Filhos e drogas

Quando a verdade vem à tona. Ao ter qualquer indício de que um filho anda envolvido com drogas, duas reações podem ocorrer:

“É um consumo esporádico, eventual, nada para se preocupar”; ou: “Meu filho está perdido”.

Filhos e drogas

Anos-luz separam uma atitude da outra, além de uma série de fatos e mitos, conceitos e preconceitos a enfrentar. A pior decisão, porém, é a do deixar-estar-para-ver-como-é-que-fica: todo fato grave do qual nos escondemos se transforma num fantasma psicológico que nos atormenta, seja através de dúvidas e culpas cruéis, seja através de pesadelos ou ataques de angústia aparentemente sem explicação.

Seja qual for a reação, porém, sempre explodem as perguntas: “Que drogas ele anda consumindo? Quando? Onde? Como? Quem fornece? Onde arranja dinheiro? Quem mais sabe? QUEM MAIS SABE?”.

Cada um tenta interpretar a realidade como quer, e não como ela realmente é.

Aí está o ponto principal da questão. A honra posta em jogo, o bom nome da família, a credibilidade dos pais enquanto pais e até mesmo cidadão – como um homem pode ser responsável por toda uma empresa se nem consegue controlar os próprios filhos?! -: tudo vem à tona.

As mães questionam sua dedicação e zelo enquanto mães (“Onde você estava enquanto as crianças se desencaminhavam?”). Surge um sentimento de fracasso pessoal (“Onde eu errei?”) e é inevitável que se instale a desconfiança (“Se ele mentiu nisso, no que mais andou mentindo?”). Ninguém escapa de sentir um desejo de sumir e voltar para o passado, sem ter que enfrentar o problema, ou de ter alguém mais forte e mais sábio ao lado, para tomar decisões.

Ninguém escapa, também, da vontade de culpar o mundo ou de agredir o filho em crise (“Você não tinha o direito de fazer isso conosco!”).São todas vivências intensas, doídas. Parece que o céu desabou sobre nossas cabeças e nada mais será como antes.Para nos defender, num primeiro momento, fazemos de conta que o problema não existe.

Essa atitude pode ser parcialmente consciente, além de profundamente leviana, e costuma se resumir em frases como: “Isso é bobagem, eu também já fiz isso, todo jovem experimenta, se ninguém reprimir, logo passa a curiosidade”. Pode, também , ser inconsciente, negando a situação. Alguns pais encontram papeizinhos nas gavetas e pensam tratar-se de invólucros de balas, não sentem odores diferentes e acreditam que uma rinite alérgica é a responsável pelo ar de eterna gripe que o filho ostenta.

Objetos que somem de casa passam como furtos de empregadas, e ninguém se lembra de que pode ser o próprio filho o autor dos roubas, em busca de dinheiro para comprar as drogas de que precisa.

Nessa hora, ou o casal se une para enfrentar a situação ou a relação dos dois desanda de vez em acusações mútuas ou em jogos de força, competindo para ver quem é que fica mais desesperado ou deprimido com a situação. De fato, uma notícia dessas agride a moral e o psiquismo e provoca uma desarmonia interior que chega até ao stress.

Personalidades mais forte e flexíveis podem, em pouco tempo, depois de assimilada a descoberta, partir para a recuperação e começar a tentar a solução do problema. Passado o impacto inicial, há pais que já estão à procura de pessoas que possam ajudar, além de estarem abertos para conversar e conhecer melhor o filho, que precisa de cuidados.

Quem é mais fraco, ou flexível, como que estaciona diante da situação. Pai e mãe permanecem abalados, arrasados, identificados com os traços mais angustiantes do problema, insistindo em agravar a questão. Daí além de haver um jovem precisando de apoio e orientação, haverá também um par e uma mãe competindo, inconscientemente, por cuidados e atenção.

Qualquer um de nós pode se tornar um jogador e iniciar um jogo neurótico.

A essa altura estão alteradas todas as relações familiares – entre os pais entre pais e filhos e até entre irmãos, porque aquele ou aqueles que não consomem drogas podem acabar “ofuscados” pela pessoa-problema da casa. Mas, mesmo assim, muita gente prefere continuar fazendo de conta que o problema não existe. É hora então de acionar os jogos neuróticos de destrutivos, que se compõem de um série de acusações:

 A culpa é sua, que deu dinheiro de mais na mão dele!
 A culpa é sua, que não for ver de perto com quele ele estava andando!
 A culpa é sua, que só vice fora de casa e não conversa com os filhos!
 A culpa é sua, que mima demais!
 A culpa é dos nossos pais, que nos criaram inocentes, sem preparo para encarar certas verdades…

Esse jogo pode chamar-se “O tribunal” ou “De quem é a culpa?”: queremos um bode expiatório, mas ão queremos mudar nossas condutas. E pode entrar em cena um segundo jogo neurótico, o “Coitadinhos de nós”, em que os pais, em lugar de se ocuparem do filho que precisa de socorro, preocupam-se consigo mesmo:

 Como vamos enfrentar os vizinhos?
 E o que dirão nossos pais?
 Que exemplo para os irmãos!
 Sempre soube que um dia nossa família iria acabar assim…
 Não tenho cara para sair de casa.
 Nunca pensei que isso pudesse acontecer um dia…

Inúmeros jogos neuróticos pode ser acionados e jogados à perfeição e qualquer de nós pode acabar jogando, até sem perceber. Na verdade, a questão é que as pessoas implicadas, os “jogadores”, quase sempre mal percebem que estão jogando. Por isso é que se aconselha, em momentos como esse, a providência de trocar idéias com alguém “de fora”, alguém mais esclarecido e ponderado, que temporariamente possa funcionar como o bom senso da família.

É tempo de amar aqueles e aquilo que nos ofendeu.

Nós intuímos e temos medo, por isso fazemos de conta que o problema não existe. É preciso, de fato, tentar olhar a situação por todos os seus ângulos. “Por que o irmão mais novo não disse nada, se ele sabia de tudo? Será que ele não confia nos pais? Por que o vizinho proibiu o filho de andar com o nosso? Para defendê-lo ou para evitar que ele acabe sendo uma espécie de testemunha de acusação? Por que temos medo de polícia? Por que fomos ter filhos? Por que não sinto mais fé em Deus?”

Questões profundas, de vida e de morte, assomam à nossa consciência. A clareza de uma nova percepção nos joga de encontro a todo um mundo de sombras, submerso “Nossos filhos não são nossos, são do mundo!”, disse o sábio… e nós não acreditamos.

Conversando com jovens, falando com eles sobre os motivos que os levam às drogas, fica claro que eles não consideram seus pais os culpados por sua atual situação. Muitas de drogam porque não aguentam viver, não aguentam a hipocrisia ou simplesmente não aguentam competir no seu dia-a-dia com a própria vida, não aguentam perder, não aguentam vencer, sonham com um mundo melhor, mas não sabem como agir para ajudar nessa tarefa.

A maioria começa cedo demais a consumir drogas, quando ainda nem sabe direito quem é e o que quer da vida. Porém quase todos são capazes de afirmar: “Meus pais trabalham, comem e dormem – eles estão mortos e não sabem!”

A grande dor de descobrir que nosso filho não nos pertence, não é posse nossa, não é perfeita nem ideal, assim como o aturdimento de perceber que não temos sido o melhor exemplo em sua vida, acabam sendo experiências vitais. É difícil reconhecer que, embora pensássemos ter controle sobre tudo, na verdade de pouco ou nada sabíamos. Precisamos, então, de muita coragem, do melhor que temos em matéria de amor e compreensão.

Quando a gente se depara com a questão das dragas na nossa família e com tudo o que elas têm de devastador, devemos fazer, junto com nosso filho, um longo e doloroso exame de consciência, que pode resultar – e quase sempre resulta, quando bem-feito – em mais liberdade.

Tenha mais no amor cuidando

Você fica inibida quando seu marido chega perto e você não está tão cheirosa quanto gostaria? Como se sente quando ele se aproxima cheirando a cigarro ou bebida?

O cheiro pode se altamente excitante, mas também pode acabar com qualquer desejo de aproximação. Mas você não precisa deixar que este detalhe atrapalhe a sua vida sexual e o seu prazer.

Parece mesquinho e cruel falar disso, tão claro para casais que convivem há muito tempo e tão nebuloso, já que nunca é conversado e, portanto, não solucionado. Convive-se, bem ou mal, com tudo isso que arranha e sangra o amor-próprio e faz-se de conta que não acontece. Mas acontece, e ninguém é obrigado a tolerar em silêncio, por medo de magoar o outro e se envenenado de ressentimentos.

O fato é que se rompermos a barreira do silêncio talvez a coisa mude para melhor, desde que, ao abordarmos o assunto, a nossa intenção genuína seja a de ajudar o outro e a nós mesmos. E que essa intenção venha revestida de gentileza e firmeza, na certeza de estarmos batalhando por um relacionamento muito melhor. Quer ver o que frequentemente vai afastando casais e gerando desconforto nas relações? O sexo muitas vezes fica travado quando esbarra na área de higiene.

Mau hálito

Ninguém gosta de beijar o outro quando este tem mau hálito. Ou o problema está nos dentes, gengivas, ou é digestivo. Estados de depressão também o acentuam. Em vez de virar a cara, rejeitar, é melhor ser honesta: diga claramente por que o beijo está sendo evitado. Mas não fique apenas na recusa e na denúncia do mal. Tome a iniciativa de marcar a hora no dentista, acompanha-o na primeira vez e demonstre assim seu interesse pela solução do problema.

E assim deve ser feito com tudo o mais. Nada mais desagradável, por exemplo, d o que pés que cheiram mal. Com toda certeza eles acabam com qualquer momento erótico que você vá armando em sua vida. Ficar quieta, simplesmente fazendo cara de nojo, não vai adiantar nada. Ou melhor, vai complicar tudo, pois ele há de perceber sua má vontade e, sem saber a causa, acabará se aborrecendo também.

Cuidados simples

Um cheiro forte e desagradável sob as axilas espanta o rosto que se encosta no ombro amado, em busca de aconchego e proteção. O abraço não é dado, o carinho fica tolhido e lá se vai mais uma oportunidade. Melhor do que se furta ao abraço, ou abraçar com a respiração suspensa, o que tira toda a graça e a espontaneidade do gesto, peça a ele que se cuide.

Providências muito simples, como o uso de desodorantes adequados, banhos e trocas de roupas mais constantes, podem ter efeitos milagrosos. Não se recuse a dar conselhos; tome a iniciativa, vença a barreira do seu próprio constrangimento e vá em frente.

Não rejeite, não se submeta

O que se deve ter em mente é que como mães nós temos roda a liberdade de protestar e obrigar nossos filhos a se manterem limpos e cheirosos. Eles aprendem de forma bem clara e direta que, se desejam carinho, têm de se apresentar em condições. E até apelamos para a impressão que vão causar na namorada se aparecerem no encontro de unhas sujas, cabelos desgrenhados e cheios de gordura, sujos.

Mas e o marido, que já foi nosso namorado e certamente te ouviu broncas desse tipo de sua mãe, naqueles tempos que já vão tão longe? Se ele continua, ou voltou a ser desleixado, por que devemos ficar caladas? Disfarçamos, nos omitimos, mas não batalhamos pelo que julgamos ser certo e direito em relação ao que cobramos e exigimos dos filhos. Fazemos isso para não feri-lo, não magoá-lo, sem perceber que vamos feri-lo e magoá-lo muito mais com o nosso desinteresse sexual.

Estamos falando de problemas sérios, que requerem alguns cuidados médicos e muitos cuidados na higiene. Com tato e firmeza podemos muito bem mostrar que não estamos querendo ofender, mas declarar amor e defender nossa relação de um desgaste facilmente evitável. Não adianta apelar para os mais sofisticados manuais de orientação sexual se não pisarmos o primeiro degrau, cuidando da saúde e da higiene pessoais.

Confie nos jovens e fale tudo com eles

Um dos lamentos mais comuns que ouço de pais e mães é: “Não consigo falar de sexo com meus filhos”.

Eles se justificam: “Eu não aprendi com meus pais a falar disso”. Mas será que nos só fazemos o que nossos pais nos ensinaram?

Falar sobre sexo

Minha filha ainda era bem criança e eu já via aquelas meninas saidinhas, que nos seus 12 ou 13 anos já se pintavam todas, cigarro nos lábios, cerveja à frente, decotes provocantes, e entrava em pânico. Ao mesmo tempo em que me preocupava em educar bem a minha menina, ensiná-la a ser feminina, porém recatava, eu me questionava sobre a minha capacidade de fazê-lo. E não sabia bem o que deveria traduzir a ela por feminino e recatado.

Por certo, feminino não seria falar mole e fino como gato miando, nem apenas usar saias e babados. Também não queria dizer que é feio brigar, que mulher tem que ser boazinha ou que tem idade certa para começar a namorar. O que seria, então, ser feminina? Eu sabia definir o que é ser mãe, mas mulher… Sugeria uns brincos, uma roupinha confortável mas bordadinha, ensinava a dizer “por favor” e “muito obrigado” e ficava alucinada quando a via, agora nos seus 10 anos, peitinhos florescentes, continuando a sentar-se estabanada, agachar-se mostrando as calcinhas ou a brigar de tapa com um moleque.

Daí eu achava que ela tinha em quê de machona e entrava em pânico: melhor uma perdida ou homossexual? Eu pensava que lésbica era toda mulher masculinizada, vozeirona grossa, cara lavada e brava. E os pés da minha filha cresciam. Aos 11 anos ela calçava 38! Eu já a via, moçona, vestida para um baile, calçados sapatos de homem. Era um tormento interior, porque eu também não conseguia exprimir o tal do recado. Era dizer não para o segundo docinho que lhe fosse oferecido? Era não beijar em público? Eu achava tão lindo dois adolescentes se namorando, isolados do mundo. Na deles em plena Avenida Paulista…

Eu tive que guardar minha virgindade para o meu marido, porque senão estaria estragada. E quando eu chorei, arrependida, por não ter desobedecido e seguido os destinos do meu amor? Devo dizer que nessa época estava em terapia e tinha com quem discutir e me esclarecer. Os medos, que eram meus, sobre minha sexualidade reprimida, puderam ganhar imagens, movimentos, palavras. Com o tempo fui descobrindo o que é isso de ser mulher.

Naquele dia decidi conhecer minha filha

Tive uma boa prova quando, um dia, a mãe de uma coleguinha da minha filha me telefonou e, com mil cuidados, me falou: “Estão dizendo na escola que sua filha não é mais virgem. E que foi ela mesmo quem contou”. Parecia que o chão se abria sob meus pés! Era de manhã e eu passei o dia em transe, aguardando a menina voltar. Tive febre, calafrios, mas fiquei pronta para enfrentar tudo. Eu queria, sobretudo, ajudar. E consegui.

Ela entrou toda alegrinha, 12 anos, aquela carinha limpa, inocente, iluminada. Entrou fricoteira no meu quarto, me beijou, se tocou: “Uai, você em casa a essa hora?” (Eu trabalhava.) Tive em resto de dúvida: será que estou vendo coisas que não existem? Quem é essa menina, minha filha? Eu a conheço? Ela me conhece?

Foi a chave. Resolvi conhece-la. “Filha, estou com um problema e você pode me ajudar a resolver.” (Jamais jogaria na cara dela que ela era o problema, mesmo porque não era. O que eu menos queria era assustá-la, afastá-la de mim, perder sua confiança.) “Sabe… (hesitei) é que eu soube uma coisa que eu queria que você confirmasse, se é que você sabe… (a questão era ainda uma fofoca, não um fato) É verdade que seus colegas estão dizendo que você não é mais virgem? Você sabe alguma coisa sobre isso?”

Ela caiu numa solene gargalhada. “Ah, mãe, besteira, deixa isso pra lá…”

A verdadeira honra é ter palavra firme

Eu não entendi. “Como, besteira? Como é que se começou a falar?” – “Besteira, mãe! Outro dia, os meninos estavam se bacaneando, que conhecem mulher, que foram em casa de massagem… E daí eu falei que também conhecia homem. Não esquenta, eu falei por falar. Pensei que fosse uma coisa mais séria. Você estava com um cara…

Minha cabeça rodou. Então ela estava medindo forças? E, descuidada, não tinha a mínima ideia de que fora mexer em um vespeiro.

Dali a puco ela voltou para o meu quarto, furiosa: “E quem é a fofoqueira que te telefonou? O que é que ela tem com a minha vida?

Fez um esparramo. Mas aí eu pude explicar que ela havia se exposto demais, dado margem a falatórios, e que a pessoa queria é protege-la. Foi duro fazê-la entender. Ela insistiu que ninguém tinha nada a ver com isso. Mas fomos falando, um pouco num dia, mais um pouco no outro, até que ela me perguntou: “Mas por que é que os meninos podem falar e as meninas não?
Concordei com ela que é um sistema injusto. Mostrei-lhe as opções e dei-lhe até exemplos do que seria a verdadeira honra: ter palavra.

Ela entendeu muito bem. E eu me senti muito mulher. Um dos lamentos mais comuns que ouço de pais e mães é: “Não consigo falar de sexo com meus filhos”. Eles se justificam: “Eu não aprendi com meus pais a falar disso”. Mas será que nos só fazemos o que nossos pais nos ensinaram? Será que, na idade madura, já não estamos em condições de deixar isso para lá? Uma boa ideia é aprender junto com os adolescentes a quem devemos orientar. Se nos abrirmos, como desejamos que eles se abram, tudo vai ficar mais fácil.

Nos tempos corridos de hoje, é preciso aprender a cobrar dos amigos o afeto que lhes damos, para não ficarmos carentes.

Nesses nossos tempos modernos precisamos, e muito, de uma forte rede de relações de amizade. Quase tudo o que nos cerca nos conduz à solidão e à carência afetiva.

Amizade
Imagem: Pixabay (Amizade)

Aquela coisa gostosa de fazer o chá da tarde, bater papo por cima do muro ou debruçada na janela é mais típica do modo de vida de nossas avós, talvez mães. Hoje a mulher trabalha fora e suas amigas também. Ninguém consegue se ver com a frequência que gostaria. Tendo que nos dividir entre os cuidados com a casa e a família, além do trabalho, o que fica precário é nosso círculo de amizades.

Isso pode levar a um grande sentimento de solidão e insegurança, a um ponto perigoso de, numa emergência, não temos a quem recorrer. Numa gripe, numa hospitalização, são muitas as mulheres que se veem absurdamente sós, sem ter qualquer companhia, a não ser que… peçam!

Susana vai ser operada numa terça-feira de manhã. Uma semana antes, pega o telefone e vai ligando amiga por amiga, compondo uma agenda de quem poderá ficar com ela em que dia e a que horas. Todas têm mil compromissos. Mas Celina desiste, de boa vontade, de levar a filha à aula de inglês para fazer companhia à amiga na terça à tarde.

Corina ia fazer supermercado na quarta de manhã, mas deixa para outro dia. Naíde tinha uma consulta média, troca o horário. Leninha promete sair mais cedo do trabalho e ficar com Susana na sexta.

Essas mulheres, ocupadas, ativas, estão reaprendendo, com esse gesto, alguma coisa nova sobre a amizade. Por que, com raríssimas exceções, já não dá mais para largar tudo e sair correndo, disponível, para socorrer uma amiga em dificuldades.

Tem-se amigas, mas coisas passam, importantes, e não se fica sabendo, às vezes só se sabe depois. Além de tudo, porque uma não quer incomodar a outra enquanto puder resolver tudo sozinha. Todas trabalham, têm casa e filhos, dentista, ginástica, cartomante, psicoterapia. Mal têm tempo para cuidados pessoais (os cabelos são tingidos à noite ou aos domingos) e só vão a médicos que respeitem horários – de preferência que atendam durante o almoço ou após as 9 h da noite.

Na falta de empregada usam congelados, descobrem uma lavanderia fantástica (bem no caminho!), estão exaustas ao cair da tarde e vão levando. Mas, apesar de só conseguirem manter as amizades via telefone, trazem ainda na alma o desejo de ter toda a família almoçando junta durante a semana e a ilusão de que seus desejos serão adivinhados, suas necessidades satisfeitas. E como, então, se tornam carentes!

Dizem:

“Pedir, eu? Eu não peço. Se o meu marido (ou filho, ou amiga)se tocar e fizer espontaneamente, tudo bem. Mas pedir, não. Acho humilhante ter que pedir uma coisa óbvia, que deveria vir de graça. Pois quando eu percebo a necessidade de alguém não vou lá e ajudo, sem esperar que me peçam? Então, por que os outros não podem fazer isso por mim?”

E é ai que está montada um das maiores armadilhas para alguém se tornar uma pessoa carente, revoltada e solitária. Se a Gata Borralheira podia se dar ao luxo de chorar na calada de noite, e ser ouvida por uma Fada Madrinha, é bom saber que já não vivemos mais nesses tempos em que quem nos ama deve adivinhar e entender os nossos desejos, sem que movamos uma palha para isso.

Você pode estar pensando: “Mas será que tenho o direito de solicitar alguma coisa a alguém que não vejo há tanto tempo, em cuja festa de aniversário nem fui?”

Tem, sim. Uma verdadeira amiga é aquela que compreende isso. Que a gente falha com ela, ela falha com a gente, mas em ocasiões mais apertadas uma pode contar com a outra. Ser amiga, hoje em dia, não é estar disponível o tempo todo.

Amizade tem limites – se não tiver, é subserviência.

A boa amiga pode pedir e deve estar preparada para ouvir tanto um sim como um não. E também não deve pedir mais do que a outra está disposta a dar naquele momento. Pede-se o que se precisa, dá-se o que se tem, de boa vontade, sem sacrifícios.

Às vezes a boa amiga é a que diz “Não quero fazer tal coisa por você, não concordo com isso” e explica as razões, e não a que diz “Não posso”, inventa uma desculpa e sai por ai conduta da outra. E às vezes é hora de, em vez de dizer “Imagine, não é trabalho nenhum”, assumir claramente: “Sim, isso que você pede vai dar trabalho, mas faço com prazer porque gosto de você. E também por que espero que, se eu precisar um dia, você faça o mesmo por mim.”

Cobrar? Sim, cobrar também. Se numa amizade você começa a sentir-se explorada, sugada, abusada, em geral é porque… está sendo mesmo! Temos uma espécie de “fato”. Mesmo sem conseguir definir exatamente como, onde e quando os abusos acontecem, sabemos que eles acontecem.

Nossa tendência é achar que é implicância, falta de humanidade, e ceder em nome da amizade, desagradáveis (“Imagine se ela faria uma coisa dessas”, ou “Coitada, ela está em crise, desempregada, grávida, atormentada pelo marido” etc). Até que, depois de muitas concessões (presença, favores, dinheiro), se chega ao “E eu? Sempre que ela precisa eu digo sim, quando sou eu que peço ela nunca pode”.

Daí para uma ruptura é um passo. Assim terminam muitas amizades antigas, que eram mantidas pelo esforço de somente uma das partes. Aparentemente a de maiores recursos (alto-astral, posição, dinheiro, família, trabalho), porém no fundo a mais carente, a que morre de medo de, ao dizer um não, ficar só.

Essas pessoas geralmente viveram, na infância, profundas experiências de rejeição e abandono por parte dos pais. Ou então eram auto-suficientes e pouco reivindicativos, aquelas filhas que “não dão trabalho”, que “se criam sozinhas”…

É provável que esse senso de responsabilidade precocemente desenvolvido prive a criança e, mais tardem a adolescente, da experiência de se ver apoiada, protegida, levando a uma personalidade adulta em que o receber causa desconforto íntimo, como se fosse algo errado ou indevido. Receber fica associado a fragilidade e dependência, duas atitudes a serem evitadas, a não ser em casos de extrema necessidade.

Isso faz com que a pessoa vá acumulando carências, fique ressentida no dia-a-dia, apesar de desenvolver uma auto-imagem de quem-não-precisa-de-nada. É alguém que sabe ouvir um não com um sorriso nos lábios, mas que no fundo se sente muito ferida – não só frustrada, mas desqualificada. Afinal, se dificilmente pede alguma coisa (pois lhe é difícil receber), quando pede é porque precisa muito, e um não nessa situação é mesmo intolerável.

Então a questão é pedir e cobrar, sim. E esperar de volta tanto quanto se dá. Isso não quer dizer ser mesquinha e só viver na base do toma-lá-dá-cá, mas sim de manter o balanço dar/receber em equilíbrio dinâmico, bem distribuído. É comum ouvir alguém dizer: “Será que estou querendo muito? Só estou pedindo um mínimo de respeito e consideração!” Se é isso que essa pessoa pede, é isso que ela vai ter: um mínimo!

Nas questões humanas há que se pedir e cobrar um máximo de consideração e respeito, pagando na mesma moeda.

Cobrar a presença dos filhos em ocasiões importantes (mesmo que eles não gostem; afinal, quem é que só faz o que gosta na vida?), cobrar certas atenções do marido ou um favor especial de uma amiga significa zelar para que, continuamente, se tenham qualidade e satisfação nas relações – para todas as partes envolvidas.

Quem se dá conta das suas carências e não fica esperando que alguém compareça para resgatá-la da solidão, mas, pelo contrário, aprende a pedir e se dá a liberdade de receber, sem sentir-se humilhada por estar fazendo um pedido justo, está promovendo uma verdadeira revolução antiautoritarismo nas relações humanas.

A pessoa que é contemplada com um pedido da amiga sente-se valorizada e feliz por poder colaborar. Sente-se útil e necessária. Não é isso o que todos nós queremos? E se, frente a um pedido justo, recebemos um não, é porque esse não também é justo – ou, então, a pessoa não é nossa amiga. Daí, é hora de fazer novas amizades.

Quando chega a hora de Recasar

Para ser como ele gosta, você se sufoca, murcha, se apaga. É um erro grave. Seja você mesma e viva muito feliz.

Você não é mais a menina com quem ele casou. Nem ele é o menino que casou com você. Ambos mudaram, mas não mudaram a forma com que se tratam. Mudaram, e pensam que o outro não sabe. Ele não se mostra como é, mas da forma como pensa que você gosta. E você também.

Você parece duas pessoas, uma longe dele, outra perto. Quase sempre a que está longe é mil vezes mais interessante, desinibida, espirituosa, inteligente. Perto, você murcha, se apaga, submete-se ao medão de mostrar-se na sua complexidade, nas suas incoerências, na sua imaturidade. Isso gera infelicidade e impotência. Vocês não estão mais dialogando, se arriscando. Apenas mantêm fachadas.

Quando você está irritada com os filhos e ele a procura para sexo, você se sente desrespeitada. Não imagina que sua explosão de raiva a torna uma mulher vibrante e muito desejável e que o desejo dele, longe de ser agressão a seus sentimentos maternais, é um caminho para você resgatar a fêmea cheia de vida, sem grilos, que deveria ser.

Interprete certo os gestos dele.

Quando você está enlevada com as novidades de seus filhos, se divertindo com as estórias deles, e ele se mantém à parte, o que você pensa é que ele é um chato, omisso, alheado. Jamais acredita que ele morre de inveja da sua capacidade de se comunicar com os jovens.

E em relação a você? Ele sabe que você também fala palavão, conta piadas picantes, dá gargalhadas e sonha com um amante tipo apache, desinibido, de uma sexualidade animal? Ou só vê a sua timidez envolvida em pijamas de flanela e luz apagada quando vocês vão transar à noite? Ele sabe o quanto você fica ressentida porque ele se veste melhor para ir trabalhar do que para estar com você à noite? Ou que você detesta sua dependência econômica e o fato de ele cuidar sozinho dos investimentos familiares?

No amor, quem dá também recebe.

Vencer o tédio da rotina desagradável/confortável é trabalhoso e heroico. Alguém tem de começar. Em primeiro lugar, você tem de se ver agindo diferente. A imaginação serve de treino, mas não fique só no pensamento. Você precisa concretizar esse eu que está embutido em seus rancores e receios.

Preste atenção no seu corpo quando ele se aproxima. Você muda de postura? Se encolhe ou se apruma? Altera a conversa? Fica calma ou inquieta? Pergunte a ele se já reparou nisso. Preste atenção nele também. O corpo fala. Revela o que a boca silencia.

Crie a sua sorte, não espere que ele simplesmente aconteça. Pare de se expressar no condicional: eu gostaria, eu queria... Respeite os seus desejos, comece a falar afirmativamente: eu quero, eu gosto. Dê o primeiro passo, o primeiro beijo, o primeiro sorriso. Em matéria de amor, é dando que se recebe.

Agora, se você ainda não se sente bem na sua pele de mulher, se não confia em si própria e não vê o seu valor, procure ajuda, porque não há homem (e muito marido) que respeite uma mulher que não se respeita. E os homens adoram mulheres que solicitam com interesse, bom humor e até mesmo uma pitada de filosofia. Por que continuar com esse pudor de revelar o quanto você precisa dele?

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Humildade

O que é Humildade e por que precisamos dela?

Humildade é algo que todos valorizamos – normalmente nos outros.

Humildade
Imagem: Pixabay - Humildade

Teoricamente, é uma virtude. Na realidade, muitos acham que é algo prejudicial. Por quê? Estas pessoas confundem ser humilde com humilhar-se, diminuir-se, pois identificam ‘humildade’ como `fraqueza de caráter`, ou seja, permitir que os outros nos pisem.

Não é assim! A Torá nos ensina que Moshe Rabeinu (Moisés, nosso Mestre) foi a pessoa mais humilde que já existiu (Bamidbar 12:3) e, também, o único profeta que conversou ‘cara a cara’ com o Todo-Poderoso (Devarim, 34:10).

Todos os outros profetas recebiam sua profecia dormindo ou em transe, mas Moshe podia falar diretamente com o Criador. D’us ditou-lhe como escrever a Torá, palavra por palavra, letra por letra. Moshe, portanto, sabia que D’us afirmou que ele era e seria o maior de todos os profetas.

Como era possível, então, que permanecesse humilde?

A resposta reside na definição de humildade. Humildade não é ser um nebah – um dócil, hesitante, patético e humilhado perdedor.

A humildade é a característica de sabermos exatamente quais são nossos talentos e capacidades e reconhecer que isto e tudo o mais são uma dádiva do Todo-Poderoso. Eis o segredo para conquistar algo essencial para ser aplicado às nossas vidas: conhecer as próprias forças e tomar posses, reconhecer as próprias conquistas, sem jamais negar uma verdade básica e vital: tudo que se tem e se consegue são dádivas do Todo-Poderoso.

A humildade é um requisito para se estudar a Tora, bem como qualquer texto inteligente e sagrado. Os Sábios traçam uma analogia do conhecimento profundo com a água: necessária para a vida, é essencial para o crescimento e para atingirmos nosso potencial.

Um sujeito arrogante coloca-se numa posição alta como uma montanha. O que ele esquece é que a água flui da montanha para os lugares mais baixos e não o contrário. Para extrairmos o máximo de nosso potencial, precisamos ser humildes.

Ao percebermos nossa pequenez em relação ao Universo e ao poder do Todo-Poderoso, adquirimos humildade. Ao nos darmos conta da gigantesca quantia de sabedoria disponível, mas que não a temos e, quando muito, dela participamos, usufruindo e/ou criando, dos pequenos e grandes erros que cometemos, adquirimos humildade.

Ao entender a magnificência e a fragilidade do corpo humano e como até as pessoas mais fortes no final enfraquecem e morrem, adquirimos humildade. Se pensarmos bem, a única maneira de ser arrogante é desconectar-se do ‘grande quadro’ , também chamado realidade. Assim como O Profeta Moisés, todos os grandes homens, os sábios e os santos, possuem o mais alto nível de consciência da realidade e, portanto, são os mais humildes dos homens.

Por que precisamos de humildade?

Uma pessoa verdadeiramente humilde aprende com as demais, faz perguntas quando tem dúvidas e está aberta a críticas. Não sente necessidade de exercer poder sobre os outros ou de sentir-se superior a eles, focando em seus defeitos e falhas. Esta pessoa não irá agir com desprezo, nem dar-se-á o direito de julgar as demais. Evitará discussões e brigas. Pedirá desculpas e não porá a culpa nos demais. Conseguirá enxergar o lado positivo dos demais e amar o próximo. Podemos enxergar o amor como um grande sentimento de prazer, de que desfrutamos ao focar nas virtudes dos demais.

Humildade é liberdade. O que nos refreia e nos inibe são nossas preocupações desnecessárias sobre nós mesmos, incluindo como nos parecemos aos olhos dos demais. Quando uma pessoa preocupa-se apenas com a verdade e vive por isto, então, ela é livre para realizar as coisas mais significativas.

Uma pessoa arrogante é extremamente focada em si mesma para conseguir ouvir a verdade, para enxergar suas próprias falhas e para ajudar os outros. Precisamos, antes, conseguir enxergar as necessidades dos demais para poder ajudá-los, não sem antes pedirmos permissão para fazê-lo.

Uma pessoa arrogante está mais preocupada consigo mesma e sobre como os outros a encaram do que em fazer as coisas certas. Ela também sofre de ‘falta de paciência’ e isto lhe causa muita frustração e sofrimento. Além disso, considera que os demais têm o dever de aceitar a sua ajuda e que o mundo lhe deve satisfações.

Uma pessoa humilde descobre ser fácil aceitar que nem tudo acontece da maneira que ela gostaria que fosse. Ela foca no lado positivo de cada situação e circunstância, mesmo que num primeiro momento possa duvidar e se desesperar. Aqui temos um lindo paradoxo: a pessoa desesperada diz estar brigada com D’us e ter deixado de acreditar Nele, mas reza e implora (a Ele) para recuperar a sua fé.

Os humildes têm mais alegria em viver, pois entendem a realidade do que é importante: D’us, a Torá, os sábios ensinamentos, a verdade e não o seu próprio ego.

Autor: Rabino Kalman

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Santo Agostinho

A estética de servir à ética de amar – Considerações político-econômicas

Uma economia próspera não basta. Por mais que se lute e se conquiste o conforto e o bem-estar, por si só a economia não responderia per si à altura de proporcionar tudo aquilo que faz crescer e satisfazer anseios nossos.

Santo Agostinho
Imagem: stock.adobe.com (Santo Agostinho)

A única medida do amor é amar desmedidamente. (Sto. Agostinho, in O capitalismo é moral?, obra de Comte-Sponville)

Mesmo a verdade e o amor pela verdade pode ser um grande impulsionador das ciências e da busca pelo conhecimento, que é infinito. Motiva pesquisas e está na base do saber e do próprio conhecimento científico, mas não é suficiente a tal ponto que dispense a demonstração, a praxis.

O amor à liberdade esbarra tanto nas leis, como nas políticas que têm por anseio dirigir uma sociedade democrática e conquistar a plena cidadania. Esbarra também na moral, na medida em que o amor é cego e acontece mesmo em situações não-apropriadas e relações interditas. O amor à liberdade, também deve servir e se submeter as responsabilidades: tanto da moral, quanto da lei.

E por mais que venhamos a prezar e lutar pela conquista da plena cidadania, também ela não basta, porque: se atende a questões da solidariedade, não chega a responder nem estimular a grandeza da doação de si e da generosidade, supremas provas de amor ao próximo.

O amor ao próximo também não basta, porque amores ilícitos acontecem e nem todos são dotados de bondade e pureza tais, que levem-nos a abdicar por amor ao mais próximo dos próximos, que também confia e retribui a quem lhe quer bem. As traições acontecem na mesma medida que os amores e a história sobejamente o comprova.

Mais além do amor ao próximo, há que se ter moral, com direito ao sentimento de culpa e, também, de vergonha, quando se sente amor a quem não é “de direito” ou quando ocorrem violações de tabus.

É por isso que necessitamos de quatro ordens, nos ensina Comte-Sponville. (p. 69). Porque elas precisam existir simultaneamente, cada qual dentro de sua própria lógica e independência relativa: política, econômica, moral e ética.

As quatro são necessárias e nenhuma, somente, é suficiente. Confundi-las leva ao ridículo e à tirania. Para Blaise Pascal há três ordens: a da carne, a do espírito de razão e, a do coração ou caridade). Caso se confundam duas ou três delas, chega-se ao ridículo: o coração tem razões que a própria razão desconhece! Ou como suspira Fernando Pessoa: “Toda carta de amor é ridícula. Mas o mais ridículo é nunca ter escrito uma carta de amor”.

Se o ridículo é a confusão entre duas de três das ‘ordens pascalinas’, a tirania é o ridículo no poder, segundo Comte-Sponville, ao citar Pascal: “A tirania consiste no desejo de dominação, universal e fora da sua ordem” (in Pensamentos, 58-332), além do que, “o tirano é aquele que confunde a autoridade com a própria ideia de poder”.

Em outras palavras, ridículo é aquele que governa ou pretende governar numa ordem em que não tem qualquer legitimidade para tal” (pág. 90). A tirania e  ridículo caminham juntas e de mãos dadas, tal como o amante que quer ser obedecido ou o rei que não se faz acompanhar de um conselho de sábios. A “vontade” de uma ordem, sejam aquelas apresentadas por Pascal, sejam as propostas por Comte-Sponville, nunca bastou para resolver problemas de outra ordem.

Não basta, pois, a vontade política para corrigir os salários e/ou elevar os proventos da aposentadoria. É preciso vontade e ação na esfera na economia, aponte de capital e fontes de custeio. Na falta de uma, todas as demais fracassam. De que adianta herdar o direito a receber uma aposentadoria digna, se não há dinheiro em caixa, para fazer valer esse direito?

Este é um dos maiores riscos que atualmente corremos: o de virmos alegar direitos constitucionais aos nossos filhos e netos, direitos garantidos por cláusula pétrea, mas vazias de mecanismos, instrumentos e conteúdo para fazê-los cumprir. Se como sociedade não nos mobilizarmos conscientemente, as próximas gerações de brasileiros e brasileiras herdam o direito de receber nada, garantido por lei.

Trata-se, então, não só de aplicar as vontades políticas e econômicas. Aposentadoria é, também, uma questão de ordem moral; se assim não for, instalam-se a barbárie e o angelismo.

Este é o alerta de Comte-Sponville: “Submeter a moral à política é barbárie. Mas submeter a política e o direito de uma utopia moralmente generosa - uma sociedade de paz, de abundância, de liberdade, de fraternidade, de felicidade -   é angelismo. Conhecemos os resultados dessa temível conjunção”.

Por mais que as políticas de Gestão de Pessoas proclamem ser o homem, o seu principal capital, isso é ótimo para inflar os egos daqueles que acreditam nisso. Pode agir como mote motivacional num primeiro momento, mas na prática do dia seguinte já se constata tratar-se de uma fala vazia, porque os empregados terceirizados, cooperativados, estão todos lá para trazer lucro para as empresas. Senão elas se retiram, se transferem para outras localidades e, com elas, podem escoar rapidamente todo um projeto de vida, não somente de pessoas e famílias, mas de toda uma comunidade.

Especialmente numa época de globalização do mundo financeiro, como a que vivemos. Os seniors empregados mais antigos e de maior salário já não são mais reconhecidos como Prata da Casa. Se prata houver, será somente na cor de seus cabelos. Alguns disfarçados pelas tinturas, outros ausentes das cabeças calvas, ou seja, todos eles e elas. Ser subitamente dispensado em idades maiores causa envelhecimento precoce e desorganização pessoal para o novo  trabalho.

A política tem-se submetido cada vez mais à economia estatizada, a barbárie tecnocrática e coletiva. E seja pelo angelismo, seja pela barbárie, as guerras se fazem e as pessoas, sacrificadas morrem. Têm seus sonhos e projetos de vida totalmente esvaziados e são condenadas a tentar sobreviver na miséria: econômica, cultural, moral, educacional e existencial. Dessa degradação humana e social, em larga escala, Victor Hugo tratou em Os Miseráveis.

Como vivemos todos submetidos às quatro ordens elencadas por Comte-Sponville, há que se entender e aplicar as nações de responsabilidade e solidariedade. É necessária uma matriz objetiva sustentável e uma volta às origens e raízes, volta essa isenta de subjetivismos morais.

Se desejamos e, parece que as pessoas de bem assim desejam de todo coração, conquistar a paz social que é fruto da justiça (opus justice pax), no que implica dar e garantir a cada qual o seu direito (suum cuique tribuere) e reconhecer como fontes garantidoras de todos os direitos:,

  1. A natureza, em relação aos direitos não outorgados e, sim reconhecidos; e,
  2. Os contratos, que envolvem todos os demais direitos conquistados e convencionados num estado democrático (pacta sunt servanda).

Ainda que se fale em nação de cidadania, há que se implementar e cultivá-la na prática, como exercício diário:

  • Em relação aos políticos, pela elaboração da legislação positiva consoante com a lei natural;
  • Em relação aos demais cidadãos maduros e conscientes (educados desde a mais tenra idade para tal), por meio de manifestações organizadas e dentro do espírito da lei, com relação à aprovação ou reprovação de políticas públicas e o exercício da legítima vontade da população (vox populi vox dei);
  • A superação resiliente, pelo efeito de um programa nacional de educação para todas as idades, baseada e movida por princípios e valores éticos de caráter em vez de valores personalistas;
  • Erradicação, pelo trabalho e pela educação para todos do, isenta do cinismo e do conformismo que, no limite confluem entre si e representam as duas faces da mesma atitude de pouco se importar, seja com dramas da vida, seja com os seus desfechos, gerando oportunidades de debate, através de fóruns organizados e, o espontâneo, segundo comunidades de interesses, necessidades o oportunismo;
  • Extenso e imediato combate ao analfabetismo digital, além de funcional;
  • O incentivo às artes e à cultura, iniciando-se pelo incentivo de aproximação e desfrute da boa literatura e o estado de filosofia, desde os primeiros passos na infância;
  • Pela discussão e conscientização da alçada de cada um dos Três Poderes (Judiciário, Legislativo e Executivo), acrescidos de um Quarto Poder, de caráter independente e incorruptível, representado pelo MP – Ministério Público e, um quinto poder, que trata da liberdade de produção e acesso ao mundo do conhecimento e das informações, representado pela Imprensa Livre, os dois últimos devendo ser e permanecer legitimados como fontes de real poder em nossa sociedade.

Uma vez que tanto o MP como a imprensa livre exercem exemplarmente o papel de controle na preservação da ordem democrática, mediante a defesa dos princípios éticos de todo e qualquer ato público e/ou privado, não se pode prescindir do seu exercício e plena participação na vida da(s) comunidade(s) e da nação, para evitar e coibir desvios éticos na condição das questões e coisas públicas -res publica - bem como as violências, os abusos e atentados aos direitos humanos fundamentais permanentemente abertos e acessíveis à manifestação popular.

Conflitos de interesse sempre se apresentarão, assim como omissões pessoais em relação às responsabilidades assumidas em qualquer uma das ordens: política, econômica, moral e ética, incluindo-se o MP e a Imprensa Livre, não devendo uma se submeter nem se deixar confundir pela outra, mesmo que num dado momento a decisão a ser tomada tenha que privilegiar alguma delas.

Boa parte dos problemas que hoje encontramos, esclarece Comte-Sponville, se deve à defasagem ampliada, nas últimas décadas entre o universo técnico-científico (pertencente à ordem 1) e o universo jurídico-político ( pertencente à ordem 2), aliado ao fato de que os problemas econômicos se apresentam em escala mundial, em sua insistência de globalização econômica.

Enquanto a maioria dos meios de decisão, ação e controle (da ordem 2), só existem em escalas nacionais (se muito, continentais, como na Europa até o presente momento histórico), a maioria das soluções precisa ser dada em escala mundial. Como querer que a ordem jurídico-política possa, nessas condições de inquietante defasagem entre elas, limitar eficazmente a ordem tecnocientífica? É o que condena os Estados à impotência e os mercados, se não tomarmos extremos cuidado, à onipotência (in O capitalismo é moral? pág. 182)

Surge pois, e cada vez mais, a necessidade de ajuste das sociedades, um novo paradigma:

  1. A ética da sustentabilidade planetária;
  2. A elevação do ser humano à condição de universal, que contém e, ao mesmo tempo, transcende a concepção do ser humano, enquanto social pela nova ética;
  3. A compreensão de que só há sentindo de vida, quando se inclui, o ‘outro’ na visão de si mesmo, porque o sentido só é valido quando se apresenta para e pelos indivíduos. E voltamos à estética de servir à ética de amar.
  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Mulher bem sucedida

Competente no trabalho e… na cama.

Você conhece uma profissional que é um sucesso na carreira e tem uma vida afetiva e sexual feliz?

Se a resposta é sim, pode ter certeza de uma coisa: ela conseguiu escapar das armadilhas que nós mesmas armamos. Veja quais são... e fuja delas.

Sucesso Profissional
Imagem: Pixabey

Regina é uma jovem desquitada, bonita, um sucesso na carreira, mas vice só. Quando as amigas perguntam por que, ela poderá dar mil explicações do tipo “o trabalho não me deixa tempo para o amor”, “os homens não têm coragem de se relacionar com uma mulher bem-sucedida” ou “não encontro um homem mais inteligente do que eu”. Mas, se Regina fosse fundo nas coisas, teria de confessar que ela é a causa de tudo. Porque Regina tem um problema comum à maioria de nós: construiu uma personalidade dividida em três partes – cabeça, tronco e membros. E estas partes não se encaixam, gerando angústia e insegurança, impedindo se realização total.

Regina (38 anos) conheceu sexo como a maioria das mulheres de sua geração: meio roubado, às escondidas, um olho fechado pelo prazer da entrega, o outro aberto pelo medo de ser flagrada. E mesmo agora, que não teme uma gravidez indesejada, ainda tem medos, como o de escolher a pessoa errada. Esse medo paralisa e desespera, pois somos prontamente vistas como mulher, mas não nos sentimos como tal.
Quando alguém pergunta a Regina se ela é feliz no amor ou se conhece sexo desvairado, ela responde “não”. E não há susto. Afinal, “não se pode ter tudo na vida”.

Quando uma mulher de sucesso como Regina conta que é infeliz na cama, dizemos logo “pelo menos você tem sua carreira. Isso compensa”. É como se ela estivesse apenas seguindo o rumo natural das coisas. Surpreende mesmo é quando uma mulher comum, sempre às voltas com a rotina da casa, garante que sua vida sexual é um verdadeiro sucesso. Aí, perplexas, vamos querer saber “o que ela tem que eu não tenho?” É como se condenássemos a nós mesmas – e às outras mulheres – à categoria dos seres que não podem ter tudo. Ou bem temos o sucesso, ou bem o prazer. Como se fosse impossível conciliar competência com prazer, transpondo a ponte entre o mundo do poder e o mágico terreno do prazer.

Afinal, o que nos falta para conseguir a harmonia entre estes dois universos? Basicamente, entender os processos que levam à divisão e identificar as armadilhas. As mais perigosas são as que decorrem da relação que mantemos com nosso próprio corpo e suas peculiaridades.

Menstruação não é doença

Esta é uma das primeiras coisas que devemos ter em mente para desenvolver integralmente nossa sexualidade. Quando menstrua, a maior parte das mulheres fica inchada, dolorida, mais sensível. Enfim, o corpo fica alterado, pede repouso. Mas a gente não pode parar o trabalho. Então, em vez da irritação por ter de fazer coisas que o corpo não quer, ficamos com raiva da menstruação. Se entendermos que a mudança – no corpo e no nosso estado emocional – é um fato natural, um sintoma de fertilidade, estaremos a caminho da integração entre nosso corpo, a cabeça e a sexualidade.

Gravidez não é pecado

Mas muitas agem como se fosse. Tratam de “esconder” a gravidez, com medo de perder pontos na carreira, de ficarem fora do planejamento da empresa – a longo prazo – já que se sabe que terão de interromper o trabalho pelo menos para dar à luz. Se isto é errado, também não se pode aceitar a atitude contrária: a da mulher que procura usar a gravidez como desculpa para suas falhas no trabalho. Usar a gravidez como desculpa para não produzir, ou evita-la – alegando que prejudica a carreira – são atitudes igualmente ruins. Nos dois casos, estamos negando nossa condição de mulher, ou seja, reprimindo nossos sentimentos e a nossa sexualidade.

É normal ter desejos

Vestir uma capa de frieza para mascarar sua condição de mulher e ser encarada como “igual” pelos colegas de trabalho é uma coisa muito comum. E muito errada. Se você agir naturalmente, se aceitando como mulher que tem uma vida sexual ativa, poderá até superar a ênfase que os homens fazem questão de dar à sua feminilidade, e ao fato de você ser desejável. Quantas vezes, no meio de uma reunião, você já não ouviu “passamos a palavra à bela doutora fulana?” Eles querem agradar, mas você se sente ofendida, fica com raiva por ser “bela”, “desejável”. Já que não pode revidar, passando a palavra ao “gatão do dr. sicrano”, fique fria. Ser mulher, ser bela, ser uma fêmea desejável não é defeito, nem diminui seus méritos profissionais. Não tente negar sua natureza ou sua sexualidade, pois, de tanto disfarçar, a frieza pode acabar incorporada à sua personalidade. E aí, adeus ao prazer na cama.

É preciso inverter a ordem das coisas: seja fria no trabalho, mas muito quente na cama. O primeiro passo para esta fórmula você terá dado se conseguir enfrentar com naturalidade – e orgulho – sua condição de mulher. Mas isto não basta. Não se pode esquecer que, passando boa parte do tempo no trabalho, ficamos sujeitas às influências do meio na nossa vida pessoal. Não vamos repetir o erro dos homens, que – em alguns casos – tentam pautar sua vida pelo modelo de eficiência gerado no mundo do trabalho. Aí as armadilhas também são muitas. Mas podem ser identificadas. E superadas.

É preciso confiar

Confiança é o que mais falta no mundo dos negócios. Hoje em dia quem confia é xingado de bobo. Para ser bem-sucedida neste mundo, a mulher aprende – tanto ou mais que os homens – a viver de pé atrás e puxar tapetes. Ninguém se entrega. O que interessa é tapear, blefar, ter lucro: vale tudo para vencer. E os sentimentos vão ficando massacrados e mascarados: é preciso ser durona (quando se quer colo), fingir simpatias que estamos longe de ter, tratar o outro como um inimigo. E a experiência da entrega, da confiança, do aconchego, vai ficando para trás, relegada à condição de “coisa de criança”, ou pior, “imaturidade”. O prazer sensual de perder o controle e viajar nas sensações é vista como uma ameaça ao ego.

Não queira lucrar sozinha

No mundo dos negócios, só é um sucesso quem consegue lucro. O erro é que às vezes levamos esse imediatismo para as relações afetivas. Aí nunca vai haver prazer. Não fique pensando no seu lucro. Trate de relaxar, soltar as amarras e partilhar os lucros (ou perdas). Só assim sexo e amor são bons: quando os dois envolvidos lucram igualmente, saem mais ricos daquele momento.

Prazer só vem com calma

Vivemos a era do pré-fabricado, do descartável, do lucro rápido. Mas, se isso funciona no mundo dos negócios, um grande erro é tentar levar essa eficiência toda para a cama. Quando a pressa chega ao sexo, o que vemos são duas pessoas preocupadas em obter “mais prazer um menos tempo”. É chegar já “fervendo”, usar e jogar fora, embora a embalagem ainda possa ser atraente e conservada. Assim feito, não há tempo para deixar rolar, aquecer devagar, ir e vir nos toques discretos e ligeiros, até chegar o momento da decisão. É uma simples repetição do que se vê no mercado: viu, gostou, levou.

Nem vencida nem vencedora

Se o poder, no mundo dos negócios, dá status e provoca muita bajulação, levar essa filosofia “do mais forte” para a cama é desastre na certa. O que vamos encontrar é o homem preocupado em levar a mulher à exaustão, ou ela tentando “enlouquecer” o parceiro.

Ninguém relaxa. Não há prazer. O resultado é que tem muita cama por aí servindo de palco para jogos de poder, onde sempre um sai derrotado. Nada a ver com amor e sexo sadios, onde não há competição. Aí sim estaremos vivendo uma relação onde há integridade, inteireza, amor, em vez da competição e desprazer. Nessa explosão de vida não há espaço para poder, nem medo de parecer ridículo porque um se entrega, geme, faz caretas, mostra seu corpo como ele é, desnuda emoções. Na hora em que comportamentos que funcionam no trabalho vão junto para a cama, só pode haver frustração. Cada coisa tem sua hora e seu lugar: tentar misturar é o primeiro passo para o fracasso.

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.