Pensem o que quiserem

O texto retrata o despertar de um idoso, que retoma sua vida, após anos dedicado a sua esposa doente. Final interessante e algo surpreendente.

Pensem o que quiserem
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Casei-me uma única vez na vida. Por 43 anos fomos felizes até que a morte a tomou de mim. Levou-a embora numa noite estrelada, onde se pode imaginar de tudo, menos que a Grande Muda chegue e a carregue para o Tempo Sem Fim.

Ao fazê-lo, a primeira coisa que pensei, talvez como todos os enamorados pensem, foi e agora, o que será de mim?

Cuidei-a em sua doença prolongada, que foi tomando conta de seu corpo e de sua respiração, até que já não mais suspirava, porquanto mal respirava.

Mulher romântica, desde cedo uma das coisas que nela me cativou é que gostava de suspirar, seja para o alegre e lindo, seja ao triste e sombrio. Suspirava. Frente a uma obra de arte. Ouvindo uma bela canção. Assistindo a uma apresentação do Lago dos Cisnes, que ela própria um dia já dançara, quase à perfeição. E suspirava pela tarde que caía e pela luz que se escondia para dar lugar à noite.

Foi assim que me apaixonei pelo seu jeito de inspirar profundamente frente a qualquer coisa, a qualquer manifestação, da natureza, dos bichos ou dos outros, que a conduzisse para o mundo dos sonhos e tocasse seu coração. E depois, depois exalar e enaltecer o que se perdia.

Ouvia minhas juras de amor e suspirava sorrindo. Enterrou pai e mãe, sempre suspirando. Fê-lo por tristeza ou por amor infindo. Lia e suspirava. Tomava seu chá da tarde e ouvia contemplativa a boa música ou bordava delicados lenços de cambraia branca, plácida em seus suspiros. Uns profundos, outros nem tanto.

Suspirou quando me deu o sim, estendendo sua mão delicada e macia para receber o anel de noivado em seu anular e, alguns meses depois, quando se abandonou em meus braços para me receber dentro de si em nossa primeira noite de amor.

A maldição da doença foi estraçalhando meu coração, enquanto entrevando meu amor, pedaço a pedaço, até paralisar seus pulmões. Seu corpo gracioso foi se atrofiando lentamente, ganhando o aspecto de um bloco disforme, mal mantido em pé ou sentado, sem vigor, tudo em si degenerando, num tic tac implacável que passou a regular o andamento do tempo do dia a dia, mês a mês, ano a ano.

Já não levava comida à boca, nem sorria mais para mim. Seus olhos sem brilho e seus esgares imputaram ao seu semblante uma horrenda aparência de desgosto e, depois, de nojo. Sua voz melódica, agora rascante e desafinada, seus cabelos ralos e sem viço, tudo sinalizava que a morte espreitava pérfida o momento de tomá-la de mim. E eu diria, mesmo que culpado, leve-a logo! Por que demorou tanto?!

Em meu amor quase cego, eu já não mais reconhecia a mulher encantos mil dos meus sonhos de homem apaixonado. Aquela que lá se encontrava, não era a que eu queria, exigente e mal agradecida.

Tudo que não a atendia de imediato lhe despertava impaciência e a irritava. E sua irritação me transtornava. Nada lhe bastava. Fechava, então, meus olhos e procurava não ver em quem ela se transformara, mas enxergar com olhos de bondade, nesta desconhecida, aquela que eu ainda tanto amava. Fui marido de duas ao mesmo tempo. Aquela com quem me casara e esta, que passei a detestar.

Aconteceu assim, quero ser sincero, embora me sinta encabulado. Éramos eu e ela, ela e eu, só nós dois. Nenhum filho para dividir a atenção de um e outro. Não fazia falta. Nada além de nós dois cabia em meio à felicidade, que preenchia o espaço, tempo e distância que se colocasse entre nós. Sempre sabíamos onde estávamos e o que fazíamos, mesmo quando nossos corpos se separavam e se dirigiam para onde precisávamos. Ao trabalho, por exemplo. Visitar pai e mãe de cada lado.

 



 

Unha e carne, tampa da panela, almas gêmeas! Assim éramos e, até que adormecesse para sempre, forçada a me largar, quem não a largou fui eu. Apaixonei-me pela sua serenidade que, às noites e às manhãs roubadas aos deveres, transfigurava-se em tentadora sensualidade.

Dama na sociedade, puta na cama, perdoem-me pela palavra que fielmente retrata do que se tratava. Talvez nem tão puta assim, mas era como eu a via e não julgava. Se ela não correspondesse, minha imaginação me levava para onde e com quem eu queria.

Um dia, foi-nos dado o diagnóstico da Besta Fera com que duelamos por alguns anos e para a qual perdemos nosso orgulho, nossos pudores e despudores. Na doença a vergonha desaparece e resta a rendição que sucede à autocomiseração. Rendidos, tudo se torna mais fácil. É só esperar pelo desfecho.

E passei a aguardar sem, contudo, querer apressar, a não ser nos momentos de desespero quando sentia que não aguentava mais de tanta reclamação. Não mais queria vê-la prostrada, já não queria tocá-la. Não queria sequer olhar para suas mãos de fada, para seu peito contraído ou para o seu rosto desfigurado.

Veio em nossa ajuda uma sua sobrinha. Moça discreta e piedosa que tomou seu espaço e cumpriu com seus deveres. Doce como a tia, silenciosa como uma lagoa calma de águas tépidas e cristalinas. Lagoa ao pé da montanha cujo cimo desaparece por entre altas nuvens altas e neves invernais. Paisagem confortante.

A participar do desfecho, a presença da menina sobrinha se fez mais forte. Menina moça, que em poucos meses se fez mulher sob nossas vistas e que, na manhã seguinte ao enterro de minha amada, despediu-se de mim chorando e se desculpando não posso continuar morando aqui, na casa de um viúvo. Bem que gostaria, mas minha mãe não me permitiria se viva fosse. Minha tia doente tudo justificava. Agora preciso ir, senão o que vão falar?

Os baques que suas palavras desfecharam em meu peito deixaram-me sem fôlego. Não. Não poderia deixá-la partir. Era muito cedo. Eu não sabia, como até agora não sei, viver só. Tanto nos debruçamos, eu e a inexperiente sobrinha, em função das necessidades de minha esposa, sua tia, que nem me dei conta de estar também doente. E do quanto agora eu precisaria ser tratado e cuidado por ela, uma meiga menina. Quem haveria de ter pensamentos impolutos sobre morar, tio adotivo e sobrinha no mesmo casarão em que suportamos tal tragédia?! Pessoas impuras!

Deixei-me cair sobre uma poltrona e lá passei o todo de quase um dia, imóvel, sem trocar palavra. Imagino que meu olhar atônito, esbugalhado, deve ter-lhe feito o insistente pedido de que não me largasse. Ao menos, não tão cedo, enquanto não me recompusesse. Supliquei-lhe, em meu silencio, que não se fosse, que aguentasse. Até que consegui falar de novo e aumentei-lhe o salário em três vezes.

Passei a observar, poucos dias depois, seus modos agora mais alegres e descontraídos até ouvi-la cantar distraída, enquanto cozinhava a minha comida. Na minha mente ainda turva pela dor, ganhou brilho um novo pensamento. E porque não conceder-lhe uma situação decente para que não tivesse pejo de ser tida, pela vizinhança, por qualquer? Morar em casa de viúvo era uma coisa. Casar-me com ela resgataria sua honra.

Não mais do que dois meses se passaram e lá estava eu deliciado com sua voz, com seu riso e sua graça, que até se assemelhava à tia, que era esguia, enquanto sobrinha roliça se fazia. Recobrava suas forças e suas cores, assim como eu recobrava vontades há anos perdidas. E se fossemos caminhar no parque? Mal não me faria. Sem deixar de venerar a falecida, a nova, em minha mente mais e mais presente se fazia.

Observei-a no banho ao ar livre, não totalmente protegida pelas tábuas que o chuveiro circundava. Via-a pendurar no varal seus paninhos alvos, que coletaram seu sangue menstrual. Quão caprichosa ela era, em sua higiene pessoal. Um anjo, aquela menina. Passava sabonete por todas suas entrâncias e reentrâncias, sem deixar de tratar bem e democraticamente qualquer centímetro de seu corpo ágil.

Cabelos longos escorridos, molhados e perfumados, pele fresca e pés descalços, menina sobrinha corria com suas saias esvoaçantes pelo gramado e sua inocência por vezes permitia-me vislumbrar seu traseiro, que portava uma calcinha de algodão enfiada no rego. Quando flagrava meu olhar, sorria, me acenava. E corria.

Despertei certa manhã com a consciência de uma nova descoberta. Então, ela me tinha por viúvo. Vira-me como homem! Não mais somente um velho senhor alquebrado, um tio por afinidade, com quem nem se pensa em travar intimidade. E se assim a mim considerara, passei a considerá-la, também. Não mais menina gazela, mas vibrante jovenzinha, por certo detentora de segredos feminis que ela ainda, e com certeza eu, desconhecia.

Minha macheza, depois de anos adormecida, passou a importunar-me cedo, às horas matutinas. E bem acordadas, embaladas não mais por sutilezas de suave romance correspondido, mas por imagens tórridas de sexo incestuoso, selvagem, imperioso, penetrante e transbordante. Pura lascívia, gostei disso que antes lera, mas não sentira. Eu, velho viúvo desgastado, pronto para refazer a vida.

Passei a segui-la amiúde. Em casa. Pelas ruas. Inventei-lhe mais trabalho para que não saísse de perto. E corroí-me em ciúmes de amantes que, com maldades mil lhe atribuía. Resmunguei de tarefas não tão bem feitas, inventava eu, só para assistir o tremor de seus lábios carnudos e rosados. E suas pestanas baixadas, também umedecidas, modos de virgem aguardando ser inaugurada.

Ela corava e me provocava, com poses de devassa e ares traquinas. Fazia e ria. Ria e fazia. Permitiu-me cuidar de seu sono à luz da lua, mas sem tocá-la. Disse ter cócegas, quando em brincadeiras a relava. Brincamos, bem sei, de mão boba. Mãos de vontades próprias, que experimentavam aqui e ali o calor, a maciez e a dureza de algumas partes. Seus gritinhos e escapadelas fizeram-me perder o juízo. Deixou cair toalha no pós-banho e foi ao mato fazer necessidades sem se esconder direito.

Enquanto eu enlouquecia, ofereci-lhe frutas e biscoitos. Uvas geladas, bananas e, na temporada certa, figos doces, de lamber os beiços e gemer de prazer. Sem nenhum suspiro, lançando-me setas com olhar profundo, timidamente, me pedia posso me servir de mais um? Claro filha, lhe dizia, pega, pega, sirva-se de quantos quiser e couber. Caberia eu, um dia, dentro dela?! Essa pergunta me torturava.

Fitando-me com seus olhos negros, fincava seus dentinhos brancos pontiagudos, chupando o polegar e permitindo-me entrever sua linguinha inquieta, tateando cada fruta, enquanto extraía o néctar das carnes vegetais, me instigando a submetê-la a mim, ali e naquela hora, com a força de todo o meu ser e, assim fiquei. De quatro por aquela que eu queria de quatro para mim.

Desejei ser um pêssego, manga ou figo, não importa, para ser tragado por aquela boca e ser todo lambido, sorvido de fio a pavio, sentir-me revirado e conduzido para o mais íntimo do seu ser. Queria penetrá-la por todos os poros, buracos e que tais. Derreter-me em sua boca, percorrer seus intestinos, mas só depois de habitar seu ventre, dentro ou fora, todos os dias, o tempo todo. Queria fazer parte dela.

Reprimendas e elogios se sucediam, mas ela permanecia. Ora fazendo biquinho, ora beicinho. Ofegante, oferecida e provocante, por vezes recatada e bobinha. Foi ficando, ficando e meu corpo passou a exigir o seu, com voracidade e destemor, mas sem deixar de ser cavalheiro, que assim eu sou. Até que me enchi de coragem e fiz a proposta case-se comigo. Ela sorriu, sem suspirar e respondeu por quanto?

Pensei que falasse em tempo, até quando desfrutaríamos da nossa amizade eivada, reconheço e confesso, de desejos imperiosos e tamanhos. Mas não. Falou foi de dinheiro mesmo, esfregando seus marotos dedinhos indicadores contra os polegares, dando-me uma piscadela e um largo sorriso. Chocado, fiquei ainda mais eriçado e, com isso, um tanto agressivo e arrogante, fora do meu feitio. O que você pretende de mim?!

Sua aposentadoria. Você não é ex-Banco do Brasil?

Pensem o que quiserem. Ao vê-la esfregar seus ágeis dedinhos, menina me engoliu.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Medo de ficar sozinha

Medo de ficar sozinho

"Por que será que a partir de uma certa idade mesmo as pessoas que tiveram vidas independentes e solitárias sentem medo de ficarem sozinhas?"

Cleide de Souza, Paraná(PR)

Medo de ficar sozinha
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Ana Fraiman

Em primeiro lugar acho importante dizer que esse medo está ligado muito mais ao lado emocional de cada um de nós do que relacionado com a idade. Claro que quem já traz esse medo tende a vê-lo crescer com o passar dos anos. Trata-se da percepção aguda de que se está frágil, vulnerável a tal ponto que a pessoa acredita que a dependência do outro irá protegê-la. Ela busca proteção contra algum mal eventual (morte, acidente, algum tipo de separação) ou que já sente (sentimentos de abandono, solidão, menos-valia, etc.). essa dependência pode ser assumida de uma forma passiva (requerendo cuidados adicionais) ou ativa (protegendo outras pessoas e, com isso, tornando-se imprescindível). Esse quadro de fragilidade emocional, que pode acontecer em qualquer idade, não significa que não possa ser revertido, superada a ameaça.

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3 gerações

Sem saber o que dizer

O texto retrata um encontro memorável: três gerações de uma mesma família, convivendo entre si por algumas semanas, com seus interesses, seus dilemas e seus diferentes modos de ser, cada um no seu quadrado.

3 gerações

Você já reparou que não precisa mais de tanto espaço para morar? Que suas roupas não são as mais modernas, mas que você ainda gosta pra caramba de quase todas elas e que, na verdade, a maior parte nem sequer é tão aproveitada, assim?

Seus casacos pesados enfrentam temperaturas que, no eixo São Paulo-Rio, nenhuma delas alcança. Aquele, de quando foi esquiar em Aspen. Outro, quando esteve num fim de ano em Nova York. E um terceiro, que foi de sua tia avó, uma capa preta de lã, do Canadá, que nem o Batman quereria herdar.

E tem aquele outro, dourado, de shantung de seda, para usar em festa a rigor, sobre qualquer roupa, só para dar um tchan a mais. Era de sua tia madrinha, não era? Só que, ela era bem gorda e, você é magrinha, magrinha. Então. Vai pagar mais para reformar do que custaria um novo. Além disso, amiga, você já não tem mais idade de se vestir de dourado, não é mesmo?

Seus guarda-roupas. Mais cheios do que o necessário. Sapatos, bolsas de 30, 40 anos atrás pelo menos. Você gosta de usá-los quando está frio, não é verdade? De couro. Couro mesmo, daquele que fica manchado quando molha. As manchas, elas fazem parte, contam histórias. Agora, quem tem sapato de couro? Tudo pintado. Tudo para jogar fora e comprar outro. Pessoas como você, como eu, a gente cuida. Coloca as coisas para pegar ar, se prepara para os novos rigores gelados, que não vão acontecer. Se chegar um invernão daqueles, com certeza a gente vai se fechar em casa e não vai querer sair.

Estolas. Lembra? E pelerines. Ah, eram elegantes. Você tem muitas, não é? Disputavam holofotes com as golas de vison. Ao menos três: preto, cinza e bege. E duas outras, uma de raposa branca e outra toda rajada, em tons de marron e palha. Que pena, não se pode mais usá-las. Corre-se o risco de ser perseguida. Levar ovo na cara. Pois é. Ficam aí nos armários.

Eu vi, vi noutro dia, você fazer-lhes um carinho longo, suspiroso. Também faço. Gosto de tocar, de levar ao rosto, aquelas peles macias. Vou contar um segredo. Sabia que de vez em quando durmo abraçada com uma das minhas golas? Ah, você não. Você dorme com o seu cachorro. Eu acho anti-higiênico. Mas tem quem dorme. Respeito. Quem sou eu para dizer isso ou aquilo?

Faz tempo que eu não adormeço abraçada. Ao menos conservo as minhas peles. Sair às ruas? Nem pensar. Você poderá, no mínimo ser humilhada, ameaçada, além de levar raspança de um jovem que vai gritar na sua cara como você tem a coragem de sair com a pele de um animal esfolado? Sua bruxa. Já gritaram comigo. Só fora daqui é que a gente ainda pode usar vez ou outra. Ou fazer que nem a gente faz. Chama as amigas para um chá, para um carteado vê se chega antes das quatro e traz suas peles, tá? Eu preparo o bolo.

E seu neto, aquele advogado bonitão? Excelente por sinal. Só não gosto que ele é todo vegano. O único que ficou por aqui, né? Sei, vocês quase nunca se veem. Vive viajando, trabalha feito doido, que nem os meus dois. Workaholic, eles. Não é que ele exigiu que você comprasse uma segunda geladeira para guardar as comidas dele, para quando viesse tomar um lanche?

Foi ele, sim, o filho do seu filho, que na minha e na sua cara, em que pesem bigodes e barbas espessas, essa porcariada toda no buço, queixo. No pescoço! Não bastassem as pelancas – ah, isso é uma das piores coisas da velhice! Os homens ficam sem pelos e as mulheres têm pelos onde não deveriam, que desgosto! – não foi ele que acabou gritando: - Eu não como cadáver! Nem na mesma geladeira eles devem ficar! Vocês querem comer coisa morta, vocês comam. Eu e minha esposa, não! Até parece que a esposa vem aqui para visitar. Ela é que se faz de morta. Nem quando você pegou pneumonia.

Pois foi ele, sim, que teve o desplante de berrar com a gente, como se fôssemos canibais! Nós não falamos nada. Perdemos o gosto de continuar saboreando aquele sanduíche de carne defumada, preparado com o maior esmero. Sua ajudante que fez. Lembra? Claro que deve se lembrar, amiga, pois que desaforo foi aquele?! Neto gritando com avó. A mulher dele nem piscou.

Amiga, no nosso tempo isso jamais se admitiria. Outros tempos. Até que hoje eu consigo dar risada. Ele chamou de carne defuntada! Fiquei calada para não lhe constranger ainda mais. Seu neto pode ser um baita de um advogado, mas que é um abusado, isso ele é. Ele e a esposa, aquela lambisgóia, que não come isso, não come aquilo e que nem cozinhar ela sabe. Parece um esqueleto.

As mães não ensinam mais a cozinhar. Agora, quem cozinha é o homem. Por isso é que eles se habituam a ficar pedindo comida pronta e pagando uma fortuna por comida com gosto de plástico, tudo congelado. Do restaurante a casa, chega tudo frio e eles adoram. Nem pratos eles lavam. Comem das embalagens. Que horror.

Quisera eu ganhar a diferença entre o que essa juventude paga mais pela comida pronta e o que custaria se preparada em casa. Calculo que deve dar uns mil, mil e duzentos reais a mais por pessoa. Não interessa, né? Rabugice minha. Comem no almoço, no jantar, nos fins de semana e nós, igual você, amiga, conservando esse trambolho de madeira maciça para o dia em que tiver 10 à mesa, novamente disputando lugar para sentar perto da vovó. Nós.

Puxa, desculpa, desculpa. Não quis te fazer chorar. Longe de mim. Meus netos também são assim. Sentam-se na sala, mas ninguém desgruda do celular. Eles conversam entre si, sentados à mesma mesa, lado a lado, pelo celular! As brigas! Os bate boca. Eles não sabem conversar! Não olham nos olhos uns dos outros. Eles dizem coisas. Proclamam suas verdades, mas ninguém para, ninguém quer ouvir a opinião de ninguém. Eles querem falar. Dizer o que eles acham. Um bando de moleques malcriados, se dizendo politicados. Sei.

Mas não é culpa deles. Não é culpa de ninguém. É coisa desse novo mundo. Ficamos para trás, amiga. A gente envelheceu. Então, minha querida, está na hora de nós, velhos, mudarmos de casa. Melhor! Mudar nosso estilo de vida. Partir para morar pequeno, no máximo 50 metros quadrados, onde vai caber somente aquilo que for útil para a gente. Nada de quadros, esculturas, enfeites e lembranças. Vamos dar tudo embora! Xô. Chega de bugiganga.

Sabe de uma coisa? A gente vive com armários abarrotados de coisas que não nos pertencem. Nossa casa virou um depósito de coisas dos nossos filhos, que saíram do país e nós nem sabemos se um dia alguém deles vai voltar, mas conservamos a ilusão. Fora as coisas dos nossos pais. Você tem até coisa dos avós do seu marido! Lembra aquela maleta de médico que eles traziam?

A sua casa é um verdadeiro museu. Doa. Procura alguma associação que possa fazer melhor proveito, vender, sei lá. Onde já se viu ter coisas guardadas de cinco gerações?! Os brinquedinhos dos netos ainda bebês, de quando viviam na sua casa. Que era bom, era. Mas pronto. Já acabou.

A gente é besta, minha amiga. Vamos parar com essa coisa saudosista. Filhos não nascem para o mundo? Sim, eles nascem. Mas saem para o mundo, sob nossos auspícios, deixando as coisas deles sob a nossa guarda. E se a gente, como uma simples possibilidade, acenar-lhes de longe para que recebam as nossas coisas, mandam de volta a maior cara feia, com voz de nojo e quem é que quer essas tralhas todas, mãe?! Dá para a caridade! Dá para alguma noiva que quer casar. Desapega. Pois, então. Vamos botar num self storage e eles que paguem a conta.

Vez por outra alguém passa pelo Brasil, não é mesmo? Mais por conta de viagens a trabalho do que por vontade de passar uma temporada com a gente. Mas ainda conservamos a tal da mesa enorme ocupando a sala, pelo menos dois quartos totalmente montados, fechados e bem cuidados, com as coisas de quando eles eram nossos. E os panelões? Toalhas da Ilha da Madeira. Engomadas. Banquete. Talheres de prata. Quantos jogos? Quatro. Que loucura!

Ah. Antes vinham aos domingos, para se deliciarem com as nossas comidas. Agora, quando a gente - nas raras visitas de poucos dias - lhes oferece uma carne de panela, tal como eles gostavam, respondem que não, que não querem dar trabalho, que é melhor mandar vir. Pois que mandem. E que se mandem logo embora, também! Que ficar se preparando para recebê-los e depois nem sermos incluídas nos programas que eles fazem, só visitando amigos deles e viajando para ver mais belezuras da natureza, ah, isso deu para mim!

Não deu para você, também? A nossa amiga Carolina, aquela que de vez em quando vem jogar com a gente às 4as, está lembrada? Aquela, meio azeda. A gente chama por que ela joga bem, lembrou? Não? Não tem importância. Pois ela contou, um dia desses, que a filha, o genro e os dois netos vieram da Escócia, para passar quarenta dias aqui no Brasil, na casa dela.

Ela se preparou toda. No maior amor. Supermercado, sucos, tortas de carne e de palmito. Patês. Do bom e do melhor. Comprou até jogos de cama e banho. Tudo novo. Para os quatro. E umas roupinhas para ela também, para quando saísse com eles, visitar um familiar, pegar um cinema, um restaurante, essas coisas. Pois bem. Sabe o que aconteceu?

O genro pegou avião para cima e para baixo. Trabalho. No todo, dormiu na casa dela umas seis ou sete noites. A filha se matriculou num curso e ficou fora bem umas três semanas. Direto. Nem telefonava direito. Largou os filhos na avó. O neto se trancou no quarto e só saía para comer. E banheiro, lógico.

A neta foi a única com quem fez programa. Foram juntas ao cabelereiro umas duas ou três vezes. Também foram à 25, para comprar bijuteria, maquiagem e uma vez no Brás, comprar uns blusões. Não sei direito o que, umas bobagens. Ah, foram também lá, naquela papelaria chique do shopping? Bons passeios.

Na despedida vou te contar o que ela me contou. Que eles agradeceram pela hospitalidade. Que a filha estava aflita, que estavam em cima da hora, que se houvesse trânsito pesado seria problema. - Mãe, ligo quando chegarmos lá. Estou com medo de perder o avião. Ó, valeu, viu? Te achei muito bem. Nem resquício da pneumonia, né? Você está ótima. Me preocupei à toa. Que quando entrou no tai acenou com a mão e que esqueceu até de mandar beijo. Foi isso.

Só a neta a abraçou mais demoradamente: - Vó. Adorei ficar com você. Você é demais! Carolina não entendeu nada. Como assim, ficar comigo? Ela nem olhou na minha cara!

Quando nos contou dessa visita da família dela, falou que não sabia se chorava ou se ria. Nem nós soubemos o que lhe dizer. O freezer e a despensa permaneceram abarrotados. Disse que tem comida para um ano. Se nós queremos fazer uma reunião lá. Mas depois sumiu. Não soube mais dela.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

Quando funciona bem, fica tudo bem. Ou não.

Começo meu dia conferindo se ainda tudo funciona. Em mim. Tem dado certo.

Senhora tomando café
Imagem: depositphotos

Para os meus intestinos o cheirinho de café recém-passado (no coador de pano) é tiro e queda. Peristaltismo imediato! É uma de minhas horas de maior satisfação. Pingo quatro gotinhas no fundo da xícara e café a gosto. As gotinhas é que dão o tchan. Às vezes são quatro. Ou doze. Às vezes é um jato. A gente não consegue controlar tudo. Um pouco de reumatismo nas mãos.

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Velhice sem afeto

Velhice sem afeto

"Sofro de culpas e remorsos. Creio que errei em tudo. Magoei minhas filhas quando elas mais precisavam de mim. Hoje elas me acusam e se afastam. Tenho 63 anos e vivo sozinha como uma velha de 80 anos. Fiz o que achava correto na época. Será que mereço a indiferença delas?"

Suzana Rodrigues. São Paulo (SP)

Velhice sem afeto
Imagem: Pixabay

 

Ana Fraiman

Se na meia-idade não acordamos para a grande importância que é fazer novos amigos, circular em vários ambientes, despertar interesses diferentes, se nessa ocasião adotarmos uma posição de procurar somente nos filhos e netos nossa fonte contínua de afeto e bem-estar interior, estaremos criando as bases de uma velhice afetivamente precária.

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Férias Curtas

Claudinha e eu nos conhecemos por acaso em um ambiente de trabalho. Bem, nem tão acaso assim. Claudinha trabalha numa empresa de construção e eu lá estive para apresentar-lhes um projeto.

Velhas Amigas
Velhas Amigas (Google Images)

Não levei a concorrência, mas ganhei uma amiga e tanto. Só que ainda não sabia disso, porque voltamos a nos ver a não mais do que dois anos, dois anos e meio atrás. E foi, realmente então, que me apaixonei por ela.

Seu tipo miúdo em nada traduz sua grandeza. Esperta, antenada e cheia das boas ideias, cativou-me pelo seu entusiasmo. Só não gosta de trabalhar na empresa em que trabalha. Eu também não gostaria. Melhor dizendo, eu não suportaria.

Os três sócios, simplesmente não se entendem a não ser nas canalhices que cometem cada qual em sua especialidade. Um tem pós-graduação em Mentiras e Sedução. Outro, exímio Mal Pagador. O terceiro e menos cruel tem título honorífico em Traição e Ladroagem.

Como você consegue suportar esse tipo de pessoa, ambiente...? Ah, minha amiga, quando é preciso, a gente suporta o que jamais imaginou! É a necessidade. A gente arranja forças. Uh, se arranja! Quem disse que viver é fácil? Principalmente para quem já chegou à nossa idade e não encontra quem nos pague pela experiência que temos. Se precisasse, você aguentaria.

Ao menos, ela se diverte ao contar em tom de confidência, eles também enganam uns aos outros e a empresa vai bem por conta e risco dos empregados. Eles vivem aparecendo na tevê. Lindos, elegantes, perfumados. Bem, não sei se perfumados também. Empreendedores ‘gente boa’. Não necessariamente fina. O pior de tudo, continua, é que eles atrasam os salários, se é que pode chamar salário o que não consta da folha de pagamento.

Claudinha vive na insegurança. Nunca sabe se, quando e quanto vai receber, porque eles também roubam dos funcionários. Um dia eu recebo, afirma, quando alguém deles está mais calmo ou mais saciado em suas fomes de sexo, coca e rock’n roll. Aproveito alguma brecha de boa vontade e saio com o meu. A cada três ou quatro meses eu me sujeito a não ter como pagar meu aluguel.

Imagine que o fulano já me disse que não dá em cima de mim porque sou velha. Não porque ‘não faça seu tipo’, mas porque já passei da idade que acende seus apetites. E eu tenho que ouvir isso! Ouvir e ficar quieta.

Como assim, ouvir e ficar quieta?!? Porque não consigo trabalho em outro lugar. Você, com a sua formação...? Pois é, nosso país é assim. Quem não fez seu pé de meia, quando chega a nossa idade está ferrado. Não é trabalho escravo porque permaneço por livre e espancada vontade, mas é de doer. E vai chegando um ponto em que a gente fica doente. Eu fiquei. Você não?

Concordo que também engulo meus sapos boi. A idade mais velha é porta aberta para a negação das nossas qualidades, que não são poucas, diga-se de passagem. Pergunto-me de quais espécies batráquias tenho me alimentado ultimamente e concordo haja sapo! Tem de montão, para todos os desgostos.

Chega a amiga de Claudinha, de quem já ouvira falar. Mulher grandona, espirituosa, um pouco sem noção, o que torna tudo menos calmo, porém bem mais divertido. Apresentações feitas às pressas na rodoviária, embarcamos como três adolescentes rumo a Extrema. É lá que vamos nos refugiar das agruras de estarmos na idade de descansar, mas ainda precisando trabalhar.

Por mais trinta anos, estão dizendo! Mais trinta anos passando perrengue em cima de perrengue?! Cláudia fica acesa com a perspectiva. Vai ser o máximo! Declara. Marilena, sua grande amiga grandona que acabo de conhecer, refuta eu, hein?! Quero mais é morrer numa idade mais conveniente, digamos, antes de começar a apodrecer. Gorda desse jeito, vocês acham que vou ter de volta meu corpitxo? Já sou diabética, pressão alta, duas safenas. Só não halitose...



Quando jovem os homens abriam alas para eu passar, mas sempre davam um jeitinho de relar em mim. Quantas passadas de mão nos meus peitos e bunda levei? Lembram? Eles beliscavam a bunda da gente! Eu fingia que me ofendia, mas adorava! Só que tinha que fingir, certo? Agora eles abrem espaço. Vejo suas caras de asco de o que é que essa gordona suada está pensando. Gargalha. Daqui a pouco alguém deles vai me tascar um processo de assédio.

Faço conjecturas sobre que tipo de férias curtas eu terei. Essa mulher maluca, fedendo a cigarro, assumindo que ronca alto – será que ronca mais alto do que fala e tem voz de trombone! - junto com a Claudinha e seu quase insuportável otimismo em relação ao mundo-futuro-que-já-bate-às-portas e eu, toda cheia de dedos, em relação a manter quarto, banheiro, meu penteado e minhas coisas em ordem, que baderna vai ser? Ou que surpresas vou viver? Bem, penso, férias são férias. Agora é encarar. Será que vou conseguir descansar?

Entrego-me a Deus. Olha, deuzinho querido, meu pai adorado. Vê lá o que você aprontou para mim, hein? Pedi férias divertidas. Diferentes. Ô, deu-us? Deus me-eu? Olhalá. O senhor sabe o quanto precisei me virar para juntar algunzinho para relaxar, não sabe? Claro que sabe. O senhor vê tudo, sabe tudo, tim tim por tim tim. Ai, meu Deus, o que vai ser?! Quase me desespero.

No trajeto chacoalhante, Marilena não parava de falar. Inventou que tinha que fazer xixi. Aporrinhou tanto que o motorista fez parada imprevista. Saiu para fumar e retornou com ares de safada. Precisei decidir. Ou ficaria irritada por quatro longos dias, ou ligava o f... e o mundo que explodisse. Apertei o botão.

Foram as férias mais encantadoras que tirei nos últimos seis anos. Sorvi do otimismo de Claudinha, fazendo de conta acreditar que a vida ainda me traria muitas ótimas oportunidades. Pelos olhos dela a vida é e sempre será bela. Com os maus modos e a irreverência de Marilena retornei a minha adolescência, quando quarto bagunçado era só isso mesmo: quarto bagunçado. Um fato sem valores morais nem interpretações.

Tão logo chegamos caiu a maior tromba d’água. Quem ainda fala assim tromba d’água? Nós três. Quase da mesma idade, rimos de nós, do nosso vocabulário e das nossas manias. Mania de nos abrigarmos das chuvas e dos ventos, de sermos previsíveis e corretas. Ô, que gente chata nós nos tornamos! Lá chegando, a primeira providência: largar as malas no quarto e sair. Para onde? Exatamente, para caminhar na chuva! Chuva fria.

Senti-me livre ao enfrentar aquele aguaceiro todo – quem diz aguaceiro? –desmanchando o penteado clássico que havia feito pela manhã para viajar bem arrumada, que bonita não sei mais se consigo ficar, depois que minha neta me perguntou um dia vó, onde você estava? No cabelereiro, querida. Fazendo o que? Ah, tingindo o cabelo. Por quê? Para ficar mais bonita. E porque não ficou? Olhei para seu rostinho cândido e não percebi nenhum sarcasmo.

Andei pelos campos e retornei encharcada, toda desgrenhada, calçados enlameados, meias de nylon – usar meias de nylon numa fazenda?! Nem uma ET faria isso – mas voltei tão feliz, tão feliz como há muito tempo não me sentia. Até me atrevi a não correr para uma chuveirada quentinha. De novo, quem diz chuveirada? Virei dois cálices de cachaça da boa e permaneci na sacada da pousada, vendo o sol se por devagarinho, cedendo espaço para o macio e confortável escuro onde melhor se mostram as estrelas. Milhares delas!

Quem precisa de lareira para se secar? Ou de pantufas para esquentar os pés frios e cansados? O barulho dos grilos. O voejar dos vagalumes! Va-ga-lumes! O coaxar dos sapos, não aqueles que vivo engolindo, mas os de verdade, que vivem à beira dos rios, que portam casacas verdes, esperando pelas suas amadas tremendo de frio. Quis ser uma delas. Ter quem ainda me espere.

Falamos dos nossos amores. Das nossas paixões e dos nossos sonhos. Contamos nossos segredos. Rimos e bebemos muito. Precisei ser carregada à cama. Foi maravilhoso. Marilena com seu vozeirão e Claudinha com seu otimismo me reviveram. Que fazer terapia, que nada. Viaje com as amigas!

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.