Um dia me aposentei. Acho que cedo demais. Perdi meu trabalho, meu status, minha renda milionária. Fiquei mais velho, como todos ficam. Alguns amigos meus não tiveram essa sorte. Foram embora antes. Não tiveram que envelhecer. Porque isso é difícil. Põe difícil nisso!

Me aposentei
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Já tive e precisei ter muitas coisas. Muitas. Correria desenfreada para manter tudo. Viagens, negócios, recepções. Compras, carros. Filhos, amigos, muitos amigos de meus filhos, além dos meus próprios amigos. Faculdades e cursos disso e daquilo, casa na praia, todos se refestelando à custa de meu trabalho.

Era muito feliz com isso. Minha esposa reclamava das minhas ausências, mais assíduas do que minhas presenças, pois que, mesmo estando em casa – hoje reconheço – mal conversávamos. Falta de tempo. Marcávamos hora para conversar. E para transar.

Assim vivíamos como casal, numa vida de grife e de sucesso. Para mim, isso era qualidade. Em determinado sentido, talvez o fosse. Dois loucos, pois é o que éramos. Mas loucos que se sentiam realizados! Era tudo pelo que lutávamos anos a fio. Eu daqui, ela dali. Para isso é que nossos pais, imigrantes, haviam se sacrificado.

Um dia me aposentei. Acho que cedo demais. Perdi meu trabalho, meu status, minha renda milionária. Fiquei mais velho, como todos ficam. Alguns amigos meus não tiveram essa sorte. Foram embora antes. Não tiveram que envelhecer. Porque isso é difícil. Põe difícil nisso!

À hora em que se aprende a lidar com certos limites, outros mais estreitos se apresentam. Eu achava que a minha vida de executivo era difícil, cheia de desafios?! Desafio passou a ser amarrar meus sapatos! E perder a confiança na minha coluna. Ela ganhou vida própria, a danada. Quando resolve travar... Com certeza ela me trai.

Mas não fiquei assim - como diríamos - velho (?) de uma hora para outra, não. Não é assim que acontece. A coisa vai indo, vai indo, vai acontecendo e você, nem nota. Vai pensando que é só idoso.

Não se trata de cabelo branco, não. Nem ruga na cara. Para isso dá-se um jeito. Não são os músculos flácidos, nem os pelos, que abandonaram meu corpo, levando junto a aparência de maior virilidade.

Também não se fica velho quando vêm os netos. Ainda se está fortão para carregá-los e, brincando, brincando, ainda pagamos pela faculdade deles. E o homem, definitivamente, não fica velho quando a sua esposa fica.

Ela é que teima em nos fazer malhar e nos obriga a ir aos médicos, além de andar de guarda-chuva, mesmo em dias de sol! Ah, isso sempre foi mania dela. Fazia com os filhos, fez com os netos e, agora, faz comigo. Leva o guarda chuva, grita, quando estou de saída.

Não fiquei velho nem quando enterrei meus pais. A coisa pegou quando começou a chegar nos primos, nos meus dois irmãos, no meu melhor amigo... Também perdi um filho, para um câncer maldito. Mas isso não é velhice, foi uma tremenda fatalidade. Ali senti que me impus à obrigação de envelhecer ao lado da minha querida esposa.

Minha filha, gêmea do menino que se foi, hoje é uma senhora. Meio descuidada de si, muitos quilos desnecessários a mais. Igualzinha à mãe. Não que seja feia, mas poderia se cuidar melhor, eu penso.

Sabe aquela coisa esquisita de se dar conta de que sua filha caçula virou avó?! Talvez seja hora de você começar a ficar velho, você pensa. A ideia assusta, desgosta. Mas, também seduz e desafia! Taí, um negócio que eu nunca fiz! Legal. Muito bem, por onde é que eu começo?! Você não se dá conta de já haver começado há muito tempo.

Ok, decidi aceitar que fiquei velho e? E...? Nada mudou, de repente, no meu dia a dia. A velhice é manhosa, faz com que a sua coluna brinque de esconde-esconde com você no meio da noite. Ela me acorda sem motivo. Rouba-me o sono contínuo, de par com a minha bexiga. Juntas, essa duplinha pensa que manda em mim!

Estou reaprendendo a dar risada à toa, como na infância. Dizem que isso é bom, que faz bem. Dar risada dos próprios erros. E dos acertos. Dá na mesma. É tudo experiência. E para que serve a experiência? Para nada, a não ser para falar dela, contar a história da nossa experiência. História que os mais jovens não têm muita paciência de escutar. Que experiência leva tempo para ser adquirida e meus netos não têm tempo para mim.



Então, é chegada a hora de simplificar: para ser velho você não precisa de títulos, nem de pompas, de carros na garagem, de festas, reuniões, viagens, recepções.

Você ainda sente o paladar de um bom licor? Maravilha! Você recebe uma ligação, vez por outra, que não seja de um telemarketing de um Banco? Fantástico! Você troca umas palavrinhas com sua esposa antes de dormir? Assistem aos mesmos programas de televisão e depois comentam juntos? Muito bem casados. Parabéns.

Já não me aborreço nem implico com as coisinhas dela. Nem fico querendo aconselhar meus filhos. Só quando eles pedem. E tenho o cuidado de não lhes dar mais de um. Velho que teima em aconselhar vira, sabe o que? Um chato. Mais chato do que sempre foi. Só não gosto que ela está bem gorda. Mas nada digo, para não levar três vezes tanto de volta. Ela é braaava!

Dou graças por um bom prato de comida, pela chuva que meus olhos assistem da janela do meu quarto. Aprecio uma boa conversinha inesperada, uma carona gentilmente oferecida, um braço que me ampara numa descida. Larguei mão do meu orgulho besta.

Prefiro um abraço mais demorado, que me surpreenda, um beijo sem ser em dia de aniversário. Gosto quando recebo uma boa notícia do meu médico, a respeito daquele exame desagradável que fiz. Ele diz que meu coração é de jovem e dá risada. Ele é meio bobo. Parece estar soltando uma piada que só ele entende. Para que mentir? Não tenho nada de jovem, mas meu coração bate bem e dá conta.

É do que preciso. A máquina está com a funilaria pedindo reparos, mas o motor me leva aonde desejo ir. E vou atrás de que? De alguém que pronuncie meu nome com carinho, mas que não se atreva a dizer que eu sou o maior fofo. Isso me ofende. Essas moças atrevidas. Fofo. Onde já se viu.

Gosto quando alguém se lembra de me perguntar se preciso de mais alguma coisa, mesmo sabendo que a pessoa perguntou só por perguntar. Acho que me tornei um grande artista, nessa arte de prosseguir dando risada das minhas próprias idiotices. Nesses momentos dou risadas escancaradas. Quando rio das dos outros, sou mais dissimulado. Rio para dentro, sem soltar nenhum piozinho.

Suportar ficar sozinho, esse agora é o meu maior desafio. Parece que, por toda uma vida me preparei para essa hora. Na verdade, essa esposa já não existe mais. E meus filhos, um me abandonou antes da hora e o outro me abandonou agora. Mudou de país. Insistiu que eu fosse junto. Mas sei que não me sentiria bem num país de língua estranha, em terras onde não há nada de que eu possa recordar.

Não me atrevi a acompanhar. Iria atrapalhar. Quero permanecer no meu país machucado e estarrecido. Mas é o país que ajudei a construir. É a minha língua. A minha história. Os que já se foram não têm pressa de que eu os siga. Tranquilamente permanecem no aguardo de que eu continue a dar meus passos derradeiros. Antes disso, quero permanecer por conta própria.

Prossigo resistindo, até cumprir com todo o meu destino: não morrer antes do meu cachorro, que também já é bem velhinho. Quem haveria de cuidar bem dele? Só tem a mim. E ficarei ao lado dele até quando for necessário assisti-lo. Por isso caminhamos pelas ruas bem devagarinho. Não é por mim, é por ele.

Deus os abençoe, filhos, noras e netos! Quanto a vocês, eu os verei todos os dias dentro de mim.

#CrônicasDaVelhice - Por Ana Fraiman

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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