Me libertei

Afinal, foi para isso que eu me liberei?

Tem dias (e quem não tem?) que a gente pensa em todas as tarefas da casa, da família e do trabalho e tem vontade de jogar tudo para o alto.

Dá um desânimo, uma vontade de voltar correndo para o colo da nossa mãe. É nesses dias que nos perguntamos: afinal, foi para isso que eu me liberei?

Afinal, foi para isso que eu me liberei

Assim que acordo percebo que estou de mau humor. Porque eu não acordo, sou acordada. Vilmente arrancada do meu sono profundo por dois despertadores e um rádio - relógio que jamais conseguem sincronizar os trim-pin-pin-trim e a voz escandalosa do locutor: “Bom dia, minha gente!” Eu aceno de levinho com a cabeça, para conferir se ela hoje vai doer logo cedo ou se vai demorar um pouco mais. Meu corpo pede por se espreguiçar na cama, enquanto eu já vou fazendo exercícios vigorosos para espantar o sono e erguer a coluna. Afinal, é mais um dia de trabalho, e eu a-do-ro trabalhar.

Meu pessoal dorme. Parece que sou só eu a ser contemplada pela disposição de enfrentar o dia. Isso me irrita, porque, além de trabalhadora, faço as vezes de despertador da família e ninguém reconhece isso. Ao contrário, eu chego de mansinha e sussurro: “Filha, está na hora” ... E ouço de volta: “Pô, mãe, precisa gritar desse jeito?” Mas quem é que grito? Tenho vontade de deixar todo mundo perder a hora, mas desconfio que isso não será nenhum castigo, ao contrário. Com toda justificativa do mundo, eles poderão ir para o clube e eu vou achar que estou criando uns delinquentes.

Decido que vou comprar uma buzina e “fonfonar” na cabeça deles, amanhã mesmo. Todos os oito despertadores tocam agora, inclusive o da empregada, e a reação que vejo é a de resmungos, ouvidos tapados pelos travesseiros, como se eu estivesse sendo inconveniente.

Não encontro o cafezinho pronto à minha espera. Morro de raiva e de inveja da minha “secretária do lar”, mas engulo tudo (porque preciso dela) e, gentilmente, bato à sua porta e escuto: “Ai, dona, perdi a hora, né? Não posso levantar. Passei uma noite horrível preocupada com os meus filhos, umas cólicas, estou com a boca amarga...” Respondo: “Espera aí que eu trago uma aspirina e um café”. Meu coração bate acelerado e a minha dor de cabeça matinal se instala.

Volto para o meu quarto tensa, imaginando como seria a minha vida num flat, já bem acordada pelo meu corpo. A família já está de pé e meu marido ocupou o banheiro! Quinze minutos se passaram e só tenho mais quinze para sair de casa. Procuro pela “roupa adequada”. Tenho dezenas de peças e raramente acerto vestir aquela que me dará o conforto necessário. É quase como acertar na loto. As demais... vivo passando frio ou calor. Como é que se vai saber o tempo que vai fazer?

A viagem no automóvel

Os escritórios deveriam ter um vestiário para a gente se trocar, tomar banho, se aliviar... Ai, meu Deus, enquanto vou pegando as peças, combinando brincos e sapatos, a dor de barriga aumenta. O tempo passou e eu só posso agora: ou caprichar no visual, ou deixar a lista das tarefas do dia e os cheques preenchidos para os fornecedores, ou tomar meu café da manhã, ou me trancar no banheiro e desejar que a fechadura se quebre e eu não possa sair de lá por dois dias, recebendo revistas e comida pela janelinha!

Os filhos já estão no carro, meu marido me dá as “instruções verbais” para o dia e a empregada começa a se coçar, me pedindo a tarde de folga, sei lá pra que. Eu dou tudo! Desde que ela não vá embora nessa fase. Afinal, como mulher, tenho que respeitar suas preocupações maternais e suas cólicas menstruais. Sorte dela que pode descansar enquanto eu tenho que marcar ponto e sorrir, sorrir sempre, mesmo que queira rosnar. O café dela ninguém controla. O meu é cronometrado. Só dois por dia, que é tempo de contenção de despesas na firma.

Enquanto vou colocando meu lanche, minhas pinturas, minha malha e guarda-chuva, tudo numa bolsa muito pesada, ouço as reclamações: “Mãe, cê tá atrasada”. “Querida, você precisa chamar a atenção da empregada que a camisa amarela está sem botão”. “Dona, pede pras crianças não trazerem amigos hoje, que não vai dar pra arrumar a sala e fazer almoço...” “Mãe, eu já combinei com eles que a gente vai fazer trabalho em grupo...”

Bendita dor de cabeça que não me deixa ouvir mais nada! Eu só faço que sim, e partimos. Vou comendo meu sanduíche e fazemos a maquilagem no espelhinho do carro. Entre uma brecada e outra cuido dos olhos e do batom. Tenho uma sensação íntima de ser super mulher. Afinal, este é apenas um dia comum. Mas, que diabo! Por que é que cada um não cuida das suas coisas?

Sinto vontade de voltar para a casa da minha mãe. Só que estou indo para uma reunião com os chefes da empresa, apresentar uma proposta revolucionária que beneficiará a todos nós. Sinto muito medo. Essa eu não posso perder. Dela dependem várias famílias. No “tchau-tchau”, um desce do carro aqui, outro ali, vou me aproximando do escritório. Um beijo no rosto do meu marido, que me diz com olhar grave e sério: “Temos que ter mais tempo para nós dois. Esta noite eu te procurei e você... nada! Sempre cansada...” De novo deixo de escutar e só respondo: “É. Depois a gente se fala, tá?” Um depois que nunca acontece, porque, quando não sou eu, é ele quem desaba, no meio da novela. Fim de semana? Ou vamos para a praia e ninguém quer falar de coisas sérias, ou tem filhos, sogros e amigos no meio. Nunca dá para parar. E quem é que quer parar?

A aflição no escritório

Agora começa o meu dia de trabalho remunerado. Foi por isso que eu tanto lutei. Respiro fundo e me concentro no serviço, não sem antes reparar que minhas unhas estão descascadas. Puxo a gaveta e pego a acetona. Afinal, serão vários pares de olhos focalizados em mim e tenho que fazer jus à imagem de uma mulher de sucesso. Detalhes bem cuidados ajudam a gente a se impor.  Já que temos que “falar grosso”, não podemos ter “ar de lavadeira”. Vejo com carinho essa minha primeira gaveta da escrivaninha. Aí guardo minhas perfumarias, agulha e linha, bilhetinhos, remédios, lembranças e uma série de coisinhas inúteis que atestam a minha futilidade. Imagino o que pode ter na primeira gaveta do meu chefe. Sempre achei que seriam documentos importantes... ou dólares. Tenha a ideia de que os homens são sempre homens são sempre racionais. Afinal, dificilmente têm crises histéricas que acontecem entre as mulheres. Uma porque está grávida sem querer, outra porque a mãe está doente. Daí ter sempre alguém com os olhos vermelhos de choro e o nariz fungando, se queixando de dores... e atrapalhando o nosso trabalho. Tenho o maior ódio quando me flagro sendo “boazinha” e desculpando os erros dessas mulheres que trazem a sua vida doméstica, particular, para dentro do escritório. E o faço por também ser mulher e ter dificuldade em “mandar”.

Ser autoritária em casa é uma coisa. Isso eu tiro de letra. (Tiro de letra nada, tirava quando estava lá...) Mas no trabalho? Já me disseram que eu pareço um homem de saias. Poucas coisas me magoaram tanto. Quando um superior meu é compreensivo, eu penso: “Que beleza de homem, quanta humanidade!”. Eu mesma tenho dúvidas sobre quando estou sendo “entreguista”. Beleza de educação essa em que menino não chora e menina não pode brigar! Está tudo na minha cabeça hoje. Só que, a cada vez que me pego brigando, impondo, tenho medo de ser rejeitada: ou é porque estou “masculinizando”, ou é porque estou “naqueles dias” e não consigo me controlar. Que sufoco!

Raramente eu vejo um homem desabafando. E, quando o faz, é com muito pudor. Se nervosos no ambiente de trabalho, quando muito, ficam é mais autoritários, calados, distantes, esbravejantes. Nós, mulheres, não. Parece que vivemos num eterno galinheiro, com mil fofocas, ti-ti-tis. Não que isso não nos alivie também. É bom poder chorar em público. Além do que, é uma boa arma para se usar quando a gente não sabe o que fazer...

Ao cair da tarde

Apresentei meu trabalho e saí da reunião com ares de pombamor: peito estufado, exultante. Não sentia mais nem a dor nos pés apoiados precariamente num salto sete e meio. Lembrei do meu primeiro namorado, de quando estudávamos química e ele disse: “Puxa, você tem cabeça de homem!” Foi o máximo que ele conseguiu para me elogiar. Senti que havia algo de errado naquilo, mas deixei pra lá. Eu mesma achava que mulher muito inteligente e homem muito bonito eram desperdícios da natureza...

Percebi estar sendo cumprimentada, admirada, invejada. Senti orgulho e muito medo. Sempre medo! Como estaria minha aparência: despenteada, com a pele oleosa? Nos filmes, as executivas terminam essas reuniões com cara de quem está indo a uma festa. Eu tenho a péssima mania de passar a mão nos cabelos, borrar a maquilagem, tirar os brincos... Fico exatamente como o meu marido, que chega em casa desalinho, com a gravata no bolso, os punhos dobrados. Ah, meu Deus, falta um contra-regra na minha vida!

Me chamou atenção ter recebido tapinhas nas costas. Que coisa mais inócua! E se, ao invés disso, meu chefe tivesse alisado meus ombros?! Quero fugir dali e voltar para o aconchego do meu lar. Mas antes devo passar pelo supermercado, batalhar um táxi, telefonar para saber da minha mãe que foi ao cardiologista, comprar presente para a namorada do meu filho, cancelar de novo a visita de um casal de amigos, escrever uma carta. Meu Deus! E jantar? O pessoal já está entupido de pizzas e hamburguês. Hoje será uma sopa pronta e omelete. Dane-se... ninguém está desnutrido. Mas que dói, dói. Quando sentamos á mesa e eles debocham: “Mãe, esta casa está uma fartura. Farta tudo”. Eu me sinto a mais incompetente da donas-de-casa. Logo eu que me dizia: “Nem que eu ganhe só para pagar uma empregada, em casa eu não fico!”. Agora vejo que não é muito mais do que isso o que eu ganho, pois tudo me sai mais caro: desde os táxis (pois vivo atrasada), as compras de roupas (pois não tenho tempo de procurar), até os 20 a 30% a mais nas despesas da casa!

Na hora de dormir

Fico magoada ao me olhar no espelho. Eu vivia reclamando que meu marido se arrumava mais para estar com os outros que comigo. Em casa era barba crescida, chinelo, roupa amassada e um humor de cão. Resmungos alternados com silêncios de quem não tem energia para pensar, quanto mais para dialogar. Eu o recebia alegrinha: “Me conta como foi o seu dia”. E ele, nada. Eu achava que ele não queria saber de mim. Ledo engano. Imagina se ele estaria a fim de continuar remoendo as tensões do trabalho? Eu ficava esperando que ele tomasse qualquer iniciativa diferente de desabar na poltrona. Quando ressentimento inútil...

Agora eu faço a mesma coisa. E vejo com outros olhos, com mais carinho, esse homem guerreiro que até aprendeu a usar o meu salário sem se sentir humilhado. Vou pensando que continua a haver algo de errado comigo. E começo a saber o que é: preciso aprimorar meu balanço entre dar e receber, me fazer um eu no social.

Para que eu me liberei

Encarando meu rosto cansado, sem viço, sentindo-me feia e pouco atraente neste momento, começo a entender um pouco mais da vida e de mim mesma. Tenho noção do amor e de que casamento é compromisso profundo e prolongado, um contrato de mutualidade e respeito pelo que se é, pelo que o outro também pode ser. Que maternidade é tarefa de renúncia e exercícios de limites, em que todos crescem e aprendem continuamente.

Que não é possível querer mudar sem mexer em nada, fazer de conta que ainda se é a mesma, embora a situação seja outra. Que o trabalho não facilita tudo. Talvez até complique. Que trabalhando eu não fujo dos problemas, mas tenho oportunidades diferentes para resolver o mesmo problemão central: o quanto eu gostaria de ser ideal e não sou! E me liberar é ser quem eu sou!

Daí fica possível conciliar se mãe-esposa-dona-de-casa-trabalhadora: não como mulher ideal, mas como alguém que, corajosamente, amplia seu espaço de ação e participação! E eu, que também gosto de reclamar, afirmo já: “Quero poder me queixar de tudo, mas de tédio não”.

Afinal, foi para isso que me liberei!

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Magia no salão de beleza

Magia no salão de beleza

Eu fazia as unhas apenas para matar o tempo e acabei emocionada com a pureza do encontro da cabeleireira com uma menina de rua.

Magia no salão de beleza

"Era um daqueles salões de cabeleireiro em que a gente se arrepende de entrar. Todo grudento, mal cuidado, espelhos descascados, assentos furados e descosturados… E, por azar do destino, eu lá, meio que paralisada, sem entender porque continuo deixando a moça picotar minha cutícula mesmo morrendo de medo de contrair uma infecção. Pela boa educação? Calor excessivo? Talvez a solidão, numa cidade estranha, de passagem para pegar um avião dali a intermináveis cinco horas, sem nada para fazer, nem ninguém interessante para visitar.

Eu não havia reparado na moça, a não ser quando ela veio de volta da rua, segurando pelas mãos uma menina, de seus 7 anos. Ela tinha uma idade indefinível, entre 40 e 50 anos e um tipo vulgar. Avental branco manchado por tinturas, botões estourados na barriga, cabelos descoloridos. Faltava um dente, e os outros salvavam sobre seus lábios carnudos. Tinha pela parda e um vozeirão.

- Eu não disse que ia te trazer um sapatinho hoje?

A criança tímida assentiu.

- Fui buscar ela do outro lado da rua. Quase não achava. Vem cá, querida, vem lavar os pezinhos para experimentar.

Pegou a menina suja e franzina, sentada na borda do lavatório, e começou a limpá-la. Penteou seus cabelos. Pôs fitinhas. Lavou-lhes as mãozinhas, braços finos, pés e pernas. Tocava-a com tal cuidado e desvelo, falava-lhe tão suave e amorosa que pasmei. Enquanto cuidava da pequena, a morena foi se transformando, foi ficando bela, sublime, enorme de grande.

Enxugou os dedinhos um a um, passando a toalha e depois talco, finalizando com suaves beijinhos nos pezinhos, tão profundamente penetrantes que comecei a soluçar, perante tal encantamento. Meus olhos secos e arregalados não resistiram àquela bolha iluminada que emanava das duas.

- Beija aqui também. Agora esse outro dedinho, senão ele fica com ciúme. Pedia a menina, que arrulhava de satisfação. A pequena foi tomando ares de majestade, tornou-se uma verdadeira senhora, cheia de dignidade em sua presença infantil, soberba em sua confiança. Já ria alto, com pose de segurança. Sorria, como se sempre tivesse sido assim.

- Pronto, agora você pode experimentar. Eu trouxe dois, uma sandália e um tênis. Vê, qual você quer?

Sua hesitação devolveu-lhe o pequeno tamanho de sua pouca idade. Seu olhar tornou-se temeroso e furtivo.

- Ah! Você quer os dois, não quer? Então por que você não fala? Tome, leve o tênis com você e vai de sandália. Corre. Pode ficar com eles, ou então dá para um irmãozinho.

Os olhinhos da menina se arregalaram e brilharam de alegria e surpresa. Seu ar não era de gratidão, mas de novo, de realeza. A mulher invulgar fitou-a, serena. Deu um suspiro e recomeçou a eterna faxina no salão. A magia sossegou.

Chorei pra dentro copiosamente. Meu corpo todo tremia. Nunca mais vou esquecê-las. Minha maior vontade era encontrar essa menina hoje e perguntar-lhe: Ei, aquilo mudou alguma coisa na sua vida? Não sei se está viva ou morta, se continua na rua ou foi para a escola. Não sei onde ela está. Queira saber se o amor a salvou. E queria dizer àquela cabeleireira o quanto ela me ajudou.”

Depoimento de Ana Perwin Fraiman de São Paulo, SP. MAIO, 95, CLAUDIA.

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.
Feliz dia das Mães

Feliz dia das Mães

Já vencemos o tempo de discutir se o amor materno é inato ou aprendido.

Feliz dia das Mães

E, já penetramos o espaço-tempo de considerar que há mulheres que simplesmente dão à luz por puro instinto e outras que os trazem ao mundo para entregá-los à Luz que eleva suas consciências. Filhos do próprio ventre e filhos de puro amor.

Uma aloja em seu ventre um filho de outra mulher e crianças falam com naturalidade sobre suas muitas mães. Há filhos que dizem ter tido por mãe sua irmã mais velha ou sua avó e, quando o fazem, mesmo que 50 anos depois, seus olhos brilham de gratidão, porque se referem àquela que cumpriu fielmente com o que significa ser Mãe.

Alcançar o status de Mãe nos remete ao que essa palavra contém em si na sua origem: ser forte e paciente como a água, ter um fluxo permanente e renovador, buscar naturalmente outros caminhos nas grandes dificuldades, porém jamais desistir, seja o tamanho do obstáculo a superar.

Ser Mãe também significa aquecer o corpo e o coração daqueles que dela se aproximam.

Não sossegar, enquanto seus queridos não estão bem. É cuidar do próximo com doçura e com austeridade. Dizer sim e não com convicção, porque se investe de real autoridade, cujo propósito é a união.

Doces e preciosos momentos em que, apesar das grandes diferenças e divergências entre cada filho e cada neto, sentam-se todos ao redor de uma mesa, se não farta de boa comida, farta de amor e de fé. As Mães insistem em ter seus filhos reunidos, porque ela cumpre com uma função fundamental: é o traço de união, o agente organizador da unidade familiar. É a ‘cola’ que mantém todos em contato, mesmo quando as relações estão estremecidas.

Nem todas conseguem se sair bem ao longo do caminho.

Há mulheres más e negligentes. Há quem seja egoísta e se mostre ausente. Há mães que espancam e mães que matam. São pessoas infelizes e atormentadas. Nem todas conseguem unir a família, muito pelo contrário. Pode-se, no entanto, educá-las e tentar orientá-las ao que lhes compete realizar. A educação é primordial e traz resultados muito melhores do que a prisão.

Há, porém, uma espécie de mãe extremamente egoísta e possessiva, à qual não confiro um M maiúsculo, porque esse tipo de mulher age com pobreza de espírito, sem ética e, emocionalmente, assume atitudes pequenas. É aquela que toma posse de seus filhos e lhes nega um Pai. Essa mulher distorce os fatos, não permite que as crianças se aproximem dele, usa-as como moedas de troca, por meio de manobras que plantam na cabeça dos menores toda a sua própria raiva e negatividade.

Mulheres que agem assim ainda não cresceram e, portanto, não sabem exercer com critério sua autoridade, nem sua responsabilidade. Afetam, negativamente, a autoestima das crianças que, inocentes, se submetem ao rancor e à destrutividade de suas mães, que sentem prazer em atacar o Pai. Isso tem um nome na esfera da Lei: alienação parental.

Neste Dia das Mães eu gostaria de dizer palavras de amor, tão somente. De reconhecer em público o valor e o amor de minha própria Mãe. E aqui o faço. Quereria poder deixar de mencionar as injustiças e os ataques que muitas mães fazem contra seus filhos, mas não consigo. Não quero me limitar, na verdade.

Por isso peço, encarecidamente, a todas as mulheres que façam um exame de consciência: não falem mal do Pai deles para seus filhos. Não os tornem seus confidentes. Não os puxem para o seu lado por medo de perdê-los. Isso só vai ferir a vocês ainda mais, agora e mais tarde. E, também, não falem mal de um irmão para o outro, não os comparem, quando lhes convém.

Agindo assim, você não vai motivá-los a obedecer mais, a estudar mais, a se comportar melhor. Esse tipo de atitude é altamente destrutiva e leva, crianças, jovens, adolescentes, homens e mulheres feitos, a perderem a confiança no Amor. Comparar uma criança a outra, ainda que não seja essa a sua intenção, só tem por efeito humilhá-la. Dizem os sábios que humilhar uma pessoa adulta equivale a ferir de morte a sua alma.

Imaginem, então, como se sentem as crianças quando são humilhadas por suas próprias Mães e Pais, ao usarem de ironia e desdém para consigo, afirmando que a criança, tal como tem sido, não merecem seu apreço. Crianças que não são aceitas por aqueles de que tanto dependem, sentem-se ameaçadas de perderem sua segurança. Não confundam quem as crianças são com aquilo que elas fazem.

Deixe as desavenças, as decepções, a braveza de lado. Não faça manha, Mamãe. Cumprimente a sua própria Mãe, a sua sogra, as vovós. Seja um traço de União Familiar. E, viva seu Dia das Mães com amor e gratidão no seu coração: ao unir sua família e, unir-se a todos eles, também, você estará exercendo a sua função primordial!

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.