Viveu a vida ouvindo ser feiosa. Visitas, em sua casa, representavam o vexame de ser apresentada “está é aquela minha filha de que lhe falei…” Nem precisava mais do olhar enviesado para baixo, da boca torta ao sussurrar “a feiosa”, muitas vezes captada, pelos seus argutos ouvidos!

Gravado a ferro e fogo em seu espírito, o cognome saltava-lhe à mente, sem nem ser pronunciado, sempre e sempre que alguém a ela se referia. E mesmo quando não o faziam, não precisava, ela sabia. Ela se enxergava. Sabia ser feiosa, a mais feiosa dentre as demais meninas, as dentuças e banguelas, quatrolhos ou narigudas, gorduchas ou magrelas, sardentas ou branquelas. Altas baixas, negras, japas, barrigudas ou sem-bunda, nada, nenhum nome pelo qual qualquer delas fosse distinguida, lhe parecia mais vergonhoso que o dela.

Chegava a sentir-se culpada pelo acontecido. À noite rezava para que Deus tirasse de seus ombros tal castigo e vivia seu minuto de esperança. Rapidamente, adormecia para não perder o doce embalo que tal alento lhe trazia. Nutria-se das pequenas esperanças que todas as noites lhe nasciam.

Isso, até adolescer, quando tudo que as manhãs mostravam era uma nova espinha em seu rosto já tão transtornado e os peitinhos que já brotavam, marcando suas blusinhas de cambraia, que não mais fechavam direitinho. Peitinhos ainda pequeninos, não de mulher, mas já longe de serem de menina, que a envergonhavam mais ainda.

Ah, e a tristeza, que despertava, também, junto com as dores suas conhecidas… Dor nas juntas, dor de dente. Às vezes ocorria, de repente, dor mensal e, principalmente, a de cotovelo, que mais a incomodava. Esta era diária. Chá disso, chá daquilo, todas as dores passavam, menos aquela que a marcava como diferente. A dor de ser feiosa, feiosa externamente. Que era o que importava.

Suas esperanças noturnas foram sendo minadas. Deus não ligava a seus rogos e já tinha esgotado tudo que sabia sobre

rezas e orações. Buscando conforto, às vezes se convencia e se dizia, bem baixinho, para não ter que suportar mais a feiura de ser maledicente, dizia para si mesma que Deus era surdo. Ou que falava noutra língua, que um dia ela aprenderia.

O tempo foi passando e sua cara não mudava. Fosse bonita, teria rostinho, feições, talvez. Mas, não, tinha cara, onde a feiura só se acentuava e a perseguia, aonde ia. Culpa sua? Não sabia, mas a culpa a acompanhava. Por não saber rezar direito. Por não merecer um milagre. Por ter nascido daquele jeito. Por não gostar da mãe que tanto a machucava…

Sua mãe, tanta beleza tinha… Na voz, nas vestes, nos gestos, nos gostos, beleza que se transmitira para as outras filhas… Lindinhas, mignonzinhas, loirinhas, delicadas todas as quatros, a mãe e as três irmãzinhas, das quais destoava desde que, pela primeira vez, o ar entrara em seus pulmõezinhos e, na sala de parto berrara, seu único e legítimo protesto por haver nascido.

Foi só fazer-se menininha que suas sardas se alastraram. Seus cabelos não cresciam. Suas mãos ásperas, que quebravam as louças finas e que não pintavam, nem bordavam, nada em sua pessoa era feminino. Até os dedos de seus pés mais e mais e retorciam e, com isso, não dançava ballet, não tinha um bom equilíbrio, como suas irmãzinhas. Só se encolhia, estabanada e mais feia se tornava.

Era uma família de beldades, aquela. Todas as moças pequenas, porém muito belas. Menos ela, a feiosa. A inveja deu o braço para a culpa e, atreladas, ambas a atormentavam. E quanto mais o faziam, mais de sua bela mãe ela bem tratava.

Servia o chá na linda sala de vestidas, quando moças, se encontravam para as conversas da tarde, para contar dos bailes e dos namoricos. Fazia doce e confeitos decorados, quase perfeitos, para oferecer-lhes enquanto riam e, descuidadas, contavam seus viveres amorosos, que para ela não cabiam. Ao menos, ouvia. Falavam de flertes, presentes, alguns beijos roubados e, muitas intimidades consentidas, prazeres com que nem sonhava, pois mesmo em sonhos não deixava de ser muito feia e, nos bailes, a que sobrava. Tratava-as bem, a sua mãe e irmãs e todas as amigas belas.

Tratava-as mais do que bem, como que a tentar roubar-lhes e guardar consigo, ao menos na lembrança de seus ouvidos, um pouco de seu riso fácil, de sua leviandade, pois em sua vida tudo era grave, tão mais sério e grave quanto sua feiura que crescia, conforme ela amadurecia em sua solidão de moça feia, ficando para tia. Culpa e inveja, eternas companheiras, gravaram precoces rugas em seu sobrecenho e nos lábios frios e duros. Sua voz rouca, nem mais se pronunciava. Era em silêncio que trabalhava e servia. Servia. Servia, já que para nada mais prestava.

Assim, viveu até seus cinqüenta anos. Sabe-se lá porque, nem tudo tem explicação. Um dia, meio que desavisada, tão vazia, tão entediada andava, se esqueceu de si na vida e ali ficou, em meio ao parque, horas a fio, simplesmente olhando aqueles que passavam, as crianças que brincavam, os jovens que brigavam, corriam, gritavam, cantavam, qualquer coisa … Faziam o que, simplesmente, os jovens em todo o mundo fazem. Nem percebeu que sorria. Tivesse notado, teria brecado aquela ousadia, extrema liberalidade para quem, como ela, graça nenhuma achava em nada, nem bom sentimento algum ainda sentia.

Sorria assim, totalmente à toa. E ali ficou, sem essa nem aquela razão que justificasse. Ficou por ficar. Deixou-se estar. Sentiu-se tão bem, sem nada por dentro que, pela primeira vez na vida sentiu-se bem consigo própria. E, por inocente e livremente, as demais pessoas em sua volta, também, lhe sorriram. Foi tão inesperado e doce, e belo, que ela mesma se sentiu mais viva. E linda!

Ficou quietinha, bem parada, conhecendo pela primeira vez a leveza da beleza. Nem sabe o tempo que ali ficou, até começar a se mexer e deixar o parque devagar, caminhando com leves passos, como que flutuando ao saber de sua descoberta, para chegar em casa em meio à maior tragédia. Sua mãe caíra e rolara a escadaria. Suas irmãs, descabeladas, tinham nas faces a estampa do desespero. Suas faces retorcidas, grotescas. Aquela choradeira, pela mãe de pescoço destroncado e crânio esfacelado.

Não entendia para que tanta gritaria, já que ela mesma nada sentia. Nenhum sobressalto, nenhuma novidade, já tinha visto aquela cena cem, mil, um milhão de vezes. Só a surpresa ao constatar que, de verdade, era mais barulhenta e desagradável que nos sonhos. Bem menos satisfatória que em devaneios. Olhou para o rosto de cada uma delas, parecendo caricatura borrada de tempos já idos. Achou-as feias, muito feias e sem sentido. Uma reunião de mulheres choronas que urravam a perda da mãe que, há muito, já deveria ter partido. Foi a única que se aproximou, a tentar erguer do chão a mãe desfalecida, toda ensanguentada, já morta, embora ainda respirasse.

Quis, também, como por hábito contar-lhe de seu passeio. E, talvez, timidamente pensou, contaria sua descoberta. O milagre acontecera. Quem sabe sua mãe a redimisse da feiura toda, lhe desse a benção de vê-la com novos olhos?! Mas a choradeira de suas irmãs não deixava. Pode, somente, encostar seus ouvidos à boca da moribunda, que balbuciava: “Tive medo, a vida toda tive medo de que exatamente isso me acontecesse! Que tivesse que expirar nos braços de minha filha feiosa”! E morreu bem rapidinho, em seguida, cobrindo a filha com sangue e com mais nada.

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