Filhos e drogas

Quando a verdade vem à tona. Ao ter qualquer indício de que um filho anda envolvido com drogas, duas reações podem ocorrer:

“É um consumo esporádico, eventual, nada para se preocupar”; ou: “Meu filho está perdido”.

Filhos e drogas

Anos-luz separam uma atitude da outra, além de uma série de fatos e mitos, conceitos e preconceitos a enfrentar. A pior decisão, porém, é a do deixar-estar-para-ver-como-é-que-fica: todo fato grave do qual nos escondemos se transforma num fantasma psicológico que nos atormenta, seja através de dúvidas e culpas cruéis, seja através de pesadelos ou ataques de angústia aparentemente sem explicação.

Seja qual for a reação, porém, sempre explodem as perguntas: “Que drogas ele anda consumindo? Quando? Onde? Como? Quem fornece? Onde arranja dinheiro? Quem mais sabe? QUEM MAIS SABE?”.

Cada um tenta interpretar a realidade como quer, e não como ela realmente é.

Aí está o ponto principal da questão. A honra posta em jogo, o bom nome da família, a credibilidade dos pais enquanto pais e até mesmo cidadão – como um homem pode ser responsável por toda uma empresa se nem consegue controlar os próprios filhos?! -: tudo vem à tona.

As mães questionam sua dedicação e zelo enquanto mães (“Onde você estava enquanto as crianças se desencaminhavam?”). Surge um sentimento de fracasso pessoal (“Onde eu errei?”) e é inevitável que se instale a desconfiança (“Se ele mentiu nisso, no que mais andou mentindo?”). Ninguém escapa de sentir um desejo de sumir e voltar para o passado, sem ter que enfrentar o problema, ou de ter alguém mais forte e mais sábio ao lado, para tomar decisões.

Ninguém escapa, também, da vontade de culpar o mundo ou de agredir o filho em crise (“Você não tinha o direito de fazer isso conosco!”).São todas vivências intensas, doídas. Parece que o céu desabou sobre nossas cabeças e nada mais será como antes.Para nos defender, num primeiro momento, fazemos de conta que o problema não existe.

Essa atitude pode ser parcialmente consciente, além de profundamente leviana, e costuma se resumir em frases como: “Isso é bobagem, eu também já fiz isso, todo jovem experimenta, se ninguém reprimir, logo passa a curiosidade”. Pode, também , ser inconsciente, negando a situação. Alguns pais encontram papeizinhos nas gavetas e pensam tratar-se de invólucros de balas, não sentem odores diferentes e acreditam que uma rinite alérgica é a responsável pelo ar de eterna gripe que o filho ostenta.

Objetos que somem de casa passam como furtos de empregadas, e ninguém se lembra de que pode ser o próprio filho o autor dos roubas, em busca de dinheiro para comprar as drogas de que precisa.

Nessa hora, ou o casal se une para enfrentar a situação ou a relação dos dois desanda de vez em acusações mútuas ou em jogos de força, competindo para ver quem é que fica mais desesperado ou deprimido com a situação. De fato, uma notícia dessas agride a moral e o psiquismo e provoca uma desarmonia interior que chega até ao stress.

Personalidades mais forte e flexíveis podem, em pouco tempo, depois de assimilada a descoberta, partir para a recuperação e começar a tentar a solução do problema. Passado o impacto inicial, há pais que já estão à procura de pessoas que possam ajudar, além de estarem abertos para conversar e conhecer melhor o filho, que precisa de cuidados.

Quem é mais fraco, ou flexível, como que estaciona diante da situação. Pai e mãe permanecem abalados, arrasados, identificados com os traços mais angustiantes do problema, insistindo em agravar a questão. Daí além de haver um jovem precisando de apoio e orientação, haverá também um par e uma mãe competindo, inconscientemente, por cuidados e atenção.

Qualquer um de nós pode se tornar um jogador e iniciar um jogo neurótico.

A essa altura estão alteradas todas as relações familiares – entre os pais entre pais e filhos e até entre irmãos, porque aquele ou aqueles que não consomem drogas podem acabar “ofuscados” pela pessoa-problema da casa. Mas, mesmo assim, muita gente prefere continuar fazendo de conta que o problema não existe. É hora então de acionar os jogos neuróticos de destrutivos, que se compõem de um série de acusações:

 A culpa é sua, que deu dinheiro de mais na mão dele!
 A culpa é sua, que não for ver de perto com quele ele estava andando!
 A culpa é sua, que só vice fora de casa e não conversa com os filhos!
 A culpa é sua, que mima demais!
 A culpa é dos nossos pais, que nos criaram inocentes, sem preparo para encarar certas verdades…

Esse jogo pode chamar-se “O tribunal” ou “De quem é a culpa?”: queremos um bode expiatório, mas ão queremos mudar nossas condutas. E pode entrar em cena um segundo jogo neurótico, o “Coitadinhos de nós”, em que os pais, em lugar de se ocuparem do filho que precisa de socorro, preocupam-se consigo mesmo:

 Como vamos enfrentar os vizinhos?
 E o que dirão nossos pais?
 Que exemplo para os irmãos!
 Sempre soube que um dia nossa família iria acabar assim…
 Não tenho cara para sair de casa.
 Nunca pensei que isso pudesse acontecer um dia…

Inúmeros jogos neuróticos pode ser acionados e jogados à perfeição e qualquer de nós pode acabar jogando, até sem perceber. Na verdade, a questão é que as pessoas implicadas, os “jogadores”, quase sempre mal percebem que estão jogando. Por isso é que se aconselha, em momentos como esse, a providência de trocar idéias com alguém “de fora”, alguém mais esclarecido e ponderado, que temporariamente possa funcionar como o bom senso da família.

É tempo de amar aqueles e aquilo que nos ofendeu.

Nós intuímos e temos medo, por isso fazemos de conta que o problema não existe. É preciso, de fato, tentar olhar a situação por todos os seus ângulos. “Por que o irmão mais novo não disse nada, se ele sabia de tudo? Será que ele não confia nos pais? Por que o vizinho proibiu o filho de andar com o nosso? Para defendê-lo ou para evitar que ele acabe sendo uma espécie de testemunha de acusação? Por que temos medo de polícia? Por que fomos ter filhos? Por que não sinto mais fé em Deus?”

Questões profundas, de vida e de morte, assomam à nossa consciência. A clareza de uma nova percepção nos joga de encontro a todo um mundo de sombras, submerso “Nossos filhos não são nossos, são do mundo!”, disse o sábio… e nós não acreditamos.

Conversando com jovens, falando com eles sobre os motivos que os levam às drogas, fica claro que eles não consideram seus pais os culpados por sua atual situação. Muitas de drogam porque não aguentam viver, não aguentam a hipocrisia ou simplesmente não aguentam competir no seu dia-a-dia com a própria vida, não aguentam perder, não aguentam vencer, sonham com um mundo melhor, mas não sabem como agir para ajudar nessa tarefa.

A maioria começa cedo demais a consumir drogas, quando ainda nem sabe direito quem é e o que quer da vida. Porém quase todos são capazes de afirmar: “Meus pais trabalham, comem e dormem – eles estão mortos e não sabem!”

A grande dor de descobrir que nosso filho não nos pertence, não é posse nossa, não é perfeita nem ideal, assim como o aturdimento de perceber que não temos sido o melhor exemplo em sua vida, acabam sendo experiências vitais. É difícil reconhecer que, embora pensássemos ter controle sobre tudo, na verdade de pouco ou nada sabíamos. Precisamos, então, de muita coragem, do melhor que temos em matéria de amor e compreensão.

Quando a gente se depara com a questão das dragas na nossa família e com tudo o que elas têm de devastador, devemos fazer, junto com nosso filho, um longo e doloroso exame de consciência, que pode resultar – e quase sempre resulta, quando bem-feito – em mais liberdade.

Tenha mais no amor cuidando

Você fica inibida quando seu marido chega perto e você não está tão cheirosa quanto gostaria? Como se sente quando ele se aproxima cheirando a cigarro ou bebida?

O cheiro pode se altamente excitante, mas também pode acabar com qualquer desejo de aproximação. Mas você não precisa deixar que este detalhe atrapalhe a sua vida sexual e o seu prazer.

Parece mesquinho e cruel falar disso, tão claro para casais que convivem há muito tempo e tão nebuloso, já que nunca é conversado e, portanto, não solucionado. Convive-se, bem ou mal, com tudo isso que arranha e sangra o amor-próprio e faz-se de conta que não acontece. Mas acontece, e ninguém é obrigado a tolerar em silêncio, por medo de magoar o outro e se envenenado de ressentimentos.

O fato é que se rompermos a barreira do silêncio talvez a coisa mude para melhor, desde que, ao abordarmos o assunto, a nossa intenção genuína seja a de ajudar o outro e a nós mesmos. E que essa intenção venha revestida de gentileza e firmeza, na certeza de estarmos batalhando por um relacionamento muito melhor. Quer ver o que frequentemente vai afastando casais e gerando desconforto nas relações? O sexo muitas vezes fica travado quando esbarra na área de higiene.

Mau hálito

Ninguém gosta de beijar o outro quando este tem mau hálito. Ou o problema está nos dentes, gengivas, ou é digestivo. Estados de depressão também o acentuam. Em vez de virar a cara, rejeitar, é melhor ser honesta: diga claramente por que o beijo está sendo evitado. Mas não fique apenas na recusa e na denúncia do mal. Tome a iniciativa de marcar a hora no dentista, acompanha-o na primeira vez e demonstre assim seu interesse pela solução do problema.

E assim deve ser feito com tudo o mais. Nada mais desagradável, por exemplo, d o que pés que cheiram mal. Com toda certeza eles acabam com qualquer momento erótico que você vá armando em sua vida. Ficar quieta, simplesmente fazendo cara de nojo, não vai adiantar nada. Ou melhor, vai complicar tudo, pois ele há de perceber sua má vontade e, sem saber a causa, acabará se aborrecendo também.

Cuidados simples

Um cheiro forte e desagradável sob as axilas espanta o rosto que se encosta no ombro amado, em busca de aconchego e proteção. O abraço não é dado, o carinho fica tolhido e lá se vai mais uma oportunidade. Melhor do que se furta ao abraço, ou abraçar com a respiração suspensa, o que tira toda a graça e a espontaneidade do gesto, peça a ele que se cuide.

Providências muito simples, como o uso de desodorantes adequados, banhos e trocas de roupas mais constantes, podem ter efeitos milagrosos. Não se recuse a dar conselhos; tome a iniciativa, vença a barreira do seu próprio constrangimento e vá em frente.

Não rejeite, não se submeta

O que se deve ter em mente é que como mães nós temos roda a liberdade de protestar e obrigar nossos filhos a se manterem limpos e cheirosos. Eles aprendem de forma bem clara e direta que, se desejam carinho, têm de se apresentar em condições. E até apelamos para a impressão que vão causar na namorada se aparecerem no encontro de unhas sujas, cabelos desgrenhados e cheios de gordura, sujos.

Mas e o marido, que já foi nosso namorado e certamente te ouviu broncas desse tipo de sua mãe, naqueles tempos que já vão tão longe? Se ele continua, ou voltou a ser desleixado, por que devemos ficar caladas? Disfarçamos, nos omitimos, mas não batalhamos pelo que julgamos ser certo e direito em relação ao que cobramos e exigimos dos filhos. Fazemos isso para não feri-lo, não magoá-lo, sem perceber que vamos feri-lo e magoá-lo muito mais com o nosso desinteresse sexual.

Estamos falando de problemas sérios, que requerem alguns cuidados médicos e muitos cuidados na higiene. Com tato e firmeza podemos muito bem mostrar que não estamos querendo ofender, mas declarar amor e defender nossa relação de um desgaste facilmente evitável. Não adianta apelar para os mais sofisticados manuais de orientação sexual se não pisarmos o primeiro degrau, cuidando da saúde e da higiene pessoais.

Confie nos jovens e fale tudo com eles

Um dos lamentos mais comuns que ouço de pais e mães é: “Não consigo falar de sexo com meus filhos”.

Eles se justificam: “Eu não aprendi com meus pais a falar disso”. Mas será que nos só fazemos o que nossos pais nos ensinaram?

Falar sobre sexo

Minha filha ainda era bem criança e eu já via aquelas meninas saidinhas, que nos seus 12 ou 13 anos já se pintavam todas, cigarro nos lábios, cerveja à frente, decotes provocantes, e entrava em pânico. Ao mesmo tempo em que me preocupava em educar bem a minha menina, ensiná-la a ser feminina, porém recatava, eu me questionava sobre a minha capacidade de fazê-lo. E não sabia bem o que deveria traduzir a ela por feminino e recatado.

Por certo, feminino não seria falar mole e fino como gato miando, nem apenas usar saias e babados. Também não queria dizer que é feio brigar, que mulher tem que ser boazinha ou que tem idade certa para começar a namorar. O que seria, então, ser feminina? Eu sabia definir o que é ser mãe, mas mulher… Sugeria uns brincos, uma roupinha confortável mas bordadinha, ensinava a dizer “por favor” e “muito obrigado” e ficava alucinada quando a via, agora nos seus 10 anos, peitinhos florescentes, continuando a sentar-se estabanada, agachar-se mostrando as calcinhas ou a brigar de tapa com um moleque.

Daí eu achava que ela tinha em quê de machona e entrava em pânico: melhor uma perdida ou homossexual? Eu pensava que lésbica era toda mulher masculinizada, vozeirona grossa, cara lavada e brava. E os pés da minha filha cresciam. Aos 11 anos ela calçava 38! Eu já a via, moçona, vestida para um baile, calçados sapatos de homem. Era um tormento interior, porque eu também não conseguia exprimir o tal do recado. Era dizer não para o segundo docinho que lhe fosse oferecido? Era não beijar em público? Eu achava tão lindo dois adolescentes se namorando, isolados do mundo. Na deles em plena Avenida Paulista…

Eu tive que guardar minha virgindade para o meu marido, porque senão estaria estragada. E quando eu chorei, arrependida, por não ter desobedecido e seguido os destinos do meu amor? Devo dizer que nessa época estava em terapia e tinha com quem discutir e me esclarecer. Os medos, que eram meus, sobre minha sexualidade reprimida, puderam ganhar imagens, movimentos, palavras. Com o tempo fui descobrindo o que é isso de ser mulher.

Naquele dia decidi conhecer minha filha

Tive uma boa prova quando, um dia, a mãe de uma coleguinha da minha filha me telefonou e, com mil cuidados, me falou: “Estão dizendo na escola que sua filha não é mais virgem. E que foi ela mesmo quem contou”. Parecia que o chão se abria sob meus pés! Era de manhã e eu passei o dia em transe, aguardando a menina voltar. Tive febre, calafrios, mas fiquei pronta para enfrentar tudo. Eu queria, sobretudo, ajudar. E consegui.

Ela entrou toda alegrinha, 12 anos, aquela carinha limpa, inocente, iluminada. Entrou fricoteira no meu quarto, me beijou, se tocou: “Uai, você em casa a essa hora?” (Eu trabalhava.) Tive em resto de dúvida: será que estou vendo coisas que não existem? Quem é essa menina, minha filha? Eu a conheço? Ela me conhece?

Foi a chave. Resolvi conhece-la. “Filha, estou com um problema e você pode me ajudar a resolver.” (Jamais jogaria na cara dela que ela era o problema, mesmo porque não era. O que eu menos queria era assustá-la, afastá-la de mim, perder sua confiança.) “Sabe… (hesitei) é que eu soube uma coisa que eu queria que você confirmasse, se é que você sabe… (a questão era ainda uma fofoca, não um fato) É verdade que seus colegas estão dizendo que você não é mais virgem? Você sabe alguma coisa sobre isso?”

Ela caiu numa solene gargalhada. “Ah, mãe, besteira, deixa isso pra lá…”

A verdadeira honra é ter palavra firme

Eu não entendi. “Como, besteira? Como é que se começou a falar?” – “Besteira, mãe! Outro dia, os meninos estavam se bacaneando, que conhecem mulher, que foram em casa de massagem… E daí eu falei que também conhecia homem. Não esquenta, eu falei por falar. Pensei que fosse uma coisa mais séria. Você estava com um cara…

Minha cabeça rodou. Então ela estava medindo forças? E, descuidada, não tinha a mínima ideia de que fora mexer em um vespeiro.

Dali a puco ela voltou para o meu quarto, furiosa: “E quem é a fofoqueira que te telefonou? O que é que ela tem com a minha vida?

Fez um esparramo. Mas aí eu pude explicar que ela havia se exposto demais, dado margem a falatórios, e que a pessoa queria é protege-la. Foi duro fazê-la entender. Ela insistiu que ninguém tinha nada a ver com isso. Mas fomos falando, um pouco num dia, mais um pouco no outro, até que ela me perguntou: “Mas por que é que os meninos podem falar e as meninas não?
Concordei com ela que é um sistema injusto. Mostrei-lhe as opções e dei-lhe até exemplos do que seria a verdadeira honra: ter palavra.

Ela entendeu muito bem. E eu me senti muito mulher. Um dos lamentos mais comuns que ouço de pais e mães é: “Não consigo falar de sexo com meus filhos”. Eles se justificam: “Eu não aprendi com meus pais a falar disso”. Mas será que nos só fazemos o que nossos pais nos ensinaram? Será que, na idade madura, já não estamos em condições de deixar isso para lá? Uma boa ideia é aprender junto com os adolescentes a quem devemos orientar. Se nos abrirmos, como desejamos que eles se abram, tudo vai ficar mais fácil.

Nos tempos corridos de hoje, é preciso aprender a cobrar dos amigos o afeto que lhes damos, para não ficarmos carentes.

Nesses nossos tempos modernos precisamos, e muito, de uma forte rede de relações de amizade. Quase tudo o que nos cerca nos conduz à solidão e à carência afetiva.

Amizade
Imagem: Pixabay (Amizade)

Aquela coisa gostosa de fazer o chá da tarde, bater papo por cima do muro ou debruçada na janela é mais típica do modo de vida de nossas avós, talvez mães. Hoje a mulher trabalha fora e suas amigas também. Ninguém consegue se ver com a frequência que gostaria. Tendo que nos dividir entre os cuidados com a casa e a família, além do trabalho, o que fica precário é nosso círculo de amizades.

Isso pode levar a um grande sentimento de solidão e insegurança, a um ponto perigoso de, numa emergência, não temos a quem recorrer. Numa gripe, numa hospitalização, são muitas as mulheres que se veem absurdamente sós, sem ter qualquer companhia, a não ser que… peçam!

Susana vai ser operada numa terça-feira de manhã. Uma semana antes, pega o telefone e vai ligando amiga por amiga, compondo uma agenda de quem poderá ficar com ela em que dia e a que horas. Todas têm mil compromissos. Mas Celina desiste, de boa vontade, de levar a filha à aula de inglês para fazer companhia à amiga na terça à tarde.

Corina ia fazer supermercado na quarta de manhã, mas deixa para outro dia. Naíde tinha uma consulta média, troca o horário. Leninha promete sair mais cedo do trabalho e ficar com Susana na sexta.

Essas mulheres, ocupadas, ativas, estão reaprendendo, com esse gesto, alguma coisa nova sobre a amizade. Por que, com raríssimas exceções, já não dá mais para largar tudo e sair correndo, disponível, para socorrer uma amiga em dificuldades.

Tem-se amigas, mas coisas passam, importantes, e não se fica sabendo, às vezes só se sabe depois. Além de tudo, porque uma não quer incomodar a outra enquanto puder resolver tudo sozinha. Todas trabalham, têm casa e filhos, dentista, ginástica, cartomante, psicoterapia. Mal têm tempo para cuidados pessoais (os cabelos são tingidos à noite ou aos domingos) e só vão a médicos que respeitem horários – de preferência que atendam durante o almoço ou após as 9 h da noite.

Na falta de empregada usam congelados, descobrem uma lavanderia fantástica (bem no caminho!), estão exaustas ao cair da tarde e vão levando. Mas, apesar de só conseguirem manter as amizades via telefone, trazem ainda na alma o desejo de ter toda a família almoçando junta durante a semana e a ilusão de que seus desejos serão adivinhados, suas necessidades satisfeitas. E como, então, se tornam carentes!

Dizem:

“Pedir, eu? Eu não peço. Se o meu marido (ou filho, ou amiga)se tocar e fizer espontaneamente, tudo bem. Mas pedir, não. Acho humilhante ter que pedir uma coisa óbvia, que deveria vir de graça. Pois quando eu percebo a necessidade de alguém não vou lá e ajudo, sem esperar que me peçam? Então, por que os outros não podem fazer isso por mim?”

E é ai que está montada um das maiores armadilhas para alguém se tornar uma pessoa carente, revoltada e solitária. Se a Gata Borralheira podia se dar ao luxo de chorar na calada de noite, e ser ouvida por uma Fada Madrinha, é bom saber que já não vivemos mais nesses tempos em que quem nos ama deve adivinhar e entender os nossos desejos, sem que movamos uma palha para isso.

Você pode estar pensando: “Mas será que tenho o direito de solicitar alguma coisa a alguém que não vejo há tanto tempo, em cuja festa de aniversário nem fui?”

Tem, sim. Uma verdadeira amiga é aquela que compreende isso. Que a gente falha com ela, ela falha com a gente, mas em ocasiões mais apertadas uma pode contar com a outra. Ser amiga, hoje em dia, não é estar disponível o tempo todo.

Amizade tem limites – se não tiver, é subserviência.

A boa amiga pode pedir e deve estar preparada para ouvir tanto um sim como um não. E também não deve pedir mais do que a outra está disposta a dar naquele momento. Pede-se o que se precisa, dá-se o que se tem, de boa vontade, sem sacrifícios.

Às vezes a boa amiga é a que diz “Não quero fazer tal coisa por você, não concordo com isso” e explica as razões, e não a que diz “Não posso”, inventa uma desculpa e sai por ai conduta da outra. E às vezes é hora de, em vez de dizer “Imagine, não é trabalho nenhum”, assumir claramente: “Sim, isso que você pede vai dar trabalho, mas faço com prazer porque gosto de você. E também por que espero que, se eu precisar um dia, você faça o mesmo por mim.”

Cobrar? Sim, cobrar também. Se numa amizade você começa a sentir-se explorada, sugada, abusada, em geral é porque… está sendo mesmo! Temos uma espécie de “fato”. Mesmo sem conseguir definir exatamente como, onde e quando os abusos acontecem, sabemos que eles acontecem.

Nossa tendência é achar que é implicância, falta de humanidade, e ceder em nome da amizade, desagradáveis (“Imagine se ela faria uma coisa dessas”, ou “Coitada, ela está em crise, desempregada, grávida, atormentada pelo marido” etc). Até que, depois de muitas concessões (presença, favores, dinheiro), se chega ao “E eu? Sempre que ela precisa eu digo sim, quando sou eu que peço ela nunca pode”.

Daí para uma ruptura é um passo. Assim terminam muitas amizades antigas, que eram mantidas pelo esforço de somente uma das partes. Aparentemente a de maiores recursos (alto-astral, posição, dinheiro, família, trabalho), porém no fundo a mais carente, a que morre de medo de, ao dizer um não, ficar só.

Essas pessoas geralmente viveram, na infância, profundas experiências de rejeição e abandono por parte dos pais. Ou então eram auto-suficientes e pouco reivindicativos, aquelas filhas que “não dão trabalho”, que “se criam sozinhas”…

É provável que esse senso de responsabilidade precocemente desenvolvido prive a criança e, mais tardem a adolescente, da experiência de se ver apoiada, protegida, levando a uma personalidade adulta em que o receber causa desconforto íntimo, como se fosse algo errado ou indevido. Receber fica associado a fragilidade e dependência, duas atitudes a serem evitadas, a não ser em casos de extrema necessidade.

Isso faz com que a pessoa vá acumulando carências, fique ressentida no dia-a-dia, apesar de desenvolver uma auto-imagem de quem-não-precisa-de-nada. É alguém que sabe ouvir um não com um sorriso nos lábios, mas que no fundo se sente muito ferida – não só frustrada, mas desqualificada. Afinal, se dificilmente pede alguma coisa (pois lhe é difícil receber), quando pede é porque precisa muito, e um não nessa situação é mesmo intolerável.

Então a questão é pedir e cobrar, sim. E esperar de volta tanto quanto se dá. Isso não quer dizer ser mesquinha e só viver na base do toma-lá-dá-cá, mas sim de manter o balanço dar/receber em equilíbrio dinâmico, bem distribuído. É comum ouvir alguém dizer: “Será que estou querendo muito? Só estou pedindo um mínimo de respeito e consideração!” Se é isso que essa pessoa pede, é isso que ela vai ter: um mínimo!

Nas questões humanas há que se pedir e cobrar um máximo de consideração e respeito, pagando na mesma moeda.

Cobrar a presença dos filhos em ocasiões importantes (mesmo que eles não gostem; afinal, quem é que só faz o que gosta na vida?), cobrar certas atenções do marido ou um favor especial de uma amiga significa zelar para que, continuamente, se tenham qualidade e satisfação nas relações – para todas as partes envolvidas.

Quem se dá conta das suas carências e não fica esperando que alguém compareça para resgatá-la da solidão, mas, pelo contrário, aprende a pedir e se dá a liberdade de receber, sem sentir-se humilhada por estar fazendo um pedido justo, está promovendo uma verdadeira revolução antiautoritarismo nas relações humanas.

A pessoa que é contemplada com um pedido da amiga sente-se valorizada e feliz por poder colaborar. Sente-se útil e necessária. Não é isso o que todos nós queremos? E se, frente a um pedido justo, recebemos um não, é porque esse não também é justo – ou, então, a pessoa não é nossa amiga. Daí, é hora de fazer novas amizades.