleireiro em que a gente se arrepende de entrar. Todo grudento, mal cuidado, espelhos descascados, assentos furados e descosturados… E, por azar do destino, eu lá, meio que paralisada, sem entender porque continuo deixando a moça picotar minha cutícula mesmo morrendo de medo de contrair uma infecção. Pela boa educação? Calor excessivo? Talvez a solidão, numa cidade estranha, de passagem para pegar um avião dali a intermináveis cinco horas, sem nada para fazer, nem ninguém interessante para visitar.

Eu não havia reparado na moça, a não ser quando ela veio de volta da rua, segurando pelas mãos uma menina, de seus 7 anos. Ela tinha uma idade indefinível, entre 40 e 50 anos e um tipo vulgar. Avental branco manchado por tinturas, botões estourados na barriga, cabelos descoloridos. Faltava um dente, e os outros salvavam sobre seus lábios carnudos. Tinha pela parda e um vozeirão.

- Eu não disse que ia te trazer um sapatinho hoje?

A criança tímida assentiu.

- Fui buscar ela do outro lado da rua. Quase não achava. Vem cá, querida, vem lavar os pezinhos para experimentar.

Pegou a menina suja e franzina, sentada na borda do lavatório, e começou a limpá-la. Penteou seus cabelos. Pôs fitinhas. Lavou-lhes as mãozinhas, braços finos, pés e pernas. Tocava-a com tal cuidado e desvelo, falava-lhe tão suave e amorosa que pasmei. Enquanto cuidava da pequena, a morena foi se transformando, foi ficando bela, sublime, enorme de grande.

Enxugou os dedinhos um a um, passando a toalha e depois talco, finalizando com suaves beijinhos nos pezinhos, tão profundamente penetrantes que comecei a soluçar, perante tal encantamento. Meus olhos secos e arregalados não resistiram àquela bolha iluminada que emanava das duas.

- Beija aqui também. Agora esse outro dedinho, senão ele fica com ciúme. Pedia a menina, que arrulhava de satisfação. A pequena foi tomando ares de majestade, tornou-se uma verdadeira senhora, cheia de dignidade em sua presença infantil, soberba em sua confiança. Já ria alto, com pose de segurança. Sorria, como se sempre tivesse sido assim.

- Pronto, agora você pode experimentar. Eu trouxe dois, uma sandália e um tênis. Vê, qual você quer?

Sua hesitação devolveu-lhe o pequeno tamanho de sua pouca idade. Seu olhar tornou-se temeroso e furtivo.

- Ah! Você quer os dois, não quer? Então por que você não fala? Tome, leve o tênis com você e vai de sandália. Corre. Pode ficar com eles, ou então dá para um irmãozinho.

Os olhinhos da menina se arregalaram e brilharam de alegria e surpresa. Seu ar não era de gratidão, mas de novo, de realeza. A mulher invulgar fitou-a, serena. Deu um suspiro e recomeçou a eterna faxina no salão. A magia sossegou.

Chorei pra dentro copiosamente. Meu corpo todo tremia. Nunca mais vou esquecê-las. Minha maior vontade era encontrar essa menina hoje e perguntar-lhe: Ei, aquilo mudou alguma coisa na sua vida? Não sei se está viva ou morta, se continua na rua ou foi para a escola. Não sei onde ela está. Queira saber se o amor a salvou. E queria dizer àquela cabeleireira o quanto ela me ajudou.”

Depoimento de Ana Perwin Fraiman de São Paulo, SP. MAIO, 95, CLAUDIA.

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Feliz dia das Mães

Feliz dia das Mães

Já vencemos o tempo de discutir se o amor materno é inato ou aprendido.

Feliz dia das Mães

E, já penetramos o espaço-tempo de considerar que há mulheres que simplesmente dão à luz por puro instinto e outras que os trazem ao mundo para entregá-los à Luz que eleva suas consciências. Filhos do próprio ventre e filhos de puro amor.

Uma aloja em seu ventre um filho de outra mulher e crianças falam com naturalidade sobre suas muitas mães. Há filhos que dizem ter tido por mãe sua irmã mais velha ou sua avó e, quando o fazem, mesmo que 50 anos depois, seus olhos brilham de gratidão, porque se referem àquela que cumpriu fielmente com o que significa ser Mãe.

Alcançar o status de Mãe nos remete ao que essa palavra contém em si na sua origem: ser forte e paciente como a água, ter um fluxo permanente e renovador, buscar naturalmente outros caminhos nas grandes dificuldades, porém jamais desistir, seja o tamanho do obstáculo a superar.

Ser Mãe também significa aquecer o corpo e o coração daqueles que dela se aproximam.

Não sossegar, enquanto seus queridos não estão bem. É cuidar do próximo com doçura e com austeridade. Dizer sim e não com convicção, porque se investe de real autoridade, cujo propósito é a união.

Doces e preciosos momentos em que, apesar das grandes diferenças e divergências entre cada filho e cada neto, sentam-se todos ao redor de uma mesa, se não farta de boa comida, farta de amor e de fé. As Mães insistem em ter seus filhos reunidos, porque ela cumpre com uma função fundamental: é o traço de união, o agente organizador da unidade familiar. É a ‘cola’ que mantém todos em contato, mesmo quando as relações estão estremecidas.

Nem todas conseguem se sair bem ao longo do caminho.

Há mulheres más e negligentes. Há quem seja egoísta e se mostre ausente. Há mães que espancam e mães que matam. São pessoas infelizes e atormentadas. Nem todas conseguem unir a família, muito pelo contrário. Pode-se, no entanto, educá-las e tentar orientá-las ao que lhes compete realizar. A educação é primordial e traz resultados muito melhores do que a prisão.

Há, porém, uma espécie de mãe extremamente egoísta e possessiva, à qual não confiro um M maiúsculo, porque esse tipo de mulher age com pobreza de espírito, sem ética e, emocionalmente, assume atitudes pequenas. É aquela que toma posse de seus filhos e lhes nega um Pai. Essa mulher distorce os fatos, não permite que as crianças se aproximem dele, usa-as como moedas de troca, por meio de manobras que plantam na cabeça dos menores toda a sua própria raiva e negatividade.

Mulheres que agem assim ainda não cresceram e, portanto, não sabem exercer com critério sua autoridade, nem sua responsabilidade. Afetam, negativamente, a autoestima das crianças que, inocentes, se submetem ao rancor e à destrutividade de suas mães, que sentem prazer em atacar o Pai. Isso tem um nome na esfera da Lei: alienação parental.

Neste Dia das Mães eu gostaria de dizer palavras de amor, tão somente. De reconhecer em público o valor e o amor de minha própria Mãe. E aqui o faço. Quereria poder deixar de mencionar as injustiças e os ataques que muitas mães fazem contra seus filhos, mas não consigo. Não quero me limitar, na verdade.

Por isso peço, encarecidamente, a todas as mulheres que façam um exame de consciência: não falem mal do Pai deles para seus filhos. Não os tornem seus confidentes. Não os puxem para o seu lado por medo de perdê-los. Isso só vai ferir a vocês ainda mais, agora e mais tarde. E, também, não falem mal de um irmão para o outro, não os comparem, quando lhes convém.

Agindo assim, você não vai motivá-los a obedecer mais, a estudar mais, a se comportar melhor. Esse tipo de atitude é altamente destrutiva e leva, crianças, jovens, adolescentes, homens e mulheres feitos, a perderem a confiança no Amor. Comparar uma criança a outra, ainda que não seja essa a sua intenção, só tem por efeito humilhá-la. Dizem os sábios que humilhar uma pessoa adulta equivale a ferir de morte a sua alma.

Imaginem, então, como se sentem as crianças quando são humilhadas por suas próprias Mães e Pais, ao usarem de ironia e desdém para consigo, afirmando que a criança, tal como tem sido, não merecem seu apreço. Crianças que não são aceitas por aqueles de que tanto dependem, sentem-se ameaçadas de perderem sua segurança. Não confundam quem as crianças são com aquilo que elas fazem.

Deixe as desavenças, as decepções, a braveza de lado. Não faça manha, Mamãe. Cumprimente a sua própria Mãe, a sua sogra, as vovós. Seja um traço de União Familiar. E, viva seu Dia das Mães com amor e gratidão no seu coração: ao unir sua família e, unir-se a todos eles, também, você estará exercendo a sua função primordial!

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
O que é consciência?

Seja justo, ponha a mão na consciência

O que quer dizer “por a mão na consciência”? O que é consciência? Do que é feita a consciência, sua substância? É algo real, concreto, que se possa tocar com as mãos...??

*Por Ana Fraiman

O que é consciência?
(Imagem: Pixabay | O que é consciência?)

Podemos dizer que a consciência é feita de experiência. De muitas experiências sobre as quais se reflete e se tece um significado, uma aprendizagem. Ainda que intangível é palpável, pelo tato profundo da sensibilidade.

Não se trata de uma aprendizagem horizontal, em que se acresce mais um dado àqueles já sabidos, uma variação que enriquece o conhecimento a respeito de alguma coisa, mas não muda a nossa percepção sobre a coisa.

Trata-se de uma aprendizagem vertical, em profundidade, que transforma a visão que temos: da coisa, de nós mesmos e nossas capacidades e da nossa relação com a coisa.

Algumas experiências são repetitivas e nada acrescentam àquilo que já sabemos, nada acrescem à consciência. Outras, são transformadoras e atingem os nossos saberes mais profundos, fazendo com que a nossa visão se amplie e que a nossa consciência se ilumine. São experiências reveladoras, possíveis somente porque a elas se aplicou a capacidade de reflexão, que propicia o autoconhecimento.

Então, a consciência ganha corpo conforme refletimos sobre nossas experiências vividas e concretamente aprendidas pelos nossos sentidos, até um ponto em que, já pela força e luz adquiridas neste processo de evolução, começamos a poder dispensar a experiência concreta e nos basear na experiência simbolizada. Esta, tão real quanto aquela.

Em outras palavras, se num primeiro momento evolutivo precisamos da experiência sentida na própria pele, num segundo momento, a partir da sua própria força, a consciência se expande e evolui tendo por base experiências refletidas e/ou intuídas.

Neste momento e só neste momento é que nos tornamos habilitados a adentrar o universo da compaixão, verdadeiro sentimento e escopo da consciência social. Mas, vamos por partes.

Num primeiro nível é preciso viver, em profundidade, nossos laços de dependência.

É como se falássemos de um primeiro patamar da consciência, que se funda na experiência de sermos frágeis e necessitados, dependentes dos cuidados de outrem.

Na infância este é o nosso estado natural de ser, física-psicológica e socialmente falando e, é aqui que vivenciamos a profunda necessidade de sermos nutridos, cuidados e orientados.

Enxergamos o mundo pelos olhos de nossa mãe e desenvolvemos nossa auto-estima segundo ela nos toca. Com meiguice e firmeza, experiências necessárias para nos dar as bases para nos sentir aceitos e queridos,  para que saibamos e arrisquemos confiar.

Neste primeiro patamar da nossa consciência a nossa dependência e fragilidade nos conduzem diretamente à aprendizagem da aceitação pelo outro e confiança no outro.

No segundo nível é preciso viver a experiência de explorar o ambiente, possuir e trocar. É o triunfo da conquista e da aprendizagem do movimento de ter e reter ou perder e entregar. Sem saber o que nos pertence, ou não, vamos testando o mundo e formando a ideia de que, aquilo que está à nossa volta nos pertence e que, se quisermos conservar, precisamos aprender a defender as nossas posses e dominar nossos impulsos.

É o tempo de tomar consciência sobre aquilo que nos pertence por direito e aqui, praticamente, tudo passa a ser de nosso direito. Sobre quase tudo,  também, passamos a sentir obrigações.

Consciência da Responsabilidade

Trata-se da consciência da responsabilidade baseada no sentimento de posse e domínio e, na percepção daquilo que é pessoal e/ou coletivo. Para isso a linguagem nos fornece os pronomes e advérbios de posse: meu, teu, deles ou nossos.

Estabelece-se a noção do “comum a todos” e se instala a nossa obrigação para com o bem conquistado ou recebido.

No terceiro nível nos sentimos impelidos a assumir maiores responsabilidades, agora não sobre coisas e tarefas, mas sobre pessoas e, passamos a desejar ter nossos próprios filhos.

Sentimo-nos seguros de nós mesmos, o suficiente para acreditar que daremos conta de fazer grandes sacrifícios pessoais e sentirmo-nos felizes e enaltecidos com isso.

Há os que geram seus próprios filhos. Há os que desenvolvem trabalhos e ações que haverão de influir na vida alheia.

Aqui observamos o fascínio que a liderança exerce, na medida em que o “status” de líder nos confere todo o prestígio e o poder de exercer a influência a que tanto aspiramos. Na forma ativa, como condutores do processo. Na forma passiva, como seguidores leais de uma liderança forte com que nos identificamos.

Competindo aberta, ou veladamente, com os nossos pais, buscamos, através do exercício da “maternagem” ou “paternagem”, corrigir e aperfeiçoar aquilo que acreditamos estar errado conosco e em nossa educação.

Filhos e família formam, então, um excelente palco para a aprendizagem da consciência da autoridade e do poder de mando e influência, bem como para os primeiros ensaios de aprender a amar com desvelo e total dedicação.

Consciência da Autoridade e do Poder

É com a experiência de fazer filhos de carne e osso ou através do trabalho, que desenvolvemos a consciência de que alguém mais tem tanto valor quanto nós mesmos e passamos a prestar atenção nesse outro, por quem – se necessário – daríamos a nossa própria vida, com sentimento de honra por fazê-lo, transformando o sacrifício pessoal em sacro-ofício.

Fica claro, então, que são os nossos filhos que, moralmente, nos ajudam a construir a consciência do valor alheio e a nossa vida se preenche de maiores e mais profundos significados.

Consciência Social

Contudo, não é neste patamar que a nossa consciência social já está construída. Aqui ainda temos a impressão de que nossos familiares nos pertencem e que, estando bem conosco, as coisas que não estão bem com outros não nos incomodam mais do que racionalmente seria de se esperar.

Podemos dizer boas palavras, palavras consoladoras, fazer discursos e escrever livros inspiradores, mas a nossa ligação básica é para com os “nossos”, pouco importando como os outros vivem, se para nós as coisas estiverem bem.

Neste patamar o risco é de, em vez de evoluir, estacionar e nutrir sentimentos de pena e culpa e perpetuar a pobreza psico-espiritual em que temos pena dos menos favorecidos e culpa de ser bem nascido, de ser privilegiado ou não fazer aquilo que é esperado.

Se participarmos de ações sociais, neste patamar iremos adotar um grupo qualquer como propriedade nossa ( “meus velhinhos”, “minhas crianças”, “os doentes que dependem só de mim” ) e ter uma falsa noção do que é caridade: “tirar dos ricos para dar  aos pobres e necessitados”, “sentir pena dos outros” e “sofrer com eles” , “não dormir direito por causa dos problemas a serem enfrentados”, ser infeliz e “revoltado com este mundo em que se vive”. Da mesma forma, ingenuamente, acreditar que, “se formos bonzinhos, seremos poupados”.

Neste nível de consciência ainda somos movidos por prêmios e castigos, atuando facilmente como sedutores e sendo manipulados. As relações refletem o movimento de uma gangorra, em que hora estão uns por cima e noutra por baixo.

É o nível das desigualdades, onde se aprende, basicamente, o apego e desapego do poder.

No quarto nível, que é o intuitivo, a consciência agrega o senso estético, aprende a enxergar além das convenções e ver o feio no bonito e o bonito no feio.

Consciência Intuitiva

A consciência intuitiva opera no mundo das artes, com liberdade para criar e antecipar mudanças, sem preocupação de acertar ou agradar. Transpõe barreiras de culturas e sistemas de pensamento.

É aqui, na verdade, que a cultura se expressa e se recria, pois a arte é simbólica e afetiva por natureza.

A consciência intuitiva se apóia num juízo estético que expressa um profundo sentimento de satisfação, universalmente válido, o que significa que é – igualmente – universalmente comunicável e livre dos determinismos, preconceitos e condições particulares que separam povos, mundos e nações.

Neste patamar estético, a pessoa vive a liberdade, sua e alheia, das coerções comuns que travam o fluxo de suas faculdades mentais.

É onde o ser humano aprende a se comunicar e a descobrir o que tem em comum com os demais seres e com a própria natureza. São as bases da diferenciação, não só entre o agradável e o belo, mas entre o público e o privado.

O privado da sensação particular, incomunicável de pessoa a pessoa e o público da discussão das sensibilidades e o respeito dos gostos. O público de uma comunidade de gostos que existe, enquanto se busca e se afina, enquanto se cultivam as divergências partilhadas.

Consciência Estética

A consciência estética, conforme evolui, é o cerne a partir do qual nasce a arte de se fazer política, pois não há política sem o conflito e a certeza de ser possível dialogar sobre aquilo que diverge e, exatamente, por isso é tão valioso e apreciável.

Fazer arte e criticá-la é o primeiro exercício  de participação política que empreendemos, espontaneamente, ainda na infância. Sem a dimensão estética, podemos afirmar que não evolui a própria ética.

Consciência Comunal

Conquistamos, pela arte, o quinto nível da evolução da consciência, que é o patamar da consciência comunal. Aqui não basta que esteja bom “para mim e para os meus”. Não basta que possamos compartilhar nossas experiências com os que se comunicam em busca de um acordo dialogado.

Há que se desenvolver o senso de pertença à comunidade humana como um todo, de fazermos parte da multidão.

Se, no patamar anterior a consciência, através das faculdades da imaginação, nos remete à liberdade sem fronteiras e ao nosso engrandecimento sem tamanho, perceber-se como parte ínfima da multidão requer o exercício dos aspectos mais elevados dos valores morais, porque a noção da pequenez particular é excepcionalmente ameaçadora e dolorosa para o ego pessoal.

Consideradas em separado, as pessoas que compõem a multidão são sem valor. As virtudes individuais não são e jamais serão suficientes para vencer o mundo de desafios à integridade da humanidade que é, simultaneamente, orientada para a paz e para a guerra, para a criação e para a destruição, para o sublime e para a degradação.

E, que virtudes são estas?

De acordo com André Comte – Sponville, citando Spinoza:

“é melhor ensinar as virtudes, do que condenar os vícios”.

Não se trata de dar lição de moral, mas de:

“ajudar cada um a se tornar seu próprio mestre, como convém. E seu único juiz. Com que objetivo? Para nos tornarmos mais humanos, mais doces e mais fortes”.

“Virtudes são nossos valores morais encarnados”.  São o poder, por exigência e excelência e, ainda que da esfera do intelecto, são expressões concretas, objetivamente vividas e percebidas, voluntariamente escolhidas e desenvolvidas mediante muita disciplina.

Não é possível ser livre sem desenvolver as próprias virtudes, através do fazer para aprender e do aprender a fazer. Trata-se de um trabalho árduo, pois nenhuma virtude é natural. É preciso que a pessoa torne-se virtuosa, o que só aparentemente é simples e fácil.

De início é preciso “imitar as maneiras das virtudes”, simulando-as e praticando-as, ainda que à contra gosto e, mesmo, não sabendo do seu significado. Somente depois de muita prática e rigor, pelo exemplo, ensino e orientação das famílias e nas famílias e escolas é que as virtudes tornam-se suficientemente atraentes, a ponto de motivar a nossa evolução.

Deste modo, primeiro os pais cuidam dos filhos e depois aprendem com a nova geração. Não é possível, portanto, aprender a ser um grande cidadão, se não soubermos o que significa: estabelecer laços de dependência, o reconhecimento e a defesa do território e posse, o valor sagrado da família, as necessidades de cuidar muito bem de tudo isso e as calamidades que advêm das negligências individuais.

Individualmente, porém, não conseguimos sustentar direitos, nem os naturais, nem os conquistados. Nenhum trabalho, por mais virtuoso que seja, é suficientemente bom e permanente, se não for integrado e internalizado pelas diferentes gerações, se não for aceito e apreciado pela multidão.

Aqui aprendemos que, é só na experiência da coletividade que cada fração de virtude, bem como de sabedoria prática, são todas agregadas e delas nos beneficiamos.

“No corpo da multidão são reunidos os maiores e mais sábios juízos, que nenhum de nós é capaz de desenvolver, quaisquer sejam as nossas elevadas faculdades morais e intelectuais”. Daí a veracidade dos que sustentam que “a voz do povo é a voz de D’us”, pois que a busca da perfeição se encontra no todo, na congregação.

Tornamo-nos, então, cidadãos, não somente por deveres e direitos, que os temos desde que nascemos até a nossa morte. Quer saibamos disto, ou não, a cidadania nos é garantida pelas leis, pela Constituição. Mas isto não basta. É preciso que nos tornemos cidadãos conscientes.

Consciência Religiosa

Neste quinto nível, mesmo num ateu, observa-se um viver religioso, norteado por convicções políticas democráticas e por princípios e ideais de liberdade. Enquanto o cidadão consciente vive segundo as leis dos homens, no próximo patamar, que é o sexto nível, a consciência religiosa agrega à cidadania consciente, a experiência de temer e obedecer.

Segundo Rabi Donim, o homem religioso faz quatro tipos de prece: a prece do pedido, a prece do agradecimento, o louvor e a introspecção ou confissão. Seja qual for, porém, “toda prece está destinada a ajudar-nos a convertermo-nos em seres humanos melhores”.

Enquanto no patamar anterior o homem que crê ainda busca rezar segundo os textos e escrituras milenares, neste novo patamar ele faz preces espontâneas, o que não é nada fácil, pois todos nos angustiamos com “o que dizer” e “como dizê-lo”.

Se antes acreditávamos que “o sentimento do outro pode suprir a nossa parte, agora compreendemos que toda pessoa tem os mesmos direitos e as mesmas obrigações de dirigir-se a D’us, e que fazê-lo diretamente pode resultar ser mais significativo do que fazê-lo através de representantes ou intercessores”.

Este patamar da consciência religiosa é, também, entendido como transcendental, pois tudo, “desde as mais simples necessidades materiais até as mais elevadas aspirações espirituais, transcende ao homem e chega ao infinito”.

Ao fazermos uma prece, buscamos a conexão com aquilo que a nossa consciência vigil não consegue abarcar e com Aquele que não podemos nominar. Para aqueles que ainda não rezam espontaneamente, a “estruturação de uma prece é destinada a expressar valores fundamentais: mútua responsabilidade e preocupação”, como os votos matrimoniais e os juramentos profissionais, bem como a sua ética.

São feitos declarações de comprometimento pessoal, que envolvem, tanto o assistir às necessidades alheias e os cultos que os demais professam, como participar, com envolvimento, das ações que dizem respeito ao coletivo.

É a intersecção daquilo que é público com aquilo que é privado. Aqui cabem os sentimentos puros de pudor ou de culpa real, sempre que o pessoal e o coletivo desrespeitarem as fronteiras, o que é promíscuo.

A promiscuidade é, então, entendida como ausência nefasta de limites precisos entre o público e o privado, entre aquilo que é puro e íntimo e o que é compartilhado sem pureza e sem cuidados.

Consciência Moral e Ética

Em termos práticos e voluntários, no entanto, os resultados conquistados pelas ações provocadas pelas necessidades da consciência moral e ética mais elevada, e os resultados conquistados pela virtude religiosa, são exatamente os mesmos.

A consciência pura e plena da cidadania  evolui a partir de um proceder baseado em valores morais, quando a ação é ditada pelo prazer em servir ao outro e sentimo-nos satisfeitos conosco por isso.

Baseado em valores éticos, de caráter, quando a ação é ditada pela responsabilidade a que somos chamados a obedecer e sentimo-nos realizados com isso.

Este proceder consciente evolui, ainda, baseado em valores religiosos quando a ação torna-se, ela própria, a nossa forma de expressar louvor e gratidão, sem maiores distinções entre “aquilo que é de cada homem e aquilo que acontece entre todos os homens”.

Aqui sabemos que, cada homem, independente de seus erros e acertos, de suas limitações ou brilhante genialidade, de suas ações perversas ou sua bondade, cada homem faz o que neste seu momento lhe é dado fazer de melhor.

A equidade e a compaixão nos permitem enxergar a profunda diferença entre a pessoa que erra e o seu erro, entre a pessoa que acerta e o seu sucesso, libertando-as do fardo das experiências de até então, aceitando-as como seres humanos livres para voltar a errar ou  acertar, pessoas que têm seus direitos e a quem devemos cobrar obrigações.

É a consciência do valor de cada ser humano que, enquanto ser em evolução, busca tornar-se exatamente isso, humano.  Ou entendemos, vez por todas, que todos temos valor ou ninguém de nós tem valor.

Essa é a consciência plena da cidadania: quando nossa consciência está ao alcance das nossas mãos, um modo de ser e de agir tão evoluído, puro e simples, em nossos gestos mais banais no cotidiano, que nem nos apercebemos disso.

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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Canivez, Patrice – “Educar o Cidadão ?” Ensaio e Textos, Papirus Editora.

Comte-Sponville, André – “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, Editora Martins Fontes.

SIDUR da Semana, tradução de  por Jairo Fridlin, de trechos do livro de orações e o culto na Sinagoga “Rezar como Judeu”, do Rabi Hayim Halevy Donim.

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Trabalho na Adolescência

Falar sobre trabalho e emprego em plana adolescência não é cedo demais?

Os jovens não estão tendo sua juventude roubada pela pressa dos pais? Quando se deveria iniciar esse processo?

*Por Leo Fraiman

Trabalho na Adolescência

Os jovens se sentem muito agradecidos quando têm alguém que fale a eles sobre como conseguir seu espaço no mundo. Muitos já começam a trabalhar durante a faculdade ou mesmo durante o ensino médio, seja em um trabalho voluntário, na animação de festas infantis ou como vendedores de fim de ano em uma loja de roupas.

Se a preparação para a entrada no mercado de trabalho for feita aos poucos, com cursos de capacitação condizentes com a idade escolar e com as possibilidades de cada aluno, a passagem da adolescência para a vida adulta pode ser feita de modo mais seguro e suave.

Em muitas empresas, no processo de seleção para um estágio, a primeira linha que se olha no currículo é a de cursos extracurriculares.

Os pais e os educadores devem ajudar os jovens a refletirem como um todo: nos aspectos cognitivos, sociais, comportamentais e emocionais. Tudo conta.

Quando se concorre a um estágio, diversos aspectos são relevantes e muitos deles não se formam de um dia para o outro, ao contrário, se a formação for feita ao longo de anos, pode ser muito melhor implantada. A partir do 9º ano do ensino fundamental, muitos jovens já conseguem perceber a importância de se preparem para o futuro, com trabalhos temporários, cursos de formação diversos, línguas e outras atividades. Em outros países, o trabalho nas férias também já é bastante comum.

*Referência: FRAIMAN, Leo. Projeto de Vida: 100 dúvidas. 1ª edição. São Paulo: Editora Esfera, 2013. [saiba+]

 

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Dar lugar para os mais jovehs

Realização e Satisfação. Dar lugar para os mais jovens?

Há pessoas que confundem satisfação com realização pessoal. Relutam em se dizer realizadas porque sempre há algo por fazer.

Dar lugar para os mais jovehs

E, de fato, nos sentimos mais animados quando há um projeto pela frente. Por melhor que tenha sido nosso desempenho e até porque somos capazes e inteligentes, logo queremos mais.

A realização é a concretização de sonhos e a satisfação é o preenchimento da necessidade de auto-reconhecimento. Se não ocorre uma ou outra, a pessoa não se apropria de seus feitos, fica vazia, como que desprovida de seus méritos e valores. Só vê o que ainda não conseguiu. Não percebe riqueza nas experiências das quais participa, das oportunidades que a sua busca desencadeia. A chave para sair desse poço fundo e escuro é um processo de longo termo, que não diz respeito somente à própria pessoa, mas aos esforços que ela faz para ajudar os outros. É por isso que nos sentimos realizado quado nossos filhos se formam, se casam… Porque nosso sonho era o de fazer alguém feliz, vencer na vida! O mesmo quando olhamos em torno, em nossa empresa, quanto trabalho geramos a tanta gente. É nossa contribuição ao bem-estar coletivo.

A grande diferença entre realização profissional e satisfação é que a realização diz respeito ao cumprimento de propósitos e a satisfação à conquista de metas e objetivos.

A grande diferença entre realização e satisfação é que a realização diz respeito ao cumprimento de propósitos e a satisfação à conquista de metas e objetivos. Os propósitos se expressam melhor na atitude de servir, de ajudar o outro a conseguir sucesso. As metas e objetivos se expressam na atitude de buscar algo para si. Não devemos, porém, imaginar que uma atitude é melhor que outra. Há contextos onde se deseja, ou se aplica, uma coisa ou outra. Até porque não se chega à realização sem provar da satisfação. Quando fracassamos num objetivo é frustrante. Mas quando perdemos a noção da finalidade começamos a achar que viver é muito difícil! Facilita quando, além de nós mesmos, encontramos razões excelentes para prosseguir. Por exemplo, pelos outros!

Na maturidade, quando os filhos crescem, a família se transforma, os pais vão embora, o corpo reclama por mais cuidados e o trabalho… Ah! Quando o trabalho muitas vezes nos é arrancado das mãos, ou temos que começar tudo de novo, a revisão das metas e dos propósitos de vida é essencial.

Como meta, pensar na aposentadoria. Seguro-saúde, equilíbrio financeiro, ocupação pessoal através de um novo trabalho, ou de lazer, buscar meios de obter mais satisfação. Como finalidade ou propósito, preparar-se para crescer. Uma jornada diferenciada, menos afoita, mais justa e cooperativa, menos rígida ou exclusivista, sem tanto estresse.

É aqui que aprendemos que “dar espaço aos mais jovens” não é perder terreno, sair da linha, mas assumir a atitude desprendida de ajudá-lo a seguir carreira, a alçar voo. Instruí-los na arte de uma profissão, confiar neles. Repassar o conhecimento adquirido, treiná-los e apoiá-los em suas próprias experiências, na constituição de suas novas famílias.

Isso é realização, grandeza de caráter. É não parar, mas ajudar a prosseguir. Não simplesmente ceder, mas tratar de continuar, buscar se realizar. Agora de maneira diferente, mais experiência.
“A realização é um processo de longo termo, que não diz respeito somente à própria pessoa, mas aos esforços que ela faz para ajudar os outros.”

Drª Ana Fraiman
Revista PHARMACIA – Maio 1996

Contatos: 11 3813-5311 | 9.9391-3236 | ana@fraiman.com.br

É Difícil, Demorado, Custa Caro e Dói.

Minha memória está falhando. Minha cabeça já não é mais tão ágil como antigamente. Gostava de ler. Ficava lá, sentado numa poltrona ou numa rede à sombra por horas. Em tardes de domingo e noites de insônia devorava bons livros.

Idoso Triste

Já não consigo mais dormir pouco e acordar disposto. Problemas que antes me desafiavam agora se tornaram fonte de aborrecimentos diários. Quando minha secretária chega para despacharmos dá vontade de gritar com ela e sair correndo.

Noutro dia me percebi chorando à toa, sem nem saber por que. Foi algo que alguém apontou, no nosso balanço, que me desestabilizou. O que eu levava como meras opiniões de caráter genérico agora eu as tomo por afronta pessoal.

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Broche para casamento

Já que ela é uma hipócrita, também posso ser.

Eu assumo. Não gosto da moça que meu filho escolheu. Muito tosca. Não sei o que ele viu nela. Só imagino. Cara de safada.

Broche para casamento

Os homens só querem isso. Deve ter lá, suas qualidades, mas que eu não vejo, não vejo. Os modos dela – sabe - não estão à altura dos nossos amigos. Não que eu aceitasse somente uma grande herdeira, mas uma mulher de projeção, bem relacionada, que abrisse portas para ele. Veja bem. Nós somos uma família de empresários.

Meu marido, por exemplo. Ele mesmo nunca estudou. Mas eram outros tempos. Não precisou de faculdade, não tem finesse. Mas é uma pessoa correta. Quem era trabalhador conseguia as coisas. Honesto. Cabeça boa para negócios. Claro que molhava as mãos dos fiscais. Quem não molhava? É um homem dedicado aos negócios e à família. Tudo que ele faz é pela família. A mim, por exemplo, ele nunca me deixou trabalhar. Tem um princípio: mulher minha não precisa botar dinheiro em casa. Eu banco tudo.

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