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No contexto das novas estruturas e dinâmicas de trabalho o assédio moral vem tomando uma dimensão cada vez maior, nas empresas tanto públicas, como privadas, tendo se constituído num problema complexo de múltiplas causas, sendo simultaneamente humano, social e econômico, que atinge não só a pessoa e sua rede de relacionamentos próximos – família, filhos e cônjuges – como também colegas de trabalho, a parte empregadora e o próprio governo, pelo ônus saúde, que o assédio moral acarreta.

O assédio moral se caracteriza pela prática de atos hostis, mais ou menos explícitos, ocorridos intencionalmente no ambiente de trabalho. Estes atos são praticados por um ou mais assediadores, e deterioram as condições de trabalho: atingem o clima organizacional, a confiança nos relacionamentos, a aceitação do poder e da palavra das autoridades que representam a empresa e, mesmo, a confiabilidade em relação à qualidade dos materiais empregados na confecção dos serviços e do trabalho prestado, por uma ou mais vítimas da conduta de assédio moral.

A conduta de assédio moral visa atingir a integridade psicológica e/ou física da vítima, minando seus direitos e sua dignidade, podendo alterar seu estado de saúde de forma grave e prejudicar seu desenvolvimento profissional e, até mesmo chegando a interromper sua carreira, tirando-a de sua profissão. Ao atingir a vítima existe, ainda a intenção de excluí-la do grupo, do ambiente, de suas funções, da própria empresa, fazendo-a sentir-se inferior e inadequada, de tal forma que nada do que ela tente ou proponha resulte positivamente. Ou ainda levá-la à auto-exclusão, como última forma de enfrentamento às terríveis perseguições sofridas.

Algumas das práticas hostis mais costumeiras são: falta de direcionamento e de informações claras, necessárias e úteis para o bom e correto desempenho profissional; críticas sistemáticas, injustas e injustificadas; exigência de cumprimento de metas irrealistas; ordens contraditórias; falta de acesso aos instrumentos necessários para a realização do trabalho; tratamento diferenciado, discriminatório e preconceituoso.

O assediador também pode não se limitar a uma ação frente à frente: abusa de seu poder ao referir-se à vítima é, atacando sua reputação e sua imagem, denegrindo-a. Interrupções da palavra, isolamento físico e social, omissão de informações, esquecimentos propositais, sumiço de documentos, falsas alegações, acusações infundadas, armadilhas forjadas e práticas vexaminosas são, minimamente, as armas de que se valem os assediadores que se prevalecem de seu poder que, embora testemunhado, contam com o silêncio daqueles que têm medo de enfrentá-los e virem a ser, igualmente vitimados pela sua ferocidade desmedida.

Ainda que os mais expressivos e importantes teóricos do assunto afirmem que um dos principais objetivos das práticas de assédio moral é o de não reconhecer a qualidade do trabalho realizado, o investimento subjetivo da pessoa em seu trabalho1, a ligação afetiva que uma pessoa tem com aquilo que realiza e com o ambiente físico-social em que trabalha, particularmente acredito que o principal objetivo do assédio moral é de prevalecer-se sobre o outro, negar o valor da existência do outro, da sua pessoa e não, propriamente, da qualidade de seu trabalho.

O assediador não é, simplesmente, um invejoso, porque ele ou ela pode atacar a qualquer pessoa, independente dessa pessoa ser mais ou menos talentosa ou brilhante, tola ou inteligente, bela ou atraente, buscando roubar-lhe a própria existência ali, naquilo que considera de seu exclusivo domínio, seu reino absoluto: a área onde deseja imperar sem a presença daquele ou daquela com quem cismou, com ou sem motivo. Na verdade, eu diria que sempre sem motivo, porque a própria cisma é irracional. O desejar trabalhar ao lado de uma pessoal é uma questão de escolha ou de gosto, mas não a cisma. Esta tem natureza puramente emocional, destrutiva e injustificada. Muito provavelmente representando aspectos de identificação inconsciente, aspectos esses que o assediador rejeita em si e que, portanto, em não os reconhecendo em si próprio, tem muitas dificuldades de aceitar e, se for o caso, superar e transformar.

 

Há grandes dificuldades de comprovar que a vítima está sendo vitimada. E o tempo a que ela fica exposta é longo demais.

assedio-moral-trabalho-doisPara que fique claramente caracterizado o assédio moral é preciso que se dê a repetição das práticas hostis durante certo tempo, ainda que em intervalos irregulares, tempo esse convencionado em torno de 6 meses, o que particularmente considero temo excessivo. Pessoas bastante sensíveis adoecem e sofrem em demasia quando expostas por tanto tempo a tanta violência. Se poucos episódios já fazem com que pessoas se sintam desconfortáveis e inseguras, quem dirá por meses a fio serem surpreendidas como alvos da ridicularização de uma chefia e, talvez de todo um grupo que esta chefia pode, com alguma facilidade induzir à zombaria e ao boicote da vítima.

Esperar que alguém se exponha a uma situação de abuso por 6 meses, onde a pessoa permaneça sem direcionamento, sem apoio nem assistência ou sendo exigida em demasia ou levada a fazer coisas muito além ou muito aquém daquilo para o que ela está preparado é deveras penoso.

Há que se ter muito autocontrole para suportar tamanha provocação, muitas vezes levada à humilhação e, ainda ter que suportar os fatos mantendo a cabeça no lugar. Pois, do ponto de vista legal é necessário: conseguir permanecer de certo modo impassível, até coletar de forma organizada a documentação necessária para a comprovação do assédio moral, os testemunhos, relato de fatos, o estado de saúde anterior e atual, marcar as consultas médicas e comparecer às mesmas, obter os laudos perfeitamente preenchidos, observar a progressão de seu próprio mal-estar de modo a conseguir estabelecer o nexo causal, o que é um feito que poucas pessoas conseguem atingir.

Em geral as pessoas adoecem e largam seus postos no desespero, sem nem saber porque estão sofrendo tanto. Sentem-se culpadas por não terem dado conta do serviço, saem com raiva de suas chefias ou colegas e com raiva de si, por não terem reagido à altura e fica por isso mesmo. Nem sabem que estiveram expostas a condutas criminosas, passíveis de indenização.

Vale também esclarecer que, antes de decorrido todo esse tempo, a vítima deve se manter calada, agüentando as injúrias, com medo da retaliação. Ela precisa se manifestar, solicitar ao próprio assediador que seja atendida nas suas necessidades e que ele ou ela suspenda suas provocações, qualquer que seja a estratégia utlizada ou formas inadequadas de abordagem. Em não havendo resposta positiva – pois o(a) mesmo(a) poderá suspendê-las por algum tempo, mas depois mudar sua estratégia, intensificando seus ataques, a vítima deverá dirigir-se formalmente ao(s) superior(es) daquele ou daquela que se configura como seu assediador.

Muitas vezes uma pessoa que tem uma conduta inconveniente não se dá conta de que, com seu jeito de ser, está incomodando profundamente outra pessoa, a ponto de magoá-la, de desestabilizá-la e até mesmo de estar gerando enorme desconforto íntimo. Gozações, piadinhas de mau gosto que circulam livremente entre pessoas e pela internet, enquanto para uns só significam isso mesmo: mau gosto, para outros são ofensivas, pelo seu caráter discriminativo, preconceituoso ou imoral. Não é legítimo impor o próprio padrão aos demais e supor que todos devam aceitar ser ridicularizados em público, porque o direito à subjetividade nos é conferido por ordem de nascimento, sendo portanto absolutamente inquestionável.

Desavisadas, as pessoas podem errar e erram ao brincar com o que não devem ou não supõem que possa ferir alguém: sua etnia, sua formação moral ou religiosa, sua filiação, sua profissão, seu nome próprio, altura, sua linguagem, qualquer coisa que seja de sua característica pessoal. Todos cometem grosserias, vez por outra. Sabedores, porém, de que isso não é bem aceito, pessoas de bem se desculpam e param de usar desse artifício, deixam de fazer suas gracinhas.

Especialmente aqueles que ocupam posições de mando e liderança devem tomar especial cuidado no trato com aqueles de sua equipe, pois eles representam a empresa que os designou. O contrário significa nada mais nada menos que abuso e poder. O rosto humano e as inflexões de voz são igualmente, riquíssimos instrumentos para transmitir mensagens que suportam as palavras ditas, podendo reiterá-las ou desdizê-las. Da mesma forma o silêncio, que às vezes fala mais alto do que as próprias palavras.
Ou seja, o assédio moral pode ser cometido de forma explícita ou velada e, muitas vezes o é desta segunda forma, de sorte que quase não deixa rastros ou os deixa de forma não documental e, na sua forma ainda mais perversa, dificilmente é praticado na presença de testemunhas.

Bons assediadores sabem ser muito, mas muito sutis, mesmo. A vítima, mesmo, muitas vezes entra em estado de confusão, duvidando de sua própria percepção e, ao mesmo tempo que se sente perseguida, atribui sua paranóia a um anterior problema individual seu, que nada tem a ver com a situação atual. Daí seu sofrimento se intensifica, porque duvidar de si própria causa uma dor muito profunda, em razão da insegurança pessoal em lidar com as realidades que passam a se sobrepor e entrar em conflito. Instala-se o impasse e a vítima não sabe o que fazer. Fica à mercê.

 

Forma individual e/ou organizacional de assédio moral: setor público ou setor privado.

O assédio de forma individual em geral é praticado por pessoas com personalidade altamente narcisistas, com traços paranóicos, bastante obsessivos e que têm surtos de perversidade ocasional. No âmbito organizacional, o assédio é resultante de uma estratégia deliberada adotada pela empresa, estratégia esta que visa desembaraçar-se dos ‘altos salários’ ou em meio a fatores ligados à ‘reestruturação societária’, ‘modos de organização’ etc, onde os assediadores executam decisões organizacionais impostas pela hierarquia e/ou pela direção.

Ainda é bastante freqüente que nas empresas familiares as mulheres, sócias atuais e/ou herdeiras, futuras e necessárias, filhas e esposas dos sócios proprietários sejam assediadas moralmente por seus esposos, pais, filhos e irmãos, avós e outros membros masculinos da família, pessoas por quem têm afeto e em quem até confiam em se tratando da gestão dos negócios (ou não), mas que não lhe conferem espaço, a não ser um espaço ‘virtual’, sem poder decisório.

A inveja e o descabido e exacerbado desejo de poder se constituem, em conjunto ou em separado, no motor do assédio moral nas relações de trabalho e ele não é um acontecimento ocasional. Ocorre, tanto por excesso de ingerência e centralização, como igualmente por omissão do empregador/usurpador do poder, que não toma as medidas cabíveis a tempo. É, também, prática comum nos órgãos públicos, que loteiam cargos entre os apadrinhados, os quais atendem muito mais aos interesses do partido político que ocupa o poder naquele momento, do que a uma gestão conduzida profissional e tecnicamente, que atenda aos interesses e necessidades de toda uma população.

Medidas adequadas devem ser tomadas para evitar a exclusão da(s) vítima(s) do mercado de trabalho, pois assim o assediador não sairá vitorioso, já que com a exclusão da vítima o este atingiria seu objetivo e a vítima por sua vez encontraria dificuldades em se recolocar, principalmente por causa de seus antecedentes que lhe dariam uma conotação negativa. Pior ainda se no serviço público ligado à saúde. Não raramente a vítima entra em profundo estado de depressão e, estando deprimida, sua indicação para logo voltar a trabalhar com saúde e, sob as ordens da mesma chefia assediadora não seria minimamente adequada. É muito difícil para a vítima portar as marcas do tratamento que lhe foi imposto, bem como as seqüelas psicológicas e psíquicas que ela conserva. Não raramente, além de sua vida pessoal, sua vida conjugal e mesmo familiar podem ter sido severamente afetadas.

Voltando a estar sob a mesma chefia assediadora, seguramente esta vai manipular as informações registradas sobre a vítima, interpretá-las de forma maldosa, utilizar meios de comunicação muito agressivos e causar ainda maiores perturbações, visando tirar de vez a tal pessoa, sua vítima, de sua rede de relacionamentos: profissional e social.

 

Assédio moral: Quando as alianças e a solidariedade entre colegas se extinguem

As técnicas do assédio moral são essencialmente técnicas de desqualificação que buscam desacreditar a vítima, atingir sua dignidade e sua individualidade. O assediador consegue criar dúvidas na cabeça dos colegas do assediado. Aproveita-se da irritação da pessoa que é o seu alvo para responsabilizá-la e coloca-a na posição de culpada pelo simples prazer mórbido de sair-se impune com suas manobras. Por isso mesmo o assédio moral também é conhecido por ser uma prática de verdadeiro “terrorismo psicológico”.

Trata-se de uma das formas mais virulentas de agressão ao trabalhador e ao ambiente de trabalho, pois faz mal à vitima e àqueles que assistem calados aos ataques, que acabam por tornar-se coniventes com tal violência, por medo de que se voltem também contra eles. As alianças e a solidariedade entre colegas se extinguem e a confiança nas chefias é mera figura retórica, ficando o Código de ética como mais um simples documento guardado no fundo da gaveta, somente para constar.

A violência psicológica no trabalho gera custos diretos e indiretos. Diretos por conta do investimento perdido, em razão da vítima adoecer e se afastar, temporariamente ou para sempre, levando consigo todo o seu conhecimento. Do ponto de vista da gestão do conhecimento é um mau negócio. E custos indiretos, tais como baixa produtividade, perda de qualidade dos produtos, deterioração da imagem da empresa e degradação do ambiente de trabalho, perda da confiança da equipe e perda da motivação geral, que vão acarretar a necessidade de contratar consultorias externas para estudo do clima organizacional, propor soluções, trabalhar a motivação geral etc.

Na verdade, os custos da depressão são altíssimos e ainda estão camuflados. É, sabidamente, um problema grave de saúde pública, exigindo uma política especial. O que se sabe, porém, é que depressão é o principal motivo de afastamento do trabalho por doenças mentais, mas ainda não se sabe o quanto ela é causada no ambiente de trabalho por conta de práticas de assédio moral, de danos morais havidas provocadas pelas chefias, pelos colegas e por parte das políticas das próprias organizações. Também merece um estudo epidemiológico o aumento dos gastos públicos, havido com o tratamento da depressão, que bem sabemos podendo inclusive conduzir ao suicídio.

O assédio moral pode ocasionar a suspensão do trabalho, inaptidões temporárias ou definitivas, parciais ou totais e levar a(s) vítima(s) a ter(em) problemas de saúde físico-mental, tais como: sentir fadiga, taquicardia, graves distúrbios de sono e digestivos, emagrecimento, stress, alta ansiedade, tremores, taquicardia, extrema sensibilidade, irritabilidade, labilidade emocional, agressividade, dificuldade em operar máquinas e conduzir motores etc. Tendo visado a destruição do moral de uma pessoa, sua perda de estima de si, e sua sensação de culpa se instalam e ela se sente duplamente culpada: por ter sido fraca e não ter podido evitar e por ser ‘uma pessoa errada’. É um preço alto demais para pagar.

Trata-se de um preço existencial caro demais, que a vítima tenta pagar, muitas vezes com a própria vida, dívida de valor colossal em curto prazo e inextinguível a longo termo, tanto para si como para sua família, pais, cônjuge e filhos, porque o assédio moral não a atinge somente: ele desgasta os colaterais, sendo ainda fator desestruturador de lares e condutor a divórcios e separações.

Trata-se de uma problemática, portanto, que deverá ainda ser enquadrada como uma síndrome social e tratada como tal, ainda que sua origem e desencadeamento tenham ocorrido no ambiente de trabalho. É do consenso dos especialistas que, o assédio moral é uma prática de violência que se efetiva no trabalha e que é lesiva para todos: a ação é local, mas seus efeitos são globais.

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