Nasci no Maranhão, oitavo filho de mãe pobre, analfabeta e terrivelmente brava. Sobrevivi graças a dois de meus irmãos, que me cuidaram: uma, tratando-me feito boneca. Outro, alimentando-me feito bezerro.

A primeira brincou de fazer tranças em meus bastos cabelos, já que ela própria não os tinha em quantidade que bastasse. E também se ressentia por não ter uma verdadeira boneca. Só uma muito feia de palha e sabugo. Nenhum de nós ganhou brinquedo. Naquele calor de cortar o ar com faca, cobertores não havia, mas alguns panos nos garantiam sombra de dia e, nas noites frias nos protegiam.

Dormíamos ao relento, em covas escavadas na terra, forradas por folhas e, quando dava sorte, por alguns trapos e pedaços de papel jornal. Ninou meus dormires com canções da terra e seus balouçantes braços que ventos brandos simulavam ao me trazerem dependurado em seu colo ou nas suas saias que vez por outra voejavam. A aragem era pouca, mas havia.

O segundo me carregou consigo para distantes paragens, ensinando-me a pastorear cabras que nos alimentavam e, a colher ovos e torcer o pescoço das galinhas que roubávamos, que rendiam excelentes caldos ralos para os oito de nós. Nossa mãe, talvez ela se alimentasse de sol, porque não lembro tê-la visto comer nadinha, como não lembro ela sorrir. Ou dizer qualquer coisa. Ela apontava. E gritava. Falava melhor com as palmas das mãos, que com a boca.

Sua tez carcomida e sua pele endurecida nos diziam quem nós éramos: uma família que viera do nada e terminaria em nada, que estudar não se podia. A vida era no campo, na estrada, nas paradas de favor. De pai nunca soube. Havia muitos pais de todos nós. Só conheci mesmo o de maínha, que também por ali se assentava, como que a fazer parte da paisagem crepitante naqueles sóis ardidos, nas fomes desvairadas e nas sedes desesperadas.

Dele carrego lembranças que me semelham a sonhos, sua voz doce e seus dedos nodosos me acariciando o rosto, único toque humano de que me recordo, em meio aos trancos que sobravam nos meus dias. Ainda sinto na pele aquele seu toque e os gestos de meus irmãos, que me roçavam o corpo, que me banhavam e me empurravam para frente ou me beliscavam quando deviam. E lembro os roçares das noites. Que dormíamos apinhados, entre pontapés e puns que escapavam por entre rostos, traseiros, mãos e pernas que se embaralhavam e vozes que riam. Não lembro muito além.

Demais irmãos formam um bloco desfocado em minha memória, imagens que tenho mais de pensa-los do que de vê-los. Mais de deseja-los do que sabê-los. Até que um dia, precisei fugir. Evadi-me da casa materna, onde vivia todo acomodado, não porque quis sair, mas por que escolhi sobreviver.

Meninão, já havia aprontado muitas, mas nenhuma como aquela. A gota d’água – ou de combustível qualquer – no balde materno que maínha mantinha cheio, pronto para entornar, transbordar ou explodir a torto e a direito com alguém de nós. Nunca soube por que apanhei tanto, nem porque meus irmãos foram desaparecendo de mim. Achava que era culpa minha porque, pelas minhas artes e traquinagens, alguns deles sempre apanhavam, em surras e pancadas ferozes de arrancar sangue.

Bater forte era a trivial linguagem do dia a dia de maínha. Não pensem, porém, que meu viver era torturante. Protegido pela inocência e matreirice, não deixei de saborear as delícias de uma infância povoada de irmãos vários e de priminhos que mal conhecia. Até os bichos eram meus familiares, estes melhores do que aqueles. Até que chegou o dia. Aquele dia.

Para não apanhar feio uma vez mais, do alto dos meus quase dezesseis anos e, por ter aprontado não lembro o que – ficou gravada mais a história da minha fuga, do que o evento que a gerou – antes de maínha retornar a casa me deitei sobre uma das nossas três mobílias: uma mesa para dez lugares, amontoados em toras, além de duas camas, que ocupavam toda a sala. Banheiro fora e cozinha, ao ar livre.

Lembro pensar que naquele fim de tarde ela se compadeceria ao deparar-se comigo mortinho sobre a mesa, uma vela acesa em cada canto. Eu, deitado de costas, mãos cruzadas sobre a barriga, procurando com este meu disfarce, esconder sei lá o que teria feito de tão grave, mas que certamente valeria mais uma boa surra, das quais trago comigo cicatrizes em braços, pernas, costas e cabeça. No peito, também, pelo menos duas, que nem costuradas foram.

Olhos fechados, pestanejando, sem conseguir conter o sorriso que tomou conta de meu rosto quando minha mãe levou o baita susto por mim programado e logo percebeu a trama, me vejo correndo feito um corisco. Melhor, feito doido, claudicando da primeira palmada da cara que me foi desfechada, correndo para nunca mais voltar à casa materna, onde vivi sempre espancado, mas sem medo, porque contava com meus dois irmãos que me protegiam com seus próprios mirrados corpos e assim apanham por mim, também.

Aquela mulher, nossa mãe, viu seu filho – eu – mangando de sua boa vontade e ato contínuo, deu volta em si, foi para fora e retornou em três segundos, portando vassoura numa das mãos e facão na outra: - Quer morrer, filho maldito?! Quer morrer?! Eu mesma lhe mato! Tinha voz e cara de besta fera. Não me restou mais do que aos pulos, cair na estrada e cuidar da minha vida.

Semianalfabeto – havia aprendido contas de somar e de dividir, algumas letras e palavras com meus dois irmãos – sem tostão na mão, saí da casa para o mundo, para essa vastidão de céus e infernos que um menino enfrenta quando sozinho. Sozinho, porém destemido e, esta foi somente a primeira vez que tive que correr para sobreviver. Nunca mais vi esta senhora, nem meus outros irmãos. Só os dois com quem mantenho conversa e, de vez em quando visitação.

Cheguei a São Paulo, sabe-se lá Deus como. Acho que foi Ele quem me trouxe. Precisou de mim aqui. Hoje sou advogado trabalhista, professor dos bons, consultor de excelência. Ganho bem e levo uma vida bastante decente. Tenho uma única filha, que a mãe me entregou porque não mais a quis. Minha filha, meu mais precioso bem, me acompanha na carreira, é com quem compartilho só as coisas boas de que não tive na sua idade. E ela compartilha das minhas, como quem quis logo e avidamente, desde pequenina aprender o que é cidadania e sustentabilidade.

Escrevo. Não como poeta, mas como consultor para o desenvolvimento de novas cidades. Minha poesia, eu a dedilho na minha viola caipira. Minha arte, eu arrisco nas telinhas que pinto para decorar o quartinho da minha neta que já está a caminho. Meu genro é como um filho. E a minha infância pobre e famélica ficou lá, quieta e bem guardada nas memórias de um tempo ido, forja dolorosa de um cidadão de bem, que tem uma história comum, não muito difícil, mas também não tão fácil de ser contada.

Meu nome é Luiz e torno-me avô aos 46 anos de idade. Mas quem me vê, chega a me dar uns dez ou doze a mais. Não faço conta.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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