A estética de servir à ética de amar – Considerações político-econômicas

Santo Agostinho

Uma economia próspera não basta. Por mais que se lute e se conquiste o conforto e o bem-estar, por si só a economia não responderia per si à altura de proporcionar tudo aquilo que faz crescer e satisfazer anseios nossos.

Santo Agostinho
Imagem: stock.adobe.com (Santo Agostinho)

A única medida do amor é amar desmedidamente. (Sto. Agostinho, in O capitalismo é moral?, obra de Comte-Sponville)

Mesmo a verdade e o amor pela verdade pode ser um grande impulsionador das ciências e da busca pelo conhecimento, que é infinito. Motiva pesquisas e está na base do saber e do próprio conhecimento científico, mas não é suficiente a tal ponto que dispense a demonstração, a praxis.

O amor à liberdade esbarra tanto nas leis, como nas políticas que têm por anseio dirigir uma sociedade democrática e conquistar a plena cidadania. Esbarra também na moral, na medida em que o amor é cego e acontece mesmo em situações não-apropriadas e relações interditas. O amor à liberdade, também deve servir e se submeter as responsabilidades: tanto da moral, quanto da lei.

E por mais que venhamos a prezar e lutar pela conquista da plena cidadania, também ela não basta, porque: se atende a questões da solidariedade, não chega a responder nem estimular a grandeza da doação de si e da generosidade, supremas provas de amor ao próximo.

O amor ao próximo também não basta, porque amores ilícitos acontecem e nem todos são dotados de bondade e pureza tais, que levem-nos a abdicar por amor ao mais próximo dos próximos, que também confia e retribui a quem lhe quer bem. As traições acontecem na mesma medida que os amores e a história sobejamente o comprova.

Mais além do amor ao próximo, há que se ter moral, com direito ao sentimento de culpa e, também, de vergonha, quando se sente amor a quem não é “de direito” ou quando ocorrem violações de tabus.

É por isso que necessitamos de quatro ordens, nos ensina Comte-Sponville. (p. 69). Porque elas precisam existir simultaneamente, cada qual dentro de sua própria lógica e independência relativa: política, econômica, moral e ética.

As quatro são necessárias e nenhuma, somente, é suficiente. Confundi-las leva ao ridículo e à tirania. Para Blaise Pascal há três ordens: a da carne, a do espírito de razão e, a do coração ou caridade). Caso se confundam duas ou três delas, chega-se ao ridículo: o coração tem razões que a própria razão desconhece! Ou como suspira Fernando Pessoa: “Toda carta de amor é ridícula. Mas o mais ridículo é nunca ter escrito uma carta de amor”.

Se o ridículo é a confusão entre duas de três das ‘ordens pascalinas’, a tirania é o ridículo no poder, segundo Comte-Sponville, ao citar Pascal: “A tirania consiste no desejo de dominação, universal e fora da sua ordem” (in Pensamentos, 58-332), além do que, “o tirano é aquele que confunde a autoridade com a própria ideia de poder”.

Em outras palavras, ridículo é aquele que governa ou pretende governar numa ordem em que não tem qualquer legitimidade para tal” (pág. 90). A tirania e  ridículo caminham juntas e de mãos dadas, tal como o amante que quer ser obedecido ou o rei que não se faz acompanhar de um conselho de sábios. A “vontade” de uma ordem, sejam aquelas apresentadas por Pascal, sejam as propostas por Comte-Sponville, nunca bastou para resolver problemas de outra ordem.

Não basta, pois, a vontade política para corrigir os salários e/ou elevar os proventos da aposentadoria. É preciso vontade e ação na esfera na economia, aponte de capital e fontes de custeio. Na falta de uma, todas as demais fracassam. De que adianta herdar o direito a receber uma aposentadoria digna, se não há dinheiro em caixa, para fazer valer esse direito?

Este é um dos maiores riscos que atualmente corremos: o de virmos alegar direitos constitucionais aos nossos filhos e netos, direitos garantidos por cláusula pétrea, mas vazias de mecanismos, instrumentos e conteúdo para fazê-los cumprir. Se como sociedade não nos mobilizarmos conscientemente, as próximas gerações de brasileiros e brasileiras herdam o direito de receber nada, garantido por lei.

Trata-se, então, não só de aplicar as vontades políticas e econômicas. Aposentadoria é, também, uma questão de ordem moral; se assim não for, instalam-se a barbárie e o angelismo.

Este é o alerta de Comte-Sponville: “Submeter a moral à política é barbárie. Mas submeter a política e o direito de uma utopia moralmente generosa - uma sociedade de paz, de abundância, de liberdade, de fraternidade, de felicidade -   é angelismo. Conhecemos os resultados dessa temível conjunção”.

Por mais que as políticas de Gestão de Pessoas proclamem ser o homem, o seu principal capital, isso é ótimo para inflar os egos daqueles que acreditam nisso. Pode agir como mote motivacional num primeiro momento, mas na prática do dia seguinte já se constata tratar-se de uma fala vazia, porque os empregados terceirizados, cooperativados, estão todos lá para trazer lucro para as empresas. Senão elas se retiram, se transferem para outras localidades e, com elas, podem escoar rapidamente todo um projeto de vida, não somente de pessoas e famílias, mas de toda uma comunidade.

Especialmente numa época de globalização do mundo financeiro, como a que vivemos. Os seniors empregados mais antigos e de maior salário já não são mais reconhecidos como Prata da Casa. Se prata houver, será somente na cor de seus cabelos. Alguns disfarçados pelas tinturas, outros ausentes das cabeças calvas, ou seja, todos eles e elas. Ser subitamente dispensado em idades maiores causa envelhecimento precoce e desorganização pessoal para o novo  trabalho.

A política tem-se submetido cada vez mais à economia estatizada, a barbárie tecnocrática e coletiva. E seja pelo angelismo, seja pela barbárie, as guerras se fazem e as pessoas, sacrificadas morrem. Têm seus sonhos e projetos de vida totalmente esvaziados e são condenadas a tentar sobreviver na miséria: econômica, cultural, moral, educacional e existencial. Dessa degradação humana e social, em larga escala, Victor Hugo tratou em Os Miseráveis.

Como vivemos todos submetidos às quatro ordens elencadas por Comte-Sponville, há que se entender e aplicar as nações de responsabilidade e solidariedade. É necessária uma matriz objetiva sustentável e uma volta às origens e raízes, volta essa isenta de subjetivismos morais.

Se desejamos e, parece que as pessoas de bem assim desejam de todo coração, conquistar a paz social que é fruto da justiça (opus justice pax), no que implica dar e garantir a cada qual o seu direito (suum cuique tribuere) e reconhecer como fontes garantidoras de todos os direitos:,

  1. A natureza, em relação aos direitos não outorgados e, sim reconhecidos; e,
  2. Os contratos, que envolvem todos os demais direitos conquistados e convencionados num estado democrático (pacta sunt servanda).

Ainda que se fale em nação de cidadania, há que se implementar e cultivá-la na prática, como exercício diário:

  • Em relação aos políticos, pela elaboração da legislação positiva consoante com a lei natural;
  • Em relação aos demais cidadãos maduros e conscientes (educados desde a mais tenra idade para tal), por meio de manifestações organizadas e dentro do espírito da lei, com relação à aprovação ou reprovação de políticas públicas e o exercício da legítima vontade da população (vox populi vox dei);
  • A superação resiliente, pelo efeito de um programa nacional de educação para todas as idades, baseada e movida por princípios e valores éticos de caráter em vez de valores personalistas;
  • Erradicação, pelo trabalho e pela educação para todos do, isenta do cinismo e do conformismo que, no limite confluem entre si e representam as duas faces da mesma atitude de pouco se importar, seja com dramas da vida, seja com os seus desfechos, gerando oportunidades de debate, através de fóruns organizados e, o espontâneo, segundo comunidades de interesses, necessidades o oportunismo;
  • Extenso e imediato combate ao analfabetismo digital, além de funcional;
  • O incentivo às artes e à cultura, iniciando-se pelo incentivo de aproximação e desfrute da boa literatura e o estado de filosofia, desde os primeiros passos na infância;
  • Pela discussão e conscientização da alçada de cada um dos Três Poderes (Judiciário, Legislativo e Executivo), acrescidos de um Quarto Poder, de caráter independente e incorruptível, representado pelo MP – Ministério Público e, um quinto poder, que trata da liberdade de produção e acesso ao mundo do conhecimento e das informações, representado pela Imprensa Livre, os dois últimos devendo ser e permanecer legitimados como fontes de real poder em nossa sociedade.

Uma vez que tanto o MP como a imprensa livre exercem exemplarmente o papel de controle na preservação da ordem democrática, mediante a defesa dos princípios éticos de todo e qualquer ato público e/ou privado, não se pode prescindir do seu exercício e plena participação na vida da(s) comunidade(s) e da nação, para evitar e coibir desvios éticos na condição das questões e coisas públicas -res publica - bem como as violências, os abusos e atentados aos direitos humanos fundamentais permanentemente abertos e acessíveis à manifestação popular.

Conflitos de interesse sempre se apresentarão, assim como omissões pessoais em relação às responsabilidades assumidas em qualquer uma das ordens: política, econômica, moral e ética, incluindo-se o MP e a Imprensa Livre, não devendo uma se submeter nem se deixar confundir pela outra, mesmo que num dado momento a decisão a ser tomada tenha que privilegiar alguma delas.

Boa parte dos problemas que hoje encontramos, esclarece Comte-Sponville, se deve à defasagem ampliada, nas últimas décadas entre o universo técnico-científico (pertencente à ordem 1) e o universo jurídico-político ( pertencente à ordem 2), aliado ao fato de que os problemas econômicos se apresentam em escala mundial, em sua insistência de globalização econômica.

Enquanto a maioria dos meios de decisão, ação e controle (da ordem 2), só existem em escalas nacionais (se muito, continentais, como na Europa até o presente momento histórico), a maioria das soluções precisa ser dada em escala mundial. Como querer que a ordem jurídico-política possa, nessas condições de inquietante defasagem entre elas, limitar eficazmente a ordem tecnocientífica? É o que condena os Estados à impotência e os mercados, se não tomarmos extremos cuidado, à onipotência (in O capitalismo é moral? pág. 182)

Surge pois, e cada vez mais, a necessidade de ajuste das sociedades, um novo paradigma:

  1. A ética da sustentabilidade planetária;
  2. A elevação do ser humano à condição de universal, que contém e, ao mesmo tempo, transcende a concepção do ser humano, enquanto social pela nova ética;
  3. A compreensão de que só há sentindo de vida, quando se inclui, o ‘outro’ na visão de si mesmo, porque o sentido só é valido quando se apresenta para e pelos indivíduos. E voltamos à estética de servir à ética de amar.
  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

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