As esposas dizem preferir que seus maridos passem ‘‘um tempo em casa e um tempo fora de casa”. Grande parte delas, senão a maioria, acredita que assim o casamento adquire um bom equilíbrio, cada qual desenvolvendo sua vida própria. A fórmula para uma convivência mais acolhedora e flexível é: “cada um no seu quadrado” e, em algumas circunstâncias, estar e decidir alguma coisa junto.  

Aposentado Superbonder
Imagem: Pixabay (Editado)

Afirmam, inclusive, que um homem se torna muito mais atraente “quando não está lá, o tempo todo”. Com certeza, reclamam e, até mesmo afirmam passar a desrespeitar, aquele que adere total e incondicionalmente à esposa, a ponto de “não deixa-la respirar”.

Quando se trata de um problema de saúde, que exige uma convivência permanente, isso se torna um imperativo, pelo menos por certo tempo. Algumas doenças são verdadeiramente perturbadoras, pior ainda quando não se tem recursos para contratar um empregado e, quando necessário, um cuidador e, também quando os filhos não ajudam, o que obriga o casal a estar junto 24h/dia. Seja homem, seja mulher, não se vive bem nessa situação: - “É como se faltasse o ar para a gente respirar! Chega a dar desespero.”

Em todo o mundo ocidental, os maiores sábios e melhores especialistas em relacionamentos humanos se pronunciam:

  • Num bom relacionamento - com papel ou sem papel assinado - ambas as partes precisam estar e se sentir solidamente comprometidas entre si, o que não implica em estar junto o tempo todo.
  • Além disso, o relacionamento necessita de “ar fresco”. Isso significa ter cuidados para consigo e, não só cuidar do outro. Fazem-se, também necessários estímulos para manter-se vivo, ou seja: cada qual precisa “se mexer”, fazer a sua parte, ser autônomo. A autonomia contribui para com a preservação da saúde conjugal.
  • Quando, porém, alguém deles fica “só na sua”, sem se importar a não ser consigo próprio, isso é considerado como um grave abandono e total deslealdade. Quando um age de maneira fria, distante e egoísta, cria um vácuo que rapidamente se preenche de solidão.
  • Quando os dois se tornam indiferentes, um para com o outro, dois temas passam a ocupar o eixo central das preocupações: dinheiro e saúde. Em geral, a falta de dinheiro e a perda da saúde, como temas quase exclusivos nas conversas do dia a dia, irritam e os afastam ainda mais.
  • A falta de afinidades não é problema, quando valores centrais são compartilhados pelo casal: respeito por si e pelo outro, confiança, atenção sincera e profunda, empatia, diálogo franco, admiração pela pessoa do outro e elevada autoestima por si próprio; diferenças são muito bem vindas, quando mutuamente respeitadas.
  • É uma atitude temerária esperar que o outro preencha a totalmente a vida do outro e que corresponda, positiva e alegremente, a exigências descabidas, que contrariam a visão de mundo de cada qual.
  • Questões relativas a problemas familiares necessitam da interação de especialistas, principalmente quando somente uma das partes enxerga o problema e a outra parte nega a existência daquele mesmo problema. Ao faltar uma visão clara sobre problemáticas familiares, sejam elas atuais ou futuras, o relacionamento fica altamente abalado: instalam-se fissuras que podem não ter conserto e o desejo de separação passa a circundar dia e noite aquele relacionamento.
  • O mais forte antídoto para recuperar relacionamentos abalados é a autonomia.

 

Motivação e Parceria

No início de um relacionamento há forte motivação para permanecer junto, mais da parte de um ou de outro, mas na sua somatória ambos encontram excelentes motivos para formar um par.

Um presta atenção no outro, quer agradar, move mundos e fundos para fazer o que deseja e o que precisa ser feito. Mas a mente humana busca por novidades. Quando as coisas viram rotina, a mente se entedia e as pessoas se acomodam, passam a não mais prestar tanta atenção assim, agradar ao outro ou deixa de ser algo importante. Nesse momento, a tendência é a de que um deles se dedique mais a fazer aquilo que deseja e o outro busque fazer aquilo que precisa ser feito.

As funções e as tarefas se distribuem entre os dois e ambos se especializam no que foi assentado. Trata-se de um acordo não claramente estabelecido e menos ainda verbalizado. Ninguém assina contrato algum, mas o modo de conduzir aquele específico relacionamento, sua cultura e dinâmicas própria, com as consequentes atribuições de responsabilidades, se estabelecem e se disseminam naquele núcleo.

É o que habitualmente chamamos de “zona de conforto”: um diz que praticamente já conhece o outro “pelo avesso”, sabe o que ela pensa, o que ele quer, e vai-se tirando conclusões que, não necessariamente, correspondem à realidade dos fatos e aos anseios de cada qual.

Há pessoas que se sentem muito bem com a ideia de que um bom casamento se assemelha e chegar a casa e vestir um chinelo velho, confortável e macio. As conversas giram em torno dos mesmos assuntos, as reações já se tornaram previsíveis, um sabe bem como agradar ou outro e, pelo cansaço e rotina chata, sabe-se melhor ainda como irritar o outro, também. Ao menos uma briguinha básica introduz um pouco de emoção!

A estas alturas de um longo relacionamento, o casal já firmou um grande acordo em relação às especializações mútuas, ficando comumente assim:

  • Ele trabalha fora e ela trabalha fora, trabalha dentro e ainda “faz o social”.
  • Ele vive as preocupações relativas a dinheiro e toma as decisões sobre os maiores montantes, ela também vive as mesmas preocupações de ganhar dinheiro, de administrar tudo em relação à casa, inclusive o dinheiro, além de tomar as decisões sobre as contas miúdas. E, em relação aos filhos, o que não é pouco.
  • Claro que esse acordo não se estabelece entre todos os casais, mas ainda é voz corrente que os homens se dão ao luxo de serem mais egoístas e eximirem-se de culpa, quando se ausentam do lar e da família, por motivo de trabalho. Ela se dá ao luxo de usufruir mais da convivência e do afeto das crianças, dos adolescentes e das famílias colaterais, além de conseguir manter suas próprias amizades, ainda que se martirize com a sua ausência do lar por motivo de trabalho.
  • Recai mais sobre as mulheres do que sobre os homens, cuidados sensíveis para com a saúde geral de pelo menos quatro gerações: cuidam dos pais e dos sogros, dos filhos, mesmo que já adultos, dos netos e de pessoas amigas e familiares de sua própria geração: acompanham as irmãs e as vizinhas aos médicos e às compras, ao menos em ocasiões especiais. Fazem-se presentes às consultas e às cirurgias de quase todos eles, conversam de igual para igual com os profissionais, contratam serviços domésticos, empregados e cuidadores, distribuem sua energia por uma rede muito maior que a de seus companheiros.
  • Ele, com todas as mudanças que ocorrem no mundo de hoje, ainda se orienta para conquistar o máximo em sua carreira e ela, via de regra, se dá por satisfeita com um bom salário num bom lugar e horários que lhe permitam conciliar trabalho, casa, família e frequência regular a uma boa academia, para manter a linha, já que a idade não perdoa e a menopausa bate à porta;
  • Próximos à aposentadoria, ele redobra sua carga de trabalho e de responsabilidades, na ânsia de provar que nada o ameaça e que continua produzindo à altura de seu cargo, enquanto ela já começa a voltar seu olhar para outras possibilidades, inclusive a de diminuir a marcha e passar a pensar mais em si própria;

O tempo passou, o relacionamento sobreviveu e ambos terão que encarar o fato de que mudanças são previstas e rearranjos são necessários. Perto dos cinquenta, ambos são chamados a atualizar seus Projetos de Vida e precisarão se reorganizar no tempo e no espaço. Trabalhar fora ou não será somente um dos problemas e, talvez não o maior deles. A grande questão é o conjunto da obra. Como passarão a viver dali para frente?  O que trará novo significado para as suas vidas?

Aposentar-se, sim. Mas não de si próprio.

À época em que uma pessoa se aposenta o conjunto da obra passa a pesar mais no bolso, na saúde e na qualidade de vida.

Aposentar-se não se restringe a rever as contas e conferir se o dinheiro vai dar ou se vai faltar. É o significado de vida que vai determinar se a pessoa vai preservar sua autonomia e se tornar um aposentado feliz ou um aposentado superbonder.

O aposentado superbonder é aquele ou aquela que delega suas decisões para a ou o companheiro. Que delega responsabilidades para o Estado. Que passa a viver a vida alheia. Que se sente muito mais bem disposto somente quando filhos e netos convidam a participar, porém sem abrir nenhuma chance de dar palpite, uma vez que são eles que escolhem o destino e geram as oportunidades.

O aposentado superbonder não faz nenhuma programação por conta própria. Prefere ler livros ou filmes que lhe sejam bem indicados e frequenta os mesmos salões de beleza de alguém da família. Passa a viver em meio aos amigos dos outros, faz algum esporte, sim, desde que recomendado pelo seu médico e prefere que escolham as roupas que lhe assentam melhor.

Pior ainda, ele sempre terá sido esta pessoa, que tinha alçada na empresa em que trabalhou, mas que não desenvolveu a autonomia pessoal. Sempre entregou resultados, desde que em equipe. E sempre se sentiu seguro na imagem pública que construiu e que agora perdeu, sem jamais ter-se dedicado a conhecer-se mais profunda e intimamente.

Agora, sem o seu trabalho, despido de seu cargo, não saberá mais qual a sua função na família, no mundo social e, muito provavelmente se encontrará sem amigos com os quais contar. Ficar no pé da companheira, na cola do companheiro ou dos filhos ou, ainda, querer lugar cativo nos braços da pessoa amada, não vai despertar-lhe a coragem, nem o desejo de se superar. Sua vontade de ir além será testada! E terá muito pouco com o que responder.

O aposentado superbonder é aquele ou aquela que envelhece antes da hora, não por causa da idade ou por causa da perda de um trabalho, mas devido a sua passividade. Tem jeito de recuperar? Sim, se a pessoa se empenhar em se abrir, em se descobrir e tomar a decisão de viver por inteiro, tendo algo a que se dedicar, uma pessoa para amar e uma causa à qual se entregar!

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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