Ele me ajuda na cozinha. Para, no entanto, vasculhando o nada com seus olhos que se embaraçam ao menor comando que requeira reconhecimento e maior concentração. As palavras já não mais sucedem a simples e certeira ação.

Velho Alzheimer
Imagem: Pixabay

Observo e suspiro, procurando conter a acidez do Demônio do Desespero que me assalta porque ele já não pode mais. Ele já não pode muita coisa mais.

Vou reconhecendo, como se examinando pelo avesso, os passos e os gestos descoordenados que desde os primeiros dias de vida vamos treinando, até ganhar destreza e automatismos.

A criança não sabe que a mão que passa a sua frente é sua própria mão. Não sabe, também, que em cima é uma coisa e em baixo é outra. Dentro e fora não fazem sentido. Assim enxergo no dia a dia a desconstrução da identidade daquele que um dia foi aquele em quem mais me apoiei e com quem construí uma linda família, além de uma grande carreira.

O marido decidido de vontades imperiosas. O pai sempre presente nos bons momentos e nos difíceis. Muitas vezes sem entender nada, sem enxergar o que desfilava a um palmo do seu nariz. Mas lá. Sempre lá como uma referência sólida de vida e de garantias mil.

Parecia ter não pés e mãos, mas tentáculos que nos encontrávamos, aonde quer que fossemos. Viajávamos muito enquanto ele trabalhava. Um amigo respondia por uma assistência médica na Paraíba. Um conhecido nos tiraria de qualquer enrascada em Curitiba. Um motorista era de sua confiança para levar e trazer a qualquer hora em Salvador. Um médico, um gerente de banco, um restaurante, um hotel. Um representante, um amigo, uma voz.

Oferecia-nos sua segurança à distância e sua palavra pelo telefone. Eram tempos de cartas, postais e fax, se muito. Sem computador, nenhum celular. Corremos poucos riscos em razão de sua rede ampla de conhecidos e, principalmente de amigos que nos receberam em suas casas e escritórios.



Todos nós crescemos muito em razão das chaves de segurança e das pessoas sinceras e dedicadas a ele, cuja amizade a nós se estendia. Ele trabalhava, enquanto nós, a sua querida família, viajava, trabalhava e também se distraia.

Esse foi o homem que se esquecia da data de meu aniversário, para me dizer algo de maravilhoso em qualquer dia. Numa manhã, sem mais nem menos, com doçura na voz, quase sussurrando, disse ter estado ali, por uns momentos me contemplando...

CONTEMPLAÇÃO

... você estava aí dormindo, com tal leveza estampada no semblante, embalada em sono tão profundo naquele instante, que tive vontade de mais te amar.

Tentei te acordar várias vezes, meio enciumado da tua calma, mas você nem se mexeu, possuindo minha alma, no seu silêncio sorrindo.

Daí eu cheguei já de barba feita e banho tomado e, fiquei parado. Pensando, sentindo. Que de qualquer sonho mais lindo, você é sempre vencedora.

Mesmo assim, quando está parada, respirando. Sem fazer nada, me enfeitiçando...

Ainda ouço suas palavras em meu coração. E isso é quase tudo de mais precioso que tenho e que cultivo. Amar o outro assim parado, sem fazer nada, só respirando, é para poucos.

Deito-me ao seu lado. Procuro entrar no mesmo compasso e respirar junto. Fazê-lo sentir minha presença, mesmo quando acordado seu olhar não me fita e, se fita, não dá mostras de reencontro. Isso tem acontecido com frequência. Uma hora está, noutra não. Ele mal percebe e urro de dor silente, que me invade as vísceras e me faz sangrar a alma.

Na cozinha me ajuda lavando louça. Mais quebrando, que lavando. Luto comigo para não ser ríspida. Mas tiro as coisas de suas mãos, com alguma brusquidão, o que abomino. Não tenho tempo. Vivo com pressa. E me recrimino.

Fico encharcada da mais pura e explosiva ansiedade, a cada degrau da derrocada que sofremos, quando volto a casa e o encontro roncando, de roupa em nossa cama a minha espera. Eu, o ar que ele respira.

A ansiedade, amiga e inimiga de todos os meus dias, toma o lugar da esperança, esperança tola de que amanhã, ao acordar, ele vai estar ao meu lado, me olhando e me sorrindo, também calado.

Ele me oferece um simples café preto, que já não consegue mais fazer sozinho. Vezes sem conta acordo mais cedo para deixar um café já coado, que ele vai me trazer com suas mãos trêmulas. Que provavelmente vai derrubar pelo caminho. Deixo pronto e quentinho. Preparada para receber e agradecer pela sua atenção. Ritual nosso.

Ele vai-se indo. Vai-se indo embora sem nem dizer adeus, meu amor. A doença maldita o rouba e leva para longe a passos cada vez mais velozes. Vai tomando conta do nosso tempo juntos e meus demônios me martirizam, porque eu o perco mais um pouco e um tanto mais a cada dia. Ele, o ar que respiro.

Estancada em meus planos e projetos, procuro não pensar no amanhã. Já basta o tempo presente, que um dia, não sei em qual deles já não saberá meu nome. E eu amarei mesmo assim. Gritando com um deus inclemente, de cujos desígnios nada sei. Nada sei.

Deus de bondade e de misericórdia? Conta outra. Lá, de onde alimento a minha fé, esse deus não me responde. Não é Aquele para quem rezo suplicando por forças. É o deus da minha infância, que eu queria.

Faz-me falta a minha mãe para chorar em seu colo e sentir suas mãos macias sobre minhas faces molhadas, seus dedos deslizarem meus cabelos, sua voz cantando para eu dormir e dizendo isso passa, minha filha, isso passa.

Faz-me falta meu pai para descascar laranjas e me levar á feira para comprar pêssegos salta caroço, desses que já não existem mais. Para me contar dos seus tempos de guerra e de fome, tempos em que viveu na Europa e seu pai morreu de tiro perdido, ele dizia. Entrou pela janela e matou seu pai. Como assim?! Sim, foi desses tiros... E eu não acreditava, achava que sua a invencionice. O que sabia eu da vida? Mais do que ele, meu pai, eu pensava.

Falta-me a paz de criança dormindo, enquanto vejo e sinto meu marido se desconstruindo e, se dirigindo para não sei onde, estando cada vez mais longe de mim. Logo mais ele não saberá mais que sua mão é sua mão, nem o que fazer com ela.

Seus dedos já se atrapalham com cadarços e botões. Celular não mais lhe presta. Aguarda que eu chegue a casa. Deitado de roupa sobre a nossa cama. Ao acordar, me pergunta se já jantei ou se quero alguma coisa. Quase sempre deixo alguma coisa à mão, para que tenha o prazer de preparar e me trazer.

Meu peito se preenche de amor com tal singeleza, enquanto minha mente se enche de horror. Meus demônios me atormentam. E meu amor me alimenta a fé. Até quando não sei, ninguém sabe quem vai antes, se ele ou se eu.

Vencemos mais um ano. Dois mil e dezessete não foi fácil. Mas juntos a gente vence. No ano passado adormecemos e nem ouvimos o espocar dos fogos na Paulista. Só nosso doguinho latiu para cumprimentar o ano entrante. 2018? Seja bem vindo. Sinta-se em casa. Tem muita vida, ainda para se aproveitar. Quer tomar um café fresquinho conosco? Acabo de passar. Vamos juntos respirar. Eu, meu marido e você, 2018. Quem sabe tudo vai mudar?

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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