Abandonei meus pais idosos. Motivo? Eles me abandonaram primeiro.

O Abandono Afetivo Inverso vem se tornando cada vez mais conhecido e, não somente, no mundo jurídico. A mídia mostra de forma direta toda uma sorte de abusos que idosos vêm sofrendo diariamente no âmbito familiar e, muitas vezes dentro de suas próprias casas.

Abandono Afetivo Inverso
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O que é o abandono afetivo inverso? Quando se fala de 'abandono afetivo' entendemos tratar-se de 'pais que não estão nem aí' com os seus filhos. São pais ausentes, hiper concentrados em seus trabalhos e em seus próprios interesses. Pais que tomam o café da manhã com a cara enfiada no jornal ou já bem cedo, assistindo os noticiários pela televisão.

À noite, voltam tão cansados, ou ainda cheios de trabalho a fazer, que nem conversam direito. Querem silêncio ou, então, só abrem a boca para perguntar de notas e compromissos. Reclamam das coisas, dão ordens, mas não conversam. Falam ao telefone ou se jogam na frente da televisão até dormir, o que não leva muito. De si mesmos, não contam nada, a não ser do quanto a vida é difícil e de como seu trabalho é pesado. Pais descarregam nos filhos suas frustrações e acreditam estarem ensinando sobre a vida. Falam de si e não ouvem o que seus filhos querem e precisam contar ou pedir.

Esta é uma forma de abandono afetivo: não ouvir. Sempre com pressa, sempre com opinião já formada, sempre 'cheios de razão em tudo'. São 'pais que sabem'. Não são pais que perguntam a opinião de um filho. Quando o fazem é mais para corrigi-los, que para entender o que eles pensam e dizem.

Outra forma de abandono é agir com desprezo e violência. Pior ainda, usar de ironia. Desdenhar, criticar em público. Diminuir um filho perante outras pessoas. Mandar calar a boca. Pior do que uma bronca justa e bem dada, é se comportar com superioridade. Sua autoridade como pais logo se esvazia. Filhos não respeitam pais autoritários, nem respeitam pais violentos. Filhos calam a boca e viram as costas ou os enfrentam de nariz erguido, tanto quanto. De todo esse rol de horrores, usar de ironia é a pior das covardias.

O estrago que a ironia faz na alma de cada criança, de cada jovem, tão necessitados do acolhimento de seus pais.

Nenhuma criança tem defesas contra a ironia. Uma baita surra de cinta faz com que uma criança fuja. Que vá para longe e, talvez nem volte. Mas a ironia fere a alma e a criança não é capaz de reagir. Nem de fugir.

A ironia está para o amor próprio de um filho, como qualquer substância ácida está para o estrago de qualquer superfície: ambos corroem e desfiguram. A ironia destrói uma relação e, pior, faz com que uma criança, um jovem, pague um preço caro demais. Já de início por não ter com quem contar. Mais tarde, porque terá perdido a confiança em si próprio, o que torna muito mais difícil voltar a confiar em outro alguém.

Melhor uma bronca justa do que o silêncio ou o olhar vazio. Esta é outra forma de abandonar afetivamente um filho: a omissão. Nunca 'poder' estar presente. Deixar de tomar as atitudes que cabem aos pais tomar. Virar as costas num momento difícil para um filho. Deixar de proteger este filho ou expô-lo a situações indevidas e imerecidas, sem atentar para o fato de que uma criança, um jovem, pode entender muita coisa, mas seu coração ainda muito tenro e imaturo, não consegue compreender todas as coisas.

Jamais uma criança conseguirá enxergar com clareza que a maldade é de seus pais e, não sua.

Os pais devem, inclusive legalmente, assumir sua missão: proteger, educar, alimentar e nutrir afetivamente seus filhos com sua presença, com seus cuidados, com sua atenção. Isto significa muita coisa, menos virar-lhes as costas ou castigá-los com a sua ausência e o seu afastamento. A coisa é tão séria que, mais tarde, estes filhos poderão processar legalmente pais que os negligenciaram, que os intimidaram, que ironizaram e os expuseram ao escárnio da parte de outros familiares e amigos. São pais e mães que cometeram o crime do abandono afetivo. A literatura psiquiátrica, bem como a psicológica, registram perfeitamente, os males que o abandono afetivo causam numa criança, num jovem em formação.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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